30.6.09

Cap 57: Abraço (Igor)

Já estava pronto para disparar para a cozinha quando ouvi um grito, depois outro e já não era possível distinguir os sons além de hurros, gritos, aplausos. Virei-me e levou alguns segundos para o choque contrair todos os meus músculos como um choque elétrico de um relâmpago, capaz de enrolar minha língua. A visão ficou turva, eu estava tonto mesmo? Nunca me previra aquele estado de síncope quando imaginava que esse dia chegaria e lá estava eu, atônito.

Kali. Ele era o presente, pior, o presente que ela queria ganhar. Isso era impossível de se fazer. Nem que eu criasse com as minhas mãos qualquer objeto fantástico valeria a sua felicidade. Tamires agora estava com os braços envolvidos em seu pescoço enquanto ele a suspendia pela cintura. Senti minha visão turva, julguei ser a tontura, mas agora era líquido, denso. Minha dor era fluida, ganhava forma física, se amontoava na cavidade dos olhos. Abri a boca para respirar, pois o nariz instantaneamente congestionara. Eu me sufocaria se não corresse. Mas, meu corpo ficava, tentava me fazer ver para aprender de uma vez por todas a lição.

Não me dei conta de que Gisele ainda estava ao meu lado, presenciando o terremoto no meu corpo, que tinha o coração como epicentro. Só a notei quando sua mão pousou novamente no meu braço.

_Vamos sair daqui. _ se não tivesse me arrastado para o caminho inicial, eu esqueceria que eu era uma forma de vida humana, parada no meio do estacionamento. _ Você está precisando de alguma coisa para beber... _ pensou alto e me fez parar diante da bancada de granito da cozinha. Olhou todas as garrafas de bebidas para achar a mais forte. Eu pensei ironicamente no veneno de baratas no armário da lavanderia. _ Forte, não? _ ela fez uma pequena careta quando cheirou o que colocara no copo. _ É bom para esquentar.

Ela notara que eu estava gelado pelo contato com a minha pele? Pois eu realmente sentia que meu sangue não vagava mais por minhas veias. Olhei o copo e não tive vontade de esticar o braço, era o mesmo que um refrigerante aguado, fraco demais para diluir aquele sentimento de devastação. Ela leu meu pensamento de recusa e suspendeu na altura da minha boca. Peguei-o, ainda sem coragem, absorto.

_Confia em mim?_ perguntou.

Poderia, mas só nela. Em mim, nunca mais! Não depois disso, de ver que eu parecia o menor de todos os homens, um animal, um bicho das cavernas com os sentimentos mais sujos, vis, sórdidos, nojentos. Como odiava o meu amigo se ele era o irmão que mais poderia amar. Como odiava Tamires se ela era a criatura mais adorável? Como eu podia estar tão irado com as duas pessoas que mais significavam na minha vida?

_Confia? _ a voz de Gisele me fez lembrar que ainda estava na cozinha. Eu sentia que era um espírito flutuando. _ Ela vai gostar de você.

Eu sorri com muito sarcasmo e engoli de uma só vez a bebida.

_Eu quero dizer, ela gosta, mas vai mostrar que gosta. _ sua convicção parecia ter algo que ver com alguma idéia de obrigar a amiga a querer isso.

_Obrigado. _agradeci mesmo assim pelo que nunca receberia. Sua proposta era só para me devolver algum sinal de vida ao rosto que eu precisava esconder.

_Onde está o Vitor? _ ouvi a voz da minha mãe. Rapidamente fiz o trajeto mental de correr pelas escadas e me trancar no quarto antes que ela cruzasse a porta da cozinha. Se pedisse ajuda a Gi ela cuidaria para entretê-la. Só havia um problema no meu plano: Como explicaria a Kali que fugira de reencontrá-lo? _ Oh, você aí! _ ela pareceu preocupada e, não, ansiosa para convidar-me a ver a pequena histeria dos convidados. _Posso falar com ele rapidinho? _ pediu a Gi, que abaixou a cabeça e saiu. Minha mãe entenderia se eu pedisse que me desse uma hora, antes de despejar tudo sobre mim? Ela teria essa paciência de guardar a fúria que eu já via em seus olhos? _ Eu só quero saber uma coisa! _ levantou o dedo na direção do meu nariz. Se eu não tivesse barba me bateria, sem dúvida. Meu pai chegou por trás e segurou seu braço, lembrando-a com alguma frase que eu não pude ouvir para se acalmar. Isso a fez mudar da raiva para a fraqueza e seus olhos cintilaram. _Me responda. _ ela se controlou. Eu já poderia lhe confirmar, antes que terminasse. Mas, precisei daqueles segundos. _ Você sabia que Kali e Tamires eram namorados?

Namorados? Não, mãe, não são. Eles são parte de uma relação obtusa, suspensa no ar, separada pela América Central. E eu sou o lado dessa história que ela encontrou abaixo do Equador, mas que, agora, não tinha importância alguma com sua volta.

Porém, todos os fatos que minha mãe vira fora um casal se beijando, qualquer palavra minha poderia mudar as imagens mentais que a atordoavam? Seria inútil. Dei o silêncio de derrota.

_Você é um idiota completo?! _estranhei que não me abraçasse, beijasse e tentasse me provar que havia pessoas capazes de me amar por todas as mulheres do mundo que não me dessem valor, mas não, ela estava irritada com minha fraqueza. _ Você nasceu pra ser um...

Meu pai disse um basta em um tom alto o suficiente e pediu que ela subisse para o quarto. Olhei-a partir, esfregando as costas das mãos no rosto. Era difícil demais para ela entender que eu fosse capaz de construir com as minhas próprias mãos o buraco onde me jogaria. Seria muita burrice atrair alguém que não ia me querer. Mas, não havia nada se quer de racional no que eu sentia por Tamires, era acima, muito acima de vida ou morte, atemporal, um estado permanente e imutável.

_Tem a parte mais difícil ainda... _ meu pai pegou um pouco de bebida, precisava também. Só não havia rancor algum na sua voz, nem pena, nem decepção. Parecia falar com o tom de quem já passara por tudo na vida. _ ... Que vai ser você descer, sorri e ir abraçar seu amigo.

Ele olhou para a porta e eu tinha certeza que agora calculava se eu era forte o suficiente. Parecia me apontar para um abismo onde eu deveria pular e mergulhar na água turva. Eu ri. Ele segurou o copo na altura da cintura e me estudou.

_Que merda, hen? _ foi a coisa mais empática que ele poderia expressar.

_Eu procurei por isso, eu mereço. _aceitei minha condenação. Suspirei, olhei a porta com pesar, era o momento da minha punição. _ Está escrito na minha testa?

_Não se abrir um sorriso bem grande, reproduzir alguma cena que lembre de vocês dois nos melhores momentos, não olhar para ela e depois dar um jeito de cair fora.

Desci a escada e procurei fisicamente como era sorrir, abrir os lábios e mostrar os dentes mecanicamente. Não era nada fácil de montar, então, me lembrei da dica de meu pai. Rememorei os tempos que vivíamos fora, bebendo, saindo, azarando todas as garotas, zoando... Eu tinha que reavivar algum sentimento dentro de mim. Não foi possível dessa maneira também. Eu podia dar um passo atrás e subir os dois degraus outra vez, alegar qualquer desculpa barata. Teria cinco minutos para planejar?

Foi quando o mais natural aconteceu. Kali largou Tamires e me olhou. Eu sorri e ele correu entre as pessoas. Seu abraço forte e pesado me fez cambalear para trás.

_E aí, cara?! Como dá uma festa e não me convida?! _bateu no meu peito.

_Você sempre entra de bico. _cumprimentamo-nos com um aperto de mão.

_Como estão as coisas? _perguntou.

_Ótimo. _não menti completamente. Até aquela hora eu estava dando uma festa ótima para a garota que eu gostava. Nós gostávamos. _Resolveu vir do nada?

_Não, eu já sabia que ela faria aniversário. _ Kali olhou para o motivo das suas novas escolhas se aproximar e parar ao seu lado. Meus olhos cravaram por tempo demais nas mãos que se uniram furtivamente entre o jeans de sua calça e o leve tecido daquele vestido. Uma voz gritou dentro de mim: Pare! Levantei o rosto e tentei encontrar algum ponto de coerência nas frases que ele dizia, mas eu não ouvia. _... Ai, eu peguei o vôo correndo e vim pra cá. Eu volto amanhã de manhã mesmo. _ ele apertou o queixo de Tamires que acabara de fazer um beicinho. Agradeci por não me olhar, eu poderia parecer que ia vomitar.

_Então, cara, aproveita. _ falei e fiz sinal para o DJ voltar a tocar. _Fiquem à vontade. _ a minha voz deve ter soado por trás da minha cabeça, pois eu me virei o quanto antes pude.

Não cheguei ao meu quarto sozinho. Atrás de mim apareceram Maikon e Márcio, sem que eu pudesse fechar a porta em seus narizes.

_Eu estou bem! _ aquela afirmação era a própria prova do contrário. Eles não acreditaram obviamente e me olharam longamente procurar qualquer CD na prateleira. Estava medindo o tamanho do estrago. _ Falo sério! _ ri e pareceu mais fácil oferecer-lhes um sorriso mecânico.

_Você quer que o Márcio te dê um soco e te apague? _ a proposta de Maikon saindo naquele tom de voz tão sério era quase chocante e crível. Olhei o punho realmente fechado de Márcio.

_Vocês estão loucos?! _ franzi a testa e dei uma risada sinistra.

_Nós temos um plano pra te tirar daqui. _ Maikon fechou a porta.

Eu passei meus olhos de um para o outro duas vezes, sentindo ruir minha máscara de falsa segurança. Sentei-me na cama, limitando-me ao silêncio. Então, eles tinham um plano B pra caso isso acontecesse? Senti a mesma ira da minha mãe e tive vontade de perguntar com o dedo em riste se já sabiam desde o começo também da surpresa? Não, eles teriam me avisado. Se não, não estariam aqui tentando me salvar da provável auto-delação. Meus amigos fariam a mesma coisa se fosse Kali. Como é que eu deixara-os fazer parte disso? Eu deveria me responsabilizar sozinho por tudo!

