25.8.09

Cap 75: Sua Aurea (Felipe)

Com as duas mãos no bolso, meu cotovelo roçou no braço de Andy, enquanto caminhávamos pela praça que ficava no centro de um pequeno parque cheio de árvores. Ela respirava o ar úmido e parecia querer sempre mais, movendo o peito em busca de mais oxigênio. Olhava os pés enquanto andava e depois mirava o céu, fechando os olhos por causa da luz. Pensei que fosse tagarelar como fazem todas as mulheres, mas estava quieta consigo. Eu não sabia se a conduzia para algum lugar ou era ela que me levava, caminhando lado a lado lentamente. Uma hora se pegou agarrando os cabelos que entrelaçou em uma trança frouxa pendendo sobre o ombro direito. Não havia com que amarrar, por isso, naturalmente se desfazia com o roçar dos movimentos. Parece que se cansou, sentou no banco abraçando-se em proteção, fixou um ponto na sua frente por uns quinze segundos e depois virou o rosto para mim.

Seus cílios longos deixavam a luz passar e reluzir em todos os micros espelhos de sua íris. Ainda não tinha rabiscado nenhum desenho daquele foco em grande angular. O nariz magro e fino apontava para lábios rosados e brilhantes. Era tão linda quanto uma daquelas deusas que me ensinaram a copiar das revistas em quadrinhos no curso inicial de desenho. Os traços sensuais e robustos também lhe conferiam um quê de guerreira. Era ambiguamente boa e má. Seu sorriso era a calefação do meu coração, mas também suas palavras pedindo para me afastar petrificavam-no dentro do peito. Será que não enxergava que a minha energia agora era estar perto dela?

_No início... _ ela sussurrou baixinho, com o queixo apoiado no ombro inclinado para mim, olhou o banco de cimento e depois levantou as pálpebras fixando suas pupilas brilhantes em cheio em mim. _ O seu silêncio me angustiava. Depois... _ sorriu, aflita por contar um segredo bobo. _... Eu me acostumei. Agora que você voltou a falar, eu ora esqueço, ora lembro e fico angustiada. _ riu. _ Diz qualquer coisa que esteja pensando.

_Eu queria desenhar seu olho. _ disse.

_Ãnh? _ riu alto e o som daquele riso soou como um canto alegre dos pássaros. _ Eu vou te achar um maníaco... Que fixação é essa com o meu rosto? Vou te proibir me desenhar enquanto me olha.

_Não precisa, está aqui. _ apontei para mim cabeça e ela seguiu o movimento do meu indicador, fechando o sorriso. _ Eu desenho para lembrar de onde a conheço.

_Acha que podemos nos conhecer antes do seu acidente? De onde?

_Talvez eu nunca lembre _ em qual vida nos cruzamos no passado?_ mas... eu não vou esquecer mais.

_Você cuidou da sua cabeça tão bem quanto da sua perna?! _ apoiou as duas mãos atrás do corpo, esticou as pernas e começou a girar o pescoço se alongando.

_Só esqueci de uma parte.

_Qual? _ fechou os olhos e ficou com o rosto virado para o sol franco e amarelado da tarde que caia.

Não respondi, apegado em prestar atenção nas fagulhas de luz atravessando os fios lisos e grossos do seu cabelo negro dando tons de chocolate como se pudesse queimá-los. Os seios levantaram-se tudo que puderam, enchendo-se como balões e depois recolhendo-se para dentro da cavidade do ângulo formado pelos seus dois ombros. Eu fora tímido nos últimos traços, não precisava ser tão modesto com seu colo, poderia delinear o volume que merecia. Era o mais perto que podia tocá-los.

_Te fiz uma pergunta... _ lembrou-me, virando o rosto em minha direção com o sol fazendo curvas douradas nas ondas do perfil da sua face como uma áurea. Como ainda podia me torturar com perguntas se eu só tinha olhos, ouvidos e corpo para admirar. _ Esquece... _ desistiu, sendo piedosa com minha fraqueza.

_Andy... _ chamei-a pelo nome levando a língua ao céu da boca e depois semicerrando os dentes para pronunciar, como se ela pudesse ser provada e depois o desejo por mais fizesse o animal feroz ranger os dentes afiados. Assim era toda voz que se dizia o seu apelido de duas sílabas.

_Hum... _ fechou e abriu as pálpebras mais lentamente ou seria só o modo como meu cérebro processava as imagens em slow motion para captar todos os frames com mais emoção? A inclinação da sua cabeça quase pendendo para trás, mas encostada sobre seu ombro me deixava as mãos no ponto de ampará-la. Se começasse o gesto a tomaria para mim e não tinha permissão para isso, que as enfiasse nos bolsos e apertasse o jeans com as unhas.

_Como você está? _ perguntei.

Ela deu uma gargalhada e eu me encolhi, o que tinha dito de errado? Entoara demais a voz grave? Precisa controlar a ronquidão, isso podia assustar as pessoas.

_Parece que está falando ao telefone! _ zombou.

_Desculpe, eu só queria saber...

_Olha! _ mostrou as palmas das mãos como um gesto para que eu ficasse calado. _ Vamos brincar disso? _ abriu as pernas e colocou cada uma de um lado do banco de cimento retangular, ficando de costas para mim. _Acha que consegue? _ perguntou e eu só queria saber o que aquele anjo pretendia fazer comigo.

Com ajuda das mãos ajustei meu corpo desengonçado na mesma posição oposta. Não gostava de perder a chance de olhar seu rosto, mas agora tinha como provar um toque que valia a mesma experiência. Nossas costas se tocaram e nossas nucas também. Cada um sentia a respiração do outro. Eu faria o que propusesse por aquilo.

_Podemos falar no telefone agora... _ sua voz saiu risonha, virada para a minha direita.

_Estou me sentindo uma criança. _ reclamei sem mau humor.

_Eu pensei que você fosse o palhaço. _ lembrou-me.

_Hum, então, como está? _ perguntei.

_Agora melhor. _ respondeu e deixei que tivesse o tempo que precisasse para prosseguir. _ Eu me sinto vazia, como uma casa em que se mudaram. Mas, eu também sinto que estou livre... E entra luz por todas as janelas... _ falou baixinho. Eu podia apostar que estava de olhos fechados. _Nem todos foram embora sozinhos, alguns eu tive que despejar...

_Fala da sua amiga?_ perguntei.

_... _ girou a nuca e nossas maçãs dos rostos quase se roçaram. _Esqueci que sua irmã foi trabalhar com ela. _ balançou a cabeça para os lados e continuou a olhar para frente. _ Te contou tudo?

_Contou.

_Por isso está aqui? Para me consolar? _ sua voz amargou-se.

_Não. Vim por outra pessoa.

_Se veio trazer o recado da Priscila... _ irritou-se e ficou de frente, fiz o mesmo, movendo meu corpo no próprio eixo para encará-la. _ Eu não quero nem saber...

_Não, também não. _ puxei minha perna para sentar novamente na posição inicial de frente. _ Talvez seja melhor falar isso outro dia.

_Do que quer falar? Acha que não estou preparada para falar? _ desafiou com o rosto bem perto do meu.

_Acalme-se, estou em missão de paz, Andy.

_Desculpe. _bufou, irritada com a perda do próprio autocontrole.

_Andy, eu preciso lhe dizer algumas coisas, mas queria que me ouvisse...

Ela sorriu e disse que era uma ironia eu lhe pedir isso. Quando iria se acostumar que eu falava? Será que me passava como uma pessoa tão calada, ao mesmo tempo que minha cabeça parecia travar dezenas de diálogos simultâneos comigo mesmo?

_O seu marido não está bem... _ disse devagar, medindo suas primeiras reações, ela se segurou firme apenas deixando o sorriso morrer. _ Ele veio pedir ajuda.

_Agora precisa? Espero que pague por todos os seus pecados... _ condenou-o, sem querer saber como eu tinha ciência disso. Eu acabava de lhe dar uma informação do outro lado e tudo que comentava era seu desejo por ele sofrer? Andy sempre me surpreendia.

_Não diga isso! Pode ser pior para todos.

_O que sabe sobre ser pior? Pior que isso?! Que a minha vida?! _ explodiu, sufocando-se com um soluço que não saiu da garganta. Parece que seu discurso sobre lidar bem com tudo não contivera toda a verdade.

_Você ainda está viva e pode mudar as coisas... _ falei baixinho com a voz mais doce e menos grave que encontrei para que se acalmasse. Ela entre abriu os lábios e respirou, pois o nariz vermelho já devia estar congestionado. _Mas, o seu marido tem a eternidade para aprender a lidar com o fato de que não consegue mudar o que lhe aconteceu. Está vagando por aí, angustiado, triste, impaciente, transtornado, pode estar agora aqui querendo falar com você...

_Foi ele que procurou isso!

_Você também o traiu! _ acusei-a.

_Ele a engravidou...

_Mas, você também quis outro homem. _ tentei não tornar as palavras mais duras, era difícil encarar-me como só um personagem daquela história.

_Eu não fui tão longe... _ balançou a cabeça para os lados em negação.

_Eu não estou te cobrando... _ toquei pela primeira vez o seu braço. _ Mas, ele está se cobrando e muito. Você e Priscila lembram-no com raiva e ressentimento. Chamam a todo tempo seu nome. Assim, ele não se convence que não pode atravessar a barreira que separam vocês e, com isso, fica por perto, entrando no campo das duas. Isso só te faz ficar mais fraca. Ele está sugando toda a sua energia sem que se dê conta!

_Como sabe de tudo isso? _ perguntou-me com medo.

Sorri-lhe em alívio por perceber que cedia aos poucos.

_Um dia falaremos disso... O que sei é que ele apareceu para uma pessoa que conheço pedindo ajuda. Eu sei que não quer mais nenhuma ligação depois do mal que lhe provocou. Então, não pense mais nele, não mova nenhum pensamento que o chame. Provavelmente, os anjos devem estar tentando colocá-lo para dormir a fim de não escutar-nos. Mas, há horas que ele acorda e nos ouve. Dessa maneira, não irá se curar nunca das feridas.

_Fala como se estivesse em um hospital vivo.

_Ele está vivo e em um hospital, mas não da maneira que é estar vivo aqui, nem como imagina um hospital. Mas, a associação é bem perto disso. Andy, você também precisa afastá-lo.

_Eu já estou fazendo isso. Me mudei do meu apartamento e levei somente as minhas coisas. Senti-me muito mais leve depois disso. Eu queria poder deitar em uma cama de um hospital como fala e dormir por muito tempo... _ suas lágrimas caíram e eu amparei seu rosto com as minhas duas mãos levantando-o para mim.

