19.8.09

Cap 72: Todo seu amor (Kali)

Caminhamos em direção ao rio de mãos dadas, sem pressa, respirando o ar úmido e fresco de terra. Rebeca estava radiante, tagarela, risonha. Parecia ter se escondido por muito tempo dentro da casca. Deitada em minha perna, já acomodados sobre a manta estendida no gramado, ela me confessou que, na verdade, evitava ser mais extrovertida comigo com receio de sem querer demonstrar que gostava de mim. Afinal, era minha chefe e havia todos os protocolos.

_Além disso... _ pensou se deveria explicar-se. _ ...Eu não achei que pudesse chamar sua atenção. Mas, confesso que não imaginava que estaria tão feliz como agora, aqui, tão perto de você. Posso sentir o seu coração, as suas mãos, o seu calor... _ sentou-se e acariciou o meu rosto em devoção. _ Não sei o que tem em você que me faz sentir emocionada.

_Ótimo, eu te faço chorar?! _ zombei.

_Não, me faz sentir com mais força tudo. Como seu eu visse os tons em rosa choque. Desculpe, devo realmente estar te assustando. Não quero que se sinta cobrado a corresponder. Eu sei que tem uma namorada no seu país e uma hora vai voltar para ela... _ abaixou a cabeça e perdi um pouco a sua voz, que se abafou. _ Eu senti muito quando partiu. Irritei-me facilmente com a secretária que me arrumaram e mandei que ela não tocasse em sua mesa. É ridículo, mas eu queria ver sua mesa todo dia como deixou para ter a impressão de que a qualquer momento entraria com o café na mão.

_Eu senti que devia voltar. Não sei explicar por quê. Eu estava bem no Brasil e, até tinha começado a gostar da moça a que se referiu, mas eu queria loucamente estar de volta para o espaço que conquistei.

_Eu não posso ter o prazer de saber que voltou por mim, mas estar aqui de novo já considero como um ganho muito grande. Aliás, um empréstimo, afinal, não será para sempre.

_Como não sou de ninguém, isso pode ter seu lado positivo.

_Mas e o seu coração? Ele pertence a alguém? _ quis saber.

_Não posso te responder. Várias pessoas podem pegar nosso coração e amá-lo. Mas, só iremos querer que uma o ame verdadeiramente.

_Está me dizendo que ama por alguém te amar? _ franziu a testa.

_Acho que é ambos os lados devem despertar o mesmo sentimento de gostar de ser amado. Pode parecer narcisismo, mas é preciso admirar quem nos ama.

_Você me admira? _ perguntou, inesperadamente.

_Por algumas coisas sim, por outras não. Você se portou incrivelmente doce esses dias, mas é capaz de ser amarga, fria e impiedosa. Essa face é a que mais conheço.

_Eu não queria ser assim. Mas, aos poucos descobri que fui crescendo com essa metodologia e não quis mudar para não perder o ritmo... Só que ao ver que isso não me fazia conquistar você eu ficava triste e ainda mais má... Nossa, eu sou um ser humano horrível. _ deixou-se cair de costas na manta, dramaticamente.

_Não é o que eu vejo. _ acariciei-lhe os cabelos. _ Mas, será difícil admirar uma pessoa todos os dias quando o resto do mundo não sente o mesmo. Acho que sabe o que quero dizer. Quantas vezes viu os funcionários da empresa virem a minha mesa, brincarem, me convidarem para as festas e finais de semana? Você não admirava a devoção que tinham a mim, um cara sempre palhaço, extrovertido e tranqüilo? Então, eu também vou acabar te vendo pelo olhar das pessoas.

_Kali. _ interrompeu-me com uma voz séria e solene. _ Eu sou capaz de mudar para ser isso que espera.

_Não precisa ser tão bruscamente, eu só falei... _ comecei a rir, seu amor potente me assustava bastante.

_Ok. Eu vou te mostrar. _ profetizou e buscou a cesta de comida. _ deitei sobre sua perna, como me pediu, depois de comermos. Ela fez carinho na minha cabeça, rosto e braços com muita ternura. _Você é o que quis por tanto tempo, eu te admiro muito, Kali. Todas as noites que fechei a porta do escritório, desejei em pensamento com toda força em te ver na manhã seguinte. Eu te atraí de volta. _ sorriu.

Quando voltamos para a cidade, eu temi que Rebeca continuasse a ser fria e calculista como se mostrava antes da viagem. Mas, ela realmente iniciou as mudanças que prometera. Começou a dar “bom dia” e a aprender o nome dos funcionários menos importantes na hierarquia da empresa. Reservou tempo para reuniões de motivação para equipes que atingiam resultados. Logo começou a ser realmente o assunto de todas as conversas. A conspiração do momento era quem tinha roubado seu coração, pois nada seria forte o suficiente para transformá-la. Mas, a maior prova de todas se deu na manhã que ela me viu conversar com meu irmão sobre o aniversário de Tamires.