_ Não tem jeito, você terá que parecer sair por vontade própria e não porque está fugindo?

Onde eles estavam me observando que conseguiram perceber minha vontade de correr da festa? Eles eram capazes de entender que algumas horas para mim seriam como dias? Sim, de alguma maneira. Por esse motivo queriam me poupar, não tinham o coração ruim para me desejar nenhum mal, nem aproveitaram para qualquer julgamento, talvez depois, não naquele momento de colapso não.

_A idéia é você sair com a Sandrinha.

Arregalei os olhos.

_Chega de gente nisso! _ tentei tomar o controle do plano. _Ela não merece isso, não é justo com ela.

_Não está com cara de quem vê sentimento de ninguém, Vitor. Então, levante-se daí antes que comecem a bater na porta. _Márcio tomou a palavra a primeira vez. Eles queriam me safar, apesar da consciência do meu erro. Provavelmente, eram suas honras que planejavam manter limpas. Kali seria rápido para ligar todos os pontos e vê-los como cúmplices. Eu devia, no mínimo, isso a eles.

_Ela se amarra em você e é bem fácil... Não vai achar nada estranho se não ligar no dia seguinte. _ Maikon tentou fazer soar o mais prático, limpo e indolor.

_Não tem outro jeito. _ suspirei.

_Não se preocupe, quando isso acabar, nós te colocaremos a quilômetros de distância daquela garota! _ Maikon bateu no meu ombro e me deu o primeiro olhar de companherismo e dessa vez aquilo serviu como estímulo. Mas, contraditoriamente, suas palavras me anunciavam uma realidade que poderia ser mais dolorosa do que ter Kali e Tamires de baixo do mesmo teto essa noite: a vida sem ela. Eu resolveria depois.

Onde estava a chave do meu carro? Comecei os processos mecânicos de reação. Eles ficavam por perto, prontos para ajudar em algo que não fosse capaz de fazer sozinho. Senti-me em uma bicicleta de rodinhas com mãos ao meu redor, prontas para me agarrar pelos braços se tombasse.

_Vitor? _ ouvi a voz primeiro, depois vi seus olhos verdes, fixos em mim, que descia a escada. _ Onde se meteu? _ ela estava sem Kali agora, para que precisava de mim? Pensei com muita amargura.

Meus dois amigos passaram pelo meu lado direito e esquerdo, desceram na frente e me olharam por cima de seus ombros quando já estavam nas costas de Tamires. Eles queriam dizer com isso “Não demore muito, você consegue”. Eu estava devendo a ambos aquela ajuda, não me renderia por muito tempo.

_Fui ao banheiro. _ respondi com uma voz fria e displicente. Passou pela minha cabeça sorrir, mas o corpo respondeu com uma dor no estômago que isso era inviável. Não com ela, o centro de tudo.

_E o meu presente?! _ seu sorriso doce afagou alguma parte dolorida dentro de mim, onde eu me ferira. _ Estou curiosa, você não disse que fez? _ sua voz estava excitada demais. Seria uma armação para me fazer um pouco feliz, uma migalha do seu carinho para não parecer que ela era uma vilã? Ou eu não queria enxergar que estava simplesmente feliz porque chegara quem queria? _ Vitor? Onde está? _ passou a mão na frente dos meus olhos, como se esfregasse um vidro invisível que nos separava.

_Posso entregar amanhã?

_Amanhã não é mais meu aniversário... _ fez um charme que tentei conectar com algum primeiro que recaíra sobre mim. O que mesmo nela me despertara aquilo tudo no início?

_Mas, não deixa de ser seu presente.

_Por que eu não posso tê-lo agora? _ impacientou-se.

_Por que quer tudo?! _ minhas palavras pularam da boca e não havia como recolhê-las de volta, puxando-as por fios. Já haviam sido lançadas com toda a carga de segundas intenções possíveis e indesejadas por mim.

Ela piscou os olhos, abriu a boca e juntou as duas sobrancelhas no centro da testa.

_Mas... não é meu? _ quase não saiu sua voz, estava magoada com minha frieza.

Chega disso! Pensei. Vi meus amigos a me espreitar da varanda, queriam dizer o mesmo com a postura guardiã.

_Claro... Mas é que ainda não terminei. Se importa se eu te der amanhã, por favor? _ a voz agora conseguiu sair mais calma, suplicante, diria.

_Lógico! _ aceitou de bom agrado.

_Eu estive muito cansado, ocupado arrumando a festa, não deu tempo de terminar tudo... _ usei a mentira mais boazinha e mais errada que vasculhei no lado vil do meu cérebro. Óbvio que estava prontíssimo há dias, fora meu projeto antes mesmo de ela marcar seu aniversário na própria agenda.

_Ah! Sim... _ sua voz fez que entendeu, mas seus olhos um pouco mais apertados vasculhavam algo a mais nas minhas feições para acreditar completamente.

_Eu só te dei trabalho... _ ela sorriu e não me deixou sair, me prendendo com aquela conversa que se alongava.

Se todo meu trabalho pudesse significar a recompensa que eu queria, teria feito tudo de novo com ainda mais esforço. Mas, não dera em nada, até saíra pior do que pensei. Agora ironicamente eu teria que fugir da festa que produzira para estar com ela.

_Licença... _ virei as costas, enquanto a olhasse, não conseguiria ter forças para sustentar a farsa de bom amigo, acabaria a machucando.

Márcio e Maikon me acompanharam até a pista de dança.

_Seu erro foi ser bom demais. _ Márcio resmungou do meu lado. _ Até parece que se esqueceu como os homens fazem... Elas gostam de caçar também. _ lembrou-me mais para me provar que eu estava usando as armas erradas e traindo a imagem masculina que para me incentivar. Ele sabia no fundo que o erro era ter me metido entre ela e meu melhor amigo.

_Já falei com a Sandrinha. _ Maikon adiantou.

_Como “já”?

_Não se preocupe com esse detalhe, ela vai aceitar bem se chegar nela. _ explicou.

Kali aproximou-se e colocou o braço em volta do meu ombro.

_Ele já arrumou para hoje. _ Márcio avisou.

_Aê, cara... Quem? _ fez a pergunta para os outros dois.

_Ela ali... _ Márcio indicou com o queixo a garota que dançava lascivamente, roubando os olhares de todos.

_Sandrinha? _ Kali riu e procurou em mim crédito naquele enlace estranho. _ Não é você quem diz...

_Ah! É só pra zoar... _ desfiz qualquer afeto que ele previa para não me encher com mais perguntas que eu não teria criatividade para elaborar desculpas.

_Hum... Eu também já vou me mandar com a minha gata, se é que me permitem roubar a aniversariante... _ ele deu uma risada tão longa para os meus ouvidos que me deixaram zonzo. Limitei-me a piscar o olho. _ Nossa, cara, está tão nervoso assim? É só a Sandrinha... Vai lá. _ deu-me um empurrãozinho.

Respirei fundo e comecei a dançar com a garota que aceitou prontamente, sem qualquer recusa. Agradeci os planos de Márcio de garantir previamente minha intenção com ela, eu não teria resistência para suportar joguinhos. Peguei-a pela cintura sem perder muito tempo e falei-lhe ao ouvido que a festa poderia ficar melhor longe dali e que a chave do meu carro estava no meu bolso. Ela bebeu um pouco mais da bebida com muito gelo em seu copo e sorriu, fingindo cogitar. Claro que aceitaria. Eu não mentia, a partir de agora, sair da minha própria casa melhoraria muito para o meu lado. Precisei pedir “vamos?” e tomar delicadamente o copo de sua mão. Pisquei o olho para os meus três amigos quando Sandrinha deu as costas para mim em direção a porta. Fiz o melhor papel de pegador que lembrava já ter encenado algum dia. Tudo parecia um script que eu repetia com uma mecânica pesarosa e vazia de emoções.

Skank - Sutilmente


_Vitor, e o bolo, quando vamos partir? _ era a voz de Tamires, antes que eu alcançasse o patamar da porta da rua. Entreguei as chaves para Sandrinha e beijei-lhe o pescoço. Sabia que Tamires estaria olhando e eu quis machucá-la. Não chegaria nem perto do buraco doloroso que ela abrira em mim. Só queria uma pontinha qualquer de sofrimento nela também. Disse a garota para seguir na frente que me despediria da aniversariante.

_Desculpe. _ virei-me para Tamires e ela estava séria, com os lábios entreabertos, aposto que para respirar. Seus olhos se perdiam atrás dos meus ombros, na figura que devia agora estar abrindo o meu carro do outro lado da calçada. _ Você me perdoa se eu sair cedo?

“Você me perdoa” essa é a típica frase que meus amigos taxavam como a parte errada da minha estratégia de ser sempre bonzinho. Só não soou mais fraternal porque foi carregada de um leve, bem leve, tom de canalhice. Isso era para confundir sua segurança sobre eu estar sempre por perto a querendo sob quaisquer circunstâncias. A essa altura não era possível que já não tivesse sacado tudo.

_Não, eu não perdôo. _ surpreendeu-me quando cruzou os braços. Ela estava usando seu último argumento.

Eu sorri, feliz dela querer uma coisa que eu iria lhe negar. Ela não fazia o mesmo comigo? Aproximei-me mais, não era o amigo, mas o canalha que deveria. Era o que merecia! Respirei para acalmar o bicho dentro de mim grunhindo como uma fera.

_É que eu já tinha programado outra coisa, entende?_ fiz parecer um plano preconcebido. _Acabou demorando o parabéns... Você guarda um pedaço de bolo pra mim?

“Guarda pra mim?” Arrrhhhhgghh, idiota, pateta, seu fraco! Travei o queixo, era bom que calasse a boca e partisse.

