28.7.09

Cap 67: Um trabalhinho pra você (Kali)

(Alguns meses atrás...)

O escritório estava agitado como sempre em seu volume abafado: sorver de café, teclados enfurecidos, clics de mouses, impressora cuspindo papéis, dezenas de diferentes tipos de toques de telefone e um zumzum de discursos entrecortados. Girei o punho fechado sobre a alça da mala de rodinhas. Contive o passo antes que me notassem em pé à porta de vidro da entrada do grande salão dividido em baias beges. Eu estava de volta aos EUA depois da minha estadia na casa dos meus pais.

O vôo do Brasil tinha sido bastante cansativo, principalmente porque me despedir de Tamires fora desgastante, como deixar em aberto um caso que não tinha qualquer previsão de acontecer. Não devia ter escrito aquele e-mail sobre meus sentimentos, isso só atrapalharia meu futuro, se eu não quisesse mais voltar. Ela era uma garota esperta, logo se arranjaria no emprego que eu lhe conseguira na empresa do meu amigo Vítor. Ele a entrevistaria em breve. Agora, eu tinha que focar em mim, estava pronto para voltar ao trabalho.

Assim que entrei, vi as cabeças subirem sobre os monitores. Alguns gritinhos, aplausos, tapinhas nas costas. Ri alto, eu era o único capaz de quebrar a paz e ordem do ambiente. Levara um tempo para conquistar o espaço, mas agora ele era meu. Tamires não compreenderia isso, será que um dia conseguiria explicar-lhe o quanto queria voltar?!

Meu amigo Mark aumentou a música que acabara de soltar das caixinhas de som e eu balancei a cabeça para os lados negativamente, eu sabia reconhecer o quanto aquele contador era um excelente DJ nas horas vagas! Vivia de fones no ouvido balançando a cabeça para os lados, mas ninguém reclamava do seu estilo de trabalho, já que era a sua maneira se saia muito bem. A filosofia da empresa é que cada um tinha direito de ter suas próprias esquisitices se isso rendesse lucro e inovação.

Saíamos nos fins de semana e eles conheciam o quanto eu gostava de street dance, já havia parado em uns campeonatos locais e tudo. A música de Mark era uma provocação para verem se eu era o Kali de sempre. As duas secretárias, Sue e Tina, bateram palmas. Sorri e olhei para a porta de vidro da sala da chefona. Mark abanou a mão explicando que ela estava longe. Tirei o paletó lentamente, fazendo charme de quem estava muito intimidado. Isso só aumentou o friesson. Ok, era só eu e meus vinte colegas de trabalho, podíamos nos divertir um pouco. Pisquei o olho para meu amigo Sam que devia estar nos olhando pelas câmeras de segurança.

Inclinei a cabeça para o lado e fingi tocar com o dedo indicador na ponta de um chapéu invisível teatralmente, depois estiquei o suspensório imaginário e o soltei. O pé direito se apoiava só no calcanhar quando remexi os ombros e depois os movimentos rápidos das pernas e braços arrancaram suspiros e risadinhas de admiração. Rodopiei o corpo e, quando me preparava para fazer um passo no chão, ouvi duas palmas secas e arrastadas.

Os pares de olhos aterrorizados imediatamente se fixaram em um ponto atrás de mim. Parece que foram puxados por uma corda amarrada em seus pés. Abruptamente sentaram à procura da primeira folha, agenda ou pasta que viram pela frente, em disfarce.

Não ousei me virar imediatamente, eu já sabia quem era: Rebeca, a Temida. Peguei meu paletó em cima da mesa, calmamente.

_Vejo que está com energia para trabalhar. _ a voz era enérgica e ácida.

Encolhi os ombros e depois o projetei para frente para encaixar no paletó. Ajeitei a gola com as mãos. Rebeca sabia que perdera seu melhor assistente quando eu voltara para o Brasil e devia estar bastante feliz de tê-lo de volta. A minha diferença para os demais é que eu sabia o quanto ela precisava de mim, mesmo que nem Rebeca se desse conta disso. Elegantemente me virei sobre os calcanhares e encontrei seus olhos negros e de cílios compridos. Era mais baixa, porém, seu salto alto nos igualava. O rosto branco e liso parecia mármore gélido. O cabelo castanho escuro estava para trás, amarrado em um rabo de cavalo que parecia feito para um casamento, sem nenhum fio desfrizado. Um par de brincos de pedras grafites. O terno preto justo parecia costurado ao seu corpo. Ela tinha um copo de café na altura do queixo, me analisando.

_Estou bastante motivado. _ sorri abertamente em auto-segurança e dei um chutinho na bagagem. Na verdade estava sendo sarcástico, eu não sabia qual hotel me reservaram.

_Ótimo. _ ela inclinou a cabeça alguns poucos graus para o lado, franziu o beiço e pareceu passar mentalmente uma lista de tarefas impossíveis para me punir. _ Já sabe o que tem que fazer. _ caminhou para sua sala e a segui. Senti alguns olhos pelos meus ombros em adoração. Eles me tinham como um herói, mas eu não via grande dificuldade em lidar com aquela leoa alfa.

Deixei a mala no canto da sala e vi que minha mesa estava intacta, sem qualquer modificação. Passei o dedo no tampo, peguei uma caneta e suspeitei que ninguém havia ficado no meu lugar. Por que não agüentaram ou por que ela não quis? Instantaneamente busquei uma resposta olhando para Rebeca, como se ela pudesse ler meu pensamento.

_Quer que eu te mostre suas gavetas? Vamos! _ estalou os dedos para eu acordar. Quase tive certeza que ela percebeu minha surpresa.

Atirou sua agenda na ponta da mesa e a peguei antes que caísse no chão. Abri na data de hoje e vi que daqui dois dias ela tinha férias compulsórias. Rebeca vivia tanto para o trabalho que só tirava férias quando obrigada. Duas semanas apenas. Não era possível ficar longe por um mês inteiro, era um cérebro importante demais para se afastar por tanto tempo. O que tinha de rude, fria e insensível, tinha de genial.

O telefone tocou, apertou o botão do viva-voz e continuou a digitar no computador. Ela era o tipo que comia, falava ao telefone, digitava e lia ao mesmo tempo em sincronia.

_Alô? Rebeca? _ a voz infantilizada a fez saltar ferozmente sobre o aparelho para apertar o botão que desabilitava o viva-voz, mas esse pareceu não funcionar. _ E, aí, mana? Preparada para as férias em família? _ a garota deu uma gargalhada sinistra.

Rebeca fez sinal para eu sair, visto que não conseguia desligar. Suas bochechas ficaram levemente rosas por baixo da camada de pó. Aproveitei para buscar um copo duplo de café, precisava conter o sono. Liguei para os meus pais para avisar que havia chegado bem. Eles estavam aflitos, pensando que eu estivera em um vôo que caíra, mas felizmente o mal entendido fora desfeito. Pedi que aliviassem Tamires da angústia de não saber meu paradeiro.

Quando voltei para a sala, Rebeca estava em seu celular. Aposto que decidira ligar para a irmã a fim de ocultar parcialmente a conversa. Sentei à minha mesa e liguei o computador. Ajustei à hora local e abri meu e-mail.

_Eu não vou levar o meu namorado... _ a voz sussurrante de Rebeca era um chiado quase irritante no fundo da sala, mas algumas palavras chamaram minha atenção. A primeira delas foi “namorado”. A dama de ferro estava sendo traçada?! Ótimo, eu a teria bem humorada todas as manhãs. _Não! Eu não tenho que levá-lo na festa da... Não! Eu não vou levar! _ agora ela estava gritando. Levantei os olhos da tela e a peguei me fitando com a boca entreaberta. _ Ok, ok, você venceu! Eu não vou deixar a vovó morrer sem o gosto... _ parecia estar repetindo ironicamente a fala da irmã. _ ... Não! Eu não estou debochando de você! _ justificou-se, cansada de lutar agora. _ ... Eu vou levar, já disse!

Peguei meu copo de café e tomei um gole. Rebeca só perdia o equilíbrio com a própria família. Isso me deixava bastante curioso. Eles deveriam ser as pessoas mais conservadoras, chatas e exigentes do mundo!

_Eu preciso trabalhar. O que quer mais que eu diga?! _ ela cruzou os braços no peito. _ Quer que eu o descreva? Não está acreditando? Hum... Ele é alto, forte, simpático, hum, negro...

Franzi a testa e levantei as sobrancelhas. Ela disse negro?

_Ele é atlético, é... ah, que bom que já está suficiente pra você! Sim, namoramos há um bom tempo... Qual é, você acha que eu vivo só para o trabalho?! Vocês verão, estaremos aí em breve. O nome dele é Kali.

Derramei o café nas minhas pernas e empurrei a cadeira para trás. Eu tinha acabado de fazer ovos fritos e acho que nunca mais poderei recuperá-los, mas a confusão mental sobrepôs minha preocupação com a queimadura.

_Vocês vão amar conhecê-lo!

_Não! _ sussurrei, gesticulando com as mãos.

_Claro que Kali poderá ir, coincidentemente ele também estará de férias. A gente sempre programa as coisas juntos.

_Está maluca?! _ fiz caretas.

_Beijos, querida. _ desligou.

Corri até sua mesa e, antes de abrir a boca, ela levantou a mão no ar:

_Será só um trabalho fora do escritório. Vou precisar de você ãnh... _ ela deu uma tossidinha, tentando fazer a voz soar o mais profissional possível. _... para um servicinho. É sempre bom receber um salário extra.

_Hei! Eu estou aqui para ser um ilustrador. Se bem que até agora eu fico fazendo “servicinhos”... _ nunca tinha tocado no assunto daquela forma. _ Mas... já que esse é especial, minha bonificação também será especial.