_Não diga isso... _ franzi a testa. _ Você ainda pode mudar o rumo da sua história! Não quero dizer que é melhor estar do lado de cá. Um dia vai morar em um lugar sem dor, sem fome, sem ansiedades, sem conflitos, iluminado e pacífico. Mas, só poderá desfrutar quando todos aqui mostrarem que podem lidar com a sua partida. Não será feliz ouvindo os gemidos dos que estavam ligados a você. É isso que o Marcelo está passando agora. Era Marcelo seu nome, não? O “M” que carregava no pescoço. Então, Andy, ainda está viva e pode ter um pouco da felicidade nesse mundo. Precisa selecioná-la no cesto de verdades falsas, de mentiras, ódio e raiva. As pessoas têm a felicidade, mas preferem escolher outros sentimentos.

_Se é tão sábio, por que parecia tão triste quando sobreviveu? _ pôs-me em provação.

_Porque eu não sabia como ficar aqui com metade de mim. Agora eu sei.

_O que sabe?

_Que vale, porque posso tocar... _ segurei seu rosto e com o indicador rocei a maçã rosada do seu rosto. _ ... e sentir... _ respirei o cheiro do seu cabelo, roçando-o com meu nariz. _ E eu ainda não estou preparado para me desapegar disso.

Andy reclinou a cabeça para baixo e tocou meu peito com as duas mãos, afastando-me delicadamente para que pudesse ficar de pé, anunciando sua partida.

_Obrigada... Obrigada... Já está escuro. Tem como ir embora? Quero dizer, como costuma voltar?

_De ônibus. _ respondi e me pus de pé, pegando a mochila.

_Posso te levar em casa, em agradecimento? _ encolheu os ombros.

_Não prec...

_Por favor, eu ainda não me desculpei por hoj...

Toquei com o polegar os seus lábios para que parasse de falar.

_Já se desculpou, não fique remoendo seus sentimentos. Deixe sua aurea limpa, fica tão mais bonita assim... _ olhei-a ao redor.

_Você fala coisas estranhas...

_Hum... Você ser bonita é estranho? _ri.

24.8.09

Cap 74: Caminhando juntos (Felipe e Andy)

No começo meus pais me apoiaram sem questionamentos a iniciativa de fazer trabalho voluntário na clínica. Qualquer coisa que me tirasse de casa e me fizesse voltar com um sorriso era válido para eles. Mas, quando cheguei com a nova notícia, eles estranharam. Depois de tentar voltar ao meu emprego no jornal sem sucesso, pois a minha vaga já havia sido preenchida, eu decidi dar um rumo novo na minha vida. Aliás, a vida já se encarregara de mudar minha rota, eu apenas estava me acostumando com o novo trajeto.

Na clínica, aqueles que já estavam praticamente recuperados podiam freqüentar aulas de natação na grande piscina que havia lá. Uma vez superadas as deficiências dentro da água, era encaminhados a um clube próximo, onde havia equipes de pessoas como nós. Havia algumas crianças muito desmotivadas que tinham um processo mais lento de recuperação. Sugeri a coordenadora da clínica que a brincadeira do Médico da Alegria tivesse intervenção também na piscina. Assim, incentivaríamos as outras crianças a quererem participar. Ela achou ótima a idéia, porém, me advertiu que, se desse muito certo, precisaria que eu fosse mais qualificado para estar à frente das aulas. Foi por causa disso que tomei uma nova decisão:

_Eu vou começar a fazer faculdade de educação física. _ anunciei no jantar.

Senti que, quando trocaram os olhares, estavam telepaticamente se questionando se eu não sofreria ainda mais com a falta de uma mobilidade natural durante um curso que me exigiria certas habilidades físicas. Antecipei-me a garantir que gostaria de aprender para trabalhar nesse campo específico com foco nos portadores de necessidades especiais. Perceberam que eu falava a sério e não se intrometeram.

Minha irmã Tamires mais tarde sentou-se na minha cama e apoiou a cabeça na mão. Sabia que viera debater o assunto.

_Gostei da sua idéia. Mas, ela tem a ver com a sua fisioterapeuta? _ perguntou.

_Não sou mais seu paciente. _ respondi rabiscando um desenho no caderno, sentado na poltrona do canto do quarto.

_Hum... E por que a está desenhando?

Levantei os olhos do caderno.

_Foi só um chute, você tem essas fixações. Poderia fazer uma série para cada mostra de auto-retrato das suas namoradas.

_Vou pensar nisso. _ continuei rabiscando com o lápis.

_Gosta dela?

_Gosto. _ respondi sem entusiasmo, esfregando o dedo para esfumaçar um traço.

_Muito quanto?

_O que está pegando, Tamires? _ encarei-a.

_Há algumas coisas que, se gosta muito dela, vai precisar saber para ajudá-la.

_Do que está falando? _perguntei, curioso. Queria saber tudo que fosse possível para ficar mais perto de Andy.

_Você sabe até onde de tudo que aconteceu com ela? _ perguntou.

_Não falamos do assunto. Só o que foi noticiado. Imagino que deva ter mais pela sua cara...

_Tem. _ fez um rosto tão grave que eu larguei o caderno de lado e me inclinei para frente da poltrona, a fim de dar-lhe toda a atenção e não perder nenhum detalhe. _ Eu comecei a trabalhar com a melhor amiga da Priscila. Quero dizer, ex-melhor amiga.

_Sim, aquela advogada. Que tem?

_Ela tinha um relacionamento secreto com o marido da Andy. E... não foi só isso, está grávida.

_Andy sabe de tudo?

Minha irmã balançou a cabeça afirmativamente. Eu estava chocado, isso explicava o estado de animo sempre apático de Andy, ela parecia ter levado uma pancada forte na cabeça, se esquecia de nomes, horários, rotinas. Uma dispersão estranha a seu estilo sempre responsável.

_E não pára por aí. Agora vem a parte que envolve nós dois. _ apontou para mim e depois para o próprio peito. _ As duas estão fazendo uma verdadeira bagunça cósmica e eu estou servindo de mediadora. Não tenho mais paz.

Franzi a testa.

_O Marcelo, o falecido marido de Andy, não consegue descansar, as duas chamam por ele o tempo todo e não diminuem com isso seu sofrem. Já me pediu auxílio, mas eu não tenho como amparar os dois lados. Vou precisar de você.

_Claro. _ respondi, absorto, já tentando imaginar uma maneira de me aproximar de Andy para tocar nesse assunto. Rapidamente concluí que seria uma tarefa bastante difícil. Não havia esse grau de intimidade. Se bem que, ganhar intimidade era justamente meu propósito. _ Não sei quanto tempo vou precisar, mas tentarei.

_Obrigada. Eu acho que nós dois fomos atraídos para as polaridades opostas da situação como almas intercessoras.

_Entendo... _ pensei na cadeia de circunstâncias que entrelaçaram nossas histórias, começando pelo acidente que levara minhas pernas, mas me trouxera Andy. _ Eu sinto
que, quando estou com ela parece que já a conheço, como se tivesse sido um grande amigo, um irmão... não sei dizer.

_Às vezes, você não foi um dia uma pessoa boa para Andy em outra vida e é o momento de ajudar para evoluir. No fundo, ela deve ter um pressentimento inexplicável disso também.

(...)


Já havia saído do meu apartamento e alugado uma pequena casa no subúrbio com jardim e uma garagem. Era bem modesta, mas espaçosa e localizada em uma vila de casas iguais a ela, onde pessoas sentavam no portão no fim da tarde para verem as crianças brincar. O bairro era um pouco afastado do trabalho, mas era arborizado, simpático e bem cuidado. Eu estava começando a me sentir melhor, com uma sensação de vida nova. Hoje, no trabalho, estive mais atenta e empenhada. Tudo ia bem, só por um detalhe, eu começava a ficar irritado com meu antigo paciente Felipe, que virara o centro de tudo na Clínica. Todos gostavam da maneira cativante como brincava com as crianças vestido de palhaço. As mães o abraçavam, agradeciam e lhe enchiam de presentes. A coordenadora da equipe médica já o indicara para algumas entrevistas em jornais e revistas especializados no tratamento de deficientes.

Eu tinha que reconhecer que estava com muito ciúme do seu destaque. Ele era só um paciente que não andava e me devia a ajuda por alguns conselhos. Agora era livre e independente de mim. Pegara algumas das minhas advertências contra seu pessimismo e transformara em uma revolução de coragem e ânimo que pulverizava em todos que passava. Ainda era bastante calado, mas não precisava de muitas palavras, sabia se expressão com os gestos e caretas em uma sintonia perfeita com as crianças.

Acima de tudo ficara irritante, mas muito irritantemente bonito. A pele desbotada pelo abatimento dera lugar a um bronzeado brilhante e bonito. Os braços se tornaram fortes, cortou o cabelo, começou a se vestir melhor e ficou de pé. Tê-lo a minha altura, se movendo como eu, o tirava do posto de paciente para o de um colega de trabalho.

Quando passava por mim eu tinha vontade de olhá-lo. Começava a me punir por isso. Não iria ficar com mais ninguém quem dirá com um rapaz cinco anos mais novo. A cada vez que ele produzia em mim uma necessidade de estar próxima, mais eu me sentia uma fraca.

_Já viu o novo professor de natação? _ uma colega apontou para a piscina e me pegou pelo braço para ver.

_Uau, só pelas costas já aprovei. _ ri baixinho e chegamos próximas a borda da piscina onde um homem usando calça azul larga e uma camiseta branca colada escrita “Educação Física” apitava.

_Oi. _ ela o cumprimentou para chamar a atenção.

Engoli em seco.

_Vamos lá, Rodrigo. Levanta a cabeça para respirar! _ Felipe gritou e depois virou-se para nós duas. _ Oi. _ sorriu e senti minha colega apertar o meu braço que segurava.

_Shiii, meu paciente chegou ali, já vou. _ soltou-se de mim e me deixou sozinha.

_Não sabia que podia dar aulas de...

Felipe sorriu abertamente de uma maneira quase punível. Como podia ser tão bonito?!

_Eu não sabia que podia fazer muitas coisas e, por não saber, fui lá e fiz. _ riu. _ Não gostou? _ percebeu que eu tinha esquecido de rir.

_Que legal. _ levantei as sobrancelhas.

_Você não acha que deveria se desligar um pouco daqui e procurar voltar para a sua vida normal?

Felipe não respondeu e seu sorriso diminuiu. De repente, repassei mentalmente o que acabara de dizer e percebi o quanto tinha sido grosseira e mesquinha. Meu rosto começou a esquentar de vergonha e arrependimento.