Rebeca sentou-se em sua mesa e se manteve aparentemente calma como era de se esperar de uma mulher sensata e madura. Desliguei e ainda olhei o aparelho em minha mão por um tempo. Avisei-lhe que teria que tirar uns dias para ir ao Brasil. Ela perguntou burocraticamente se eu já tinha procurado o presente certo.

_Eu... _ não soube o que lhe responder. Não queria oferecer-lhe isso em troca, depois de tanto amor e trabalho para me conquistar.

Ela levantou e pegou uma caixa em cima do armário atrás da mesa.

_Ganhei de um fornecedor que queria alguns privilégios, não é muito ético, mas... são coisas da profissão. _ deu-me. _ É um bom computador. Ela é jovem, vai gostar. _ sorriu um sorriso que não era seu, parecia comprado em uma loja na sessão “como demonstrar que pode engolir a namorada dele”.

Rebeca também era jovem e bonita também, aliás, era poderosa. Ninguém, em seu lugar, se portaria desse modo respeitoso e sem cobranças. Senti-me pior por isso.

_Aproveita e chega em uma grande caixa com uma fita vermelha. Salta de dentro no meio da festa. Imagina o impacto! _ piscou para mim em uma fina ironia.

_Pare, não precisa fazer isso...

_Tudo bem. _ pegou uma pasta que estava na mesa e sua caneta dourada. _ O vôo fica por nossa conta. _ dirigiu-se para a saída e não pude segurar seu braço para impedir.

Esperei que voltasse tarde da noite para buscar sua bolsa. Não sairia sem me despedir.

_Rebeca, eu...

_Tudo bem, não precisa esforça-se para falar. Eu já te vi partir, Kali. E sempre soube que aconteceria de novo. Espero que você também encontre suas certezas... Eu preciso ir. Ah! Eu prefiro que saiba essa notícia por mim, primeiramente. Acho que não podemos ficar na mesma empresa. Sabe que estamos sobre um código de ética que não aceita isso... Eu posso conversar com o RH para transferi-lo de setor. Só que não é o que quero... Acho que tem potencial de uma coisa muito maior. Já fiz alguns telefonemas. As propostas vão chegar e só terá que escolher.

_Você moveu mundos e fundos para que me afastassem de você?

_Não, Kali. _ sorriu, triste por ver que ainda pensava mal dela. Suspirou. _ Eu fiz de tudo para que o mercado reconheça que é bom. Não posso prendê-lo aqui como meu amuleto da sorte, meu amo, meu escravo-amante. Você é mais que isso, é um homem que quer ser reconhecido. E, se eu gosto de você, tenho que ser a primeira a mostrar dessa maneira. Você é como um pássaro que pousou perto de mim, eu posso admirá-lo o quanto for possível, mas uma hora vai voar. _ sua voz embargou ali, respirou. _ Eu vou precisar tirar só a sua mesa da sala, não dá para conviver com ela.

Eu não tinha palavras, nem podia me aproximar. A sala de vidro tornava tudo público, exceto nosso diálogo.

_Eu preciso ir... _ falei baixinho.

_Eu sempre soube. _ sorriu e saiu.

A viagem para o Brasil fora pouco entusiasmante. Eu fiz tudo como deveria ser feito e o que se esperava de mim. Levei o computador comigo, pesava no meu colo mais que seu volume físico, pois representava a dor de Rebeca em me perder.

A festa surpresa estava tão agitada como deveria ser e eu tentei aparentar o mais animado possível. Mas, infelizmente, o disfarce estava me deixando incomodado naquele figurino. Tamires não me pareceu tão interessada quando propus que terminássemos a noite juntos. Disse ter gostado do vídeo que eu tentara fazer no “pacote surpresa” e agradeceu.

Sozinho no volante do carro, disquei o número de Rebeca e esperei chamar. Ela atendeu.

_Como está? _ perguntei.

_Alguém te contou?

_O que eu deveria saber?

_Minha avó não está bem. Levei-a para uma clínica. Está se recuperando lentamente. Não vou ao trabalho há dois dias. Ela é mais importante agora... Desculpe, como foi a festa de aniversário da sua namorada? _ perguntou, como por obrigação.

O que eu poderia lhe dizer? Que fora uma festa com muita música, comida, uma garota distante de mim e um grande vazio.

_Logo estou de volta. Já perdi minha mesa?

_Recebeu algum retorno dos lugares que te indiquei?_ preferiu mudar de assunto.

_Sim, nem sei qual escolher. _ri. _Mas, não é isso que importa agora. Eu... quero te ver.

_Deve ter um vôo a sua espera. _falou docemente.

_Vou correr para não me atrasar.

_Aceito chegar atrasado com meu café.