_Nunca me surpreende, Kali. _ balançou a cabeça e suspirou pesadamente, já escrevendo meu nome em sua agenda.

_Quando voltar, eu vou trabalhar como editor de arte da campanha de carros da...

_Hei! Quem escolhe aqui sou...

_... Você me escolheu primeiro para uma coisa quem nem me consultou, agora... será uma troca justa. _ olhei-a em desafio.

Rebeca estava tremendamente furiosa, mas sabia que estava metida em uma enrascada. Como cumpriria seu trato com a irmã depois de descrever especificamente o seu falso namorado?

_Ok. _ engoliu em seco como se estivesse que comer uma bola de pano.

_Por que eu? _ perguntei.

_Porque é exatamente o que eu preciso... para o target.

Ela estava me tratando como uma embalagem plástica, ou um display inovador, mas minha preocupação não era nessa objetação e, sim, no motivo exato de pensar em mim. Se sua família era tão conservadora, eu seria uma afronta perfeita? Imigrante, negro, sem formação formal, palhaço, dançarino de street dance? Eu era a piada para atirar na cara dos pais?

Se esse era o preço, Rebeca teria que me pagar à altura. Era inegavelmente arriscado, mas tentador. Qual o poder que eu teria depois de guardar os segredos da leoa alfa?!

_Temos um jantar de negócios muito importante! Vamos comprar uma roupa para você no caminho. _ pegou sua pasta, sem nem me perguntar se eu suportaria mais trabalho depois de chegar de viagem.

Entramos vinte minutos depois em uma loja de roupa masculina social e Rebeca estendeu o cartão de crédito para a vendedora antes de qualquer coisa. Disse que queria uma blusa da cor tal, tamanho tal, tecido tal, calça tal, tecido tal, tamanho tal, caimento tal e apontou para mim, sem me olhar. Depois, sentou-se em uma poltrona redonda vermelha no corredor das cabines.

_É assim que sempre compra roupa para seus namorados? _ perguntei com ironia.

_Não seja ridículo. _ respondeu sem ênfase, clicando com a caneta em seu palm. _Se tivesse um namorado ele não precisaria de mim para isso, nem compraria aqui...

_Hum... _ abri os botões da camisa.

_Aquelas cabines são feitas para isso. _ apontou, surpreendendo-me como conseguia prestar atenção em mim e no computador ao mesmo tempo. Se alguém chegasse com uma arma em suas costas era capaz de enfiar a caneta em seus olhos.

_Senhor, trouxe aqui algumas peças... _ a vendedora aproximou-se.

_Ande, Kali. _ Rebeca bateu com a unha no vidro do relógio.

Troquei um olhar com a vendedora que segurou o risinho no canto do olho. Eu me sentia um boneco ridículo e manipulável.

Abri com força a cortina do trocador e depois a puxei quase deixando cair o bastão que a segurava. Vesti-me e tudo caiu perfeitamente bem, como se Rebeca soubesse desde sempre minhas medidas. Eu tinha escrito algo sobre isso nos formulários do RH algum dia?

_Kali, você não vai desfilar! _a voz de Rebeca soou atrás do pano vermelho. Puxei-o.

_O que acha do seu namorado? _ perguntei com sarcasmo.

Seus olhos subiram do meu cabelo ao dedo dos pés descalços duas vezes.

_Não repita mais isso! Não é meu namorado! _ falou sem prestar atenção no que dizia. Abri o único botão que fechara da camisa e a puxei rapidamente para trás. _Não faça isso! _ ela umedeceu os lábios e tentou não olhar para o meu peito. _ Esqueceu que vamos à reunião?

_Sim, claro. _ voltei a vestir.

_Como pode ser tão narcisista? _ bufou. _ Se eu não gritasse, estaria aí encantado com o próprio reflexo! Argh... _ irritou-se e eu franzi a testa. Ela estava maluca?! _ Três minutos para me encontrar no carro!

Já sentado ao lado de Rebeca voltei a pensar na sua família. O que a fazia se sentir tão desconfortável? Era uma mulher muitíssimo inteligente, bem sucedida e era até... posso dizer, bonita. Não sexy, não conseguia vê-la como mulher, era quase um homem de tanta força e atitude. E se a família que temia era tão conservadora quanto ela, por que eu?! Acho que a resposta era bem simples: Rebeca poderia me descartar. Qualquer outro cara de nome reconhecido não aceitaria tal proposta.

_O que devo levar para a viagem? Acho que tenho que comprar roupas novas? Temos que falar sobre isso...

_Não! _ ela aumentou o tom de voz, preocupada com aquela minha súbita idéia. _ Deixe tudo como estar, não mude nada em você. Está perfeito!

_Rebeca, você está me levando para eu fazer o papel de bobo da corte idiota? _ perguntei para que pudesse enxergar que o dinheiro ou as recompensas de cargo não estavam à altura de uma grande humilhação.

_Não... _ balançou a cabeça para os lados. _ Você vai entender. _ sua voz saiu triste e cansada. _ Podemos nos concentrar na reunião? _ pediu. _ Estou cansada, só quero que o dia acabe logo... _ consegui vê-la tão frágil naquele momento. Eram poucos assim, mas às vezes ela era bem indefesa.

“Alto e forte”, foram um dos predicativos que usara para me descrever. Será que Rebeca precisava de alguém para dar-lhe forças?! O que me aguardava? Eu começava a ficar muito ansioso com isso.

22.7.09

Cap 66: Beijo etílico (Tamires)

nickelback - Never Gonna Be Alone


O barulho de seus passos de Vítor, no corredor do segundo andar, era como batidas fortes no tambor que se tornara meu coração, pulsando violentamente no peito. Foi preciso engolir em seco e puxar mais a respiração. Mal podia esperar para reencontrá-lo. Desde que recebera seu telefone nesse sábado pela manhã dizendo que chegara a cidade, eu só pensava na hora de ir até sua casa e revê-lo.

Todos os meses de tensão máxima, de nervos em frangalhos para me manter neutra perto de Vítor havia acabado. Agora, eu estava livre e era tão assustador. Eu não queria estragar nada, nem me decepcionar. Não tentar me deixava no plano do incorruptível. Estar pronta para começar implicava em me atirar a sorte dos meus erros.

Meus olhos ansiosos olhavam o primeiro degrau do topo da escada para ver quando ele apareceria depois de um mês de distância e quatro e-mails apenas trocados. Eu agüentara firmemente e fizera tudo como ele pedira. Conversei com Kali, esperei que entendesse, deixei a situação se estabilizar como encerrada e pronto: lá estava eu no centro da sala da casa de Vítor, pronta para ser inteiramente sua. O que chamávamos de “nós” agora era finalmente um ser duplo indivisível.

Entrelacei os dedos e os estalei em agonia. Os segundos pareciam intermináveis. Uni as mãos na altura do queixo e levantei os calcanhares, inquieta. Sua última visão em minha mente era de Vítor me envolvendo pela cintura no portão de casa e, depois, partindo em alta velocidade no carro preto. Mas, também poderia lembrá-lo me empurrando para a mesa da saleta dos computadores, me tomando para nosso primeiro beijo, o pôr do sol na fazenda... Lembrar ocupava minha mente, mas aumentava a ansiedade.

Meu nariz sentiu primeiro sua presença. O perfume que vinha do corredor era tão delicioso que fechei os olhos e o aspirei com vontade. Ao abri-los novamente, encontrei o rosto mais lindo que poderia existir no primeiro degrau. Seu cabelo molhado e espalhado pela testa era a moldura mais perfeita para sua expressão descontraída. A camisa branca e o jeans azul. Simples e estonteante. A emoção começou a formar uma cortina de lágrimas nos meus olhos e minha garganta se fechou para qualquer palavra.

Ele me observou com admiração. Eu tinha escolhido entre todos os vestidos o mais alegre para representar meu estado de espírito. Era um com decote em forma de m, tomara que caia, franzido, feito de um tecido florido escuro. Brincos pequenos e o cabelo perfeitamente cuidado. Refiz as luzes nas pontas e uma mega hidratação que deixara os cachos encorpados. Sorri-lhe e isso lhe provocou o ímpeto de descer a escada e sair da sua posição de observador, mas o fez vagarosamente. Acompanhei seu percurso com os olhos e a cada passo a adrenalina aumentava.

Já no nível do chão da sala, vi que estava descalço. Parecia deslizar no ar e rapidamente estava diante de mim. Esperei alguma palavra, cumprimento, exclamação, mas seu sorriso ainda aberto retratava a mesma felicidade que eu emanava com os olhos brilhantes. Um movimento foi seguido do outro. Eu estiquei o braço para puxar sua camisa e ele envolveu minha cintura. Meu rosto se inclinou para a esquerda e o seu para a direita. Seguramo-nos por dois segundos, disputando o mesmo ar. O perfume agora adocicava meu corpo por dentro à medida que eu inspirava. A bomba relógio regressivamente chegou ao limite zero e explodimos em um beijo de saudade, procura, desejo, encontro. Dedilhei seu cabelo e senti suas mãos passeando nas minhas costas enquanto nossas bocas se consumiam com fervor.

Ouvi uma tossidinha atrás de mim. Vitor afastou o rosto e eu olhei para trás. Sua empregada avisou que estava tudo pronto e que já iria embora. Ele consentiu com a cabeça e quando a porta se fechou, voltou a olhar-me com paixão, ainda enlaçado a mim.

_Como eu te amo! _ falei baixinho e o beijei levemente, delicada e serena agora.

_Foi quase insuportável ficar longe esse tempo todo... _ sorriu, encostando sua testa na minha, acariciou meu queixo com seu polegar. _... Nem acredito que estou aqui com você assim, podendo te ter inteira para mim!

_Eu também não. _ ri, nervosa, era incrível para mim também.