_Mais duas voltas, campeão! _ Felipe animou com palmas o garoto que acabava de chegar a borda próxima aos nossos pés. Depois, voltou-se para mim. _ Por que você também não vai embora depois que ajuda algumas pessoas?

_É o meu trabalho.

_Agora também é o meu. _ respondeu friamente. _E, desculpe se não posso mais voltar para a minha vida normal. _ disse ironicamente e ferido.

Eu queria dizer um milhão de coisas para reverter a situação, mas nada ajudaria.

_Felipe, eu...

_Que moleza, pessoal, vamos, vamos! _ apitou longamente até irritar meus ouvidos propositalmente para me afastar.

Virei as costas e sai me sentindo péssima, um monstro. Esperei que ele acabasse sua aula para ter uma oportunidade de dizer o quanto eu não queria ter dito aquilo. Encontrei-o na lanchonete da clínica, debruçado sobre o balcão, conversando baixinho com a funcionária. Ela tinha um olhar de adoração e soltava suspiros. Revirei os olhos e pedi um pedaço de bolo da vitrine a fim de cortar o papinho dos dois. Senti o olhar de Felipe sobre mim, mas me mantive firme.

_Posso conversar com você? _ perguntei, enfiando o garfo com força na fatia.

Procurei a mesa mais distante e próxima a uma janela. Ele me seguiu mais atrás, ao puxar a cadeira, seu caderno velho cheio de orelhas caiu do seu braço e parou no meu pé. Inclinei-me para pegar e o vi aberto. Fui mais rápida e o puxei da mão de Felipe. Folheei. Havia vários desenhos do meu rosto em diferentes ângulos. Levantei os olhos com o coração embevecido. Ele estava arranhando o tampo da mesa absorto. Delicadamente tomou de volta e tirou o lápis enfiado no fino espiral. Sem qualquer explicação por ter me tomado como objeto de reprodução artística, voltou a rabiscar.

Mordi meu pedaço de bolo e tentei processar melhor meus sentimentos antes de falar. Sorri, eu parecia ter comido algum ingrediente de felicidade no bolo, sentia-me alegre.

_Minha irmã disse que eu devia montar uma exposição. _ ele riu, como que conversando consigo em voz alta, balançou a cabeça para os lados.

_Felipe, desculpe pelo que eu disse aquela hora. _ disse-lhe.

Ele encolheu os ombros e continuou rabiscando. Só havia entre nós o barulho metálico do garfo no prato e do seu lápis arranhando a folha de papel.

_Eu fui estúpida. Eu achei por um momento que seria melhor você se afastar daqui e retomar o que fazia antes...

_Eu estou bem. _ ele me cortou.

_É, eu sei. Está muito bem mesmo. E consegue transmitir isso para todo mundo. O trabalho que está fazendo é incrível. Não há uma só pessoa que não vem falar de você para mim.

_Menos você. _ olhou-me em cheio e senti o bolo parar na garganta, engoli com força.

_Ãnh?

_Sempre me evita, parece resistir.

_Eu? _ ri, atingida. Franzi a testa, balancei levemente a cabeça para os lados, olhando para baixo, remexendo na cobertura do bolo. _ Nada a ver...

Felipe colocou os braços sobre a mesa e se inclinou completamente para frente, trazendo para perto seu cheiro bom de desodorante e xampu.

_Então, eu quero cobrar a atenção que me renegou.

_Como?_ levantei a sobrancelha.

_Hoje, quando acabar de atender seus pacientes, vamos dar uma volta. _ sentenciou e se levantou para não dar tempo de eu processar o que acabara de dizer.

Senti medo e ansiedade pelo convite. Devorei com facilidade o resto do bolo e rapidamente passei na cabeça quantos pacientes faltavam. Voltei ao trabalho e, no final, já estava apressada para terminar. Vi-o apoiado em uma pilastra com um dos ombros, a mochila transpassada no peito e o cabelo molhado. Meu coração começou a acelerar como se me preparasse para uma maratona e meu corpo disparou adrenalina pelas veias como se eu fosse correr um grande risco.

Retirei o jaleco branco e me olhei no espelho do banheiro. Desabotoei o primeiro botão da blusa branca. Não! Envergonhei-me por isso. Abotei novamente. Puxei os grampos e soltei o coque. O cabelo caiu sobre os ombros com um formato ondulado. Passei um gloss rosa claro e olhei-me de costas. Pus a bolsa no ombro e abri a porta.

Felipe estava conversando com a mãe de um de seus mais novos alunos. Trocamos um olhar apenas, continuei andando em direção a porta de saída. Logo depois, senti seus passos atrás de mim, sorrir. Estávamos no jardim externo, frente a frente.

Seus olhos intensos me contemplavam. Será que depois me transformaria em mais um desenho da próxima folha do seu caderno? Lembrei do nosso beijo naquele dia em que eu estava completamente louca e isso subiu a temperatura do meu corpo. Afastei a lembrança para não enrubescer.

_Qual é a idéia agora? _ perguntei.

_Tem uma praça aqui cheia de árvores e bancos. Podemos... _encolheu os ombros. _Caminhar. Que ironia meu convite! _ riu alto.

_Que ótimo ouvir isso, vamos... _ sorri.

22.8.09

Cap 73: Uma mulher na zona de sombra (Andy e Felipe)

Como se volta para casa se não há quem te espere, nem casa pra voltar? Descubro que só tenho ao meu corpo. Logo meus bens seriam confiscados e dados a Priscila e seu filho. Eu estava tão abalada que tinha medo do que a solidão produziria em mim. Se me esquecesse no sofá, poderia nunca mais achar coragem para levantar.

A viagem de férias me afastara fisicamente do lugar onde aconteceram os fatos, mas não dos fatos em si, todos eles estavam vivos e presentes na minha cabeça, bastava o efeito dos calmantes passarem para emergirem como bolhas de ar subindo para a superfície.

Entreguei-me ao trabalho depois de um mês afastada. Eu já perdera as ambições, mas meus pacientes precisavam de minhas mãos e dos conhecimentos ainda guardados na minha mente. Eu não sentia que tinha motivos para viver, porém, eles precisavam ser ajudados e isso me dava um rumo.

Na manhã que retornei a Clínica, fazia um sol claro e esbranquiçado, raiando pelas árvores molhadas de chuva. Ele se mostrava para mim como exemplo de que é possível surgir luz após a tempestade. Não consegui sorrir nem pela imagem bonita da manhã. Meu corpo movia-se em linha reta maquinalmente para a porta de vidro da entrada da Clínica.

Abri-a com meu jaleco pendendo no braço direito. Assinei minha presença na ficha da recepção. Devolvi o livro e percebi que era observada com olhos arregalados pelas funcionárias. Todos deviam saber da minha vida como a novela das 8 que publica o resumo semanalmente no jornal.

Deixei-as com a pena que sentiam de mim para trás e segui rumo a minha sala. Guardei a bolsa e vesti o jaleco. Procurei meu crachá na gaveta e encontrei um rosto desenhado, olhando para mim, como um reflexo. “Até”, estava escrito abaixo do auto-retrato que Felipe desenhara para mim. Pressionei um lábio contra o outro, como pude beijá-lo? Isso teria arriscado meu emprego! Logo o que tanto precisava agora!

Bati a gaveta de volta. Não, eu nunca mais o olharia daquela maneira. Respirei fundo diante do salão cheio de crianças se exercitando. Conferi a pasta com os prontuários. Sabia fazer aquilo, bastava desligar minha mente e usar apenas o raciocínio médico estritamente técnico.

O primeiro paciente do dia foi uma menina de dez anos acompanhada da mãe, que empurrava sua cadeira. A garotinha estava emburrada, sem qualquer vontade de começar a fazer mudanças. Um quadro com o qual já estava muito acostumada. Bateu um medo de eu também não ter nada a lhe oferecer psicologicamente. Era um vaso vazio. Sua mãe encarou-me esperançosa e isso piorou bastante meu pânico.

Aquele horário estava especialmente reservado para crianças. A clínica era conceituada pelo seu alto padrão de atendimento com piscinas de grande porte, equipamentos de ponta importados, profissionais renomados e um ambiente de verdadeira recuperação. Oferecíamos cursos artísticos, palestras sobre os direitos dos portadores de deficiências, oficinas e encaminhamento para unidades para-esportivas. Eu me orgulhava de fazer parte daquele plano maior de desenvolvimento humano. Isso valia mais do que os prêmios e troféus que acumulávamos nas prateleiras. Senti vontade repentina de empreender um projeto de pós-graduação e defender esse tema através de uma pesquisa formal. De repente, me dei conta que havia tempo e liberdade para tudo que desejasse agora.

Por hora, eu tinha uma paciente emburrada e uma mãe ansiosa me olhando. Quando abri a boca para falar-lhe, seus olhos se arregalaram e as covinhas ficaram fundas com o sorriso que começava a abrir até que deu uma gargalhada. Sua mãe também ria. Franzi a testa e ergui meu tronco inclinado sobre a menina. Quando olhei para trás, tomei um grande susto. Um homem vestido de palhaço, com o rosto pintado de branco, uma bola vermelha no nariz, sapatos de bobo da corte e uma flor no jaleco me imitava. Pus a mão no peito para respirar e ele fez o mesmo. Eu não estava sabendo dessa novidade na clínica. Contrataram um “médico da alegria”?

Eu procurei uma colega com os olhos e balancei a cabeça em pedido de explicação. Ele percebeu e correu até ela. Gesticulou como quem quer saber de algo e depois apontou para si mesmo, achando a própria resposta e fez uma grande expressão de espanto. Marchando feito um soldado afetado, chegou até mim e estendeu a mão para apertá-la. Eu aceitei, mas ele apertou meu nariz. A garotinha riu alto ao meu lado.

O palhaço foi até o canto oposto, pegou o peso que um menino usava para fazer a série e fingiu que caíra bruscamente de sua mão como se fossem toneladas. Agachado, como fazem os levantadores de peso profissionais, tentou erguer os halteres. O palhaço fez uma cara de que algo ocorreu com sua calça. Virou o rosto para trás e a gargalhada foi geral. Levantou o jaleco e lá estava o rasgo mostrando a sunga de bolinhas vermelhas. Toda a sala estava hipnotizada com seu pequeno espetáculo. Sempre admirei o humor do cinema mudo, quem conseguia com trejeitos e caretas montar personagens e cenas era o artista verdadeiro!

Agora, minha paciente estava disposta a tudo e eu nem precisara fazer esforço. Aquele anjo bom enviado por Deus conseguira arrancar o sorriso da pessoa mais triste de todas ali, eu. Quando isso aconteceu ele me ofereceu a flor do seu bolso. Peguei-a e um jato de água espirrou no meu rosto. Então, ele puxou um lenço gigante que nunca parava de sair. Ri ruidosamente e senti os olhos cintilarem, eu estava sensível demais.