Desliguei sentindo-me melhor e com um sorriso nos lábios. Eu estava muito cansado quando desembarquei, mas só precisava pegar um táxi para chegar ao endereço do hospital. Encontrei-a no refeitório, tomando café. Sentei ao seu lado e a abracei com toda saudade. Falei em seu ouvido que estaria ali para apoiá-la. Beijei-lhe os lábios e segurei sua mão com força.

Sua avó se recuperara, mas outra pessoa ficara mal dessa vez. Um acidente no Brasil com Tamires novamente abalou as certezas de Rebeca, apenas alguns dias depois da minha volta.

Eu já estava desempregado quando recebi a notícia, por isso, tinha mais tempo livre para visitá-la. Embarquei novamente para o meu país. Sentia-me um pouco culpado por não ter dado a Tamires a atenção que merecia desde que a deixei.

Fiz indevidamente promessas, desesperado com a possibilidade de perdê-la com alguma morte repentina e ver aumentar minha culpa. Mas, eu estava errado, ela não queria de mim mais do que eu também sentia. Depois de uma última conversa, explicou-me que desejava estar sozinha. Suas palavras me libertavam finalmente para poder só enxergar claramente Rebeca em minha mente. Era difícil amar quando ainda se tem um parênteses não fechado no coração.

Mas, dessa segunda vez, será que a teria me esperando? Eu não merecia, depois de ter feito a opção de regressar para ver Tamires. Veio um frio na barriga e medo de não ver mais em seus olhos todo amor que me mostrara e eu ainda queria.

Quando toquei sua campainha de manhã, senti receio de encontrar os olhos frios e afugentadores da chefe que todos aprenderam temer. Eu não queria ter posto Rebeca novamente para dentro da caixa.

A empregada atendeu e pediu um instante. Depois, recebeu autorização para abrir. Subi pelo elevador do prédio até o vigésimo andar. Quando abriu, a mulher parecia visivelmente agitada, nem mesmo esperou que entrasse e correu para a cozinha dizendo exclamações em espanhol. Fechei a porta assustado e segui atrás.

Rebeca estava reclinada, se apoiando na beira da bancada de granito, em posição de quatro com a perna. No chão, havia sangue por toda parte em grandes poças e vidros espalhados. Seu pé descalço se esvaia em sangue como uma goteira, mas Rebeca pareceu esquecer-se disso quando nossos olhos se encontraram e se sustentaram por alguns segundos. Ela voltou a olhar o chão e pulou em um pé só para buscar o pano de prato em cima da pia, mas não o alcançou.

_Quer que eu chame o médico, senhora? _ a mulher estava realmente assustada com a quantidade de sangue, mas Rebeca pareceu não se estranhar com isso e disse que estava liberada por todo o dia. Sua voz não era fria, apenas distante e cansada.

A empregada pegou o casaco e saiu, ainda pouco convicta de que Rebeca ficaria bem.

_Não deveria estar cuidando de outra pessoa?_ perguntou-me com mágoa, esticando ainda o braço para alcançar o pano.

Caminhei com os sapatos por cima do vidro e ela se recolheu, intimidada pela proximidade. Facilmente a suspendi nos braços. Ainda estava de camisola de seda branca e tinha o cabelo úmido, caindo nos ombros. Estava com o rosto completamente fechado. Não se sentia feliz por me ver? Eu tinha voltado!

Tirei o vidro da sola do seu pé e fiz um curativo com algodão e esparadrapo que encontrara em uma caixa no banheiro por sua indicação. Quando terminei, ajoelhado em sua frente, levantei os olhos e encontrei os seus mais serenos.

_Você precisa de alguém que cuide de você... _ falei baixinho, com o rosto próximo ao seu.

_Eu não posso precisar... _seus olhos cintilaram, úmidos. _ Por que quando você vai embora, eu fico quebrada como esse copo e meu coração sangrando.

Eu sorri, a imagem era demasiadamente trágica para uma mulher tão pragmática, mas atingiu em cheio minha emoção pela sinceridade com que confessava.

_Nunca mais vou te ferir._ afastei seu cabelo do rosto com as duas mãos. _Eu quero que seu coração me ame. Eu... te amo, Rebeca.

_Mas... _ ela ousou argumentar, mas beijei-a matando suas palavras de dúvidas com meus lábios. _ Eu senti tanto a sua falta. _Abraçou-me. _Eu nunca mais vou renunciar você para ninguém._Segurou meu rosto. _Kali, ninguém te ama mais que eu.

_Então, eu quero todo seu amor. _coloquei seu braço ao redor do meu ombro e a tomei novamente nos braços até o quarto. Beijei-a, sendo completamente seu agora.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo!

...


Até o próximo capítulo!

Beijuuss

Juliana S.

sarah disse...

nosa o kali é safado né akela supresa toda nao passo de ideia da rebeca!!mas eu to gostando desse casal