_Meus pais saíram e só voltam no domingo à tarde... _ sussurrou baixinho. _ ... Por isso que te chamei.

_Hum... _ sorri, timidamente. Quando ele fizera o convite por telefone, não achara nada interessante. Ao contrário de Kali, que me provocara arrepios quando pedira para ficarmos sozinhos, tudo que eu desejava era ficar com Vitor e mais ninguém por perto. Aquela casa silenciosa me parecia exatamente o que eu tinha em mente. Como ele podia me conhecer tão bem para saber o que me fazia feliz?

_Espero que goste. _ olhou para o lado e, em seguida, me puxou gentilmente pela cintura até a mesa do canto da sala. Estava ricamente posta com pratos de porcelana, talheres de prata, guardanapos vermelhos e branco. _ Um jantar, nosso primeiro oficial.

Ri alto e isso o deixou apreensivo, com umas rugas na testa.

_Desculpe, adorei. É que a ficha não caiu ainda, talvez a garrafa de vinho ajude. _ sentei-me e ele também.

_Vai ajudar... _ ele riu e aproveitou para abri-la. Depois, entregou-me uma taça servida. _ À nós! _ brindou e bebemos um longo gole.

Inclinei meu rosto e provei o gosto de seu beijo doce e etílico.

_ Eu acho que vou ficar bêbada disso hoje. _ brinquei e o beijei mais depois do segundo gole.

_Vamos comer?

_Está tudo lindo! _ elogiei e peguei o guardanapo para abrir no meu colo.

Katy Perry - Thinking Of You


Nos servimos de uma massa com muito queijo e carne feita com um delicioso molho. Não conversávamos, apenas havia um doce silêncio e nossas mãos se acariciando a todo instante. A nossa sintonia era perfeita. Ao terminar, levei a garrafa para a mesa de centro e apoiei nela as duas taças. Enquanto isso, Vítor apagou as luzes da sala e deixou apenas dois abajures ligados no canto. Não esqueceu a música baixa no som do armário. Ele tinha lido o roteiro daquela noite magnífica em algum site ou livro sobre 10 maneiras de se agradar uma mulher em um encontro romântico?!

Tudo estava no ponto, temperatura, luz, forma e sabor certo que poderia ser um sonho. Mas, era incrivelmente real, pois senti suas mãos quentes me puxarem para o sofá. Beijei-lhe com o amor que preenchia todo meu coração, com a gratidão por sua espera e com admiração por seu respeito a minha relação anterior. Ele merecia que eu fosse inteiramente sua agora.

Era isso que havia do outro lado do morro que tive que escalar para chegar ao seu encontro: paz, felicidade, realização. Nossa entrega foi a conquista do cume de uma amizade que, na verdade, era amor.

Suspendeu os braços para que eu tirasse sua camisa. Atirei-a no chão e ele sacudiu a cabeça para os lados, afastando o cabelo dos olhos. De joelhos, fiquei mais alta. Beijei seus lábios e depois minha boca escorregou pelo queixo até se perder na pele macia e cheirosa do pescoço. Suas mãos impacientes também puxaram para baixo as alças do vestido que o impediam de chegar a pele nua e bronzeada dos meus ombros e colo. Em seguida, as mãos pesadas e fortes suspenderam com muita urgência o tecido enrugado do vestido que encobria minhas coxas. Gentilmente empurrou-me para trás e engatinhou por cima de mim até os olhos felinos em incêndio ficar acima da minha cabeça, fitando diretamente minha boca sedenta. O cordão que sempre usava pendulou no ar e roçou o vale entre os meus seios. Senti um leve arrepio. Sua mão segurou meu rosto e o polegar acariciou minha bochecha e pressionou meu queixo. Estiquei os braços e puxei sua nuca, afagando seu cabelo. Lentamente, sua cabeça inclinou-se para o lado e os nossos lábios se umedeceram, deslizando em uma degustação vagarosa, depois se consumiram famintos.

Vem comigo, me chamou se pondo de pé. Deixei que me conduzisse pela mão para o andar de cima. Quando a porta do seu quarto fechou-se atrás de mim, ousei brincar:

_Com quantas já não fez esse trajeto?

_E com Kali também...?_ sua voz saiu roca e ofendida, mas em desafio.

Sentei-me no centro da cama e arrastei-me pelos calcanhares de costas para chegar mais perto da cabeceira:

_Nunca será como é com você... _ minha voz saiu tão sedutora que poderia ser o canto de uma sereia. Vitor ajoelhou-se sobre a cama e engatinhou apressado até apoiar-se com as duas mãos sobre o colchão. Nossos narizes se roçaram.

_Com nenhuma foi como é com você... _ sussurrou. _ Eu voltei a viver porque ainda precisava sentir isso... _ beijou-me com força e vontade e minha cabeça recostou-se sobre as almofadas e travesseiros macios.

Fechei os olhos, o corpo inteiro queimando em brasas, pulsando, vibrando, se contorcendo de desejo. Tínhamos toda a noite para novos sabores, afagos, confissões secretas ao pé do ouvido. Até que chegamos a um êxtase sufocado que se silenciou com um sono profundo, braços e pernas entrelaçados, corações sobrepostos. Já éramos eternamente um.

Senti duas horas depois, dedos mexendo nos meus cachos. Sorri e meus lábios devem ter provocado cócegas em seu peito nu. Perguntou se me acordara. Puxei o lençol mais para cima e percebi que ainda era noite e estávamos em seu quarto. Beijei sua pele cheirosa e macia. Abracei com mais força e necessidade.

_Eu queria te propor uma coisa.

_Hum... _ murmurei, sem mover a minha cabeça.

_Vem morar comigo em São Paulo?

Fiquei em silêncio, processando suas palavras. Primeiro relutei contra as amarras que me prendiam: família, faculdade, amigos, trabalho. Depois de ver que para tudo isso tinha uma solução cabível, senti medo do novo desafio. Por fim, ressenti a paz de estar em seus braços, o aconchego daquele amor perfeito. Sorri, aliviada.

_Ainda está aí, acordada? _ perguntou.

_Hum-hum...

_Eu estou terminado de estabelecer o escritório, me escrevi em uma nova faculdade... _ começou a contar e me pareceu que estava montando uma argumentação. _... Não quero ser alguém que vai partir da sua vida de novo. Se for para ficarmos juntos, eu posso voltar e deixar tudo para trás...

Levantei o rosto para olhar o seu e isso fez com que ele parasse de falar, em atenção. Ergui-me mais e apoiei o corpo no cotovelo. Abri um sorriso delicado.

_Não quero ficar mais nem um minuto longe de você, seja em qualquer lugar. _ respondi.

_Nem eu! _iluminou-se ao entender isso como um sim.

_Vou precisar organizar tudo, falar com a minha família, mas eu quero ficar ao seu lado, assim, sempre. _ segurei seu rosto. _ Eu te amo muito, Vítor.

_Eu também. _ recostou-me no travesseiro outra vez. _ Eu também... _ calou-se com os beijos que me cobriram.

Fechei os olhos e nos envolvemos outra vez.

20.7.09

Cap 65: Decisões (Tamires)

Priscila e Luis ninavam o bebê e o enchiam de carinhos com as pontas dos dedos. A felicidade de ambos era tão emocionante. Peguei-me a olhá-los absorta. Ela percebeu e entregou a criança para Luis. Veio sentar ao meu lado no outro sofá. Eu tamborilei com os dedos no copo de refrigerante já morno em minhas mãos.

_Ansiosa? _ sentou ao meu lado e me abriu um largo sorriso maternal.

_Sim.

_Isso soou como um “não, mas se sim é o que quer, sim”. _ ironizou com uma careta, procurando falar baixinho.

Priscila era uma mulher incrivelmente linda, inteligente, amiga e doce. Vi em sua história o meu espelho. Ela perdera sua amiga por causa de um amor que nem valera à pena, mas que lhe rendera um filho. Eu tinha mais certezas sobre isso, amava verdadeiramente Vitor. Mas, será que poderia garantir que ele também ficaria sem sua amizade com Kali?

_Eu vi o quanto ficou desesperada quando pensamos que ele tinha morrido no acidente de avião. _ lembrou-se. Eu realmente sentira que perdera a chance de estar com um cara por quem me interessara. Mas, o que eu tinha naquela época? Apenas um beijo na porta da faculdade. Agora, com Vitor, havia uma história real de amizade, companherismo e amor. _ Ele está de volta! _ tocou na minha mão e eu não sorri. _ Hum... Saquei, tem alguma parte da história que não sei? Oh vida, eu estou realmente em dívida com você, querida. Tanto trabalho, ainda tenho que cuidar... _ culpou-se.

_Está tudo bem. _ sorri afável, eu não poderia cobrar nada dela.

_Por que não vamos lá para o escritório? _ apontou com a cabeça para a saleta à nossa esquerda e anunciou a Luis que ia me mostrar uns livros de Direito que queria me dar.

Ele não prestou atenção, continuou fazendo caretas e vozes de desenho animado para arrancar risadas do bebê em seus braços.

Quando Priscila fechou a porta atrás dela, eu senti certa claustrofobia. Não teria para onde correr e ela não aceitaria meias palavras. Lambi os lábios, respirei fundo e decidi contar-lhe tudo que havia se passado desde a ida de Kali até sua chegada a qualquer momento. Ela já sabia algumas partes vagamente, mas agora eu pintara o quadro com riquezas de detalhes.

_Essa não... _ ela gemeu quando se deu conta das proporções que tudo tomara. _... Posso dizer que ele foi bem maduro e prudente. Se afastar foi a melhor coisa que fez.

_Tá. Mas, não planejo ficar assim para sempre. Eu quero conversar com Kali primeiro e depois ficar com Vítor.