Mostrei a minha paciente como deveria fazer sua primeira série e corri para a sala. Precisava beber uma água e me equilibrar. Engoli sem vontade, mais para obter um efeito psicológico calmante e me apoiei contra a mesa, fitando o chão. A porta se abriu e o palhaço entrou.

_Oi. _ virei-me de costas para que não visse meu rosto. Joguei o copo fora e comecei a lavar minhas mãos. Engoli em seco para desentupir minha garganta do grande nó de choro. _ Parabéns pelo trabalho que fez! Essa clínica inventa todo dia uma coisa nova. Qual o seu nome? _ olhei para trás rapidamente para mostrar naturalidade e vi que ele não se desarmara do personagem. _ Hei, o que está aprontando? _ perguntei, secando a mão no papel. Atirei-o no lixo.

O palhaço veio até mim com um medidor de pressão. Com um ar categórico, puxou uma cadeira e me fez sentar. Senti-me ridícula, mas disposta a participar da brincadeira. Argumentei que precisava voltar e ele fez que não com a mão enluvada de branco. Colocou a faixa no meu braço e encostou o medidor redondo metálico na minha testa.

_Acho que não é aí! _ fiz uma careta e ri. Ele bateu na cabeça e revirou os olhos para me mostrar que devia ter lembrado desse detalhe. Depois, pousou-o no meu peito, em cima do meu coração. _ Vou te ajudar, você coloca no pulso...

Ele não tirou o aparelho do meu coração. Inclinado com o rosto bem próximo do meu, senti que estava hipnotizada. Deve ter escutado o quanto meu coração disparava. Então, deslizou o dedo indicador enluvado nas maçãs do meu rosto, parecendo recolher uma lágrima imaginária. Inclinou a cabeça para o lado com semblante de questionamento. Puxei bruscamente a faixa do meu braço e retirei sua mão do meu coração. Levantei, abrindo passagem com meu corpo. Tossi duas vezes, havia sido extremamente grosseira e bruta. Peguei um copo plástico e novamente o enchi de água. Não estava mais com sede, mas tinha que dissimular naturalidade. Virei e o vi me olhando seriamente, sem expressões de palhaço.

_Preciso voltar a trabalhar, não vai me dizer seu nome? _ perguntei, forçando na cordialidade.

Não respondeu. Seus olhos, seu silêncio...

O copo cheio de água caiu da minha mão.

Ele sorriu.


(***)

A primeira vez que vi Andy, assim que nos conhecemos na minha primeira consulta, ela estava do outro lado do vidro da sala, brincando com uma menina em cima do tatame. Quando fomos apresentados, eu já sentira logo um descompasso ao me deparar com aquele rosto bonito, seus olhos negros e os cabelos compridos sobre os ombros. Andy me ajudara a querer andar novamente, respeitara meu tempo e entendera como ninguém meus sentimentos. O resultado disso foi que, com muito trabalho e vontade, dominei novamente o movimento nas minhas coxas e me adaptei bem as próteses. Porém, não eram só minhas pernas que ganharam vida, meu coração também se sentiu grato por pulsar outra vez.

No dia em que nos beijamos, eu voltara a ter vontade de falar e lhe disse o quanto a achava linda. Porém, Andy não estava nada lúcida e provavelmente se esquecera. Depois do beijo, em que eu pensava ser o começo de algo, ela desaparecera.

Procurei arrancar informações das outras médicas da clínica, mas tentaram manter reserva absoluta. Eu não podia explicar que era mais que apenas paciente. Os jornais, no entanto, logo me deram todas as respostas. O seu marido havia sido encontrado morto por overdose em um motel medíocre. A fiseoterapeuta da alta sociedade que trabalhava por amor e por auto-reconhecimento agora precisava se esconder de todos.

Eu tinha certeza de que um dia ela encontraria forças e eu queria estar lá para revê-la. Pensei em uma maneira de não me afastar da clínica. Foi quando ouvi uma das médicas comentarem sobre um trabalho de voluntários que se vestiam de palhaços para motivarem os pacientes. Ofereci-me a aprender e implementar na clínica. Ninguém entendeu minhas motivações, mas concordaram que seria bem inovador tentar. Dessa maneira, eu teria uma desculpa perfeita para ficar por mais tempo no lugar para onde Andy regressaria, eu só não sabia quando.

Não foi nenhum esforço ajudar aquelas crianças a sentirem novamente vontade de sorrir, era um meio de eu me lembrar que ainda estava vivo e tinha a chance de fazer o bem. A espera por Andy se tornava cada vez mais produtiva até que já me esquecia de perguntar sobre ela insistentemente. Foi em uma manhã chuvosa que escutei na recepção o comentário de que ela voltara ao trabalho. Meu coração acelerou e eu fiquei nervoso enquanto me produzia no banheiro. Será que me reconheceria por trás da maquiagem, peruca vermelha e chapéu?

Pensei que me sentiria feliz, mas quando vi o rosto de Andy na sala, enquanto tentava arrancar-lhe algum sorriso com a brincadeira do medidor de pressão, senti uma profunda tristeza. Seu coração passava pela minha mão uma energia depressiva, como se me usasse como um fio condutor. Ela se afugentou. Porém, ainda não havia me reconhecido. Nunca esperaria que eu me recuperasse tão bem e me tornar um palhaço voluntário na sua ausência.

Depois da morte do marido nas circunstâncias dramáticas, não havia mais luz, nem sorriso, era perfeitamente uma mulher na zona de sombra. No seu dedo já não tinha a grossa aliança que tantas vezes me lembrou de que eu não podia me aproximar dela. No seu pescoço não pendia a grossa letra “M” de ouro. Estava magra, extremamente branca e frágil.

Espantado com o que fizeram com a mulher, esqueci de sorrir também. Foi neste momento que Andy reconheceu meu rosto e deixou o copo cair no chão. Sua mão segurou a cadeira ao seu lado e ela se sentou.

Uma médica abriu a porta e nos olhou. Veio avisar sobre a paciente que Andy deixara lá fora. Fiz um sinal discreto de que não ia ser possível para Andy. Ela entendeu e respondeu que poderia cuidar disso. Deixou-nos sozinhos outra vez.

Andy olhava fixamente para a poça no chão, parecia não nos ouvir. Puxei outra cadeira e me sentei ao seu lado em silêncio. Ela tinha as palmas das mãos voltadas para cima sobre os joelhos, em uma postura de fraqueza e recolhimento. Uma lágrima caiu de seus olhos e a apanhei com o indicador na maça do seu rosto. Andy segurou-a e fechou as pálpebras por alguns instantes. Retirei a luva branca aveludada e agarrei sua mão com a minha, deixando-a sentir o aperto quente e macio. O toque a fez levantar os olhos para mim.

_Eu acho que não sirvo para trabalhar hoje, nem pra ficar aqui... _ esfregou o rosto com as costas da mão livre. _ Vou embora.

Eu queria lhe dizer que para mim Andy servia de qualquer maneira, que tinha esperado tantas semanas para revê-la que poderia ficar toda a tarde amparando-a. Mas, respeitei seu desejo e abri passagem. Ela apanhou a bolsa da mesa e a pôs sobre o ombro. Parou por um segundo e me encarou.

_Eu não sei se... se foi coisa da minha imaginação. _ riu. _... Deixa, agora não tem importância... _ balançou a cabeça para os lados. Fiquei de pé e ela recuou alguns centímetros, temerosa. Olhou para minhas pernas perfeitamente firmes, engoliu em seco. Não estava acostumada com a situação inversa em que ela precisava de amparo. _ Eu... eu tive a impressão de que da última vez você falou...

Sorri largamente.

_... Desculpe, eu estava... meio alta. _ confessou baixinho. _ Mas... ouvi você dizer alguma coisa... Você voltou a falar também?

Ri agora me divertindo por saber que tinha alguma lembrança daquele dia. Acho que a envergonhei por isso porque se precipitou rapidamente para sair. Virei o rosto para trás e a vi já de costas.

_Eu não só falei, ou esqueceu? _ disse com a voz grave, quase rouca.

Andy fechou a porta, acho que preferia não lembrar do beijo. Mas, eu não desistiria.

19.8.09

Cap 72: Todo seu amor (Kali)

Caminhamos em direção ao rio de mãos dadas, sem pressa, respirando o ar úmido e fresco de terra. Rebeca estava radiante, tagarela, risonha. Parecia ter se escondido por muito tempo dentro da casca. Deitada em minha perna, já acomodados sobre a manta estendida no gramado, ela me confessou que, na verdade, evitava ser mais extrovertida comigo com receio de sem querer demonstrar que gostava de mim. Afinal, era minha chefe e havia todos os protocolos.

_Além disso... _ pensou se deveria explicar-se. _ ...Eu não achei que pudesse chamar sua atenção. Mas, confesso que não imaginava que estaria tão feliz como agora, aqui, tão perto de você. Posso sentir o seu coração, as suas mãos, o seu calor... _ sentou-se e acariciou o meu rosto em devoção. _ Não sei o que tem em você que me faz sentir emocionada.

_Ótimo, eu te faço chorar?! _ zombei.

_Não, me faz sentir com mais força tudo. Como seu eu visse os tons em rosa choque. Desculpe, devo realmente estar te assustando. Não quero que se sinta cobrado a corresponder. Eu sei que tem uma namorada no seu país e uma hora vai voltar para ela... _ abaixou a cabeça e perdi um pouco a sua voz, que se abafou. _ Eu senti muito quando partiu. Irritei-me facilmente com a secretária que me arrumaram e mandei que ela não tocasse em sua mesa. É ridículo, mas eu queria ver sua mesa todo dia como deixou para ter a impressão de que a qualquer momento entraria com o café na mão.

_Eu senti que devia voltar. Não sei explicar por quê. Eu estava bem no Brasil e, até tinha começado a gostar da moça a que se referiu, mas eu queria loucamente estar de volta para o espaço que conquistei.

_Eu não posso ter o prazer de saber que voltou por mim, mas estar aqui de novo já considero como um ganho muito grande. Aliás, um empréstimo, afinal, não será para sempre.

_Como não sou de ninguém, isso pode ter seu lado positivo.

_Mas e o seu coração? Ele pertence a alguém? _ quis saber.

_Não posso te responder. Várias pessoas podem pegar nosso coração e amá-lo. Mas, só iremos querer que uma o ame verdadeiramente.

_Está me dizendo que ama por alguém te amar? _ franziu a testa.