_Eu não vou ficar feliz, mas se é o que quer.

_Vai ser só um pouquinho menos da grande felicidade que está sentindo essa noite.

Eu agora não tinha dúvida que devia correr, porque não podia dominar minha própria boca que se ligava ao coração sem qualquer válvula de interrupção.

_Nada disso impede de eu querer que fique. _ fincou o pé.

“Disso” seria a surpresa da presença de Kali? Ou “Disso” nossa amizade intensa e forte totalmente separada nas gavetas do seu coração onde havia uma para o amor e uma para o afeto puro? O meu guarda-roupa interno era bem mais bagunçado e era isso que ela poderia entender e ser boazinha me deixando cair fora logo.

_Desculpe. Vou lá...

Desculpe?! Outra vez, seu bundão, não tem que se desculpar por nada!

_Ok. Amanhã, ao menos verei meu presente? _ela levantou o humor em sua voz.

Lembrei-me o anúncio de Kali de que sairiam dali para curtirem sozinhos. Ela ainda no outro dia, depois que ele pegasse o vôo de volta, iria querer me ver? Isso era tão pouco e me fazia feliz que contrariamente me deu tristeza.

_Pode ser. _ respondi encolhendo os ombros, com as mãos nos bolsos.

_Você vai mesmo sair sem me dar nenhum beijo de despedida? _ reclamou.

Eu suspirei, em agonia. Cada segundo a mais perto dela era um suplício porque significava que eu tinha que me afastar na direção oposta, contra todas as forças contrárias dentro de mim que queriam apertá-la junto ao meu corpo.

Dei dois passos a frente.

_Um beijo eu não posso te dar... _ falei, mas não me arrependi, curti a onda de interjeições por trás de suas pupilas, isso a incomodava e era bom que fosse assim.

Ela entendeu bem e não cedeu, trocou de requerimento:

_Um abraço está bom assim? _ sua voz saiu com tanta ironia e rancor que até cogitei se queria mesmo. Calculando isso, demorei demais e ela esticou a mão e tirou a minha do bolso. O toque de sua pele me contraiu o rosto, eu não poderia reagir como um troglodita se ela estivesse em contato comigo.

Olhei rapidamente para o lado, em pânico de que alguém visse aquilo. Era só a mão dela puxando a minha para si, mas meu coração batia tão forte que não devia ser impossível ouvir. Felizmente, havia uma parede que impedia todo o campo de visão de quem dançava na pista. Era um abrigo completamente cego. Ela previra isso também?

Seu corpo se encaixou no centro do meu abraço e eu a envolvi por instinto, a mão lhe afagou o cabelo e a sua mexeu no meu, apertando-o levemente com o punho que devia estar fechado.

_Você é incrível, Vitor. _ disse-me e eu afastei o rosto para olhá-la.

_Nem tanto. _ quis completar “pra você”, mas consegui pela primeira vez controlar-me. O que era bravamente heróico visto que estava aspirando todo seu perfume e fisgado por seus grandes olhos verdes.

_Você não me merece... _ brincou com um grande sorriso. Aquela frase poderia ter sido retirada daquele momento para que terminasse perfeito. Sim, eu não a merecia, não nessa vida, não era para mim. Que não entendesse, mas enfrentasse. _ Mas... Eu gosto de você mesmo assim, não devia... _ mais ironia para esconder seus verdadeiros sentimentos. _... Mas gosto. _ suspirou.

Eu podia dizer-lhe ali tudo de uma vez, aproveitar que estava presa aos meus braços e abrir as comportas, despejar sobre ela as palavras comprimidas em minha garganta. Mas, havia meu amigo que poderia parecer a qualquer momento. A lealdade a ele era forte demais para chegar ao golpe final.

_Você é... _ falei com a minha boca entre sua bochecha e o lóbulo esquerdo, quase rouco. _... a única. _ foi a palavra que encontrei. Era preciso me virar e correr, estava me tornando seletivo e específico demais, a entrega seria quase inevitável nos próximos minutos. Fechei o portão mantendo-a em segundo plano desfocado na minha visão.

27.6.09

Cap 56: De quem esconder? (Vitor)

Meu medo era claro de que o presente fosse de Kali. Como ainda duvidava da obviedade de situação? Seus pais não lhe trariam nada misterioso além de brincos, uma blusa ou uma bolsa. Mas, ele seria capaz de dar-lhe algo tão inovador quanto sua criatividade pudesse inventar para suprir sua ausência.

Sim, meu pânico estava nesse ponto: seu presente iria fazê-la esquecer todos os sentimentos de desprezo que sentira o dia todo. O entendimento das minhas pulsões me deu nojo, eu queria, então que ela sofresse? Que egoísta eu podia ser. Eu nem vira ainda o que se escondia entre as fitas vermelhas e já tinha raiva. Tamires se deixaria levar por qualquer objeto e considerá-lo o cara mais sensível do mundo?! Os humanos nesse ponto eram tão vulneráveis ao teor simbólico das situações. Mas, não era um colar de diamantes que a aguardava, afinal, para que a necessidade da platéia e do silêncio ao redor da caixa exigidos naquele bilhete?

O suor nas mãos e a secura na minha boca me constrangiam. Ao menos ninguém percebia além de mim. Estavam tão obcecados em desvendar o segredo que eu podia aproveitar alguns segundos de anonimato. Mas, será que o que viria iria questioná-los de alguma falha minha? A festa estava acontecendo na minha casa, Tamires era tratada pelos nossos pais como se fôssemos “namorados não oficialmente declarados”. O carinho e sintonia que trocávamos eram fortes, não deviam ser cegos para notarem.

_Ohhh ... _a exclamação ecoou mais rápido do que eu pudesse analisar o que também vira. Não que a distância de onde eu estava não me permitisse distinguir o presente. É que meu cérebro tentava fazer milhares de conexões com as atitudes típicas de Kali a fim de desvendar o que aquilo tinha a ver com a necessidade de ela mostrar o presente em público. Agora eu me tornava ainda mais preocupado que antes.

_Meu Deus! _ Gisele vibrou. _É um Mac da Apple novinho!_ ela deu um gritinho.

Meu cérebro se dividiu em duas zonas de concentração. A primeira fazia uma varredura ainda em todos os padrões de comportamento de Kali e a outra parte procurava os olhos de Tamires para medir a sua felicidade. Outra vez me senti sujo. Como poderia desejar que estivesse triste? Pior, que monstro eu era para ter dado um sorriso como aqueles quando entendi que o presente não era o que esperava. Ela gostava de coisas que fossem feitas com exclusividade. Não conseguia enxergar no incrível aparelho a mesma emoção dos demais, ele poderia ser perfeitamente comprado por um bom preço em alguma loja nos EUA, a pedido de Kali pela sua secretária. Essas avaliações mentais me divertiram malignamente por um segundo e me deram o sorriso que eu precisava para disfarçar.

_Mas... O presente não é esse. _ a voz que partiu do meu lado parecia ter lido meus pensamentos, assustei-me e temi ter falado qualquer coisa em voz alta. Arregalei os olhos e encontrei a mãe de Kali já perto de Tamires. _ Abra.

Era o que eu temia e previa, Kali não deixaria o brinquedo High Tech ser entregue sem nenhuma carga maior de significado. Eu só tinha que agüentar firme e ficar com o sorriso congelado. Não movi a cabeça para não encontrar os olhos dos meus pais em algum ponto do meu campo de visão. A condenação que viria seria difícil demais de suportar. Eu nunca afirmara que namorava Tamires, mas era o que desejavam e queriam acreditar. A prova disso fora aquela incrível festa. Magoá-los com aquela frustração seria um impacto como de um acidente de carro. Não queria que suas tristezas caíssem sobre mim como pequenos pedaços de vidros estilhaçados. Cortaria-me a alma. Eles não mereciam que lhes proporcionasse aquela notícia dessa forma. Se era ruim, podia ficar pior. Agora sim minha mãe teria de primeira mão o fato: “Eu estava sendo afetuoso com a garota do filho da sua melhor amiga”. Para ela seria como seu estivesse em um incesto com minha irmã.

_Eu não sei mexer nisso. _ Tamires voltou a ter os olhos iluminados pela esperança e isso me corroia por dentro, amargando a minha boca. Onde estava meu sorriso? Podia me deleitar de alguns segundos sem ele, todos estavam novamente hipnotizados, eu era insignificante e devia aproveitar bem isso. Iria precisar.

_Vitor... _ ouvi alguém chamar meu nome. Não, por favor, não me peçam para mexer no presente, eu posso não me controlar e parti-lo. Meu coração iniciou um processo frenético e doloroso de batidas descontroladas, eu entraria em síncope se outra pessoa não se predispusesse.

Tamires seguiu a voz e me olhou pela primeira vez. O sorriso, onde estava o meu sorriso? Abri-o com a força que não tinha e este saiu como o sorriso natural de uma fera maldita e asquerosa que trama destroçar a mocinha inofensiva. Que animal eu era para lhe oferecer essa alegria falsa?! Quem sabe, ao contrário, que abnegado eu estava me comportando para esconder meu inferno e não atrapalhar sua felicidade? O outro ângulo me fez relaxar um pouco mais os músculos, só que trouxe o terrível fel da pena. Eu tinha piedade de mim mesmo e isso era tão ridículo. Eu, Vitor, o cara que podia ter todas as garotas! Todas não, exceto uma. Se a auto-piedade era humilhante, prever todos os pares de olhos destinando o mesmo sentimento para mim foi um golpe silencioso no estômago.

_Eu ajudo. Meu pai tem um. _ Sandrinha ligou o aparelho. Eu devia agradecer-lhe por isso depois de alguma maneira.

Dei quatro passos atrás, de vagar para que fossem imperceptíveis. Eu sabia que a bomba iria estourar. Não os machucaria, não os faria mal, mas me mataria. Escondi-me na zona de sombra, afastei meus olhos do seu campo de visão. Eu era mal por querer que ela não tivesse aquela felicidade. Eu era bom porque não deixaria que tivesse pena, que sua alegria fosse diminuída em nenhum micropedaço de vibração por minha causa. A minha dualidade era sobre humana, mas me dava esperança de salvação.

