3.9.09

Final: Não dá pra esperar mais (Andy)

Eu precisava celebrar a minha nova casa. Na verdade, eu queria fortalecer as amizades para que não me sentisse sozinha e o Open House caiu como uma luva. Convidei minhas três melhores amigas da clínica. Quero dizer, 3 amigas e Felipe. Como poderia deixá-lo de fora, se cada sim para o convite era seguido do conselho “Não esqueça o Felipe!”.

Aquilo não estava nos meus planos, eu ia fazer uma coisa mulherzinha e, tê-lo no meio desse clube da Luluzinha, me dava crises de ansiedade. Mas, eu tinha fé de que Felipe captasse em seu radar masculino e me poupasse de pensar na roupa certa, na maquiagem certa e no cabelo adequado para recebê-lo. Eu sentia que, se fosse vê-lo, não poderia ser com a mesma roupa que sentaria no tapete da sala com as amigas, comendo pedacinhos de frango empanado frito com cerveja, sem vinho, queijos e velinhas perfumadas. Que fotografia de encontro romântico mais velha! Com Felipe, no mínimo, eu teria que pegar um copo duplo de leite quente com Nescau e umas bolachas. Quem sabe um pão na chapa, se o menininho preferisse. Ri mentalmente com todo sarcasmo. Eu era tão idiota em ter esses pensamentos impuros com ele.

Só não me dei conta de que eu nunca tivera que cuidar da cozinha em dias de festas. Era só contratar um Buffett, justamente pra o que eu não tinha dinheiro agora. Não devia ser difícil cozinhar uma massa com molho pronto. Não é assim que falam “servir uma massa” prática? Eu só descobri olhando para as folhas de receita que imprimi da internet molhadas em cima da pia que um cirurgião não aprende fazer um parto na hora da cesárea com um livro ao lado da mesa de instrumentos. Aquela arte deve exigir algum tempo de prática e vestibulares porque o macarrão grudou completamente formando uma massa de amido nojenta.

Senti desespero, estava suada, nem tinha escolhido uma roupa ainda e já eram sete horas. Foi quando o primeiro telefone tocou. Vânia me informou que seu filho estava gripado e iria levá-lo para fazer uns exames, a influenza A estava por aí para nos alarmar. Suspirei. Que pena que não viria, mas pelo menos não veria o vexame da minha comida. Ela era o tipo de pessoa que em uma etapa da carreira poderia perfeitamente se contentar em abrir um restaurante chique que seria um sucesso. Quando eu tentei lavar a massa no escorredor como se fosse um balde de roupa que precisa tirar o sabão, o celular vibrou. Agora, era Cláudia se desculpando por um coquetel surpresa da empresa do marido. Depois Paola que substitui às pressas uma amiga em um plantão. Larguei a escorredor na pia e desisti do macarrão. Atirei o telefone no sofá e puxei com raiva o avental pelo pescoço, que deixei em cima do armário. A cozinha ficava ao lado da sala como um anexo, separada por uma bancada de granito cinza.

Eu ligaria para pedir uma pizza pequena com guaraná e tentaria acompanhar a novela das oito pela primeira vez. É isso, está decidido. Comemoraria sozinha minha “grande nova vida”.

Começou a chover lá fora. Cai no sofá, entre as almofadas e me senti sonolenta. Era bom continuar na camiseta branca curta e no short jeans. Não teria que tomar banho logo, nem me arrumar. Poderia dormir... Mas, ainda havia o cara da pizza. Forcei abrir os olhos e procurei minha bolsa. Era bom separar o dinheiro e deixá-lo na mesinha ao lado da porta. Enquanto me precavia disso o celular tocou. Quem seria? Franzi a testa e, ao pegar o aparelho nas mãos, senti um frio na barriga. Felipe!

_Alô? _ equilibrei o celular entre o ombro e a bochecha, sacando as notas da carteira. Só faltava ele para dizer que não poderia vir, como era de se esperar.

_Oi, Andy. _ sua voz quente, doce, rouca, masculina e agradável tornou meu coração quase líquido. Desisti da carteira e segurei o celular com a mão, trocando o peso nos calcanhares e olhando as unhas dos pés. _ Ainda está de pé a festa?

_Hum... Hei. Como assim “ainda”? _ perguntei. Ele já sabia que não haveria?

_Liguei para a Cláudia agora e ela me disse que vocês tinham desistido...

_Elas não puderam, não, eu. _ consertei, um pouco mal humorada.

_Oh, tudo bem, então...

Ouvi o ronco do motor de uma moto que passava a toda velocidade na rua e, coincidentemente, escutei o mesmo barulho abafado vindo do fundo da ligação de Felipe.