_Acho que é ambos os lados devem despertar o mesmo sentimento de gostar de ser amado. Pode parecer narcisismo, mas é preciso admirar quem nos ama.

_Você me admira? _ perguntou, inesperadamente.

_Por algumas coisas sim, por outras não. Você se portou incrivelmente doce esses dias, mas é capaz de ser amarga, fria e impiedosa. Essa face é a que mais conheço.

_Eu não queria ser assim. Mas, aos poucos descobri que fui crescendo com essa metodologia e não quis mudar para não perder o ritmo... Só que ao ver que isso não me fazia conquistar você eu ficava triste e ainda mais má... Nossa, eu sou um ser humano horrível. _ deixou-se cair de costas na manta, dramaticamente.

_Não é o que eu vejo. _ acariciei-lhe os cabelos. _ Mas, será difícil admirar uma pessoa todos os dias quando o resto do mundo não sente o mesmo. Acho que sabe o que quero dizer. Quantas vezes viu os funcionários da empresa virem a minha mesa, brincarem, me convidarem para as festas e finais de semana? Você não admirava a devoção que tinham a mim, um cara sempre palhaço, extrovertido e tranqüilo? Então, eu também vou acabar te vendo pelo olhar das pessoas.

_Kali. _ interrompeu-me com uma voz séria e solene. _ Eu sou capaz de mudar para ser isso que espera.

_Não precisa ser tão bruscamente, eu só falei... _ comecei a rir, seu amor potente me assustava bastante.

_Ok. Eu vou te mostrar. _ profetizou e buscou a cesta de comida. _ deitei sobre sua perna, como me pediu, depois de comermos. Ela fez carinho na minha cabeça, rosto e braços com muita ternura. _Você é o que quis por tanto tempo, eu te admiro muito, Kali. Todas as noites que fechei a porta do escritório, desejei em pensamento com toda força em te ver na manhã seguinte. Eu te atraí de volta. _ sorriu.

Quando voltamos para a cidade, eu temi que Rebeca continuasse a ser fria e calculista como se mostrava antes da viagem. Mas, ela realmente iniciou as mudanças que prometera. Começou a dar “bom dia” e a aprender o nome dos funcionários menos importantes na hierarquia da empresa. Reservou tempo para reuniões de motivação para equipes que atingiam resultados. Logo começou a ser realmente o assunto de todas as conversas. A conspiração do momento era quem tinha roubado seu coração, pois nada seria forte o suficiente para transformá-la. Mas, a maior prova de todas se deu na manhã que ela me viu conversar com meu irmão sobre o aniversário de Tamires.

Rebeca sentou-se em sua mesa e se manteve aparentemente calma como era de se esperar de uma mulher sensata e madura. Desliguei e ainda olhei o aparelho em minha mão por um tempo. Avisei-lhe que teria que tirar uns dias para ir ao Brasil. Ela perguntou burocraticamente se eu já tinha procurado o presente certo.

_Eu... _ não soube o que lhe responder. Não queria oferecer-lhe isso em troca, depois de tanto amor e trabalho para me conquistar.

Ela levantou e pegou uma caixa em cima do armário atrás da mesa.

_Ganhei de um fornecedor que queria alguns privilégios, não é muito ético, mas... são coisas da profissão. _ deu-me. _ É um bom computador. Ela é jovem, vai gostar. _ sorriu um sorriso que não era seu, parecia comprado em uma loja na sessão “como demonstrar que pode engolir a namorada dele”.

Rebeca também era jovem e bonita também, aliás, era poderosa. Ninguém, em seu lugar, se portaria desse modo respeitoso e sem cobranças. Senti-me pior por isso.

_Aproveita e chega em uma grande caixa com uma fita vermelha. Salta de dentro no meio da festa. Imagina o impacto! _ piscou para mim em uma fina ironia.

_Pare, não precisa fazer isso...

_Tudo bem. _ pegou uma pasta que estava na mesa e sua caneta dourada. _ O vôo fica por nossa conta. _ dirigiu-se para a saída e não pude segurar seu braço para impedir.

Esperei que voltasse tarde da noite para buscar sua bolsa. Não sairia sem me despedir.

_Rebeca, eu...

_Tudo bem, não precisa esforça-se para falar. Eu já te vi partir, Kali. E sempre soube que aconteceria de novo. Espero que você também encontre suas certezas... Eu preciso ir. Ah! Eu prefiro que saiba essa notícia por mim, primeiramente. Acho que não podemos ficar na mesma empresa. Sabe que estamos sobre um código de ética que não aceita isso... Eu posso conversar com o RH para transferi-lo de setor. Só que não é o que quero... Acho que tem potencial de uma coisa muito maior. Já fiz alguns telefonemas. As propostas vão chegar e só terá que escolher.

_Você moveu mundos e fundos para que me afastassem de você?

_Não, Kali. _ sorriu, triste por ver que ainda pensava mal dela. Suspirou. _ Eu fiz de tudo para que o mercado reconheça que é bom. Não posso prendê-lo aqui como meu amuleto da sorte, meu amo, meu escravo-amante. Você é mais que isso, é um homem que quer ser reconhecido. E, se eu gosto de você, tenho que ser a primeira a mostrar dessa maneira. Você é como um pássaro que pousou perto de mim, eu posso admirá-lo o quanto for possível, mas uma hora vai voar. _ sua voz embargou ali, respirou. _ Eu vou precisar tirar só a sua mesa da sala, não dá para conviver com ela.

Eu não tinha palavras, nem podia me aproximar. A sala de vidro tornava tudo público, exceto nosso diálogo.

_Eu preciso ir... _ falei baixinho.

_Eu sempre soube. _ sorriu e saiu.

A viagem para o Brasil fora pouco entusiasmante. Eu fiz tudo como deveria ser feito e o que se esperava de mim. Levei o computador comigo, pesava no meu colo mais que seu volume físico, pois representava a dor de Rebeca em me perder.

A festa surpresa estava tão agitada como deveria ser e eu tentei aparentar o mais animado possível. Mas, infelizmente, o disfarce estava me deixando incomodado naquele figurino. Tamires não me pareceu tão interessada quando propus que terminássemos a noite juntos. Disse ter gostado do vídeo que eu tentara fazer no “pacote surpresa” e agradeceu.

Sozinho no volante do carro, disquei o número de Rebeca e esperei chamar. Ela atendeu.

_Como está? _ perguntei.

_Alguém te contou?

_O que eu deveria saber?

_Minha avó não está bem. Levei-a para uma clínica. Está se recuperando lentamente. Não vou ao trabalho há dois dias. Ela é mais importante agora... Desculpe, como foi a festa de aniversário da sua namorada? _ perguntou, como por obrigação.

O que eu poderia lhe dizer? Que fora uma festa com muita música, comida, uma garota distante de mim e um grande vazio.

_Logo estou de volta. Já perdi minha mesa?

_Recebeu algum retorno dos lugares que te indiquei?_ preferiu mudar de assunto.

_Sim, nem sei qual escolher. _ri. _Mas, não é isso que importa agora. Eu... quero te ver.

_Deve ter um vôo a sua espera. _falou docemente.

_Vou correr para não me atrasar.

_Aceito chegar atrasado com meu café.

Desliguei sentindo-me melhor e com um sorriso nos lábios. Eu estava muito cansado quando desembarquei, mas só precisava pegar um táxi para chegar ao endereço do hospital. Encontrei-a no refeitório, tomando café. Sentei ao seu lado e a abracei com toda saudade. Falei em seu ouvido que estaria ali para apoiá-la. Beijei-lhe os lábios e segurei sua mão com força.

Sua avó se recuperara, mas outra pessoa ficara mal dessa vez. Um acidente no Brasil com Tamires novamente abalou as certezas de Rebeca, apenas alguns dias depois da minha volta.

Eu já estava desempregado quando recebi a notícia, por isso, tinha mais tempo livre para visitá-la. Embarquei novamente para o meu país. Sentia-me um pouco culpado por não ter dado a Tamires a atenção que merecia desde que a deixei.

Fiz indevidamente promessas, desesperado com a possibilidade de perdê-la com alguma morte repentina e ver aumentar minha culpa. Mas, eu estava errado, ela não queria de mim mais do que eu também sentia. Depois de uma última conversa, explicou-me que desejava estar sozinha. Suas palavras me libertavam finalmente para poder só enxergar claramente Rebeca em minha mente. Era difícil amar quando ainda se tem um parênteses não fechado no coração.

Mas, dessa segunda vez, será que a teria me esperando? Eu não merecia, depois de ter feito a opção de regressar para ver Tamires. Veio um frio na barriga e medo de não ver mais em seus olhos todo amor que me mostrara e eu ainda queria.

Quando toquei sua campainha de manhã, senti receio de encontrar os olhos frios e afugentadores da chefe que todos aprenderam temer. Eu não queria ter posto Rebeca novamente para dentro da caixa.

A empregada atendeu e pediu um instante. Depois, recebeu autorização para abrir. Subi pelo elevador do prédio até o vigésimo andar. Quando abriu, a mulher parecia visivelmente agitada, nem mesmo esperou que entrasse e correu para a cozinha dizendo exclamações em espanhol. Fechei a porta assustado e segui atrás.

Rebeca estava reclinada, se apoiando na beira da bancada de granito, em posição de quatro com a perna. No chão, havia sangue por toda parte em grandes poças e vidros espalhados. Seu pé descalço se esvaia em sangue como uma goteira, mas Rebeca pareceu esquecer-se disso quando nossos olhos se encontraram e se sustentaram por alguns segundos. Ela voltou a olhar o chão e pulou em um pé só para buscar o pano de prato em cima da pia, mas não o alcançou.

_Quer que eu chame o médico, senhora? _ a mulher estava realmente assustada com a quantidade de sangue, mas Rebeca pareceu não se estranhar com isso e disse que estava liberada por todo o dia. Sua voz não era fria, apenas distante e cansada.

A empregada pegou o casaco e saiu, ainda pouco convicta de que Rebeca ficaria bem.

_Não deveria estar cuidando de outra pessoa?_ perguntou-me com mágoa, esticando ainda o braço para alcançar o pano.

Caminhei com os sapatos por cima do vidro e ela se recolheu, intimidada pela proximidade. Facilmente a suspendi nos braços. Ainda estava de camisola de seda branca e tinha o cabelo úmido, caindo nos ombros. Estava com o rosto completamente fechado. Não se sentia feliz por me ver? Eu tinha voltado!

Tirei o vidro da sola do seu pé e fiz um curativo com algodão e esparadrapo que encontrara em uma caixa no banheiro por sua indicação. Quando terminei, ajoelhado em sua frente, levantei os olhos e encontrei os seus mais serenos.