_Nada disso diminuirá o sentimento do Kali de traição. Eu sei que vai fazer do jeito certo e tal. Mas, querida, quando ele vir que o amigo conseguiu o que era para ele conseguir, adiantará bem pouco todos seus planos. O homem é competitivo, não adianta.

_Exceto se...

_Exceto o quê? _ ela franziu a testa. Sabia que para todos os casos havia uma brecha.

_Se Kali também estivesse a fim de outra pessoa.

_O que te fez leva a crer nisso?

_Ora, ele esteve sempre distante, é bonito, inteligente, extrovertido... Pode perfeitamente ter saído com outras mulheres lá...

_Mas, ele está de volta! E, lógico, não vai te contar se ficou com alguém. Afinal, é muito confortável o papel de vítima.

_Ele também já foi um dia embora! _ rebati. Estar de volta não atenua a quão desamparada já estive um dia. _ E não quer dizer que todas as suas decisões tome por minha causa. Ok, não tenho que me apoiar em esperança nenhuma, o fato é que agora meu coração é inteiramente de outro.

_Esse amigo dele se torna quase impossível... _ traduziu o que para mim já era óbvio há muito tempo. _ Mas, querida, vejo que o Vitor tem muito amor por você. Não é fácil se retirar de cena para te dar espaço de “fazer a coisa certa”. O nosso coração não escolhe a quem amar, mas nossa cabeça consegue escolher a melhor maneira de levar isso adiante. Não é porque você está apaixonada pelo amigo dele que vai fazer tudo pelas costas. Nesse ponto, foi muito prudente os dois darem um tempo e ficarem bem longe. Assim, será mais fácil, ou mais certo, acho que fácil não é...

Suspirei e fiquei olhando o tampo da mesa em silêncio. Eu não me sentia bem, tudo que queria era sair daquela casa e me livrar logo da missão de encerrar o caso por completo. Eu tinha urgência para ser feliz com quem queria. A vida que me trouxera de volta tinha um relógio contado. Não iria desperdiçar nada com hesitações.

Beyoncé - Halo


O aviso da mãe de Kali batendo na porta nos fez levantar. Na sala de jantar, assim que chegamos, já estava ele abraçado ao seu irmão. Olhou-me com um largo sorriso no rosto e meu coração bateu mais forte do que o normal. Senti-me culpada por isso, mas era meu corpo respondendo sozinho. Kali atravessou a sala a passos largos e me puxou para um longo abraço. Beijamo-nos rápido nos lábios e aquilo foi muito estranho, pouco íntimo, fora de contexto, uma formalidade.

Fiquei todo o jantar tensa, olhando furtivamente para o relógio, fingindo sorrisos, focando meus olhos nele para prestar atenção nas histórias de suas viagens. Na verdade, meu pensamento estava muito longe, em Vitor. Ele essa hora devia estar no apartamento novo. Gostaria de poder tocar sua campainha com uma pizza e passar a noite abraçada, curtindo um filme, uma música, uma conversa, um vinho, qualquer coisa ao seu lado.

_Vai querer que eu te leve em casa? _ a pergunta de Kali era retórica, mas inevitavelmente me deu brecha para comparar com o modo como Vítor me conduzia carinhosamente para seu carro, transformando a gentileza em “parte da relação natural da nossa amizade”. Não havia cogitação de me deixar à pé.

_Vou adorar. _ aceitei e desconfiei que ele estava ansioso por um momento sozinho comigo. Eu também estava, por outros motivos, claro. Da última vez, eu lhe cortara quando quisera curtir a noite ao meu lado, agora tudo se tornara mais possível e eu queria justamente acabar com suas esperanças quanto a isso. Tudo que sempre pedi vinha a se tornar realidade e eu me debatia contra a correnteza.

No seu carro não havia o porta CDs com as minhas músicas prediletas, nem o perfume que gostava pairando no ar, nem aquela voz, nem a mão de Vitor... Ali estava Kali, só isso. Tentei dividir meu cérebro em dois e não misturar aqueles dois homens em minha cabeça.

_É... _ limpei a garganta com uma tossidinha quando parou o carro na frente da minha casa. _ Eu sei que está muito cansado, mas precisamos conversar. _ mordi o lábio interno.

_Eu já chego e quer conversar? _ fez uma careta e se aproximou para me beijar. Então, ele preferia que eu ficasse calada com meus próprios conflitos e entregasse meu corpo. Como se alma e pele fossem coisas dissociadas ou ao menos deveria se comportar assim.

_É, precisamos. Até para não restar dúvidas que fiquei te enrolando para falar...

_Ãnh... _ ele voltou a se recostar no banco, com cara de tédio. _Arrumou outro? _ As duas palavras que formavam a acusação em forma de pergunta conseguiram cair sobre mim como ácido. Eu levara meses para sublimar o fato e ele me resumia como uma mulher que poderia perfeitamente ter me relacionado com outro nas suas costas? O que acontecera com Vitor não fora fácil assim.

_Não é nada disso. Tem a ver comigo e com você.

_Hum... _ quis mostrar que se esforçava para prestar atenção, mas já achava uma besteira.

_Eu fiquei aqui sozinha quando você foi embora. Segurei a barra e aprendi que podia lidar bem com isso, até que me vi completamente erguida de novo. Eu não te critico por ter ido embora, mas não me cobre por não ter sofrido todo tempo, é isso que se espera de quem fique. Eu estou bem e quero ficar sozinha. É uma coisa que acontece aqui dentro e... me desculpe, te acho muito legal, mas, quando certos relacionamentos não se passam no tempo certo, eles não virão mais acontecer. Eu quero te dizer que estou feliz que tenha conquistado mais espaço na multinacional que trabalha, que agora esteja perto dos seus pais, mas não se pode ter tudo. Não faço isso com raiva ou por vingança, mas só porque desejo estar sozinha. É isso... _ suspirei aliviada.

_Ok, acho que posso compreender. _ limitou-se a responder, sem me olhar, estava bastante distante em alguma aparente recordação. _ Eu realmente estou cansado, se quiser conversar mais sobre isso, pode ser amanhã?

_Isso era tudo. Mas, se precisar de algo, estou aqui como amiga.

_Ok. _ ele ligou o carro novamente como deixa para eu cair fora.

Seu carro virou a esquina e eu continuei parada na calçada. Tinha sido tão fácil, disse e ele aceitou. Sem acusações, perguntas ou palavras duras. Eu não deveria desejar sofrer, mas o orgulho e a vaidade estavam feridos. Olhei-me de fora do meu corpo e imaginei que se estivesse ainda no papel da garota caindo de paixão por Kali, estaria me iludindo, afinal, ninguém que gosta aceita tão fácil uma despedida. Não houve luta, o que me fazia ficar com muita raiva. Eu pedira com todas as forças para que fosse o máximo fácil aquela conversa, só não esperava ser dispensada com tanta cordialidade.

Fechei a porta do meu quarto atrás de mim e senti que estava nauseada. Cai na cama e fechei os olhos. Ainda bem que Vitor estava distante, arrumar a casa com os dois a minha volta seria demais. Eu de fato precisava estar sozinha por um tempo.

17.7.09

Cap 64: Do jeito certo (Igor e Tamires)

O túnel de luz me deixou cega por um tempo e achei que chegaria ao outro lado de algum lugar, mas fui deixada exatamente na estrada chuvosa onde já estava. Agora, fora do carro, em pé. A mudança não tinha sido de lugar, mas de estado, como a água que evapora da chaleira, eu era vento, ar, invisível. Alguns anjos se aproximaram acolhedores. Eu já os conhecia e pensei que seria muito fácil quando estivéssemos na mesma forma de existência, mas não era. Eles me entendiam pelo pensamento e mantiveram a distância respeitosa de que eu precisava para aceitar que saíra da casca. O corpo moreno, de cachos mel com pontas douradas pendia amarrado ao cinto.

Não encontrei Vitor, ele já havia partido? Para onde? Olhei para os anjos, mas estes continuavam vítreos, encarando a cena se desenrolar a nossa frente. Aquilo foi uma forma de resposta, me virei e fitei o corpo de Vitor sangrando dentro da caminhonete. Uma ambulância vermelha parou e eles saltaram desesperados para nos tirar de lá vivos. Inútil, pensei. Primeiro socorreram-no, afinal, era o que mais sangrava. Colocaram o dedo sobre seu pescoço para encontrar sinal de vitalidade. Eis que um deles fez um gesto positivo de que ainda havia tempo de salvá-lo. Adiantei-me, minha alma deslizando pelo espaço. Para mim pareceu muito tempo, mas, na verdade foram só alguns segundos em que tudo se passou. A temporalidade pós-morte é difícil de adaptar-se.

Estava ao mesmo tempo feliz por Vitor ter sobrevivido e triste por não ter acontecido o mesmo comigo. Eu havia pedido que qualquer escolha nos fizesse ficar juntos, foi a hora de me virar para os anjos enfurecida. Eu só os olhei e eles entenderam em onisciência que eu não queria deixá-lo. Precisava muito tomar ainda uma decisão naquela vida e essa chance me foi tirada! Tudo bem que eu fora fraca por protelar, como somos idiotas e presunçosos, achamos que poderemos decidir pela felicidade a qualquer hora quando ela está ao nosso lado. Agora sabia disso, mas do que me adiantava, se eu não podia mais tomar nenhuma atitude para lutar por Vitor?! Como conseguiria ficar em paz sem seu cabelo para mexer, suas mãos fortes e macias, seu beijo quente e intenso? A eternidade é cruel quando vazia e solitária. Eu preferia, então, alguns dias a mais como humana só para tê-lo em meus braços.