_Onde está? _ perguntei. _ afastando a cortina.

_Bom... tentando saber se sou bem vindo, ainda... _ falou com uma voz risonha do outro lado do portão da rua.

Fechei a cortina rapidamente e meu coração pareceu pipoca de microndas explodindo em todas as direções no peito e melado de manteiga. Felipe estava ali fora e eu tinha nada para comer, uma roupa de dia de faxina e a sala um pouco bagunçada.

_Se não quiser que eu entre, tudo bem, é que eu estou na chuva... _ ouvi sua voz alta do celular na minha mão. Pisquei os olhos e procurei qualquer coisa para dizer.

_Oh, tudo bem, eu vou aí abrir para você. _ peguei a chave e coloquei na porta. Atravessei o pequeno jardim segurando um guarda-chuva azul marinho de flores. Ele abrigou-se de baixo logo que entrou. _Não estava esperando também pela chuva? _ comentei, esticando o corpo para fechar o portão, sem tentar sair do abrigo, o que fez nossos corpos quase se grudarem. Seu perfume e o corpo quente e molhado formavam um cheiro abatedor. _Vem, vamos para dentro... _ convidei.

Assim que chegamos na sala, sob a luz amarelada, vi seu cabelo úmido, caindo na testa, a blusa ensopada nos ombros e o rosto sorridente. Tentei apreender tudo aos poucos, aos pedacinhos. Sua boca muito vermelha, os dentes brancos, a sobrancelha perfeita, o rosto triangular e adorável.

_Andy? _ estalou os dedos. _ Tem um cara chamando lá fora. Está esperando mais alguém?

_Ãnh... _ balancei a cabeça para os lados. _ Deve ser o entregador de pizza.

_Eu pego para você. _ ofereceu-se e eu ainda em letargia, entreguei-lhe o dinheiro.

_ Hei, o guarda-chuva! _ lembrei-o, mas já estava no portão, pegando a caixa.

_Pelo cheiro, parece estar bom. _ colocou em cima da mesa. _ Você tem alguma blusa, que não seja de babadinhos, nem decote, principalmente, nem rosa, nem vermelha...

Ri alto com seu jeito de gesticular como se fosse um estilista. Sempre conseguia roubar boas gargalhadas de qualquer pessoa. Não era possível que eu um dia tivesse conhecido um rapaz tão triste, silencioso e infeliz. Felipe era luz, alegria, alto astral, ânimo.

_Vou tentar achar uma bem na moda pra você!

_Já sei, querida, alguma que comprou no último Top Fashion Bazar? _ imitou uma voz afetada e se jogou no sofá, cruzando as pernas dramaticamente.

Balancei a cabeça e sorri. Não estava me sentindo tão desesperada pela roupa sem graça que vestia, nem o cabelo preso. Pensei que ficaria mais tensa, mas, ele me transmitia serenidade.

_Que acha dessa, cabe? _ estendi a mão e ele se virou para mim. Estava ao lado da mesa, tinha colocado dois pratos e talheres.

_Podemos dividir a pizza?

_Lógico! Eu não ia comer uma gigante inteira mesmo. _ sorri e vi que tinha colocado nossos pratos um ao lado do outro.

_Eu trouxe, naquela sacola... _ sua voz ficou abafada quando segurou a barra da camisa verde que usava e suspendera para passar pelo pescoço. _ Alguns doces que minha mãe faz para casamento. Você vai gostar... Toda mulher adora provar doces, minha casa vive cheia de noivas... _ deixou a camisa em cima de uma cadeira e procurou a que eu tinha lhe dado. Era uma daquelas que se ganha em corridas pela causa do câncer de mama em tamanho GG que acabou no fundo do armário.

_Eu vou a-do-rar... _ disse, impressionada com seu corpo semi nu torneado e com uma cor incrível. Ele não era mais meu paciente e isso piorava tudo.

_O que acha? Já posso fazer comercial de TV? _ ajeitou o cabelo e pareceu focalizar uma câmera invisível atrás do meu ombro direito. “E você já fez o auto exame hoje?”

_Vamos comer! _ dei-lhe um tapinha no peito e o empurrei de leve, esqueci que o equilíbrio para ele era ainda frágil. _Desculpe. _ segurei-o com força, mesmo percebendo que não se abalara tanto com meu impulso. _Desculpe!

_Tudo bem. _ manteve sua mão segurando a minha forte contra seu coração e a outra apanhou perdida no ar. _ Eu não vou me esborrachar no chão. _ afagou minha bochecha.

_Será que é melhor eu tomar banho antes? _ perguntei, refletindo em voz alta.