_Você precisa de alguém que cuide de você... _ falei baixinho, com o rosto próximo ao seu.

_Eu não posso precisar... _seus olhos cintilaram, úmidos. _ Por que quando você vai embora, eu fico quebrada como esse copo e meu coração sangrando.

Eu sorri, a imagem era demasiadamente trágica para uma mulher tão pragmática, mas atingiu em cheio minha emoção pela sinceridade com que confessava.

_Nunca mais vou te ferir._ afastei seu cabelo do rosto com as duas mãos. _Eu quero que seu coração me ame. Eu... te amo, Rebeca.

_Mas... _ ela ousou argumentar, mas beijei-a matando suas palavras de dúvidas com meus lábios. _ Eu senti tanto a sua falta. _Abraçou-me. _Eu nunca mais vou renunciar você para ninguém._Segurou meu rosto. _Kali, ninguém te ama mais que eu.

_Então, eu quero todo seu amor. _coloquei seu braço ao redor do meu ombro e a tomei novamente nos braços até o quarto. Beijei-a, sendo completamente seu agora.

18.8.09

Cap 71: Sem barreiras (Kali)

_Kali? _ Michele apareceu na porta dos fundos com uma voz de urgência. Eu que estava sentado na varanda, assustei-me e me virei bruscamente da cadeira de balanço. _ Você sabe para aonde Rebeca foi? Ela saiu correndo...

_Ãnh?_ pus-me de pé em um pulo. Algo me dizia sempre que um dia o autocontrole de Rebeca entraria em colapso. _Qual o problema?

_ Passou por nós disparada com roupa de corrida e tênis.

_Ela estava com roupa de corrida e foi dar uma volta por aí? _ repeti tudo pausadamente, como se falasse com uma criança pequena sobre astronomia. _ E isso é terrivelmente preocupante? _ tentei manter a ironia em um nível ambíguo, mas era difícil crer que ela estava preocupada com uma coisa tão normal. Acho que a família justamente não aceitava bem comportamentos corriqueiros.

_Eu sei que vai achar ridículo, mas ela tinha um olhar estranho... _ fez uma careta.

_Um olhar estranho? _ repeti de novo. Desde quando ela catalogara os olhares de Rebeca, se mal se viam! _ De que tipo?

_Kali, eu sei o que deve estar pensando. Nós não somos uma família que se pode dizer unida... Rebeca não se dá tão bem com a gente... _ ela explicava tudo rapidamente para me convencer o quanto antes a seguir a irmã. Se tudo era claro para eles, o que eu fazia naquela casa? Rebeca não precisava de muletas de apoio. _ ...Mas, eu lembro de uma vez em que ela fez uma apresentação de balé fantástica na escola e meus pais não foram, não deram bola. Ela calçou o tênis e saiu correndo feito louca... Acho que conseguiu fazer um périplo em todo o estado. Quando chegou, à noite, estávamos muito preocupados. Mas, ela não falou nada. Parece que alguma coisa se resolveu dentro dela, enquanto fugiu. Depois disso, ela começou a estudar, largou o balé e foi embora com uma incrível bolsa de estudos que conseguiu. Eu não sei o que se passou na cabeça de Rebeca aquele dia, mas ela decidiu que não seria um de nós... Será que ela pensava que nós precisávamos que se tornasse uma mulher tão poderosa para gostarmos dela? Bastava que tivesse ficado aqui... _ se perdeu, olhando para o chão a sua direita. _ Kali, ela estava do jeito daquele dia quando saiu correndo, alguma coisa aconteceu. Vocês brigaram?

_Não..._ minha voz quase não saiu e eu começava a ficar contaminado pelo pânico da garota. Uma parte de mim me chamava de idiota pela preocupação tola, outra me deixava em dúvida. _ Ok, vou alcançá-la, preciso de um tênis também e um short. _ aceitei, sentindo-me ridículo. _ Se isso a tranqüiliza. Rebeca não tem idade mais para cometer reviravoltas, não se preocupe.

_Por que não? _ ela entregou-me um par de calçados e uma calça de corrida do irmão.

Não respondi. Enfiei rapidamente os pés nas meias e fiz um nó nos cadarços. A tarde caía e eu me perguntava agora o que Rebeca queria se arriscando ao sair por aí, à noite, sozinha. Tudo bem que era só uma cidade pequena, mas nem medo dos animais do bosque tinha? Que mulherzinha implacável. Não sei por que sua irmã se preocupava.

_Siga por essa trilha que vai dar no rio. Não há outro caminho. _ ela apontou.

_Ok. _ comecei a correr lentamente, depois, meu corpo aquecido explodiu em milhões de micro reações químicas. Será que o prazer da endorfina que o corpo produz, o coração batendo na velocidade máxima e o ar entrando e saindo freneticamente dos pulmões eram o que Rebeca precisava? Então, por que eu tinha que correr atrás dela? Poderia compreender perfeitamente que qualquer ser humano precisa dessa descarga elétrica em algum momento. Talvez quisesse privacidade.

Parei diante de uma descida brusca, meus pés brecando na terra coberta de folhagens. Segurei-me em um tronco fino de árvore. Lá estava Rebeca, perfeitamente salva, sentada em uma pedra, com a cabeça nos joelhos e as pernas flexionadas. Usava um short curto preto e uma camiseta branca cavada. O cabelo preso em um rabo de cavalo frouxo. Suas pernas eram fortes e bonitas, bem como os braços. Será que malhava? Eu sempre suspeitei que ela não dormia como nós seres humanos de corpo vagabundo e frágil. Onde arrumava tempo para ler todos os jornais, saber tudo de política e cultura? Só podia ser enquanto dormíamos! Mas, aquela garota encolhida, fixando sua atenção no rio não transmitia tanto poder. Era quase pecado quebrar seu momento solitário.

O barulho da folhagem sob meus pés a fez virar o rosto para mim. Levantou-se e saltou da pedra. Passou por mim e pegou a trilha de volta. Estava bastante suada, o que deveria explicar sua corrida feroz que assustara a irmã.

_Hei, eu vim te resgatar, poderia ao menos fingir quando a gente chegar que está bastante aborrecida e que te tirei de apuros? _ brinquei, caminhando na mesma velocidade de seus passos rápidos. _ Michele pode ficar bastante desapontada.

_Kali, vamos acabar com isso? _ ela parou, de repente, sem sobreaviso e eu, que continuara no mesmo ritmo por alguns segundos, parei alguns metros à frente. Virei-me para entender o que tinha acontecido.

_O que começamos? _ levantei as sobrancelhas.

_Isso. Isso tudo! _ abriu os braços e fez um meio círculo ao seu redor com as mãos. _ Não está dando certo mentir, definitivamente.

_Eles perceberam alguma coisa? Para mim, pareceu bem verdadeiro.

_Esse é o problema. _ falou baixinho. _ Não pode ser assim, Kali. Eu não posso ficar fingindo... Porque, se eu pudesse fingir, aí sim tudo estaria bem.

_Olha, eu acho que a corrida tirou seu cérebro do lugar. _ tentei usar das nossas agressões para pôr algum parâmetro em sua racionalidade, nem que fosse para ter raiva de mim, ao menos era mais coerente. O efeito conseguido foi o contrário e pareceu se magoar. Começou a correr loucamente. Eu não sabia o que dera nela, mas precisava alcançá-la, o que não fora difícil. Eu tinha o dobro de massa muscular e resistência. _ Pare, Rebeca, precisamos conversar...

_Não! Está tudo certo! Você pode pegar... _ puxou o ar dos pulmões com toda dificuldade. _... um carro alugado, eu te dou o dinheiro...


_Está me mandando embora? Só por causa do beijo?! É? _ gritei e a segurei pelos ombros com ímpeto de sacudi-la, mas os olhos de Rebeca estavam tão frágeis, úmidos e miúdos que eu estanquei. De repente, entendi o que tentava explicar: não era fácil fingir porque para ela tudo era verdade, gostava de mim. _ Não precisa me botar pra fora.

_Sabe que preciso. _ continuou a andar.

_Sei? _ franzi a testa e segui atrás. _ Hei! Pode parar quando falo com você? _ peguei-a nos ombros e a carreguei o restante do curto caminho de volta a sua casa. Encontrei sua irmã, sentada na cadeira de balanço.

_Que bom que estão bem... _ comentou, mesmo vendo a irmã em meu ombro. Aquilo para ela era a normalidade.

_Tem alguém em casa? _ perguntei.

_Não, foram ao jogo, estamos nas finais do Colégio...

_Ótimo, fechei a porta por onde passamos e ignorei o pedido de Rebeca de colocá-la no chão. _ Vamos esfriar a sua cabeça.

_Kali, você não seria maluco! _ coloquei-a no box do banheiro e abri o chuveiro, ainda tentou escapar, mas o pouco espaço fazia meu peito se tornar um paredão. Dei uma risada alta da sua cara molhada e o cabelo ensopado. _ Você não sabe o que está provocando! _ bateu-me com os punhos fechados. Agora a reconhecia, era a Rebeca mal humorada de sempre.

_ É sempre bom um banho depois da corrida.

_ Isso é assédio! _ apelou.

_Ok. _ levantei as mãos em rendição, ela estava com a ira em níveis belicosos.

Retirei a camisa semi-molhada e fui até a cozinha beber água. Encontrei Michele e pedi desculpas por estar com o peito nu, mas ela se fez indiferente.

_Descobriu o que deu nela? _ perguntou com um tom de quem já soubesse.

_Algo me diz que me mandou lá para constatar alguma coisa.

_Não se preocupe, o resto da família acreditou bastante nas ceninhas dos dois, mas eu já imaginava que Rebeca não é do tipo que nasceu para conquistar ninguém. Aposto que deve usar uma armadura por baixo.

_Foi você mesma que disse que ela pode ter uma reviravolta.

_É. Acho que aconteceu isso. Ela está mexida, eu não via aqueles olhos desde aquele dia... Rebeca era tão doce, delicada, frágil. _a descrição me fez lembrar de seu olhar no bosque quando a agarrei pelos braços. _ Mas, se tornou quase uma boneca de aço. O que você é dela?

_Trabalhamos juntos, na verdade, ela é minha chefe.

_Entendi agora porque precisava correr para ficar sozinha e colocar a cabeça no lugar. _ disse.

_Então, por que me mandou segui-la?

_Por que ela me pareceu precisar de você. Kali, Rebeca precisou de alguém, não é incrível?

Não respondi, não gostava de colocá-la em uma categoria paralela a da nossa espécie. Entrei no quarto e a encontrei vestida de calça jeans e uma blusa branca de seda de botões, um tanto formal, mas sóbria. O cabelo molhado caía em fios retos.