_Na verdade, ele pediu para você abrir esse vídeo. _ a mãe de Kali pegou o objeto que estava no fundo da caixa e a entregou. Um Cd dentro de uma embalagem plástica transparente envolta em outra fita vermelha com um pequeno laço transpassado nas quatro laterais. Tantos detalhes mimosos para lhe fazer feliz. Fora ele mesmo ou pedira que uma secretária o ajudasse. Pare com isso, Vitor. Não procure diminuir o sucesso evidente do seu amigo!

“Na verdade, ele pediu para você abrir...”. “Ele pedira” era um diálogo. Então, a mãe de Kali lhe contara da festa e ele aproveitara para mandar o presente. Hei, não estranhara nada? Eu dando a minha casa para comemorar o aniversário de sua garota? Ou ele tinha escutado da própria Tamires, bem, ela sim disfarçaria bem. Um novo sorriso se abriu, ela era tão ruim quanto eu, podia enganá-lo para não se manchar. Ou, nada disso. Fora inocente, contara tudo e estava perfeitamente feliz com o presente de seu amor nas mãos e na casa de seu melhor e mais novo amigo? Impossível, eu queria acreditar. Tudo fora criação de minha cabeça, Tamires não me desejava nem que sem saber?!

Senti meu cérebro em pane, doer, fadigado com a corrente mental frenética. Eu estava fadado à loucura.

Tamires colocou o CD no drive e o compartimento fechou-se lentamente com um zumbido eletrônico. Eu podia ver aquele CD como meu corpo entrando em uma câmara de gás, amarrado a uma cama, engolido para a destruição.

Não! Não era nada disso. (Eu sabia que a denegação não demoraria a aparecer e me salvar.) Eu estou ótimo, posso muito bem dar a volta por cima, tirá-la do meu foco, me envolver com qualquer garota, depois me acostumar com o hábito da presença e namorar outra vez. Isso, só estava sentindo isso por Tamires por causa da rotina! Ela ficaria bem, eu ficaria bem, todos seríamos felizes em um mundo ideal...

Uma música baixinha começou a tocar. Sandrinha aumentou o som para que todos se deleitassem com o que viam. A tela estava contrária a mim. Eu não queria mudar de posição. O que não pudesse ver já me ajudaria. Mas, o som fabricava mentalmente todas as imagens possíveis, era pior, bem pior de tolerar.

Só e apenas uma canção. Era o que podia ouvir. Mas, os olhos de Tamires se iluminaram e o sorriso abriu. Eu tinha que ver, por mais autoflagelo que fosse. Ainda na penumbra, fiz um curto “L” ao redor das pessoas e entre dois ombros, vi a série de fotos deles juntos. A letra falava de um amor que podia horas ser descrito como dele, horas como meu.

Você me faz correr demais
Os riscos desta highway
Você me faz correr atrás
Do horizonte desta highway
Ninguém por perto, silêncio no deserto,
Deserta highway
Estamos sós e nenhum de nós
Sabe exatamente onde vai parar

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos nem objetivos
Estamos vivos e isto é tudo
É sobretudo a lei
Dessa infinita highway

Quando eu vivia e morria na cidade
Eu não tinha nada, nada a temer
Mas eu tinha medo, medo desta estrada
Olhe só! Veja você
Quando eu vivia e morria na cidade
Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor
Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava
E, à noite, eu acordava banhado em suor
Não queremos lembrar o que esquecemos
Nós só queremos viver
Não queremos aprender o que sabemos
Não queremos nem saber
Sem motivos, nem objetivos
Estamos vivos e é só
Só obedecemos a lei
Da infinita highway

Escute garota, o vento canta uma canção
Dessas que a gente nunca canta sem razão
Me diga, garota: "Será a estrada uma prisão?"
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre
Se tanta gente vive sem ter como viver

Estamos sós e nenhum de nós
Sabe onde quer chegar
Estamos vivos sem motivos
Mas que motivos temos pra estar?
Atrás de palavras escondidas
Nas entre linhas do horizonte
Desta highway(?) Silenciosa highway

"Eu vejo um horizonte trêmulo
Tenho os olhos úmidos"
"Eu posso estar completamente enganado
Posso estar correndo pro lado errado"
Mas "A dúvida é o preço da pureza"
É inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo "Não corra"
"Não morra", "Não fume"
"Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes"

Minha vida é tão confusa quanto a América Central
Por isso não me acuse de ser irracional
Escute garota, façamos um trato:
"Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato"
Eu posso ser um Bealte
Um beatnik, ou um bitolado
Mas eu não sou ator
Eu não tô à toa do teu lado
Por isso garota façamos um pacto:
"Não usar a highway pra causar impacto"

Cento e dez
Cento e vinte
Cento e sessenta
Só pra ver até quando
O motor agüenta
Na boca, em vez de um beijo,
Um chiclet de menta
E a sombra de um sorriso que eu deixei
Numa das curvas da highway

Um vídeo deu lugar à apresentação de fotos. Meu estômago se revirou e senti que meu equilíbrio tinha sido atingido. Era Kali, escorado em um capô de um carro. Alguém segurava a câmera um pouco trêmula.

_Oi, linda. _ ele sorriu. Meu amigo era tão importante na minha vida, sentia sua falta, sempre me protegia de tudo. Como pude pensar em todas aquelas atrocidades minutos atrás? Eu não merecia piedade de ninguém, nem de mim. Engoli o nó cego na minha garganta. _ Bom, estou aqui muito longe, mas queria estar ai ao seu lado. A festa deve estar incrível, meus amigos te dando atenção, mas eu aqui, do outro lado do mundo...

_Ohhhh... _ as meninas se emocionaram em um coro. Tamires só deixou uma linha reta e imóvel nos lábios, mas seus olhos eram tão cintilantes que nem poderia duvidar da emoção que se derramava dentro dela.

Como são tão superficiais! Elas não sabiam o quanto Tamires era triste quando a conheci. Seu coração estava espedaçado e não havia qualquer felicidade, qualquer sorriso, qualquer sinal de vida... Tudo culpa do mesmo homem que agora elas achavam um máximo por causa de um vídeo. Ele não estava ali para ampará-la, não a conhecia de verdade! Idiotas romanticazinhas!

Para tolerar mais um pouco, tive que parar de encarar Tamires, desviei o olho para o lado e assustei-me quando me dei conta de que outra pessoa me vigiava da mesma maneira, Gisele. Já ouvira sua conversa com a amiga, era minha fiel e única torcedora.

_Minha amada...

Fechei os olhos, golpeado e, quando abri, Gisele estava ao meu lado. Abriu a boca para dizer algo, enquanto já tocava meu braço para segurá-lo.

_Por favor, não faz nada. _ pedi sem praticamente mover a boca, entre os dentes, com as duas mãos no bolso. _... Não diz nada. _travei o maxilar, não conseguia falar. Eu ia romper, faltava muito pouco. Ela não podia me dar mais consciência disso. _ Saia daqui, por favor... _ tentei não ser rude, mas só firme, era meu último pedido.

Ela aceitou, mas sem desviar os olhos, desconfiada se eu podia ser realmente forte.

_...Eu te mandei o computador, já que você estava precisando de um. O seu já estava bem nas últimas... _ ele riu.

Esse era o meu presente, aquele que ele debochava agora. Eu o tinha equipado com tantos upgrades de placas e softwares que seria muito mais potente que aquele Mac. Tudo feito pelas minhas próprias mãos, como pedira.

Tamires meneou a cabeça para o lado, concordando, precisava mesmo. Que diferença teria feito em sua expressão se eu tivesse antes lhe dado o meu presente? Ainda bem que não mostrara, a minha cara é que seria de um pateta completo.

_Eu não vou me estender muito, já que a festa aí precisa rolar. Só tenho uma notícia boa para te dar! Daqui dois meses, estarei de volta ao Brasil. De vez.

Dois meses. De vez. Repeti aquilo mentalmente. Minha linha de chegada ou, ironicamente, poderia dizer, de partida? Não havia espaço para nós dois. Kali tomaria seu lugar devido, justo.

Tamires riu, feliz. Pronto, ganhara o presente dos seus sonhos, embalado com fitas vermelhas. Toda a festa, as demonstrações de carinho e preocupações durante aquelas semanas se esfumaçaram e perderam a significação. Será que lembraria ainda meu nome?

Sua felicidade era agora, para mim, injusta.

_Amor, você está aqui no coração. Me espera. _pediu.

Se meu amigo não te atrapalhar. Imaginei a voz de Kali na minha cabeça com toda a ironia. Eu ainda era sádico. Merecia! Quem mandara chegar tão perto do proibido?

_Agora, eu também mandei outro presentinho. É a sua cara. Pai, você trouxe, né? Eu sei que falou que podia não caber na mala do carro. _conversou com seu pai como se estivesse ali entre nós.

As pessoas procuraram o homem ao seu redor e não encontraram.

_Sim, ele trouxe! _ a mãe de Kali anunciou.

_Então, é isso, Amor. Curta muito seu outro presente. Um beijo. Ah, amigos, já já estarei de volta. Beijos para todos. Feliz Aniversário, Tamires!

_Cadê o outro presente?! Cadê? _todos começaram a pedir em voz alta.

_Calma, calma. Vamos até a entrada ver. _ a mãe de Kali guiou a multidão e, quando o lugar começava a ser evacuado, sobraram duas pessoas em pé. Meus pais. Eles deram dois passos a frente e eu atrás. Não queria que me amparassem.

_Você sabia disso? Você ajudou a armar isso? _ os dois perguntavam ao mesmo tempo nas minhas costas.

Eu acompanhei a pequena aglomeração de pessoas. Não iria responder nada agora.

Havia uma caixa envolvida em um papel. Era de tamanho médio, com um laço vermelho em cima feito de um material esponjoso.