_Vai confiar em deixar toda essa pizza sozinha na minha frente? Por favor, vamos comer, depois você toma... Eu não ligo de estar parecendo minha irmã quando acorda.

_Ah! _ gritei e dei-lhe um soco de leve em seu braço. _ Eu vou agora...

_Você está ótimo, essa é a sua casa, o intruso sou eu.

_Não é um intruso. Adorei ter vindo.

_Que alívio... Eu já não sabia o que fazer na chuva quando elas me disseram que...

_Elas te disseram quê?

_Que não podiam vir.

_Vocês não tramaram isso, tramaram? _ perguntei com os olhos semicerrados.

_Não! Lógico que não!

Peguei o celular e comecei a discar.

_O que está fazendo?_ perguntou preocupado.

_Nada, só checando... _ bati com o pé no chão e os braços cruzados. _Não precisa.

_Está confirmando?!

_A pizza está fria, Andy. _ segurou-me pelos ombros.

_Elas deixaram de vir a minha festa para que só você viesse?!

_Eu sabia que não ia querer que eu estivesse aqui... Eu sou um idiota... _ pegou a camisa.

_Hei, é verdade, não é?! Elas quiseram empurrar você para cima de mim.

_Não, Andy, elas não quiseram nada, eu é que...

_A idéia, então, foi sua?!

_Andy, eu vim para sua casa porque elas me falaram que trariam a família e eu não me sentiria isolado. Só que esqueci o endereço no bolso de outra calça, liguei e me informaram que não viriam. Se tramaram, o que realmente parece ser evidente, eu só fiz parte final do plano... Agora, desculpe se foi tão ruim assim...

_Felipe, espera, está chovendo... _ chamei-o, quando já estava na porta da sala. _ Felipe, eu disse vem aqui! _ briguei, puxando-o pela camisa para que não saísse dos limites da varanda escura. Seus olhos estavam faiscando. _ Eu não vou comer a pizza toda sozinha. Vamos entrar. Desculpe, eu não estou uma boa anfitriã hoje...

Batemos a porta.

_Eu preciso realmente de um banho. _entrei e dei-lhe as costas em direção ao banheiro.

Quando voltei, já com o cabelo molhado e um vestido, ele estava sentado no sofá, folheando um livro que pegara da prateleira.

_Depois, podia me emprestar... _ falou distraidamente enquanto levantava os olhos e sua boca parou entreaberta quando me viu. Passou pela minha cabeça todas as possibilidades: eu estar feia, estar bonita, estar exagerada, estar perfumada demais, estar ridícula... Mas, ele achou o termo certo. _ Você está linda.

_Ãnh-han. _ fiz uma careta de sarcasmo e fui para a mesa. _ Vamos ter que esquentar a pizza. _ abri a caixa e peguei dois pedaços para colocar em um prato. Levei-o até o microondas. Quando acabara de programar um minuto e meio, senti-o atrás de mim. Virei-me o mais naturalmente possível e pensei em puxar um assunto sobre o livro de anatomia que ele estava segurando agora pouco no colo, mas seu olhar bloqueou meu raciocínio. _ Hum... não vai demorar nada para a pizza... _ segurei com as duas mãos a borda da pia, como se estivesse fugindo de um ataque.

_Isso também não vai demorar nada. _ segurou meu rosto com as duas mãos e o afastou levemente para trás de modo que minha boca se entreabriu e seus lábios quentes possuíram os meus com vontade e fome. Meu sangue foi se tornando quente e violento, arrebentando as ondas de calor nas paredes de todo meu corpo. Meus braços amoleceram e caíram do ponto onde se sustentavam. Procuraram sozinhos o corpo de Felipe. Foi quando correspondi, me entregando ao beijo que também queria muito. Puxei mais a camisa, como se ele pudesse estar mais colado do que era possível.

O microondas começou a apitar ruidosamente.

_Eu disse que era rápido. _ ele afastou o rosto e sorriu. Levantou os olhos, procurou o botão atrás da minha cabeça e apertou para cancelar a programação. Depois, voltou a me encarar, esperando que fosse a minha vez de levantar os olhos do seu peito e olhasse com alguma reação sobre o que havia acontecido. Mas, eu estava em silêncio, mergulhada no nada. Não tinha nada pra falar, nem pra pedir, nem pra desejar, nem pra reclamar. Eu era um estado de plenitude. Estar ali, colada nele, respirando o mesmo ar parecia ser a única coisa boa, feliz e possível. _ Você quer comer agora? _ perguntou, pensando que eu já tinha me desligado do feitiço do beijo.

_Ãnh... vamos. _ coloquei o cabelo atrás da orelha, olhei o piso do chão e caminhei para a mesa, esquecendo do prato, mas ele cuidou disso, trazendo-o. Não consegui comer, parada apertando os garfos, eletrizada pelo choque das sensações. _Felipe...