_Ficar de cabeça para baixo por um tempo ajudou? _ brinquei.

Ela tirou da mala uma caixa de perfume e espirrou atrás das orelhas, fingindo não me ver. Depois, pegou um livro no criado-mudo e fez menção a ir para a varanda se deitar na rede. Segurei seu pulso e disse que não acreditava que fosse capaz de ignorar a própria vida, como se fosse possível estar fora do próprio corpo.

_O que quer?! _ gritou e atirou o livro longe como um pássaro louco voando pelo ar, até parar estrondosamente no chão. Levou a mão a testa e procurou recobrar o equilíbrio. Estava mesmo a ponto de chorar? _ O que está fazendo? _ irritou-se e colocou a mão na cintura, indignada. _Com que direito está invadindo tudo?! _ seu queixo franziu. _ Eu não consigo controlar meus próprios pensamentos! _ sentou na cama e se inclinou, tapando os ouvidos. _ Sai daqui! _ eram suas palavras de derrota.

Eu estava imobilizado. Como podia me tratar feito um vírus letal? Esperei a hora que levantasse a cabeça e falasse qualquer coisa coerente.

_Está impossível conviver com você. Juro, para mim não dá mais, não dá! Chega.

_Ok, se não dá mais, então, por que não para de brigar com isso?

Rebeca engoliu em seco, fechou e abriu os punhos. Depois de um tempo longo, progrediu dois passos em minha direção. Não me mexi para encorajá-la. A ponta dos seus dedos percorreram a pele da minha cintura quando ameaçou tocar-me, mas ficaram suspensas no ar, flutuando, o que provocou um arrepio. Não agüentei mais a sua hesitação e a trouxe pelos dois braços, bruscamente, sem muito jeito. Perguntei o que não conseguia mais vencer e forcei sua mão sobre meu rosto. Ela pela primeira vez voluntariamente ergueu a outra mão e me trouxe pela bochecha para a altura da sua boca. O perfume era gostoso e o aroma de xampu do seu cabelo úmido e frio era inebriante. Eu queria ser beijado por Rebeca e gostava da sensação de ser desejado por ela. Experimentar esse status em seu coração me deixava orgulhoso, com a vaidade em alta.

_Acho que preciso tomar um banho, você está tão limpinha e, eu, suado. _ falei afavelmente, eu estava bastante repugnante.

_Ah! Tudo bem... _ encolheu-se e se afastou. Sugeri que fossemos a cidade juntos e ela consentiu com a cabeça. _ Eu dirijo. _ disse. _ Nada de moto.

Eu sorri e a achei muito bonita descalça e sem maquiagem pesada. Não demorei muito no banho, queria manter no ar o clima. Peguei o casaco e caminhamos em silencio até o seu carro. No bar, pedimos vinho e ficamos no canto da janela, sentados em uma pequena mesa redonda que nos fazia ficar lado a lado, nossos joelhos se tocando.

_Vamos ver se você é boa de todos os assuntos, o que diria agora? _ testei-a, tentando fazê-la falar a partir de uma provocação.

Rebeca levantou os olhos do copo que alisava com a ponta dos dedos e me encarou com uma resposta facilmente pronta.

_Seu sorriso é lindo. _ falou intimamente que achei ter lido seu pensamento. _ Ele é a melhor coisa para se começar o dia. Às vezes, você chega com ele atrasado. _ riu baixinho.

_Eu achava que o mau humor era pelo café atrasado. _ tentei levar na esportiva e não reconhecer que Rebeca acabara de se declarar.

_Você me faz produzir melhor.

_Uau, que romântico! _ debochei. _Nada mais capitalista.

_Talvez porque meu coração bata o dobro de vezes quando está perto e eu tenha o dobro de energia canalizada para o trabalho.

_Eu sabia que ia achar um viés científico. _bebi o vinho e devolvi o copo à mesa, ruidosamente.

_Mas, não é certo, só resta deixar tudo como está.

_É você quem diz isso. _provoquei.

_Kali, eu sou sua chefe! E te meti nessa...

_Você não é a minha mãe. É só uma mulher normal, qualquer cara te olharia assim aqui.

_Mas, não você. _ pareceu triste com a conclusão a que chegou.

_Deveria fazer mais por si mesma como faz para atingir as metas da empresa. Nesse caso, você fica sozinha com o bônus do lucro.

_Dessa vez, é você que está sendo racional. _ levantou-se e cruzou os braços, olhando pela janela o pouco movimento da rua lá fora.

Na cidade, aquele seria um lugar barulhento, escuro, cheio de fumaça e sem visão externa. Ali, o bar tinha uma música baixa, uma luz fraca, cheiro de comida e muitas janelas altas, que batiam na nossa cintura. Estávamos quase sozinhos, as pessoas deveriam estar em suas casas assistindo ao jornal local e jantando.

Levantei também, produzindo um ruído da cadeira no chão e me pus atrás de Rebeca. Era muito novo para mim saber que estava apaixonada. Toquei seus ombros e acariciei os braços até chegar em suas mãos, desarmando-a do nó em torno de si. Ela se deixou facilmente tocar, fraca de qualquer resistência. Abracei-a com força e carinho e nossos dedos ficaram entrelaçados, como a cabeça encaixada em seu pescoço. Uma estranha sensação de paz percorreu meu corpo e espírito. Ela girou-se dentro do laço que a envolvia até ficar de frente para mim, não esperou mais nada, trouxe meu rosto com uma das mãos e me beijou. Aceitei, fechando completamente seu corpo grudado ao meu. Segurei sua nuca, com as mãos entre seus cabelos. Seus lábios tinham o sabor do vinho e estavam gelados. Mas, em pouco tempo a fricção de um contra o outro fez com que se aquecessem. O álcool e a energia daquela toque subiam a temperatura de nossos corpos. Eu não pensava em nada, como se meu cérebro se desligasse. O mundo era longe dali. Não existia chefe, nem responsabilidades, nem o Brasil, só ela. Quando afastamos nossos rostos, Rebeca sorriu, feliz.

_Eu nunca senti falta do seu sorriso porque nunca conheci. Nem tive vontade de fazer isso porque nunca me deixou me aproximar. Você quis tudo sozinha... _ falei, tentando deixar claro que não sentia o mesmo. _ Mas, agora, durante esses dias, conheci uma mulher doce, bonita, carinhosa... E não vou conseguir esquecer... _ avisei.

Ela mordeu o interior dos lábios e não disse nada, só quis mais beijos. Eu também queria continuar a sentir-nos tão íntimos. Eu já construía a memória do amor. Esse é o primeiro passo para se amar, ter saudade do que já sentiu e gostou.

Em casa, enquanto seus pais contavam o jogo de futebol na sala, fui até o quarto ligar o computador. Tamires estava online. Conversamos brevemente, mas senti que ela não estava mais tão empolgada. Provavelmente, encontrara outra pessoa no Brasil e eu não tinha raiva por isso, estranhamente. Também não tocávamos no assunto. Despedi-me, desejando que ficasse bem. Ao fechar o programa de conversa, voltei a realidade e senti uma presença atrás de mim, era Rebeca. Ela ainda olhava para tela. Sorriu o sorriso da compreensão dolorosa.

Não quis tocar no assunto de Tamires, a minha realidade agora era o que acabava de acontecer entre nós. Mas eu apostava que Rebeca se sentia para trás, magoada. Eu só supus porque ela não falou nada, limitou-se a puxar o edredom da cama e colocar como barreira no meio do colchão. Deitou-se, ajeitando a cabeça no travesseiro. Era uma mulher madura e sem pressa. Quanto tempo deve ter ruminado aqueles sentimentos, analisado todos os pontos, sem impulsividades até se declarar? Desde que eu entrara na empresa?

Tirei o casaco e coloquei em cima da cadeira. Engatinhei sobre a cama, puxei seu cabelo do rosto e beijei seu pescoço. Ela levantou a mão e acariciou meu queixo, mas sem se virar. Puxei o edredom, fiz uma bola e o arremessei longe. Trouxe seu corpo para mim como quem pega um travesseiro leve de plumas. Ela riu e entrelaçou os dedos apenas e dormiu quieta dentro dos meus braços, sem mais exigências.

Quando acordei, estava sozinho. Abri mais os olhos, o sol já estava alto. Levantei e escovei os dentes no banheiro. Não havia ninguém na casa. Voltei para o quarto e encontrei uma grande bandeja de prata com um enorme café da manhã. Sentada na cama, comendo uma torrada estava Rebeca de cabelo preso.

_Está com tanta fome quanto eu? _ perguntou.

_Era para você? Ah! Pensei que fosse para mim. _ sentei e peguei um biscoito amanteigado.

_Você não se importaria se eu comesse também, não é? _ piscou e inclinou-se para beijar-me rapidamente os lábios e sorriu. _Vamos fazer um piquenique no rio?

_O dia deve estar ótimo! Claro. _tomei o copo de suco. _ E já começamos aqui, certo? _ ri, sentindo-me feliz. _ Dormiu bem? _ perguntei.

_Hum-hum. _ balançou a cabeça e deixou o mel pingar na boca em um fio denso vindo do pegador boleado na ponta. Riu com a falta de jeito, ou aquilo tudo tinha sido premeditado porque vários pingos estavam em seu queixo? _ Eu não poderia nascer uma ursa, não levo jeito para mel. _ riu alto e procurou o guardanapo. Sorri e beijei seu rosto de falsa inocente, lambi a área de armadilha e logo fiquei prisioneiro do seu beijo adocicado.

Tirei a bandeja da minha frente e pus em cima do criado-mudo, antes que com meu corpo grande e pesado derrubasse com uma só braçada. Seus olhos cintilavam em expectativa. Puxei sua camiseta e ela engatinhou em minha direção, se divertindo. Beijou-me com a cabeça acima da minha, brincando de descolar sua boca, sem aviso. Levemente bravo, virei-a sobre o colchão e prendi seus pulsos, beijando seu pescoço para o que ela teve uma crise de riso. O barulho da sua gargalhada feliz era tão alegre que eu sentia sair de dentro dela a mulher mais linda do mundo.

Sua irmã bateu na porta perguntando se poderia entrar e ela gritou que não.

_Ela vai ter que esperar. _ falou baixinho e eu sorri maliciosamente. _ Eu já esperei muito tempo. _ acariciou o meu rosto. Fechou a mão na corrente de prata que pendia do meu pescoço. _ Você é lindo, mais lindo ainda de perto. Eu desejei tantas vezes estarmos assim... _ riu e escondeu o rosto com a mão. _ Não sabe o quanto quero você.

_O quanto?