_Abre! Abre! _bateram palma.

_Eu ainda acho você melhor. _Gisele soou quase infantil ao meu lado.

_Não seja idiota... _ falei baixinho, irritado. Agora sem preocupação de magoá-la. _ To fora... _ dei as costas, eu precisava voltar para a cozinha e beber algo.

24.6.09

Cap 55: Presente surpresa (Vitor)

Nossas mães estavam completamente envolvidas com aquela festa. Mas, a verdadeira dona do dia não parecia tão animada assim com a data. Sua folga deixou a mesa e a cadeira do canto do escritório vazias. Não havia seus olhos sobre mim, mesmo quando eu só os sentia. O dia se estendeu pesaroso e insignificante sem um só dos seus sorrisos. Nunca estive tão incompetente com a menor das tarefas. Meu alento é que era sexta-feira e o expediente não se alongaria mais. Desci para o estacionamento com a chave quicando na mão, só então comecei a me entusiasmar. Se tivesse sorte com o trânsito, a veria em menos de uma hora.

Desci do carro com o celular já no ouvido. Anunciei minha chegada e Tamires pediu um momento. Um minuto depois, apareceu no portão de calça jeans e um casaco de gola alta branco. Nos pés, chinelo e no rosto, nenhuma cara de vibração.

_Parabéns. _ sorri e quis agarrá-la no ar, beijá-la inteira, bagunçar seu cabelo, fazer algazarra. Mas, continuei no ponto morto, a espera de sua coordenada. Ela estendeu os braços e me puxou com uma necessidade que nada tinha a ver com aniversário. _ Eu já te dei o parabéns, mas vale o pessoal... _ disse-lhe, citando minha ligação a meia noite e um. _ ... Eu pensei que já estaria pronta. _ comentei, vendo que não me soltava. _ Tudo bem? _ afastei-a do meu peito. _ Aconteceu alguma coisa? Era para estar feliz, não?

_Não sei porque... _ foi vaga. _ Vamos entrar? _ virou as costas para me negar os olhos e isso era péssimo sinal. _ Todos já foram, não tem ninguém... _ fechou a porta da sala atrás de nós. Desligou a televisão com o controle remoto e se jogou no sofá. Sentei-me ao seu lado. _... Podíamos ficar aqui, eu faço uma pipoca no microondas, a gente...

_Ele não te ligou ainda? _ perguntei, sentindo o peito queimar, como aço líquido borbulhando no fogo. Praticamente precisava me desintegrar para poder mudar de forma e lidar com aquela relação estúpida que eles levavam. Não queria continuar a ver seu rosto sem o sorriso, faltava a melhor parte nela! Tanto que eu tinha avisado a Kali por e-mail e Msn, só para que não esquecesse e estragasse as coisas para o meu lado. E, agora ainda tinha que juntar forças para defendê-lo para fazê-la feliz.

_Não. Mas, que importa? _ suspirou. _ A pipoca ainda está de pé?

_Nem a pipoca, nem essa roupa... Nada disso, se levante, se arrume, porque tem muita gente lá esperando.

_Muita? _ gemeu como se lhe oferecesse uma colher de remédio amargo.

_Vamos? _ levantei, estava sério, me controlando para não pegar o celular e xingar meu amigo de todos os nomes que lembrasse. Kali tinha um poço de petróleo no quintal de casa, uma mina de diamantes no jardim e preferia ignorá-los?!_ Quero vê-la incrivelmente bonita.

_Ah! Hoje não vai ser possível... Estou um horror... _ fechou os olhos com a cabeça enfiada no travesseiro.

_Não me faça ter que dizer que sempre está bonita. Ok, eu digo. O que mais para se levantar?

_E meu presente? _abriu o olho de repente, se iluminando inteira.

_Pensei que não se importasse...

_Não com o de comprar...

_Sim, eu lembrei seu presente “de fazer”. E está lá em casa, por isso, levante-se daí!

_Hum, e o que é?_ Tamires ficou de pé.

_Já ouviu falar de surpresa?

_Ãnh... Mas o dia já é hoje!

_Não até eu ter essa boa desculpa para levá-la daqui.

_Fala como se pegasse um osso de galinha e arrastasse por um anzol. Já estou me vendo como um cãozinho correndo atrás com a lingüinha de fora! _ comparou e nos fez rir. Já estava recuperando seu estado de humor e isso era ótimo.

_Vem pra cá. _ ela abriu a porta do seu quarto. _ Eu vou me trocar no banheiro e já venho. _ pegou o vestido no cabide que estava pendurado na porta.

Deitei em sua cama e cruzei as pernas. Apoiei a nuca na palma da mão direita.

_ Vamos ver como posso mudar essa cara..._ sentou-se na penteadeira de costas pra mim. _ Como foi o dia hoje lá sem minha presença?

_Normal... _ menti. Para mim, tinha sido um tédio insuportável.

_Nossa, que insignificância. _ ela parou com o lápis de olho na altura do nariz e fez uma careta. _ Nem uma pontinha de saudade?

_Sabe que eu preferia você lá. Sinto sua falta sempre, como o ar. _ respondi do jeito que ela queria, carregando de um tom de sarcasmo para aplacar o platonismo.

_Eu também sinto a sua, Vitor. _ respondeu baixinho, sem emoção, enquanto escolhia o tom da sombra. _ Sonhei mais uma vez aquele sonho hoje. Quando conseguirei sublimá-lo de vez? _ balançou a cabeça para os lados e procurou alguma coisa na bolsa de maquiagem vermelha de bolinhas brancas, parecia conversar sozinha.

_Quando realizá-lo? _ acho que matei a charada ou lhe propus algo extremamente desconcertante, pois me olhou pelo espelho e sorriu muito sem graça. _Já está bonita... _ começava a me cansar.

_Pra você, eu bem poderia ir de rosto lavado.

_Exatamente, é linda de todo jeito.

_Pra mim, você também.

_Lindo?

_Gosto de você como é. Principalmente de surfista, bem descabelado.

_Isso ainda não quer dizer lindo...

_Deixa de ser convencido!

_Só pode responder?

_Simmmm, você é lin-do de qualquer jeito.

Sorri, satisfeito. Adorava arrancar-lhe o que queria. Éramos tão parecidos nessa arte.

_Acho que o melhor presente já ganhei. _ ela virou-se na cadeira e me encarou de lado. _Priscila saiu do hospital. O bebê também está ótimo! Não vejo a hora de visitá-la. Quer ir comigo?

_Claro, quando quiser. _aceitei prontamente e depois medi os riscos de cruzar com os pais de Kali. Eles pensariam o que da minha amizade com Tamires? Aliás, essa noite eu deveria estar muito atento. Todos os pares de olhos me vigiariam.

_Que foi? Ficou quieto. _ela reparou. _Me dá o seu pensamento, hoje é meu dia.

_Estou pensando em uma data livre para irmos. _ respondi logo para não ser pego na mentira.

_O seu preferido, o clássico ou esse novo? _ mostrou os frascos de perfume.

_O meu preferido. _ gostei da importância que me deu a sua escolha.

_Só essa última ajuda e pronto. _ veio sentar na beirada da cama de costas com o colar para eu abotoar. Sentei-me e demorei para engatar o fecho. Fingi cegueira, falta de unha, inabilidade, tudo que estendesse o contato próximo as suas costas seminuas e o pescoço perfumado. _Está difícil aí, hen?! Quer que eu tente?

_Consegui. Pronto. _abotoei. _Você fica se mexendo. _ culpei-a.

_Como estou?_ virou o corpo e abriu um sorriso brilhante e hipnótico.

_Quer que eu diga mais uma vez? _bufei.

_Diz com outras palavras, então..._ deu de ombros e pegou no meu relógio para ver as horas, segurei seus dedos e, depois, sua mão. Seus olhos de rubis cintilantes não esperavam exatamente um elogio, mas que eu provocasse nela a sensação de que era a garota mais querida do mundo e eu sabia muito bem de quem era a culpa por sua insegurança!

_Como quer... _ segurei sua nuca e fiz um afago com os dedos em seus cabelos. _ Que você é tão fascinante quanto uma deusa?

_Parece letra de pagode, Vitor! _ desdenhou. _ Deusa?!

_Ok, Tchuka? _ ofereci outra opção mais esdrúxula e ela soltou uma risada sonora. _ Sabia que ia gostar mais dessa.

_Adoro vocêêêê! _ alongou a última vogal e bagunçou meu cabelo, afastei-me para trás e seu corpo acompanhou meu movimento. _ Está certo... _ parou inclinada sobre mim, desistindo da guerra de braços. Apoiei o cotovelo na cama. _ ... Não é normal isso entre nós. _ ela abaixou os olhos para a minha camisa branca e desenhou qualquer coisa abstrata no meu peito. Se ao menos eu pudesse usar um só movimento para virá-la e tomá-la... Engoli em seco e sustentei minha passividade. _ ... Eu me sinto tão eu mesma ao seu lado. Poderia perfeitamente ficar aqui comendo pipoca e ouvindo suas bobagens.

_Bobagens... _ repeti.

_É... Isso de me achar uma deusa e tal.

_Não é... _ levantei o corpo e a segurei nos braços. Não, Vitor! Não se exceda mais que isso! Ela é proibida, uma voz ressoou dentro de mim com um grito agudo. _ ... Eu te acho incrível. E isso não é um sentimento de agora, é mais antigo, quase secular, diria. Uma força de um furacão...

_Sim, teríamos pipoca e seus exageros! _ ela beijou minha testa e se levantou.

Soltei o ar devagar, cansado demais por correr a maratona parado no mesmo ponto.

_Vem, minha Deusa, até agora você só está me enrolando. _ puxei-a pela mão.

_Mas, só retocar o...

_Ding Doinnn. Tempo esgotado. _ puxei-a para a saída.

_Lavou o carro? _ foi a primeira coisa que falou ao bater o portão. Nosso grau de convivência estava subindo para a potência preocupante e eu gostava na mesma proporção que temia.

