25.8.09

Cap 75: Sua Aurea (Felipe)

Com as duas mãos no bolso, meu cotovelo roçou no braço de Andy, enquanto caminhávamos pela praça que ficava no centro de um pequeno parque cheio de árvores. Ela respirava o ar úmido e parecia querer sempre mais, movendo o peito em busca de mais oxigênio. Olhava os pés enquanto andava e depois mirava o céu, fechando os olhos por causa da luz. Pensei que fosse tagarelar como fazem todas as mulheres, mas estava quieta consigo. Eu não sabia se a conduzia para algum lugar ou era ela que me levava, caminhando lado a lado lentamente. Uma hora se pegou agarrando os cabelos que entrelaçou em uma trança frouxa pendendo sobre o ombro direito. Não havia com que amarrar, por isso, naturalmente se desfazia com o roçar dos movimentos. Parece que se cansou, sentou no banco abraçando-se em proteção, fixou um ponto na sua frente por uns quinze segundos e depois virou o rosto para mim.

Seus cílios longos deixavam a luz passar e reluzir em todos os micros espelhos de sua íris. Ainda não tinha rabiscado nenhum desenho daquele foco em grande angular. O nariz magro e fino apontava para lábios rosados e brilhantes. Era tão linda quanto uma daquelas deusas que me ensinaram a copiar das revistas em quadrinhos no curso inicial de desenho. Os traços sensuais e robustos também lhe conferiam um quê de guerreira. Era ambiguamente boa e má. Seu sorriso era a calefação do meu coração, mas também suas palavras pedindo para me afastar petrificavam-no dentro do peito. Será que não enxergava que a minha energia agora era estar perto dela?

_No início... _ ela sussurrou baixinho, com o queixo apoiado no ombro inclinado para mim, olhou o banco de cimento e depois levantou as pálpebras fixando suas pupilas brilhantes em cheio em mim. _ O seu silêncio me angustiava. Depois... _ sorriu, aflita por contar um segredo bobo. _... Eu me acostumei. Agora que você voltou a falar, eu ora esqueço, ora lembro e fico angustiada. _ riu. _ Diz qualquer coisa que esteja pensando.

_Eu queria desenhar seu olho. _ disse.

_Ãnh? _ riu alto e o som daquele riso soou como um canto alegre dos pássaros. _ Eu vou te achar um maníaco... Que fixação é essa com o meu rosto? Vou te proibir me desenhar enquanto me olha.

_Não precisa, está aqui. _ apontei para mim cabeça e ela seguiu o movimento do meu indicador, fechando o sorriso. _ Eu desenho para lembrar de onde a conheço.

_Acha que podemos nos conhecer antes do seu acidente? De onde?

_Talvez eu nunca lembre _ em qual vida nos cruzamos no passado?_ mas... eu não vou esquecer mais.

_Você cuidou da sua cabeça tão bem quanto da sua perna?! _ apoiou as duas mãos atrás do corpo, esticou as pernas e começou a girar o pescoço se alongando.

_Só esqueci de uma parte.

_Qual? _ fechou os olhos e ficou com o rosto virado para o sol franco e amarelado da tarde que caia.

Não respondi, apegado em prestar atenção nas fagulhas de luz atravessando os fios lisos e grossos do seu cabelo negro dando tons de chocolate como se pudesse queimá-los. Os seios levantaram-se tudo que puderam, enchendo-se como balões e depois recolhendo-se para dentro da cavidade do ângulo formado pelos seus dois ombros. Eu fora tímido nos últimos traços, não precisava ser tão modesto com seu colo, poderia delinear o volume que merecia. Era o mais perto que podia tocá-los.

_Te fiz uma pergunta... _ lembrou-me, virando o rosto em minha direção com o sol fazendo curvas douradas nas ondas do perfil da sua face como uma áurea. Como ainda podia me torturar com perguntas se eu só tinha olhos, ouvidos e corpo para admirar. _ Esquece... _ desistiu, sendo piedosa com minha fraqueza.

_Andy... _ chamei-a pelo nome levando a língua ao céu da boca e depois semicerrando os dentes para pronunciar, como se ela pudesse ser provada e depois o desejo por mais fizesse o animal feroz ranger os dentes afiados. Assim era toda voz que se dizia o seu apelido de duas sílabas.

_Hum... _ fechou e abriu as pálpebras mais lentamente ou seria só o modo como meu cérebro processava as imagens em slow motion para captar todos os frames com mais emoção? A inclinação da sua cabeça quase pendendo para trás, mas encostada sobre seu ombro me deixava as mãos no ponto de ampará-la. Se começasse o gesto a tomaria para mim e não tinha permissão para isso, que as enfiasse nos bolsos e apertasse o jeans com as unhas.