_O quanto pedir. _ sorriu Rebeca, a mais implacável negociadora da empresa.

Sorri também admirando o quanto podia ser bonita e a beijei com uma vontade já acumulada. Sua irmã bateu mais uma vez e ela fez um grunhido de irritação, rolando para o lado da cama e mandou que Michele abrisse. Diverti-me com a situação e peguei uma torrada da bandeja. Caminhei até a janela e vi o dia ensolarado que fazia lá fora. Depois de mil explicações de Michele, Rebeca trancou a porta e correu na minha direção e me abraçou por trás, era tão pequena perto dos meus ombros largos. Olhei para o lado e sorri, puxando-a para frente. O sol produzia um tom cintilante em sua pele. Envolvi-a nos braços e a beijei com toda a paixão que esperava e que meu coração começava a lhe entregar de boa vontade, conquistado.

14.8.09

Cap 70: Olhos bem fechados (Kali)

Do lado de fora da escola de dança, a irmã de Rebeca e seus pais nos esperavam cada um com um grande sorriso. Pareciam nos apreciar, peguei a mão dela para parecermos um casal.

_Vocês podiam viver aqui... _ Michele acariciou a barriga, enquanto falava. _ Vou poder dobrar o número de alunas... _ sorriu. _ E o Kali pode ir aos encontros de motoqueiros com o papai.

_Eu ia adorar. _ ri e olhei para Rebeca sorrindo sem olhar fixamente para algum ponto. Deveria estar imaginando a cena. Não parecia gostar ou reprovar, acho que o fato de estar sendo inclusa nos planos da família era o mais surpreendente e importante para ela. _ Onde vamos agora?

_Beber alguma coisa ora! _ Michele falou alto. Definitivamente, não é o que se espera de uma grávida esse tipo de convite.

Perguntei quem iria com a gente no carro e todos riram. Rebeca me explicou que não precisávamos de carro e apontou o bar do outro lado da rua. Ela entendia como para nós enfrentar trânsito para atravessar algumas quadras era parte da rotina, nada parecia perto. Ali, é como uma extensão da casa, se saia da farmácia e estava dentro do mercado ou padaria.

A música estava baixa e tranqüila. A família de Rebeca começou a conversar animadamente com um grupo de conhecidos que encontraram sentado no canto oposto do bar. Sentei em um banco junto à janela que me deixava com os pés fora do chão. Coloquei ao meu lado o pequeno copo de madeira com vinho. Respirei fundo e me senti bem. Estava longe do meu país, da garota que achava ter começado a gostar, da minha família, mas me sentia centrado. Às vezes, é preciso ir para longe e encontrar o seu lugar. Aliás, para mim esse lugar é o próprio movimento. Sou uma pessoa sempre em busca. Lembrei de Tamires, na verdade, refleti sobre o fato de pensar menos nela do que imaginava. Ligara algumas vezes pra ela, mas não tinha vontade de correr para o Brasil por sua causa. Eu queria muito ficar e curtir minha vida aqui.

Rebeca deixou a roda da sua família e caminhou em minha direção. Ficava tão jovial vestida com o collan justo e a saia preta curta. O agasalho de time de futebol lhe dava o ar de estudante secundarista. O cabelo solto, fora do coque estava desalinhado.

_É melhor tirar essa roupa de líder de torcida ou eu posso te confundir... _ falei em tom brincalhão e ela riu, abaixando a cabeça e levantando em seguida com um lindo sorriso rosado. Toda a luz da janela iluminava seu rosto. Perguntou-me o que aconteceria se eu a confundisse? _ Você que tem que me dizer... _ entrei no jogo das palavras certo de que não levaria a nada, era só mais uma brincadeira intelectual para exercitar seu cérebro.

_Como vou saber? _ Rebeca começou a fazer uma trança com metade do seu cabelo voltado para a frente.

_Definitivamente não combina com você! _ meus dedos se enroscaram nos seus, ela deixou-os escorregar e eu fiquei com eles entre os cruzamentos dos seus lisos e grossos fios sedosos. Desfiz o primeiro trançado com um leve deslizar do indicador, depois o próximo. Poderia ficar todo o tempo desfazendo seu penteado, mas logo acabou e só me restou o cabelo cascateando em minha mão. Tentei desvencilhar a mão passando por cima do ombro, mas virei a curva errada, querendo me perder no caminho e encontrei sua nuca, afaguei.

Sua família não prestava atenção em nós, então, porque ela não corria ou zombava de minha ousadia? Seus olhos estavam mais uma vez fixos na linha da minha boca. Rebeca deu só um passo à frente, mas pareceu um movimento de levitar sobre o chão, tão delicado e sereno como o de uma verdadeira bailarina.

O que eu via era uma linda garota jovem, sexy, de boca hipnotizante... Mas, era minha chefe, aquela tão temida que ficara dentro de alguma mala que provavelmente esquecemos no carro!

_Kali, Kali, tsi tsi, atrasado mais uma vez? _ sussurrou colocando magia e encanto no tom de voz quase cântico. Usava a mesma repreensão que me fazia com desdém quando eu ficava preso no trânsito. Agora, tinha um significado de leve impaciência.

_Você é a chefe. _ sussurrei. Não iria tomar atitudes e depois ser despedido de seus planos. Um dia, alguém iria se lembrar quem começou. _ Você é quem decide as coisas.

_Eu estou com cara de chefe agora? _ perguntou bem baixinho. Pareceu não gostar, como se eu tivesse a chamado de feia. Talvez não quisesse se lembrar de sua posição e sentir por um momento só uma estudante.

_Não. Mas, ainda tenho medo da morte. _ ri.

Rebeca cansou, agora definitivamente desapontada, e começou o movimento de virar-se quando a segurei com os dois braços e a trouxe para mim, suas mãos pararam sobre minhas pernas. Inclinei a cabeça para o lado e afastei seu cabelo com as duas mãos para beijá-la. Mas, a voz de Michele nos chamando me fez engolir em seco bem antes de minha boca tocar a sua. Piscamos duas vezes e ela recuou, procurando pela irmã.

Desci zonzo do banco. Mulheres, vinhos e chefes na mesma linha do coração são drogas pesadas para o dia. Eu tinha que largar essa vida. O pai de Rebeca ofereceu a moto para voltarmos juntos apreciando a paisagem. Ela não recusou. Acho que a idéia de ficar no carro comigo em silêncio era mais assustador que andar de moto. Precisava diminuir o impacto do que acabara de acontecer dando um bom intervalo de tempo. Subimos na moto e arranquei. A casa ficava bem perto e Rebeca não sofreria muito. Assim que chegou, ela seguiu para o quarto sem nem me olhar. Agradeci a seu pai por deixar da uma volta e devolvi as chaves.

Encontrei Rebeca de costas, tirando o brinco em frente a uma cômoda do quarto. Ela virou-se de repente e ameaçou começar o discurso que estava ensaiando. Mas, aquilo não era uma conferência com diretores. Eu não queria planejamentos, nem palavras. Joguei a jaqueta que acabava de tirar, na cama. Seus olhos conferiram a porta que eu já me encarregara de fechar ao entrar. Não estava representando para sua família, nem ali era seu funcionário. Isso a deixou ansiosa, mas tentou não transparecer, virou-se e voltou a tirar o outro brinco da orelha. Puxei-a pela cintura e, como em um passo de dança, ela girou perfeitamente o corpo pelo meu braço até parar em meu peito. A pérola do brinco voara pelo espaço e a tarraxa acho que nunca mais encontraremos. Dei um passo a frente e Rebeca ficou encostada à cômoda. Nossas pernas estavam uma entre a outra como em um passo sensual de tango. Passei a mão pela meia calça preta fina e sedosa que cobria sua coxa e ela fixou os olhos negros nos meus, sem vacilar. Então, queria mesmo a mim.

_Vamos ter que filmar, se quer que eles vejam. _ murmurei e inclinei todo o meu rosto, roçando o nariz no seu.

_Ninguém vai ver porque vamos estar de olhos bem fechados... _ o frágil braço sobre meus ombros fechou-se em um laço por meu pescoço e ela se pendurou, agora na ponta dos pés. Suspendi-a levemente quando meus lábios encontraram com força e desejo os seus, tomando-a inteiramente para mim. Ela riu e me dei conta de que a estava girando no ar enquanto a beijava com vontade. Respirou fundo, acariciei seus braços para que ficassem na mesma posição estendidos e não retirasse as mãos em volta do meu pescoço. Levemente dançávamos uma melodia que só existia em nossas cabeças. Era a música da felicidade que nos faz oscilar como pêndulos para um lado e outro. Eu não queria que o encanto acabasse, puxei-a novamente pela cintura e a beijei mais, querendo sentir novamente sua boca quente e receptiva. Nosso abraço se encaixou perfeitamente e a envolvi com carinho. Entendi ali que eu também quis muito antes esse beijo, mas nem me permiti pensar nisso com a hierarquia nos separando. Puxei dos seus braços o agasalho e com um rápido movimento o atirei na cama. Acariciei sua pele sedosa e a senti firme em minhas mãos. Eu queria Rebeca sem hora de saída, sem crachás, sem salas nos separando. Afastei o cabelo e continuei o beijo como se fosse só o começo da melhor parte. Suas mãos frias tocaram minha cintura por baixo da camisa e entendi que precisava de um pouco de minha pele também para ter o prazer tátil. Porém, isso foi como passar a marcha e eu comecei a lhe tirar todo o ar e, por mais que escalasse o meu pescoço, ela parecia não acompanhar e se sufocou. Afastou um pouco a cabeça e vi o contorno rosado em sua boca, era muito frágil a qualquer toque mais intenso. Não queríamos parar, era uma súbita reação de calefação em que nossos corpos evaporavam. Minha temperatura subira rapidamente. Já estava pronta para mais uma vez receber meus lábios afoitos, fechou os punhos nas minhas costas, levemente suspendendo com isso a camisa. Agora, eu estava em quinta com todos os radares piscando atrás de mim.

_Reb... _ Michele entrou no quarto, mas fechou a porta novamente.

_Tudo bem, pode entrar. _ ela afastou-se de mim e engoliu em seco, olhando para a irmã com a cabeça na porta.

_Só queria pegar uma jaqueta que está nesse guarda-roupa.

_Claro. _ Rebeca passou a mão na nuca e olhou para o chão todo o tempo até que sua irmã saiu e fechou a porta.

Caminhei até ela e tirei o cabelo do seu ombro e antes de beijar-lhe a bochecha disse para não se preocupar e isso lhe abria margem para qualquer interpretação que quisesse dar. Deixei-a sozinha. Sua cabeça devia estar muito pior que a minha.