Por favor, eu quero ficar com Vitor, eu o amo, eu sempre o amei, o amei desde todos os tempos! Pedi apressadamente. A luz ficou mais perto conforme os anjos se juntavam dos meus dois lados. Depois, a claridade se transformou em um túnel de luz e eu voltei ao meu corpo físico. O intervalo entre um paramédico buscar a pulsação de Vitor e a minha fora de alguns segundos, mas pareceu ter passado horas para mim. Eu tinha revisto desde o dia que o conhecera, passara pelos momentos na casa de Kali, a viagem, o quase-beijo renegado, a contratação, nosso primeiro almoço, as caronas, a festa, nosso beijo intenso em meu quarto, a viagem à fazenda. De repente, nossa história parara abruptamente e eu não queria aceitar essa sentença. Foi, então, que me deixaram voltar.

Senti o desfribilador no meu peito. Meu corpo reagiu na terceira tentativa quando um dos médicos disse perto do meu rosto “Vamos lá, garota. Ele sobreviveu!”. A potência daquela frase era ressuscitadora. Eu também queria viver para amá-lo fisicamente. Senti o cheiro de terra e mato molhados pela chuva. O gosto de sangue na boca e a dor intensa era uma sinestesia intensa demais de se apreender de uma só vez. E eu me sentia feliz! Estávamos mais uma vez no mesmo plano.

***

Senti uma mão quente em minha pele, uma leve fricção. Entreabri os olhos e minhas narinas arderam com o cheiro do éter. Minha mãe me acariciava ao lado da maca. Balancei ligeiramente o rosto para os lados a fim de me sintonizar naquele novo espaço. O quarto de hospital era silencioso, a minha esquerda uma janela com a persiana fechada, mas a claridade do sol passava em fachos dourados pelas frestas horizontais.

_ Que bom que está vivo. Eles amam você. _ a voz era de Tamires surgiu em minha cabeça. Mantive os olhos fechados para me concentrar e poder ouvi-la mais. _ Eles estavam tão preocupados com você quanto eu. Mas, agora está bem.

Meus lábios se curvaram em um breve sorriso de reconhecimento e uma lágrima caiu do canto do meu olho, escorrendo pela face. Para mim estava bem, mas não completo. Era como voltar para uma casa vazia depois de um dia exaustivo, o mundo sem ela não passava de uma casca oca.

_Está sentindo dor, meu filho?_ ouvi minha mãe a primeira vez.

Sentia, mas era bem maior que a dor a que ela se referia. Eu não podia pedir remédio para esse tipo de transtorno. Uma mão mais forte pressionou o meu braço. Abri os olhos, meu pai.

_Vamos ter que escolher um carro novo. _ ele sorriu.

_Não fale disso agora. _ minha mãe reclamou, mas eu havia gostado. Meu pai sabia manter o bom humor em todas as horas. _Eu rezei tanto para vocês ficarem bem.

_O que fizeram com ela...? _ balbuciei, sem muita articulação.

_Eles conseguiram reanimá-la. Teve que fazer algumas intervenções, mas já está fora de perigo...

_Ela está viva? _ abri totalmente meus olhos e apertei as mãos de meus pais, cada um de um lado.

_Claro! Está sim. _ respondeu minha mãe confusa pela minha dúvida.

_Como pode... eu vi ela...mor... ãnh? _ perdi o fôlego.

_Consegue virar o rosto? _ minha mãe saiu da minha frente e eu vi na maca na minha direita Tamires adormecida.

Então, a sua voz que eu escutara não tinha sido mais uma voz?! O aparelho que media suas batidas fazia bip bip. Seu corpo suspendia delicadamente e abaixava a cada movimento respiratório. O sangue corria quente e vivo por suas veias. Como tudo acontecera? Eu tentava me lembrar da seqüência exata, mas estava muito fraco.

_Pai, eu preciso te pedir uma coisa. _ voltei a fechar os olhos e a molhar a garganta. Apoiei a nuca de novo no travesseiro. Levantá-la bruscamente parecera o maior esforço do mundo.

_O que quer?

_Ninguém pode saber de nada, ninguém pode saber que estávamos juntos. _ falei-lhe com muita angústia. Aquilo soou como se abríssemos o nosso plano inicial para mais pessoas participarem.

_Os pais dela vão chegar a qualquer momento, o que quer que eu diga? _ aceitou fazer como eu desejava. Para quem quase perdera o único filho, a mentira era a menor coisa a ser exigida.

Não conseguiria enganar os pais de Tamires. Eles sabiam que nossa amizade era uma fachada para um amor maior. Eu teria que estender a sua família nosso segredo. De repente, pareceu cada vez mais difícil protegê-la.

_Eu não quero que ninguém saiba... _expressei meu desejo, mas não sabia como concretizá-lo. _Me ajudem...

_O que aconteceu lá? _ meu pai aproximou-se de meu rosto.

_Agora não... _ minha mãe o conteve.

Abri os olhos e busquei o rosto dele.

_Pai, preserve-a de qualquer escândalo. Preserve-a. _ pedi.

_Faremos isso. Mas pode ser que já tenham espalhado para outras pessoas. Quando liguei, disse que estavam juntos. Não podia mentir... Talvez, se soubesse antes...

_Tudo bem. Faça o que for possível. _ interrompi-o.

_Farei. Diremos a todos que foram para uma reunião de negócios em outro estado e acabaram se acidentando.

_Obrigado. _ agradeci.

_Vitor... _ouvi um sussurro daquela voz que nunca mais pensei vibrar em meus tímpanos outra vez. Virei o rosto e minha mãe afastou-se, percebendo que eu procurava alguma coisa atrás de si.

_Oi, estou aqui. _ respondi com uma voz mais firme.

Meus pais saíram para nos deixar a sós, minha mãe puxando o braço de meu pai com carinho. Voltei a focá-la fixamente agora, mas não se mexia, apenas os lábios. O rosto voltado para o teto de olhos fechados. Ainda estava anestesiada? Eu queria poder pular da maca e abraçá-la gentilmente. Mas, logo uma enfermeira entrou e administrou o remédio no soro. Ela caiu no sono absoluto e o cansaço me fez também mergulhar no mesmo mundo nebuloso.

***
O perfume pairava no ar e entrava por minhas narinas, ou era o contrário? Vinha do fundo do meu pensamento e era registrado como uma fonte externa de um odor seco, amadeirado? Aquele cheiro era a memória ofativa dos melhores momentos já vividos. Sorri e senti novamente os músculos da face. Depois, consegui engolir e respirar mais rapidamente. Encolhi os ombros e fechei os dedos na palma da mão. A única coisa que ouvia era um bip bip bip constante. Entreabri vagarosamente as pálpebras e a vi o teto branco de uma sala, abaixei-os mais e surgiu uma porta com uma pequena janela de vidro onde médicos passavam. Era um hospital. Agora podia distinguir o cheiro do éter. Virei-me para o meu lado esquerdo, a maca vazia, a janela fechada com a persiana levantada até a metade. A chuva batia no vidro intensamente, ainda era noite. Bip Bip. Ergui minha cabeça para o topo direito e vi um aparelho que registrava as condições do meu coração. Minha visão focou no segundo plano ao fundo que era apenas um borrão e vi Vitor sentado em um sofá branco de dois lugares.

Fechei os olhos e respirei fundo para buscar mais forças. Recostei a bochecha no travesseiro e abri as pálpebras. Ele dormia com as mãos encolhidas nos bolsos da jaqueta de couro marrom escura. Vestia uma calça jeans azul marinho e tinha o cabelo caído na testa. O seu perfume exalava suavemente por todo o quarto. Meu coração começou a bater forte e o Bip Bip acelerou-se. O sorriso saiu como início de riso e ele se mexeu e acordou. Seus olhos foram pegos pelos meus a admirá-lo.

_Vitor... _ sussurrei.

Ele levantou-se e caminhou até mim rapidamente. Inclinou-se sobre a maca, a mão com que tentei tocá-lo estava presa por tubos e esparadrapos. Seus dedos encostaram nos meus e fizeram com que ficassem repousados.

_Eu voltei... _ disse-lhe e sabia que podia entender perfeitamente o significado. _ ... Eu voltei por você.

_Você se meteu nisso por minha culpa. _ sua voz era fria e triste.

_Não. Foi idéia minha a viagem, eu não me arrependo...

_Eu devia ter te protegido. _ ele balançou a cabeça para os lados, afastando a chance de se perdoar.

_Vítor, era a hora. Eu já sabia, eu tinha visto.

Seu rosto voltou-se para mim e me fitou com perplexidade. Contei-lhe que achava que seria nosso último fim de semana. E fora, apesar de agora ser só o primeiro de muitos. A vida pode parecer muito louca mesmo, mas...

_Mas, vamos fazer o certo, agora. _ cortou-me.

_O certo?! _ juntei toda a força para levantar minha cabeça, o aparelho começou a soar um bip mais próximo do outro. _ Como... como pode?! _ minha careta de aflição o assustou, me empurrou delicadamente pelos ombros para me deitar. _ Não... _ balancei a cabeça para os lados. _ Você não vai me deixar, nunca mais, nunca!


_Eu nunca vou deixar... de te amar. _ seu rosto agora estava bem acima do meu. Beijou-me o topo da cabeça. _ Mas, não será agora.

_Eu te amo. _ disse-lhe o único argumento que me faltava e toquei sua bochecha. _ Eu vou lutar por isso...

_Eu sei, mas vai precisar fazer sozinha. _ juntou sua mão em meu peito. _ Será bom que eu não esteja aqui.

_Não acredito, não...

_Voltamos, não? _ sorriu e seu rosto inteiro se iluminou, mas eu não me sentia feliz como ele, não dissociava minha felicidade de estar perto dele.

_Parece que isso não significa nada para você.

_Não diga isso. _ riu. _ Você agora é o motivo central de tudo.

_Hum... E vai me deixar?

_Eu nunca vou te deixar, eu estou dentro do seu coração.

_Eu o quero ao meu lado!

