24.8.09

Cap 74: Caminhando juntos (Felipe e Andy)

No começo meus pais me apoiaram sem questionamentos a iniciativa de fazer trabalho voluntário na clínica. Qualquer coisa que me tirasse de casa e me fizesse voltar com um sorriso era válido para eles. Mas, quando cheguei com a nova notícia, eles estranharam. Depois de tentar voltar ao meu emprego no jornal sem sucesso, pois a minha vaga já havia sido preenchida, eu decidi dar um rumo novo na minha vida. Aliás, a vida já se encarregara de mudar minha rota, eu apenas estava me acostumando com o novo trajeto.

Na clínica, aqueles que já estavam praticamente recuperados podiam freqüentar aulas de natação na grande piscina que havia lá. Uma vez superadas as deficiências dentro da água, era encaminhados a um clube próximo, onde havia equipes de pessoas como nós. Havia algumas crianças muito desmotivadas que tinham um processo mais lento de recuperação. Sugeri a coordenadora da clínica que a brincadeira do Médico da Alegria tivesse intervenção também na piscina. Assim, incentivaríamos as outras crianças a quererem participar. Ela achou ótima a idéia, porém, me advertiu que, se desse muito certo, precisaria que eu fosse mais qualificado para estar à frente das aulas. Foi por causa disso que tomei uma nova decisão:

_Eu vou começar a fazer faculdade de educação física. _ anunciei no jantar.

Senti que, quando trocaram os olhares, estavam telepaticamente se questionando se eu não sofreria ainda mais com a falta de uma mobilidade natural durante um curso que me exigiria certas habilidades físicas. Antecipei-me a garantir que gostaria de aprender para trabalhar nesse campo específico com foco nos portadores de necessidades especiais. Perceberam que eu falava a sério e não se intrometeram.

Minha irmã Tamires mais tarde sentou-se na minha cama e apoiou a cabeça na mão. Sabia que viera debater o assunto.

_Gostei da sua idéia. Mas, ela tem a ver com a sua fisioterapeuta? _ perguntou.

_Não sou mais seu paciente. _ respondi rabiscando um desenho no caderno, sentado na poltrona do canto do quarto.

_Hum... E por que a está desenhando?

Levantei os olhos do caderno.

_Foi só um chute, você tem essas fixações. Poderia fazer uma série para cada mostra de auto-retrato das suas namoradas.

_Vou pensar nisso. _ continuei rabiscando com o lápis.

_Gosta dela?

_Gosto. _ respondi sem entusiasmo, esfregando o dedo para esfumaçar um traço.

_Muito quanto?

_O que está pegando, Tamires? _ encarei-a.

_Há algumas coisas que, se gosta muito dela, vai precisar saber para ajudá-la.

_Do que está falando? _perguntei, curioso. Queria saber tudo que fosse possível para ficar mais perto de Andy.

_Você sabe até onde de tudo que aconteceu com ela? _ perguntou.

_Não falamos do assunto. Só o que foi noticiado. Imagino que deva ter mais pela sua cara...

_Tem. _ fez um rosto tão grave que eu larguei o caderno de lado e me inclinei para frente da poltrona, a fim de dar-lhe toda a atenção e não perder nenhum detalhe. _ Eu comecei a trabalhar com a melhor amiga da Priscila. Quero dizer, ex-melhor amiga.

_Sim, aquela advogada. Que tem?

_Ela tinha um relacionamento secreto com o marido da Andy. E... não foi só isso, está grávida.

_Andy sabe de tudo?

Minha irmã balançou a cabeça afirmativamente. Eu estava chocado, isso explicava o estado de animo sempre apático de Andy, ela parecia ter levado uma pancada forte na cabeça, se esquecia de nomes, horários, rotinas. Uma dispersão estranha a seu estilo sempre responsável.

_E não pára por aí. Agora vem a parte que envolve nós dois. _ apontou para mim e depois para o próprio peito. _ As duas estão fazendo uma verdadeira bagunça cósmica e eu estou servindo de mediadora. Não tenho mais paz.

Franzi a testa.

_O Marcelo, o falecido marido de Andy, não consegue descansar, as duas chamam por ele o tempo todo e não diminuem com isso seu sofrem. Já me pediu auxílio, mas eu não tenho como amparar os dois lados. Vou precisar de você.

_Claro. _ respondi, absorto, já tentando imaginar uma maneira de me aproximar de Andy para tocar nesse assunto. Rapidamente concluí que seria uma tarefa bastante difícil. Não havia esse grau de intimidade. Se bem que, ganhar intimidade era justamente meu propósito. _ Não sei quanto tempo vou precisar, mas tentarei.

_Obrigada. Eu acho que nós dois fomos atraídos para as polaridades opostas da situação como almas intercessoras.