Chegamos em pouco tempo na minha casa e a rua estava repleta de carros parados no acostamento. Tamires se deu conta disso e pareceu aflita, não fez nenhum movimento para sair. Peguei em sua mão e falei que não ficaria ali a noite toda. Depois, soltei e sai do carro. Ela fez o mesmo e sorriu, sem parar de olhar par a casa completamente acesa. Alguns amigos nos avistaram da sacada e avisaram que tínhamos chegado.

_Não vai colocar o carro lá dentro?_ perguntou.

_Não, a garagem está ocupada com uma surpresinha... A noite está só começando.

_Não me assusta. _ riu, nervosa.

Entramos pelo portão do estacionamento e descemos a rampa que levava a garagem do subsolo.

_Meu Deus... _ ela suspirou e me olhou incrédula, não sabia o prazer que me dava com isso.

Meu amigo DJ tocava na sua mesa de mixagem e nossos amigos se divertiam dançando na pista que improvisamos com luzes, alguns panos coloridos. Dois garçons faziam os drinks com Vodka e frutas. Alguns isopores com cerveja à vontade.

_Isso deve ter custado uma fortuna... _ Tamires pegou meu braço e arregalou os olhos.

Fale em seu ouvido.

_É muito pouco para ver você feliz.

_Eu não mereço tudo isso... _ riu e começou a ser cumprimentada pelos amigos da faculdade e do trabalho. Todos estavam gratos pela festa e queriam parabenizá-la. Sua amiga Gisele, que já tinha os braços de Márcio por sob seus ombros veio contar que fora a responsável pelos acréscimos a lista modéstia de Tamires.

_Vitor arrasou, não? _ ela gritou para que pudéssemos ouvir. _Vocês estão lindos juntos! _ disse já meio bêbada.

Eu me sentia satisfeito de ser querido entre as pessoas que lhe importavam. Mas, nós dois partilhávamos da linha limite que cercava as fronteiras de nossa amizade. Tamires abaixou os olhos, ignorou a animação de Gisele e apressou-se a abraçar uma outra conhecida que lhe entregara uma caixa com um presente embrulhado em papel vermelho.

_Posso falar com você? _ gritou.

_Vem comigo... _ atravessei a pista até a escada que levava à cozinha. Subimos e, ao fechar a porta, o som ficou abafado.

A mãe de Tamires e a minha conversavam animadamente junto à bancada da cozinha repleta de comida. As duas vieram enchê-la de beijos e carinhos.

_Parece que estão se dando bem... _ comentei.

_Ah! Sim, sua mãe é tão adorável quanto você. _ dona Rô sempre ótima anfitriã. _ Seu pai está lá na sala, vai lá falar com ele. _ dirigiu-se a mim e pediu que eu deixasse Tamires um pouco com elas.

A sala estava com uma música ambiente mais baixa, a mesa repleta de petiscos e salgados. Os parentes de Tamires estavam confortavelmente acomodados. Tudo saíra tão perfeito que eu me sentia realizado. Minha mãe merecia que eu lhe fizesse o que pedisse por muitos anos para agradecer a sua empolgação e empenho. O dinheiro também fora muito bem empregado, não me arrependia de uma só moeda.

_Tudo isso é pra mim?_ ouvi sua voz e me virei sorrindo. _Falta alguma coisa para ficar mais incrível? Não consigo pensar! _ brincou. _ Eu preciso te falar...

Seus parentes fizeram fila para mais abraços. Avisei-lhe ao ouvido que iria tomar banho e já voltava. Eu precisava tirar a roupa do trabalho e me arrumar. Fiz isso o mais rápido que pude e, quando já estava quase pronto, ouvi três pancadinhas na porta.

_Posso entrar? _ ela pediu.

_Pode, estou pelado...

_Engraçadinho! _ fez uma careta e foi sua vez de se espalhar na minha cama, entre as almofadas. _ Preciso respirar, nunca tive que lidar com tanta gente! _ posso ficar aqui um pouquinho? _ pediu.

Essa não era uma pergunta apropriada a responder. Por mim, ficaria ali, naquela posição onde poderia alcançá-la quando quisesse para sempre. Sentei-me ao seu lado para calçar o tênis.

_Está com o rosto vermelho... _ comentou.

_É por que estava de cabeça baixa. _ suspirei. _ Estou um pouco cansado...

_Te dei muito trabalho, né?

_Faria tudo de novo. Agora não podemos ficar aqui...

_Só uma coisa...

_Sim, você ia dizer o que mesmo? _lembrei-me.

_Hum... Eu queria te agradecer... _ Tamires achou alguma coisa no meu cabelo que lhe tirou a atenção da fala, que ficou arrastada e desconcentrada. _ ...Você pensou em tudo para me alegrar. Nem parece que... _ começou a dedilhar os fios dos meus cabelos e arrumá-los em diversas direções. Mal sabia que esse simples toque me impedia de pensar ou ouvi-la. _ ...eu estava em casa agora pouco sem saco pra nada. Agora estou aqui, louca pra curtir tudo... _ parece que gostou do resultado bagunçado que conseguira. _ ... Obrigada. _ resumiu.

_Como você gosta do meu cabelo, hen? Ou não, vive tirando do lugar!

_Não sei... Agora está bom. _ cerrou os olhos, ameaçou esticar as mãos mais uma vez e eu me afastei.

_Eu não sou sua boneca! _ ri.

_Meninos... _ a voz da minha mãe no corredor me fez levantar abruptamente. Tamires franziu a testa e continuou no mesmo lugar, só um pouco menos relaxada. _ Ah! Estão aí... _ olhou para Tamires e depois investigou nos meus gestos qualquer vestígio de algo que eu pudesse lhe esconder. _ venham ver quem chegou. _ ela sorriu, animada.

Só havia uma pessoa que a faria ficar daquela maneira. Meu coração vacilou no peito. Tamires perguntou quem podia ser, mas encolhi os ombros. Era melhor não pronunciar nomes para que não se tornassem verdade, pensei. Da escada, tive certeza. Eram os pais de Vitor. Seguravam uma caixa do tamanho de uma pizza gigante embrulhada em papel prateado, com um laço vermelho.

_Pra mim? _ perguntou ela, apontando para seu peito. Agradeceu e perguntou rapidamente sobre a saúde de Priscila e do bebê. Estavam bem, responderam. _ Quem ótimo! Queria tanto vê-la. _ suspirou.

Eu cumprimentei o casal e me dirigi à mesa de frios. Não queria proximidade deles aquela noite. Não podia controlar meus olhos e mãos ao lado de Tamires. Mas, não pude deixar de reparar na sua cara de estupefação com o que vira dentro da caixa. Ficou parada, olhando para dentro, com a boca aberta. Mastiguei o queijo espetado no palito e senti a minha curiosidade forte o bastante para arriscar me aproximar.

Estiquei o pescoço e vi que ela lia um papel A4: “Abra perto dos nossos amigos.” Pedia. Tamires levantou a mensagem, havia outra caixa menor. Sorriu, fascinada. A essa altura, Gisele, que aparecera na sala, já estava animada para compartilhar o presente. Arrastou Tamires para a pista de dança e fez o DJ parar. Chamou atenção de todos. Eu fiquei estático à porta, sentindo enjoar. Meus pais e parentes apareceram sobre meus ombros, respirando também ansiosos atrás de mim. Cada movimento de puxar uma alça do laço de fita vermelho era como se suspendesse uma veia do meu coração e me tirasse o sangue. Comecei a temer aquilo mais que uma bomba relógio.

23.6.09

Cap 54: Sempre perto (Tamires)

Vitor viajara à negócios, segundo seu pai me informara, e ficara, por isso, longe do escritório por uma semana. Por causa disso, não aparecia na faculdade quando as aulas terminavam. Mas, não fui para casa de ônibus durante esses dias. Ele escalara o batalhão dos seus amigos para essa tarefa. Eu sabia que todos os dias eu iria descer os degraus e ouvir meu nome em um timbre diferente. No começo, encarei bem, mas hoje, eu não queria mais essa brincadeira!

O último fora Maikon e, agora, era Márcio de moto. Eu não era prisioneira, não podia ser controlada! Senti a claustrofobia daquela jaula invisível limitando meu espaço. Não ia deixar isso acontecer... Minhas mãos tremiam de raiva quando disquei seu número no celular. Joguei o cabelo pra trás e o segurei com a mão para que não caísse na testa, meu queixo estava enrugado de raiva. Minha voz seria de um grito, antes que seu alô saísse da garganta. Ele não perdia por atender.

Márcio continuou fumando ao lado da sua reluzente moto. Estava pacientemente esperando que eu subisse. Não havia a chance de negar-lhe isso. O que será que ganhava como recompensa de Vitor pela tarefa de me levar em casa? Uma peça nova para sua moto? Qual fora a promessa feita dessa vez? Meu pensamento se manteve ocupado com essas especulações enquanto a ligação continuava suspensa. Respirei forte, com as narinas se apertando ao osso do nariz. Márcio pegou seu celular e olhou-o por um instante, apertou dois botões e depois voltou a pô-lo no bolso.

_Vamos? _ perguntou, como se eu tivesse acabado de descer pela escada com um lindo sorriso no rosto. Não me enxergava. Poderia ser um perfeito serial killer, frio e alheio a minha rebeldia. _ Eu prometo ser bonzinho e ir devagar. _ riu e colocou o capacete, contando que eu não bateria mais o pé e o obedeceria. Vitor deve ter feito referência ao meu medo de velocidade. Grande confiança a sua em me prover logo uma moto, capaz de correr mais que muitos cavalos! Pensava que eu era uma Maria Gasolina?! _ Você me ajuda, eu te ajudo, amanhã você se resolve e pronto. _ ele arrastou aquela frase como se puxasse uma corda frouxa que uma hora se esticaria ao limite e puxaria meu pescoço. Não havia muita racionalidade na sua proposta, apenas um apelo emocional para o meu cansaço evidente no rosto. Poderia fechar os olhos e estaria em casa em cima daquela máquina negra, brilhante e feroz. _ Tome. _ me passou o capacete.