_Esperamos tanto... tanto tempo, podemos fazer da maneira certa. _ sua voz era serena, amiga, conselheira. _ Kali vai chegar em poucos dias.

_Poucos dias? Quanto tempo estou aqui?

_Você dormiu bastante. _ acariciou meu rosto. _ Falei para seus pais que fomos ajustar o que faltava para o escritório em São Paulo e, no caminho, houve um acidente. Eles não contestaram. Contaria se perguntassem, mas não questionaram. Para a família de Kali, dissemos a mesma coisa. _ ele contava tudo como um plano que já estava premeditado.

_Ainda vai morar lá? _ perguntei.

Ele me devolveu o silêncio e acariciou meu queixo com o polegar. Depois seus olhos amendoados me encararam com um sim.

_Vou. E estará livre e com espaço para decidir tudo o que tiver que fazer. Eu vou estar pronto, te esperando, como sempre estive.

_Eu posso te ver antes de ir, por favor?

_Claro, tudo o que quiser... _ sorriu e estava mais lindo que nunca.

Lifehouse - Everything


Vitor não se esquecera de cumprir sua promessa. Dois dias depois, telefonou-me. Eu estava deitada no sofá assistindo um programa idiota de culinária quando o celular vibrou. Eu aguardava o momento que nos despediríamos e agora tinha muito medo.

Corri até o portão e o abri. Lá estava ele, escorado com as pernas cruzadas em seu novo carro, um Corolla preto reluzente. A música ligeiramente alta e os vidros abaixados. Seu cabelo molhado e desalinhado contrastava perfeitamente com seu rosto branco e lindo. Os olhos castanhos cintilavam com a claridade do dia. Eu quis ir a sua direção, mas segurei o passo quando ele mesmo caminhou até mim. Parou a poucos centímetros e olhou meus ombros descobertos pelo vestido de alça florido. O mesmo do dia em que me beijou no pescoço. Aposto que se lembrou da cena, pois ficou alguns segundos absorto, até que sorriu.

_Eu voltei com uma sensibilidade maior para as cores... formas, uma hipervisão... ou você está mais linda mesmo? _ a voz grave e o hálito tão próximo do meu rosto me arrancavam os pensamentos.

_Então, devo estar com hipervisão também... porque nunca te vi tão lindo. _ toquei seu peito e a mão subiu por seu pescoço e já ia tocar seu rosto quando a recolheu para beijá-la.

Desde o acidente, ainda não tínhamos nos beijado. Vitor parecia evitar. Fazia parte do pacote “do jeito certo”.

_Eu te amo. _ eu falei primeiro.

_Eu também. _ aproximou-se até seus lábios ficarem bem próximos, agarrei a grade do meu portão com as duas mãos e apertei com força. Seu braço esquerdo envolveu-me e o rosto inclinou-se para o lado e as bochechas se colaram. _ Depois disso, eu prometo que nunca mais vou conseguir resistir. _ sussurrou no meu ouvido e sua boca roçou o caminho da bochecha até antes de chegar o canto dos meus lábios e sorriu. _ Se cuida, moça.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Ele se virou e abriu a porta do carro. Entrou, ligou o motor e partiu. Dei três passos a frente, mas ele já tinha ido. O meu coração apertou forte. Fechei os olhos e ainda senti o seu perfume que restara no ar. Depois, era só o vazio e o calor da manhã ensolarada.

15.7.09

Cap 63: Dois planos (Igor)

Eu tinha perfeitamente tudo sob controle na mesma linha: o carro, meu coração, minha garota. Nem um era meu: o carro do meu pai; o coração dela e Tamires de Kali. Sorri da ironia. Foi por um segundo que seu rosto me transmitiu um presságio ruim.

Ela estava tendo uma visão, mas esta não tinha som porque eu não podia ouvir. Não era bom, agarrei seu braço e agora não havia nada sob controle, nem o coração, nem Tamires e, por fim, nem meu carro. Voltei a prestar atenção na estrada outra vez e vi um caminhão enguiçado na pista em que seguíamos. Meu cérebro rapidamente calculou a distância, a velocidade, a força, o impacto, a massa, a aceleração, todos os fatores se posicionaram em uma equação desastrosa.

Pearl Jam - Last Kiss


Tentei desviar para a pista da esquerda e, na tentativa de ultrapassagem, o clarão na contra-mão me cegou. A buzina ensurdecedora fez nossos corpos estremecerem. Reagi instantaneamente, virei o volante e retomei a posição na pista onde eu me aproximava agora incontrolavelmente rápido do caminhão quebrado. Meus pés ainda tentaram frear e evitar o choque.

A L200 acabara de vencer esse mês o Rali dos Sertões, ou seja, era uma máquina voando sobre rodas! Isso significava também que a reação em nossos corpos seria na mesma proporção. O choque na traseira do veículo da frente provocou uma chuva prateada de vidros reluzentes sobre nós como se fossem arroz em dia de casamento. Estranho como as pessoas jogam coisas em momentos cruciais de nossas vidas. No batismo, a água; no casamento, arroz; na morte, terra. Naquele instante, o nosso amor recebeu um punhado de cristais de vidro. Eles encobriam a nossa separação.

Minha cabeça se chocou contra o encosto do banco bruscamente. Meu corpo se deslocou da alma. Vi meus braços semi-transparentes acima da superfície da pele. Tentei mantê-los na mesma posição do braço físico a fim de colá-los novamente. Não havia mais respiração, eu devia sentir o cheiro da fumaça e da chuva, mas eles não entravam em minhas narinas. A próxima coisa que percebi foi a ausência de movimento no peito, nenhuma batida no coração. Ao mesmo tempo, eu não sentia qualquer dor como se tivesse tomado um anestesia geral. Isso era tremendamente injusto quando a vi gemer ao meu lado. Estiquei o braço quase translúcido e não pude sentir o toque na pele de seu rosto. Sua careta não era a correspondência aos meus dedos em sua bochecha umedecida pelo sangue, mas uma contração por ossos quebrados ou rupturas internas.

“Estão vivos?” A voz atrás de mim, na janela, me fez virar o rosto. “Oh! Desculpe por ter atingido seu carro. Por favor, peça ajuda! Ligue! Precisam tirá-la daqui logo!” Pedi, mas o homem continuava a olhar o rosto de Tamires, voltei-me para ela a fim de encontrar alguma reação nova que confirmasse sua consciência. Seus lábios estavam azulados pelo frio. Uma fina chuva molhava o interior do carro e sua blusa. Mas, eu não sentia nada, estava completamente aquecido, só podia ver.

“Por favor, deixe-o ficar. Não levem ele de mim.” Ouvi sua voz. Ela estava bem?! Por um segundo, exultei, mas me dei conta de que os lábios de Tamires não se moviam. Como eu podia ler seus pensamentos? “ Eu sei que já é a hora, mas eu não vou suportar esperar outra chance. Por favor, me dêem mais alguns anos, por favor, eu o amo.”

Afastei-me com toda força na direção contrária e vi meu corpo ultrapassar a porta e parar em pé do lado de fora. Na verdade, meu corpo continuava no carro sentado, era... só a minha alma que saltara assustada. Duas fontes de luz se aproximaram em socorro a minha agonia. O campo iluminado e quente em que elas estavam me envolveram e tudo ficou mais calmo.

“Não deixem que o seu coração pare, eu estou dentro dele e vou morrer também se isso acontecer”. Sua voz era doce e fraca. Naquele estado eu não podia chorar, mas a minha dor era ainda mais forte, mesmo que não se formasse lágrimas nos meus olhos.

Seu coração não vai parar. Eu pensei, sem mexer os lábios também. Você precisa ficar. Seus pais, seus amigos e... Kali estão a sua espera! Havia um modo de eu deixar de existir por completo? Porque mesmo sem o coração bater eu sentia que ia morrer para sempre com aquela fronteira entre os dois mundos.

“Ela está viva!”, o berro do homem emocionado me trouxe uma fagulha de alegria. Tamires era forte. Eu não. Seus olhos verdes se entreabriram e entendi como era quando ela via o outro lado do mundo porque eu sabia que agora podia me enxergar. Era tão fundo e fixo aquele olhar que senti o mais próximo que podíamos chegar.

“Não! Por favor, não o levem de mim!” Dessa vez sua boca se mexeu e ela berrou, era um grito gutural que fez o homem parar de falar ao telefone. Aproximei-me e os dois anjos me acompanharam. “Nãooooo”. A voz atingiu o grau mais alto e teve um corte seco, sufocado. “Por favor, eu quero ficar com ele, me levem, me levem, eu quero ir também.” Agora Tamires pedia em silêncio. Eu fiz o mesmo: "Não! Não é a sua hora! Cale-se! Você não pode vir, tem coisas a completar! Eu prometo não te deixar!"

“Tragam Vitor para mim ou deixem ele comigo, por favor”. Foi a última prece que ela conseguiu fazer com toda a força que restava. Eu tinha que lutar também. Convergi toda a minha energia em um só pedido: “Me deixem voltar! Se isso aconteceu para que não ficássemos juntos, eu prometo não errar mais. Só quero estar perto dela...” Pedi. Mas, pareceu pouco, egoísta. “Deixem eu voltar, por favor, e eu me afastarei.” Voltei a fazer a prece. Um puxão sugou-me para o carro e minha cabeça chocou-se contra o banco novamente, depois se colou com o limite do rosto. Tum. Tum. Tum. Meu coração era uma bomba em meu peito mais uma vez. O sangue quente circulou em minhas veias e o pulmão encheu-se até o máximo de sua extensão, estufando para frente. Arregalei os olhos e acordei de volta desse lado. Agora podia sentir o cheiro forte de sangue, uma mistura de odor ferroso e sal. Também havia a fragrância da terra molhada de chuva. Os pingos alfinetavam meu braço.