_Entendo... _ pensei na cadeia de circunstâncias que entrelaçaram nossas histórias, começando pelo acidente que levara minhas pernas, mas me trouxera Andy. _ Eu sinto
que, quando estou com ela parece que já a conheço, como se tivesse sido um grande amigo, um irmão... não sei dizer.

_Às vezes, você não foi um dia uma pessoa boa para Andy em outra vida e é o momento de ajudar para evoluir. No fundo, ela deve ter um pressentimento inexplicável disso também.

(...)


Já havia saído do meu apartamento e alugado uma pequena casa no subúrbio com jardim e uma garagem. Era bem modesta, mas espaçosa e localizada em uma vila de casas iguais a ela, onde pessoas sentavam no portão no fim da tarde para verem as crianças brincar. O bairro era um pouco afastado do trabalho, mas era arborizado, simpático e bem cuidado. Eu estava começando a me sentir melhor, com uma sensação de vida nova. Hoje, no trabalho, estive mais atenta e empenhada. Tudo ia bem, só por um detalhe, eu começava a ficar irritado com meu antigo paciente Felipe, que virara o centro de tudo na Clínica. Todos gostavam da maneira cativante como brincava com as crianças vestido de palhaço. As mães o abraçavam, agradeciam e lhe enchiam de presentes. A coordenadora da equipe médica já o indicara para algumas entrevistas em jornais e revistas especializados no tratamento de deficientes.

Eu tinha que reconhecer que estava com muito ciúme do seu destaque. Ele era só um paciente que não andava e me devia a ajuda por alguns conselhos. Agora era livre e independente de mim. Pegara algumas das minhas advertências contra seu pessimismo e transformara em uma revolução de coragem e ânimo que pulverizava em todos que passava. Ainda era bastante calado, mas não precisava de muitas palavras, sabia se expressão com os gestos e caretas em uma sintonia perfeita com as crianças.

Acima de tudo ficara irritante, mas muito irritantemente bonito. A pele desbotada pelo abatimento dera lugar a um bronzeado brilhante e bonito. Os braços se tornaram fortes, cortou o cabelo, começou a se vestir melhor e ficou de pé. Tê-lo a minha altura, se movendo como eu, o tirava do posto de paciente para o de um colega de trabalho.

Quando passava por mim eu tinha vontade de olhá-lo. Começava a me punir por isso. Não iria ficar com mais ninguém quem dirá com um rapaz cinco anos mais novo. A cada vez que ele produzia em mim uma necessidade de estar próxima, mais eu me sentia uma fraca.

_Já viu o novo professor de natação? _ uma colega apontou para a piscina e me pegou pelo braço para ver.

_Uau, só pelas costas já aprovei. _ ri baixinho e chegamos próximas a borda da piscina onde um homem usando calça azul larga e uma camiseta branca colada escrita “Educação Física” apitava.

_Oi. _ ela o cumprimentou para chamar a atenção.

Engoli em seco.

_Vamos lá, Rodrigo. Levanta a cabeça para respirar! _ Felipe gritou e depois virou-se para nós duas. _ Oi. _ sorriu e senti minha colega apertar o meu braço que segurava.

_Shiii, meu paciente chegou ali, já vou. _ soltou-se de mim e me deixou sozinha.

_Não sabia que podia dar aulas de...

Felipe sorriu abertamente de uma maneira quase punível. Como podia ser tão bonito?!

_Eu não sabia que podia fazer muitas coisas e, por não saber, fui lá e fiz. _ riu. _ Não gostou? _ percebeu que eu tinha esquecido de rir.

_Que legal. _ levantei as sobrancelhas.

_Você não acha que deveria se desligar um pouco daqui e procurar voltar para a sua vida normal?

Felipe não respondeu e seu sorriso diminuiu. De repente, repassei mentalmente o que acabara de dizer e percebi o quanto tinha sido grosseira e mesquinha. Meu rosto começou a esquentar de vergonha e arrependimento.

_Mais duas voltas, campeão! _ Felipe animou com palmas o garoto que acabava de chegar a borda próxima aos nossos pés. Depois, voltou-se para mim. _ Por que você também não vai embora depois que ajuda algumas pessoas?

_É o meu trabalho.

_Agora também é o meu. _ respondeu friamente. _E, desculpe se não posso mais voltar para a minha vida normal. _ disse ironicamente e ferido.

Eu queria dizer um milhão de coisas para reverter a situação, mas nada ajudaria.

_Felipe, eu...

_Que moleza, pessoal, vamos, vamos! _ apitou longamente até irritar meus ouvidos propositalmente para me afastar.