Ele levantou os olhos da pizza que já estava terminando de devorar. Levou outro pedaço até o microondas. Ele parecia perfeitamente confortável na minha casa, lidando com a minha cozinha, me beijando, como se fosse assim desde sempre.

_Hum... _ respondeu e ouvi os bips eletrônicos de programação. Sentou-se novamente ao meu lado. _ Você agora está tentando explicar o que houve? _ perguntou, tranqüilo e resolvido com tudo. _ Posso te ajudar a ter mais... _ fez uma careta, fechando um olho e se inclinou para a frente. _... base para responder aos seus questionamentos. _ beijou-me outra vez, agora mais forte e apaixonado para deixar claro e marcado que era amor e desejo, carinho e possessão. Outra vez o bip do microondas. _ Argghh... _ ele grunhiu. _ Eu devia ter programado para virar uma torrada em potência baixa.

Ri e comecei a comer o meu pedaço enquanto já atacava o seu. Desisti de qualquer coisa que eu estava tentando falar. Levei o prato de volta para a pia e deixei os copos lá também. O que eu faria agora? Felipe trouxe a resposta, puxando minha mão para o centro da sala.

_Era hora de eu ir embora... _ falou baixinho com o rosto pertinho do meu, devia estar nos seus planos fazer um campo de força que me tirasse às resistências e raciocínio lógico. _ Mas, eu já fiquei muito tempo fora, te esperando. Procurei por você em tantos lugares quando sumiu da clínica. Fiz de tudo para me manter lá até que voltasse. E agora eu não aceito esperar mais nada, porque eu já vivi para ver que não vale a pena deixar de fazer as coisas que se quer. Se eu tenho arrependimento de estar de moto no dia do acidente? Não, não tenho. Só lamento por não ter a adrenalina mais de andar em alta velocidade, fazendo curvas perigosas. Mas, tem uma coisa que me dá a mesma sensação. _ beijou-me agora com uma vontade de quem pede tudo, o mundo inteiro.

_Felipe... _ falei entre seus lábios, mas ele já não queria saber de nada, havia explicado que não estava disposto a esperar. E por que eu precisava esperar? Já tinha também vivido para não querer deixar de fazer nada.

_Diz que não quer... _ intimidou, agarrando minha cintura e puxando meu vestido a procura de um outro tecido mais fino, quente e liso da minha pele.

_Eu... _ afastei o rosto, com as duas alças deslizando sobre meus ombros, arfando um pouco atordoada. Olhei seus olhos flamejantes e as minhas mãos paradas em seus braços fortes e torneados. _... Não quero que pare...

Sorriu e desceu com os lábios para vir agora arrebatador. Fechou os braços no seu pescoço e agarrei seus cabelos. Eu teria que agradecer muito as minhas amigas, porque a nossa festa dera muito certo e durara a noite inteira.

Quando abri os olhos essa manhã, abraçada a Felipe, já acordado e sorrindo, senti-me brilhante como o sol da janela.

_Acho que estamos atrasados para o trabalho. _ riu.

_Hum... _ apertei os olhos, não queria levantar.

_Mas, já liguei para lá.

_Você disse o quê?

_Conversei com Vânia. Ela entendeu... e vai atender seus pacientes. Ah, seu filho está bem também.

_Que bom. Mas, o que vão...

_Pensar? _ completou. _ Não importa. _ Acariciou o meu rosto. _ O que me importa agora é nada menos que a felicidade. Nada menos que você. _ beijou o meu pescoço. _Eu esperei muito para estar vivo assim outra vez, como essa noite com você.

_Eu também senti o mesmo. _ sorri e peguei sua mão e a beijei. _ Você me ensinou tantas coisas.

_Você também, lembra?

_Fiz um bom trabalho. _ ri e puxei-o mais para mim. _O resto fez sozinho.

Felipe era luz, vida, energia, potência, vigor, alegria e riso em minha vida. Superei minhas dores e ele estava lá quando chegou o momento de eu rever Priscila. Ela estava entre a fronteira da vida e a morte no dia do seu parto. Ele me segurou pela mão e me deu todo apoio necessário. Felizmente, ela ficara bem. Não nos falamos depois que a vi no coma. Apenas, foi um passo em direção ao longo caminho do perdão. Mas, eu já me sentia melhor e mais leve.

Quando o dia acabava, Felipe estava me esperando na porta da clínica, com a sua mochila de professor de educação física nas costas. Pegava pela mão e caminhávamos juntos, apaixonados e felizes na nossa nova vida doce como um beijo de chocolate.


FIM


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