Virei o pescoço e vi que Tamires não se mexia mais, seu cabelo escondia o rosto. Mais atrás de sua cabeça caia chuva lá fora. Todo meu corpo doía, a falta de sentidos de antes tomara lugar de agulhadas, formigamentos e queimação vindos de todas partes. Eu quis lhe dizer que ainda estava ali e meu coração voltara a bater por ela, mas não tinha forças.

Os bombeiros serraram a porta e arrancaram Tamires das ferragens. Outro par de braços me puxaram para fora. De um lado do carro, eu estava imobilizado em uma maca. Virei o rosto antes que aprisionassem meu pescoço com o colete. Tamires também estava no chão, do lado oposto. Podia ver seu corpo pelo vão abaixo da caminhonete alta.

Eles a estavam perdendo. Usaram mais uma vez o desfibrilador e insistiram com a massagem cardíaca. Agora escorriam quentes as gotas dos meus olhos. A dor humana do amor que se perde é física. Nenhuma parte rompida e destroçada do meu corpo era tão insuportável como vê-la partir. Os anjos a estariam esperando. Eu só a veria do outro lado algum dia.

Aprisionaram meu pescoço e o que me restou foi fechar os olhos.

_Fique comigo... _ minha voz saiu estranha, rouca, inteligível.

A cabeça que estava sobre mim, carregando a maca, olhou para trás na direção do carro.

Por que eles tinham pressa de salvar o meu corpo? Eu não poderia mais sentir o seu perfume, tocar seus cachos, sentir sua pele em meus lábios, ouvir sua música. Eu tinha de volta todos os sentidos e não havia motivos para usá-los.

Era melhor que eu tivesse ficado lá para esperá-la. Será que entendia o que aconteciam, tinha medo ou precisava de ajuda? Não havia nada que eu pudesse fazer. Os anjos não queriam nós dois do mesmo lado. Eles cumpriram sua parte e me fizeram voltar, era minha vez de fazer a minha e manter distância, o que não seria difícil em estados diferente de existência. Eu era matéria e ela, puramente luz.

Como humano, eu sentia todo o meu corpo chamá-la. Os braços queriam ser agarrados, minha boca precisava do seu beijo, os meus olhos queriam seu rosto. E isso doía em cada músculo, cada nervo, transmitindo minha dor de um neurônio para o outro.

Seu corpo se libertara do casulo e agora devia voar livre, pacífico, pleno, leve, translúcido. Não havia mais o que se preocupar, temer, sentir. Ela saíra do campo frágil das experiências humanas e o deixara em aberto para mim com todos os planos que sonhara para nós. Um dia, novamente outro dia, quem sabe. Onde eu havia errado? Em que parte do jogo eu alterara fatalmente a posição das peças? Aqueles dois dias que escondemos de todos mereciam uma punição tão severa? Eu não tinha o direito de desejar Tamires, era isso que devia aprender uma vez por todas? Só existia interrogações e as vozes dos médicos respondendo a perguntas técnicas que uns dirigiam aos outros para acompanhar minhas reações físicas.

_Isso vai diminuir sua dor... _ ouvi a enfermeira falar perto de mim quando a ambulância já se movimentava. Ela levantou a seringa e espirrou um líquido através da agulha. _ Vai passar... _ garantiu gentilmente e espetou minha pele. Deve ter pensado que a dor em meu rosto vinha das contorções de espamos físicos, mas, na verdade, era a minha alma aprisionada no corpo querendo escapar e correr até a dona do meu coração. A enfermeira pressionou a seringa com o polegar e a agulha fina atravessou a veia, injetando o anestésico. A dor física passou completamente, inativando qualquer movimento, mas minha mente ainda se movimentava. Ali, não havia qualquer remédio que apagasse o grande vazio negro e silencioso da dor de quem fica. Só.

12.7.09

Cap 62: O fio que nos une (Tamires)

O pôr do sol era caramelo e quente. Isso porque o assistia nos braços de Vitor e com seus lindos olhos sobre mim. A paisagem éramos nós. Mesmo assim, não podia negar que a vista a nossa frente fosse tão triunfante, linda e quieta. Estava sentada entre suas pernas, com a cabeça recostada em seu ombro. Não podia imaginar um lugar mais tranqüilo que o topo da colina para ver o dia trocar de turno com a noite. A brisa era refrescante, mas a manta ao nosso redor nos mantinha dentro de um casulo confortável.

Perguntei por quanto tempo a comida duraria, pois eu ficaria ali pelo tanto que fosse possível. Ele sorriu encostando sua bochecha na minha testa. Respondeu que podíamos viver de luz. Então, seria preciso o dia amanhecer, o escuro já abocanhava o céu. Levantamo-nos com meu gemido de reclamação pela diversão que acabava. Dobramos juntos a manta verde, cada um unindo duas pontas. Encontramos nossas mãos na altura dos ombros e os dois se deram conta da proximidade de nossos rostos. Não sei quem beijou primeiro, mas logo a manta caiu de meus dedos e eu envolvi seus ombros com os braços. Vitor sustentou minhas costas com uma das mãos.

Cavalgamos por mais quarenta minutos até chegarmos a casa. Meu corpo dava sinais de que precisava se recuperar, mas meu coração extremamente feliz não se incomodava de continuar bombeando fortemente meu sangue o quanto precisasse, nem meu cérebro se fazia menos rogado, registrando cada instante. Não podia ser totalmente má com a minha própria carne, ao menos lhe ofereci uma retribuição. Coloquei tudo que encontrei na geladeira em cima da mesa e comecei a comer com bastante vontade.

_Vai ter que treinar muito para viver de luz. _ ele deu um gole em seu copo de suco.

Ri e mastiguei o pão recheado de queijo, presunto, orégano e manteiga. Tomei também do suco e abri o pote de mel para passar em biscoitos. Salivei antes de ouvir o crash que meus dentes fizeram no cream cracker. Quando já não havia mais espaço, recostei-me na cadeira, parecendo uma grávida. Será que fora uma porca desvairada? Vitor parecia continuar a me admirar com a mesma devoção, o que me fez sorrir de satisfação. Seu amor era o maior elogio que eu pudesse merecer. Meus olhos começaram a pesar e calculei se teria forças para um banho.

_Há aqui aqueles vaporizadores para lavar roupa? Eu preciso me lavar sem que eu tenha que me mexer.

_Eu posso pegar um balde de água e jogar em você agora mesmo.

_Andar de cavalo não faz bem para o seu cérebro, você chacoalha demais essa sua cabecinha. _ levantei e peguei os primeiros frascos para levar de volta a geladeira.

_Deixa que eu guardo. Pode tomar banho lá no meu quarto, a água é mais quente. _ ofereceu e eu me senti realmente grata. _Onde vou dormir? _ perguntei, voltando a pôr a cabeça na porta.

_Pode ficar com a cama também. _ fez uma voz pesarosa de quem já cedia demais. Ri da minha própria majestade.

Tirei uma calça cinza de moletom que trouxera e uma camiseta baby look branca da mochila. O banho me despertou um pouco, mas logo que a fofura do travesseiro e a maciez do colchão me acolheram, eu não pude lutar. Agora o sono viria como um grande prazer de entorpecimento.

Senti dedos quentes sobre minha testa, afastando meu cabelo. Forcei as pálpebras para cima e vi seus joelhos cobertos pelo jeans escuro. Estendi a palma da mão, mas não tinha força para expressar nada. Um peso ao meu lado desestabilizou meu corpo que rapidamente ficou mais quente. Ele acabava de se deitar ao meu lado e eu sorria. Senti um peso sobre a minha cintura, era seu braço me envolvendo. Não ouve sonhos perturbadores a primeira vez aquela semana. Adormeci completamente com Vitor me aninhando em seu corpo curvado e aquecido.

A claridade e o calor do sol aqueciam minhas bochechas. Abri o olho e fiquei cega por alguns segundos. Virei o rosto para o outro lado e percebi que a cama estava vazia e o dia clareara. Quanto tempo eu estava apagada? Perdera toda a manhã de sábado dormindo inutilmente? Senti que jogara fora o que de mais precioso eu tinha: o tempo para ficar às sós com Vitor. Talvez, se o visse ali quando acordasse teria ficado menos desapontada. Pus-me de pé, calçando as havaianas brancas de correia cinza fina. Escovei os dentes e amarrei o cabelo para que se comportasse. O cheiro de café e bolo frescos formava um caminho invisível na linha do nariz até a cozinha.

Perguntei a mulher que catava o feijão em uma grande bacia no colo onde estava Vitor. Respondeu que tinha ido à cidade. A primeira imagem que se formou em minha cabeça foi da caixa do supermercado. Ele estava fazendo compras por aí sozinho? Uma sensação de impotência me tirou o humor. Queria mais que tudo Vitor para mim. Quando o ronco da caminhonete apontou na porta da casa, fui recebê-lo sorridente. Ele bateu a porta e trouxe as sacolas em um só braço. A sua força fazia parecer que as todas elas carregavam algodão. Estava ainda mais lindo agora que eu podia vê-lo com a clareza do dia e da minha mente sem sono ou cansaço.

_Eu pensei que ainda a pegaria dormindo. _ beijou-me os lábios e sua boca e a ponta do nariz estavam frios.

Vitor deixou as compras na mesa da cozinha e depois caminhou até o quarto. Segui-o para todos os lados e comecei a achar engraçado. Ele tentou tirar o casaco, mas pareceu se enganchar na manga. Apressei-me por trás e o puxei delicadamente, até que já livre, se virou para mim, apenas com a camisa branca. A porta bateu estrondosamente com o vento, desviei o rosto para olhá-la assustada e quando me voltei para frente, Vitor já estava tão perto que bastou um passo para nossos corpos se encostarem.