Virei as costas e sai me sentindo péssima, um monstro. Esperei que ele acabasse sua aula para ter uma oportunidade de dizer o quanto eu não queria ter dito aquilo. Encontrei-o na lanchonete da clínica, debruçado sobre o balcão, conversando baixinho com a funcionária. Ela tinha um olhar de adoração e soltava suspiros. Revirei os olhos e pedi um pedaço de bolo da vitrine a fim de cortar o papinho dos dois. Senti o olhar de Felipe sobre mim, mas me mantive firme.

_Posso conversar com você? _ perguntei, enfiando o garfo com força na fatia.

Procurei a mesa mais distante e próxima a uma janela. Ele me seguiu mais atrás, ao puxar a cadeira, seu caderno velho cheio de orelhas caiu do seu braço e parou no meu pé. Inclinei-me para pegar e o vi aberto. Fui mais rápida e o puxei da mão de Felipe. Folheei. Havia vários desenhos do meu rosto em diferentes ângulos. Levantei os olhos com o coração embevecido. Ele estava arranhando o tampo da mesa absorto. Delicadamente tomou de volta e tirou o lápis enfiado no fino espiral. Sem qualquer explicação por ter me tomado como objeto de reprodução artística, voltou a rabiscar.

Mordi meu pedaço de bolo e tentei processar melhor meus sentimentos antes de falar. Sorri, eu parecia ter comido algum ingrediente de felicidade no bolo, sentia-me alegre.

_Minha irmã disse que eu devia montar uma exposição. _ ele riu, como que conversando consigo em voz alta, balançou a cabeça para os lados.

_Felipe, desculpe pelo que eu disse aquela hora. _ disse-lhe.

Ele encolheu os ombros e continuou rabiscando. Só havia entre nós o barulho metálico do garfo no prato e do seu lápis arranhando a folha de papel.

_Eu fui estúpida. Eu achei por um momento que seria melhor você se afastar daqui e retomar o que fazia antes...

_Eu estou bem. _ ele me cortou.

_É, eu sei. Está muito bem mesmo. E consegue transmitir isso para todo mundo. O trabalho que está fazendo é incrível. Não há uma só pessoa que não vem falar de você para mim.

_Menos você. _ olhou-me em cheio e senti o bolo parar na garganta, engoli com força.

_Ãnh?

_Sempre me evita, parece resistir.

_Eu? _ ri, atingida. Franzi a testa, balancei levemente a cabeça para os lados, olhando para baixo, remexendo na cobertura do bolo. _ Nada a ver...

Felipe colocou os braços sobre a mesa e se inclinou completamente para frente, trazendo para perto seu cheiro bom de desodorante e xampu.

_Então, eu quero cobrar a atenção que me renegou.

_Como?_ levantei a sobrancelha.

_Hoje, quando acabar de atender seus pacientes, vamos dar uma volta. _ sentenciou e se levantou para não dar tempo de eu processar o que acabara de dizer.

Senti medo e ansiedade pelo convite. Devorei com facilidade o resto do bolo e rapidamente passei na cabeça quantos pacientes faltavam. Voltei ao trabalho e, no final, já estava apressada para terminar. Vi-o apoiado em uma pilastra com um dos ombros, a mochila transpassada no peito e o cabelo molhado. Meu coração começou a acelerar como se me preparasse para uma maratona e meu corpo disparou adrenalina pelas veias como se eu fosse correr um grande risco.

Retirei o jaleco branco e me olhei no espelho do banheiro. Desabotoei o primeiro botão da blusa branca. Não! Envergonhei-me por isso. Abotei novamente. Puxei os grampos e soltei o coque. O cabelo caiu sobre os ombros com um formato ondulado. Passei um gloss rosa claro e olhei-me de costas. Pus a bolsa no ombro e abri a porta.

Felipe estava conversando com a mãe de um de seus mais novos alunos. Trocamos um olhar apenas, continuei andando em direção a porta de saída. Logo depois, senti seus passos atrás de mim, sorrir. Estávamos no jardim externo, frente a frente.

Seus olhos intensos me contemplavam. Será que depois me transformaria em mais um desenho da próxima folha do seu caderno? Lembrei do nosso beijo naquele dia em que eu estava completamente louca e isso subiu a temperatura do meu corpo. Afastei a lembrança para não enrubescer.

_Qual é a idéia agora? _ perguntei.

_Tem uma praça aqui cheia de árvores e bancos. Podemos... _encolheu os ombros. _Caminhar. Que ironia meu convite! _ riu alto.

_Que ótimo ouvir isso, vamos... _ sorri.

Um comentário:

Li disse...

Oi, queridas.

Sumidinhas!!!! rs

Parece que assim como Tamires ajudou Priscila, a missão de Felipe é ajudar Andy.

Os dois já estão mutuamente atraídos.

Vamos curtir a delícia desse romance mais um pouquinho no próximo capítulo.

Beijos!

Li Mendi.