_Como você está? _ perguntei.

Ela deu uma gargalhada e eu me encolhi, o que tinha dito de errado? Entoara demais a voz grave? Precisa controlar a ronquidão, isso podia assustar as pessoas.

_Parece que está falando ao telefone! _ zombou.

_Desculpe, eu só queria saber...

_Olha! _ mostrou as palmas das mãos como um gesto para que eu ficasse calado. _ Vamos brincar disso? _ abriu as pernas e colocou cada uma de um lado do banco de cimento retangular, ficando de costas para mim. _Acha que consegue? _ perguntou e eu só queria saber o que aquele anjo pretendia fazer comigo.

Com ajuda das mãos ajustei meu corpo desengonçado na mesma posição oposta. Não gostava de perder a chance de olhar seu rosto, mas agora tinha como provar um toque que valia a mesma experiência. Nossas costas se tocaram e nossas nucas também. Cada um sentia a respiração do outro. Eu faria o que propusesse por aquilo.

_Podemos falar no telefone agora... _ sua voz saiu risonha, virada para a minha direita.

_Estou me sentindo uma criança. _ reclamei sem mau humor.

_Eu pensei que você fosse o palhaço. _ lembrou-me.

_Hum, então, como está? _ perguntei.

_Agora melhor. _ respondeu e deixei que tivesse o tempo que precisasse para prosseguir. _ Eu me sinto vazia, como uma casa em que se mudaram. Mas, eu também sinto que estou livre... E entra luz por todas as janelas... _ falou baixinho. Eu podia apostar que estava de olhos fechados. _Nem todos foram embora sozinhos, alguns eu tive que despejar...

_Fala da sua amiga?_ perguntei.

_... _ girou a nuca e nossas maçãs dos rostos quase se roçaram. _Esqueci que sua irmã foi trabalhar com ela. _ balançou a cabeça para os lados e continuou a olhar para frente. _ Te contou tudo?

_Contou.

_Por isso está aqui? Para me consolar? _ sua voz amargou-se.

_Não. Vim por outra pessoa.

_Se veio trazer o recado da Priscila... _ irritou-se e ficou de frente, fiz o mesmo, movendo meu corpo no próprio eixo para encará-la. _ Eu não quero nem saber...

_Não, também não. _ puxei minha perna para sentar novamente na posição inicial de frente. _ Talvez seja melhor falar isso outro dia.

_Do que quer falar? Acha que não estou preparada para falar? _ desafiou com o rosto bem perto do meu.

_Acalme-se, estou em missão de paz, Andy.

_Desculpe. _bufou, irritada com a perda do próprio autocontrole.

_Andy, eu preciso lhe dizer algumas coisas, mas queria que me ouvisse...

Ela sorriu e disse que era uma ironia eu lhe pedir isso. Quando iria se acostumar que eu falava? Será que me passava como uma pessoa tão calada, ao mesmo tempo que minha cabeça parecia travar dezenas de diálogos simultâneos comigo mesmo?

_O seu marido não está bem... _ disse devagar, medindo suas primeiras reações, ela se segurou firme apenas deixando o sorriso morrer. _ Ele veio pedir ajuda.

_Agora precisa? Espero que pague por todos os seus pecados... _ condenou-o, sem querer saber como eu tinha ciência disso. Eu acabava de lhe dar uma informação do outro lado e tudo que comentava era seu desejo por ele sofrer? Andy sempre me surpreendia.

_Não diga isso! Pode ser pior para todos.

_O que sabe sobre ser pior? Pior que isso?! Que a minha vida?! _ explodiu, sufocando-se com um soluço que não saiu da garganta. Parece que seu discurso sobre lidar bem com tudo não contivera toda a verdade.

_Você ainda está viva e pode mudar as coisas... _ falei baixinho com a voz mais doce e menos grave que encontrei para que se acalmasse. Ela entre abriu os lábios e respirou, pois o nariz vermelho já devia estar congestionado. _Mas, o seu marido tem a eternidade para aprender a lidar com o fato de que não consegue mudar o que lhe aconteceu. Está vagando por aí, angustiado, triste, impaciente, transtornado, pode estar agora aqui querendo falar com você...

_Foi ele que procurou isso!

_Você também o traiu! _ acusei-a.

_Ele a engravidou...

_Mas, você também quis outro homem. _ tentei não tornar as palavras mais duras, era difícil encarar-me como só um personagem daquela história.