Engoli em seco, o objeto pesando na minha mão direita. Precisei respirar fundo duas vezes para que meu cérebro se oxigenasse o bastante. Eu apostava que, ao roncar dos motores, eu entraria em coma. Não foi nada diferente do que imaginava, o pânico, o sufocamento, o frio, a adrenalina em overdose, exceto pelo que vi quando abri os olhos. Não estava perto de casa, nem em nenhum lugar que conhecia.

_Que houve? A moto quebrou? _ perguntei.

Ouvi o riso abafado por trás da espuma interna do seu capacete. Eu devo ter dito algo muito idiota, como insinuar que aquele brinquedo não tivesse uma vida útil brutal. Isso não explicava em nada aquela rua residencial, com um bar de porta de vidro e luz amarelada.

_Ele quer falar com você. _ disse, agora com o rosto para o lado, olhando-me de canto de olho.

_Você não pode me levar até em casa? _ perguntei, imaginando a cara de Vitor esperando.

_Não dificulta, menina. A última parada é aqui. Já fiz minha parte.

O que ele era? Parte de uma legião oculta de seguidores de Vitor?! Será que passava um ônibus ali para minha casa ou eu teria dinheiro para um táxi?

_Vem. _ ele tocou meu braço e me olhou fundo nos olhos para não deixar dúvida de que era uma ordem. Essa não devia ser parte da “missão”, mas uma garantia de que fizera o trabalho bem feito. Ele não estava seguro com meus olhos percorrendo o lugar em busca de maneiras alternativas de escapar. _ Vou acompanhá-la. _ soou tão cavaleiro para quem me obrigava a seguir o plano.

Saltei da moto, entrei no bar e fui guiada até uma mesa no canto do fundo. Era uma adega de vinhos. A luz amarela envelhecida, os quadros retro e o chão de piso português preto e branco jogavam um pano de fundo antigo-chique nos meus sentimentos afetados. Parei diante da mesa onde Vitor estava digitando no laptop. Uma luz forte descia por uma luminária quase na altura do topo de sua cabeça. Senti-me uma mocinha entregue ao vilão, pronta para ser atirada aos tubarões, tendo que decidir se iria sozinha atravessar a proa ou precisava de um empurrão.

Márcio fez um sinal de despedida e virou-se. Não tinha mais nada a fazer. Acompanhei-o com os olhos até chegar à porta e, depois, me virei para a mesa e Vitor estava de rosto levantado, a me contemplar por cima da tela. Será que mandava dali suas ordens via satélite, perfeitamente capitadas pelos celulares 3G de seus amigos?

O ambiente era bem adulto para uma garota de mochila nas costas. Ele puxou uma cadeira ao seu lado e o ruído agudo me arranhou os ouvidos. Fiz uma leve careta e sentei. Tudo que eu mais tinha certeza era de que aquela seria nossa última conversa. Vitor veria tão claramente como uma advogada pode usar o poder das palavras para destruí-lo que nunca mais iria querer olhar pra mim.

_Eu quero falar com você... _ comecei por qualquer ponto, todos levariam ao ataque final de raiva, não importava de onde partisse.

_Por favor... _eles estendeu a mão para uma garçonete, que prontamente pegou o bloco de notas. _ ... Um sanduíche desse... _ apontou no cardápio. _ e um guaraná zero. _ pediu e pareceu ser para mim, como não iria me perguntar?! Agora, ditaria o que comer, onde dormir, o que usar?! Isso estava passando dos limites. _ ... Não vai tirar a mochila? Eu sei que, quando começa, não pára... _ voltou a digitar no computador, depois apertou uma tecla e abaixou a tela. Parecia um pai calmo e pouco abalado. Ele não distinguia um olhar dominado pela repulsa de um fraternal? Eu estava bufando! _ ... vamos lá? _ puxou lentamente a mochila para que a soltasse dos ombros, tudo em um gesto calculado, sabia que eu podia suspender a mesa e espatifar os pratos a qualquer momento.

Não sei por que, mas me dei mais um minuto de autocontrole. Não seria só a mesa, mas todas as garrafas do bar e os vidros, uma reprodução sombria do filme de terror Carry. Mordi a parte de dentro do lábio e me contive para não me mastigar. Os pés sob a mesa corriam milhas naquele pique trêmulo.

A garçonete serviu o refrigerante e colocou o sanduíche na minha frente. Saiu em seguida, meu rosto pareceu lhe assustar. Vitor tocou com a ponta do dedo indicador o prato e o arrastou lentamente até mim. Disse lamentar não ter suas vísceras no cardápio. Ele brincava com o perigo e não parecia em nada perturbado com a possibilidade de eu excomungá-lo da minha existência. Eu parecia ser tão fácil assim de domar? Teria que apelar para mostrar os dentes também?

Vitor inclinou o rosto mais um pouco, o movimento perfeitamente arquitetado, podia ver ângulos opostos e triângulos ocultos se formando naquela mecânica perfeita de hipnose. Deve ter saído de algum livro de física avançado. Buscou a voz rouca e baixa que tinha no abissal da sua alma para sussurrar:

_Estive ocupado com um negócio, mas não sabe quanto daria para ter eu mesmo lhe buscado, se o dinheiro em jogo fosse meu...

Não virei o rosto, apenas os olhos se espreitaram pelo canto. Não baixaria a guarda por causa de uma simples menção a dinheiro. Precisaria de mais que o barulho titilante de moedas caindo em meu pensamento para adoçar o amargo da boca intoxicada de palavrões guardados.

_... Eu sei que acha que pode se cuidar sozinha... _ mais alguns centímetros e tocaria meu ouvido, estremeci de leve e recolhi a cabeça junto ao ombro. _ ... Mas prometo não lhe deixar mais desprotegida por aí. A moto não foi uma boa idéia, concordo.

_... A constituição me dá o direito de ir e vir. _ dei um gole no refrigerante.

Ele sorriu. As suas regras estavam fora daqueles padrões.

_ ... Não sabe como é difícil pra mim ficar tramando negócios quando minha mente está em você... _ suas sobrancelhas se uniram e ele fechou os olhos para se recuperar da lembrança. Puxou o ar. _ ... Eu posso trabalhar bem, exceto quando está a salva. _ abriu os olhos de mel.

_Não precisa se incomodar. Posso ir...

_Vai ser pior. Muito pior... Tenho que te ver bem, segura, não me pergunte por quê.

_Você deve ter sido meu guarda-costa em outra vida e eu era uma atriz famosa.

_Com sua péssima capacidade de atuar?! Só em outra vida mesmo. _ riu baixinho para não me humilhar totalmente.

_Se sabe que não posso disfarçar, já imagina tudo que quero dizer!

_Claro, claro... Come primeiro. _ pediu.

_Eu te acho petulante, ridículo, presunçoso... _ minha voz não tinha sua mesma magia controlada, era natural e trêmula. _ ...um convencido, controlado, um...

_Eu já lhe pedi desculpas por não poder ir te buscar, não já? _ segurou meu rosto pelo queixo com delicadeza. _ Desculpe. Eu juro que gostaria de estar lá. Mas, estava muito ocupado.

Meu riso saiu apavorado. Eu não conseguia me fazer entender, nem lhe irritar.

_Eu não quero que ponha seus amigos para se revezarem. Eu estava brincando quando falei aquilo. Se queriam ficar com as meninas, eu não cobraria nada por isso, nem uma carona. _ mostrei como podia ser mais altruísta e menos aproveitadora.

_Você venceu. E está certa! Eu mesmo farei isso, o trabalho não está acima de tudo, não é o que dizem?

_Vi-tor! _ sibilei, no ápice da didática. _ Eu estou com raiva de terem vindo me buscar.

_E se fosse eu todos os dias? _segurou meu rosto para eu que não virasse, a verdade se denunciaria pelos meus olhos. _ Estaria feliz agora?

_Não saberei. Aconteceu como aconteceu. _ tentei colocar como imponderável.

_Garota... _ deu um riso sarcástico bem perto, pude sentir seu hálito de vinho. _ ... Não sabe do que sou capaz.

_Você já me deu algumas amostras grátis.

_Não é nada até onde posso chegar. Eu não vou te deixar sozinha nunca mais... _ prometeu e eu franzi a testa, não era bem ele que precisava me dizer isso. _ ... Até nos conhecermos, eu tenho uma desculpa, mas, desde então, farei tudo que tiver ao alcance. Tu-do. _ sua voz soou grave, rouca, profética.

_Com seus amigos atrás de mim, do jeito que está pondo, começo a me sentir como a única humana da terra que nasceu com um poder de cura surpreendente e vão tirar todo meu sangue.

_Desculpe. _ ele sorriu sem mostrar os dentes, prendeu os lábios em uma meia lua. _ Eu só vou estar por perto... Deveria ter colocado dessa maneira. Melhor? _ ergueu as sobrancelhas. _ ... Podemos fazer as pazes agora? _ puxou-me os ombros inesperadamente com sua força esmagadora. Beijou minha cabeça. _ ... Não precisa se irritar, amanhã eu mesmo estarei lá. _ voltou com aquele assunto, insistindo em ver daquele ângulo. Não discuti. Uma parte de mim estava muito satisfeita em saber que me buscaria e teríamos vinte minutos de conversa animada até eu chegar a minha casa. _ ... Agora, deixa eu ver só um dos seus sorrisos?_ pediu.

Ri e senti-me muito melhor trocando os sentimentos ruins pelos melhores que tinha por Vitor. Balancei a cabeça para os lados, totalmente fraca. Tamires, você é uma fraca!

_Vo-cê... não me merece! _ apontei o dedo para o seu nariz.

_Eu sei, eu sou um corrupto completo, um traste... _ debochou de si mesmo.