Ele desenhou o meu rosto com contornos invisíveis feitos pela ponta dos dedos. Puxei a camisa na altura da sua cintura para que nos colássemos, mas não pareceu o bastante para senti-lo da maneira que eu necessitava. Dei dois passos atrás e encostei-me a uma cômoda de seis gavetas. Agora, quanto mais o trazia para mim, menos espaço e fôlego havia, estranhamente não era ainda satisfatório. Aceitei sua boca sobre a minha e seu beijo era intenso e com a mesma vontade de extinguir qualquer distância entre nós. Suas mãos afagando minha nuca inclinaram-me para trás e minhas costas se curvou. Com a mão presa a borda da cômoda derrubei algum frasco de vidro. Desviei o rosto para olhar e a boca de Vitor parou em meu pescoço. Estremeci e senti que já não era minha cabeça que respondia, os movimentos chegaram ao ponto involuntário. Coloquei uma mão em seu peito para empurrá-lo em direção a cama, mas ele fincou o peso do corpo no chão e resistiu. Ainda com a boca me queria, mas sua força contrária me fez lutar. Nossos lábios se descolaram e puxamos o ar, sufocados. Questionei com os olhos pegando fogo por que parara.

_Não podemos. _ disse com muita dificuldade.

_Quê?_ ri nervosa, depois vendo que não brincava, ri mais alto. Fechei o punho em sua camisa, molhei a garganta engolindo em seco. _Não?

_Eu quero. _ apertou os olhos, me ver com raiva era como uma punição por sua escolha. _ Mas não é a hora...

Soltei-o e recuei o pouco espaço que tínhamos avançado até voltar a encostar à cômoda. De queixo baixo e meus olhos fuzilantes, esperei que me encarasse.

_Lembra do nosso pacto?_ perguntei com a voz fria que subiu por minha garganta petrificando meu interior que a pouco estava em lavas.

_Mas, isso não cabe...

_Seria muito mais do que já fizemos, dissemos...? _ eu agora estava muito irritada, a rejeição quebrara o encanto. _ Não há como voltar atrás mais...

_Não vamos voltar atrás, só que para seguir adiante eu quero da maneira certa.

_E qual é a maneira certa?

_Quando fizer a sua escolha...

_Pensei que não falaríamos de nada disso. _ cortei-o.

_Não precisa falar. Mas, sabemos que veio aqui para fazer uma escolha.

_Eu vim para ter certeza, a escolha já havia sido feito. _ revelei sem calcular se merecia que lhe confessasse depois de ter me repelido. _ Era você que eu sempre quis. Eu conheci o Kali primeiro, mas tudo que busquei estava em você. Eu vim aqui para saber se... _ pausei. O que adiantava parar de lhe contar tudo, se era o momento? Continuei, abrindo totalmente o meu coração. _ ...eu sou o que quer. Se valho o preço de arriscar sua amizade. Se não valer, mesmo assim, não poderei voltar atrás, como bem disse. A escolha já está feita, eu não quero mais começar nada com Kali. Seria errado realizar com ele o que desejaria que fosse com você. Prefiro ficar sozinha...

_Não fale em ficar sozinha... _apressou-se sobre mim e sacudiu a cabeça. _ Eu nunca vou desistir de ter você!

_Então?_ levantei as sobrancelhas.

_Então... _ abaixou o rosto. _ ...Vamos fazer do modo certo. Você vai dizer-lhe que quer ficar sozinha. Eu vou embora... _ Vitor colocou os dedos nos meus lábios quando ia questionar a necessidade de partir. _ ... mas, eu volto quando o tempo já tiver apaziguado os corações. Ele não vai gostar da mesma forma, mas ao menos terá sido limpo. E, se você tiver o espaço para desistir e querer mudar de idéia, eu vou estar longe para não ver.

_Eu quero você! _segurei seu rosto e a raiva se dissipou.

_Quando tudo isso for feito e provado, aí teremos tudo que quiser...

_Provas? Você quer provas?

_Eu acredito em atos, Tamires, eles são mais fortes do que palavras.

Ele ia partir como Kali fizera, mas havia um princípio que os distinguiam. Vitor esperava de mim ações, enquanto Kali sempre se contentava com minhas palavras, sua certeza de que eu ficaria aqui como uma cachorrinha que espera seu dono na porta dava como certo nosso futuro relacionamento.

_Eu não quero que vá embora! _ abracei-o com força e desespero.

_Vai ter seu tempo.

_Eu não quero tempo!

_Vai precisar. _agora era aquela voz de homem maduro que não casava com seu corpo jovem que me fazia calar.

_Podemos não falar mais nada disso? _ pedi e ele sorriu condescendente.

_Vai valer a pena esperar porque agora eu já te encontrei. _ aproximou a boca do meu ouvido para dizer com voz bem baixa como música. _ Então, seremos só nós dois. _ aquela visão doce e linda me trazia a premonição de uma fase de paz em minha vida, sem divisões.

Vitor beijou-me delicadamente e disse que tinha uns filmes no computador que trouxera na mochila. Não era exatamente o que eu desejava fazer alguns minutos atrás, mas estava satisfeita em tê-lo perto de mim. Deitamos no sofá e assistimos ao vídeo com minha cabeça repousada em seu peito. Fechei os olhos, ouvi as batidas de seu coração. Compreendi que não havia saída para ser feliz ao seu lado sem fazer uma escolha, ao menos tentaria seguir o caminho correto, apesar de mais longo, íngreme e difícil.

3 Doors Down - Here Without You


No caminho de volta, a estrada estava recém molhada. Uma névoa atrapalhava a visão. Coloquei a mão sobre a perna de Vitor e ele a afagou. Comecei a sentir um aperto no peito. Eu não estava bem, uma vontade de chorar fechou minha garganta. Nem podia explicar a ele o que se passava porque eu mesmo desconhecia a causa. Foi quando lembrei o sonho. Agora o pânico aumentou porque comecei a pensar que poderia provocar um incidente ruim com aquela idéia. Tentei mentalizar nossos beijos, abraços, risos, instantes felizes. Fechei os olhos, precisava me concentrar.

_Tamires, está tudo bem? _ senti sua mão agarrar meu pulso quando eu tocava minha testa com a ponta dos dedos.

Levantei o rosto, puxei o ar e olhei Vitor apreensivo. Foi um segundo apenas de clareza, silêncio e contemplação. Depois, a buzina alta do caminhão aproximou-se com um estrondo ensurdecedor. Reagi levantando o braço na frente do rosto e não pude ver nada, pois a luz cegou-nos. A colisão pareceu deslocar todos os meus ossos das juntas e micro pedaços de vidro voaram como uma chuva de diamantes brilhantes sobre mim.

Eu não conseguia mover minhas pernas, meu braço sangrava com o ferro que entrara na lateral. Mas o choque não me fazia sentir dor, vi que ainda respirava, então, não estava morta. Puxei o ar para encher meus pulmões vagarosamente. Fechei a mão com força para ajudar a bombear o sangue e não ser engolida pela escuridão. Virei o rosto para o lado e o vi com a cabeça caída e sangrando.

“Estão vivos?”, ouvi uma voz gritar do lado de fora, mas eu não conseguia mais enxergar nada. “Moça, responda!”. Minha mente ainda registrava os gritos, mas eu não podia me mexer. Comecei a fazer o que fora interrompido quando aquilo nos esmagou, rezei: “Por favor, deixe-o ficar. Não levem ele de mim. Eu sei que já é a hora, mas eu não vou suportar esperar outra chance. Por favor, me dêem mais alguns anos, por favor, eu o amo.” Senti a energia quente e forte vibrando ao nosso redor. Os anjos estavam ali e eu não podia vê-los como de costume. Era assim o dom de Vítor. Ele apenas ouvia, será que podia estar consciente como eu? “Não deixem que o seu coração pare, eu estou dentro dele e vou morrer também se isso acontecer”.

Eu tinha que conseguir abrir os olhos, era só focar com toda a força e levantar as finas pálpebras.

“Ela está viva!”, ouvi um grito masculino. Segurei as duas membranas abertas como se sustentasse um teto de concreto que ameaçava desabar sobre mim. Vi Vítor do lado de fora do carro, em pé, com as mãos nos bolsos, lindo, a salvo, seus olhos mel fitando-me. Sorri por dentro, não sei se minha boca se mexeu, eu queria abraçá-lo.

Mas ele não devia estar tão longe na estrada... Como conseguia ficar em pé tão rápido? O nó foi fechado na minha garganta com uma torção impossível de se desfazer e o ar parou de fluir. Eu ainda estava em meu corpo e ele, não!

_Não! Por favor, não o levem de mim! _ gritei e gemi alto. _Nãooo!

Vitor não foi embora, nem me deixou. Continuou em pé, com o rosto pacífico e sério. As lágrimas rolaram quentes nas minhas bochechas e eu sabia que estava viva, o coração pulsando com toda força. Não podíamos nos tocar, a barreira dos dois mundos nos separava, mas ele não se foi.

Um fio invisível nos unia. Esse cordão flexível e resistente se distendeu a primeira vez que tentei me livrar de seu beijo. Eu não podia correr em direções oposta sem puxá-lo para mim. Logo eu estava trabalhando na empresa de seu pai, tão perto quanto era o tamanho daquele linha que começava no meu coração terminava enganchada no seu. Eu sabia que ela não se romperia nunca mais, porém agora estava comprida o bastante para que nenhum pudesse exercer força mais sobre o outro.

Fechei os olhos mais uma vez, não querendo acreditar. “Por favor, eu quero ficar com ele, me levem, me levem, eu quero ir também.” Meu coração não deixava, retumbava no peito. Prendi a respiração para que parasse. “Tragam Vitor para mim ou me deixem ir com ele, por favor”.

Depois, foi como o sono, pesado e profundo, sem luz, sem sentidos.