_Eu não fui tão longe... _ balançou a cabeça para os lados em negação.

_Eu não estou te cobrando... _ toquei pela primeira vez o seu braço. _ Mas, ele está se cobrando e muito. Você e Priscila lembram-no com raiva e ressentimento. Chamam a todo tempo seu nome. Assim, ele não se convence que não pode atravessar a barreira que separam vocês e, com isso, fica por perto, entrando no campo das duas. Isso só te faz ficar mais fraca. Ele está sugando toda a sua energia sem que se dê conta!

_Como sabe de tudo isso? _ perguntou-me com medo.

Sorri-lhe em alívio por perceber que cedia aos poucos.

_Um dia falaremos disso... O que sei é que ele apareceu para uma pessoa que conheço pedindo ajuda. Eu sei que não quer mais nenhuma ligação depois do mal que lhe provocou. Então, não pense mais nele, não mova nenhum pensamento que o chame. Provavelmente, os anjos devem estar tentando colocá-lo para dormir a fim de não escutar-nos. Mas, há horas que ele acorda e nos ouve. Dessa maneira, não irá se curar nunca das feridas.

_Fala como se estivesse em um hospital vivo.

_Ele está vivo e em um hospital, mas não da maneira que é estar vivo aqui, nem como imagina um hospital. Mas, a associação é bem perto disso. Andy, você também precisa afastá-lo.

_Eu já estou fazendo isso. Me mudei do meu apartamento e levei somente as minhas coisas. Senti-me muito mais leve depois disso. Eu queria poder deitar em uma cama de um hospital como fala e dormir por muito tempo... _ suas lágrimas caíram e eu amparei seu rosto com as minhas duas mãos levantando-o para mim.

_Não diga isso... _ franzi a testa. _ Você ainda pode mudar o rumo da sua história! Não quero dizer que é melhor estar do lado de cá. Um dia vai morar em um lugar sem dor, sem fome, sem ansiedades, sem conflitos, iluminado e pacífico. Mas, só poderá desfrutar quando todos aqui mostrarem que podem lidar com a sua partida. Não será feliz ouvindo os gemidos dos que estavam ligados a você. É isso que o Marcelo está passando agora. Era Marcelo seu nome, não? O “M” que carregava no pescoço. Então, Andy, ainda está viva e pode ter um pouco da felicidade nesse mundo. Precisa selecioná-la no cesto de verdades falsas, de mentiras, ódio e raiva. As pessoas têm a felicidade, mas preferem escolher outros sentimentos.

_Se é tão sábio, por que parecia tão triste quando sobreviveu? _ pôs-me em provação.

_Porque eu não sabia como ficar aqui com metade de mim. Agora eu sei.

_O que sabe?

_Que vale, porque posso tocar... _ segurei seu rosto e com o indicador rocei a maçã rosada do seu rosto. _ ... e sentir... _ respirei o cheiro do seu cabelo, roçando-o com meu nariz. _ E eu ainda não estou preparado para me desapegar disso.

Andy reclinou a cabeça para baixo e tocou meu peito com as duas mãos, afastando-me delicadamente para que pudesse ficar de pé, anunciando sua partida.

_Obrigada... Obrigada... Já está escuro. Tem como ir embora? Quero dizer, como costuma voltar?

_De ônibus. _ respondi e me pus de pé, pegando a mochila.

_Posso te levar em casa, em agradecimento? _ encolheu os ombros.

_Não prec...

_Por favor, eu ainda não me desculpei por hoj...

Toquei com o polegar os seus lábios para que parasse de falar.

_Já se desculpou, não fique remoendo seus sentimentos. Deixe sua aurea limpa, fica tão mais bonita assim... _ olhei-a ao redor.

_Você fala coisas estranhas...

_Hum... Você ser bonita é estranho? _ri.

3 comentários:

Li disse...

Lindas, saudades, queridonas.

Cap q vem tá lindo. não percam.

bjs.

Anônimo disse...

Que delícia, li um capítulo hoje de manha e agora outro a tarde! Vo ficar mal acostumada!!!rsrs

È que leio dutante meu horário de trabalho (meu patrão é bonzinho, as vezes)rss

Cada capítulo mais lindo que o outro, visualiso as cenas como num filme e choro! Têm alguem mais chorona que eu aqui?

Beijuuusss

Juliana S.

disse...

muito lindo, mto legal!! adoro os homens dos teu livros que são fortes, protetores mas ao mesmo tempo com um sentimento tão bonito, tão emocionante! hehehe

E vc andou lendo livros do André Luis, né?! hehe

Bjos