_Ah! É. _ peguei o sanduíche e dei uma mordida. Não estava mentido, ele estava se corrompendo a cada vez que teimava em me cercar. _Agora fala sério sobre...

_Estar sempre perto? _ roubou as palavras da minha boca. _Ao menos que me peça para ir embora...

_Nunca lhe pediria tal coisa. _ garanti, mas ele abaixou os olhos e vi que não acreditava. Havia um motivo de quatro letras forte o bastante para temer que era possível sim perder minha companhia. _ Você é meu amigo, não há nada que deixarei destruir isso... _ larguei o sanduíche e rapidamente envolvi seu pescoço com meus braços. _ Que perfume é esse? _ perguntei. _ Muito enjoativo!

_É... _ riu, timidamente. _Não é o dos seus preferidos. _ explicou. _Não precisa fazer essa cara de que estou com odor de cachorro molhado!

Dei uma grande risada inebriante. Já tínhamos tido longas conversas sobre tudo, inclusive seus perfumes, seus gostos por marcas, sapatos, comidas. O tempo que parecíamos nos conhecer se multiplicava em uma progressão geométrica a cada dia.

_Eu posso agüentar. _ pisquei o olho e escorreguei os braços de seus ombros, mas foi sua vez de me apertar com um abraço muito forte e temeroso. _Preciso respirar! _ brinquei, mas não fui tão rápida em escapar quando afrouxou. Dedilhei o cabelo da sua nuca e lhe beijei o cabelo e a bochecha. _ Você não deve acreditar em tudo que digo! _ referia-me a raiva inicial. _Eu sou meio explosiva mesmo...

_Você disse uma ogiva nuclear! Quando entrou, pensei que pegaria a faca e deceparia meu pescoço.

_Ai Vítor não seja tão exagerado! _ terminei de comer.

_Seu aniversário está chegando. _ comentou.

_Como sabe? _ surpreendi-me.

_Não é um número cabalístico ou escondido pela CIA. Está no seu Orkut, na sua agenda, no mural do trabalho, na sua testa...

_Eu quis dizer, como se lembra?

_Ora, por isso... está gritando em todos os lugares...

_Desculpe, por que se lembrou? _ achei agora a pergunta específica.

_Lembra de “sempre estar por perto, saber tudo, cuidar de tudo”...

_Como cuidar de tudo? Não precisa...

_Na verdade, já falei com a minha mãe.

_Sua mãe..._ repeti, tomando o último gole do meu refrigerante, queria acompanhar seu raciocínio, mas temia o que estava armando.

_Pode ser lá em casa.

_Quê?! _ tossi, acho que engoli uma pequena pedra de gelo. Bati no peito e pigarreei no final.

_Deixe eu contar tudo aí me tira as asas, ok?

_Hum... _ eu podia agüentar até ele acabar, mas já sabia a resposta.

_Minha mãe gosta muito de você. Sabe que ao chegar lá em casa ela te mima como se fosse uma bonequinha de pano que pode vestir, dar de comer e levar pra passear... Então, ela quer oferecer o espaço. Sua mãe disse que faz os doces, o bolo...

_Hei! Você falou com minha mãe?! _ não me contive e quase gritei com ele. _ Que traição é essa, tudo pelas minhas costas...

_Não!Não! Pode participar de tudo, eu sabia que ia gostar... Pode fazer a lista dos convidados, imaginar a decoração do jeito que quiser, eu não tenho muito tempo, mas posso colaborar com...

_Páre! _ coloquei a mão estendida no ar. _ Eu não quero nada, Vitor. Nada que venha de você.

_Está me ofendendo.

_Desculpe, estou péssima com as palavras hoje. Não quero nada que se esforce, eu não gosto dessa posição...

_Qual? _ abaixou o rosto para achar meus olhos.

_... De aproveitadora.

_É isso? _ riu. _Não se sinta assim.

_Não é o que pensam...

_Quem pensa? _ irritou-se.

_As pessoas do trabalho... Já ouvi algumas... _ falei baixinho.

_Eu sou o patrão, eu que mando... _ estava furioso. _ As regras sou eu que dito. E faço o que bem entender... quem não gostar...

_Esse não é você! _ assustei-me e segurei suas mãos. _Vítor? _ trouxe-o para a realidade da nossa conversa. _ Está tudo bem que pensem assim, eu talvez acharia o mesmo. Cheguei ontem e já estou na sua casa...

_Nos conhecíamos antes disso! _ lembrou-me

Flashs rápidos e desfocados da época em que o vi algumas vezes na casa de Kali e, depois, a viagem com o quase beijo passaram por minha mente. Não eram tão claros quanto às memórias recentes.

_Está usando como desculpa. _acusou. _ Não precisa convidar nenhuma delas se não quiser.

_Isso o faria muito feliz? _ perguntei e seus olhos se iluminaram. _ Eu não tenho como relutar, você fará surpresa mesmo assim?

_Não tenho nenhuma arma escondida de você? Que volúvel.

_Bem pequena, ok? Minúscula. _ impus.

_Só um DJ, umas luzes.

_Ãnh?! Eu disse pequena. Quais as suas referências de tamanho?

_Não se preocupe, o DJ vai sair de graça, é um amigão.

_Arghhh. _ grunhi. _ Tudo bem.

_E seu presente?

_Nada de nada, não, sem presente, já está fazendo o inimaginável...

_A festa? _ cuspiu aquilo como um favor ridículo. _ Isso é tão insignificante... Eu posso muito mais...

_Já entendi, sempre perto, sempre que eu precisar... _ repeti revirando os olhos.

_Pegou o espírito da coisa.

_O que gosta?

_Ok. Presente “de fazer”. _respondi.

_Hum... Eu sabia que você não seria fácil quando podia ser bem difícil. _ aceitou a tarefa. _ Vou tentar não queimar todos os meus neurônios até lá.

_Não, não, não tem que se esforçar, não precisa, Vit...

_Já disse que é “de fazer”, está por acaso duvidando do que sou capaz?

_Não! _ bati com a mão na testa, vencida, entregue. Guarda baixa. _ Como quiser. Vitor... Você sempre consegue tudo! _ gemi com todo o meu fracasso de persuadi-lo. _ Me sinto a advogada mais incapaz do mundo.

_Não é. Você é muito, muito capaz. _ sorriu. _ Você conseguiu transformar muitas das minhas opiniões e virar de cabeça pra...

_Quando? Como. Por quê? _ usei todas as formas de interrogação para não ter tempo de colocar uma a uma por acerto e erro, estava curiosa demais.

_Talvez esteja certa. _ suspirou. _ Quero te proteger porque você é a única na Terra que tem a cura... _ parou, refletiu, mas decidiu confessar. _ ... Que tem a cura contra a mim mesmo.

_Não entendi... _ balancei levemente a cabeça para os lados.

_... Você me faz me sentir bem, só isso... _ mais uma vez colocando com palavras mais simples para não me assustar.

_Ah, então, não sou a única.

_Sim, é.

_Não... você também é. Quem consegue me fazer querer matá-lo e querer beijá-lo em pouco tempo.

Ele levantou os olhos ansiosos, eu não devia ter usado o verbo “beijar”, surpreendi-me na mesma proporção. Beijei-o repetidamente na bochecha, segurando com a mão a sua outra maçã do rosto.

_É, só você! _ riu e pagou a conta. _ Vamos, se não te deixar em casa, corro o risco de sua mãe não topar com sua festa.

_Hunf... _ aquele assunto de novo. Daria tempo de dissuadi-lo? Mas, não queria fazer isso agora.

Vitor puxou-me pela cintura e me suspendeu quando eu ia descer o degrau, o que me provocou uma risada. Achei seu Civic preto com os olhos e senti uma sensação muito boa, ele estava absolutamente certo. Se tivesse me buscado, eu estaria feliz. Era sua falta que eu não podia suportar.

_Vitor? _ virei-me na ponta dos pés para ele e quase nos chocamos. Meus olhos brilhavam faceiros e alegres. Ajeitei a gola da sua camisa. _ Desculpe se fui estúpida?

_Hum... Claro. _ ele sempre parecia frustrado por esperar outra coisa quando eu me preparava demais para falar. _... Eu já gosto de você petulante mesmo.

_Aiiii...

_E chantagista. Não faça essa carinha.

_Hum..._ sorri de lado.

_Por favor, entre. _ pediu, sério, eu devo ter passado do seu limite.

Joguei a mochila no banco de trás e comecei a mexer nos CDs.

_Estão todos aí que gosta. _ falou, enquanto olhava o retrovisor para retirar da vaga. _ Se me roubarem o carro e eu perdê-los, não quero nem saber como vai resgatá-los ou conseguir outros iguais! _ Vitor tinha deixado para minha diversão os que eu mais apreciava na estante de sua casa. Isso me entretinha muito.

_Não fale isso, não quero pensar em seu carro roubado.

_Nem eu, essa máquina aqui é...

_Não quero te ver em perigo! _ corrigi.

_Ah! Nem vai sentir falta... Um sequestrozinho relâmpago por uma bandida loira e peituda...

_Não brinque com isso! Eu... _ achei que podia tomar sua promessa comigo. _ Também vou estar sempre perto, para tudo...

_Me faça acreditar nisso... _acelerou.

_Por que não pode acreditar em mim?

_Acreditar é uma palavra que perde a força a cada segundo, são as ações que a tornam forte. Prove todo dia. _ isso deveria ter a ver com me conseguir um motorista por dia, a festa, o desafio do presente, o sanduíche, cada pequena prova...

_Peça, então, uma coisa. Não consigo pensar em nada agora.

_Se anime com sua festa.

_Ãnnnhhhê. Impossível você! Afffff... _ coloquei o CD no drive.

Recostei-me no banco confortável e o olhei dirigir com o braço na janela fechada, quieto. Seu perfume estava fixado no ar. Não era meu preferido, mas já o marcava. Podia senti-lo em qualquer lugar e teria a sensação de que Vitor se materializaria.