18.5.09

Cap 39: Coração no ritmo do amor (Tamires)

Não sei se Kali entendeu o meu recado no fim da festa e se tocou que o beijo que dera com os olhos vendados fora em mim e preferiu não comentar nada. Ou se realmente não pescara a insinuação e continuava a ignorar meu interesse. Minha certeza era de que Kelly estava marcando em cima como atacante que não fez ainda um gol na rodada do Brasileirão.

Era de se esperar que ela também fosse convidada para a viagem a fazenda. O lugar ficava a algumas horas do Rio de Janeiro, em um município montanhoso e um pouco frio, chamado Petrópolis. Chegamos lá em duas vans lotadas de amigos de Kali e de seus pais. A propósito, ele fora em um carro e, eu, em outro. Claro, Kelly marcou o lugar ao seu lado. Comecei a sentir que não teria chance e, para minha dissonância cognitiva, disse a mim mesma que não deveria fazer tanto esforço, que não era para a minha vez.

Com esse pensamento triste e de derrota, olhei pela janela a vegetação passar. Os amigos dele estavam impacientes, falantes, deixando farelos de biscoitos por toda parte. Não gostavam de nenhuma rádio que escolhiam, o sinal não estavam bom. O rádio do carro, para decepção, não pegava pendrive. Um zum-zum-zum.

Abri o bolso da frente da minha mochila que carregava no colo. Tirei minha gaita vermelha. Levei a boca e fechei os olhos. O primeiro sopro de ar fez o som de Love me Do começar a ressoar pela van.

Aos poucos todos foram se virando para me olhar.

Beatles - Love me Do


Não quis perder a concentração. Fechei os olhos e continuei a tocar com o coração. Os dedos faziam movimentos como se vibrassem na mesma sintonia das notas que saiam. A gaita ia e vinha, da direita para a esquerda na minha boca.

Seus olhos admirados e o silêncio deram lugar a palmas quando terminei de tocar. Quiseram ver o pequeno objeto metálico como se fosse alguma Esfera do Dragão ou pedaço de asteróide. Mostrei que se tratava de uma HERING FREEBLUES TOM C.

_Toca mais! _ pediram.

Eu ri, pensei em outra que tivesse a cifra de cabeça e toquei. Foi assim por quase toda a viagem:

_Uau, assim vou chegar sem ar! _ disse, vendo que pareciam insaciáveis.

_Quando aprendeu? _ Ítalo quis saber. Ele era o amigo de escola de Kali. Alto, moreno, cabelo castanho de caracóis, olhos miúdos, um óculos pequeno no rosto oval.

_Com meu pai. Ele é muito fera. Quando fiz dez anos não quis bicicleta, nem computador. Meu presente era um só: uma gaita vermelha como a dele. Treinei muito pra conseguir fazer isso... _ falei com modéstia. _ Passei por vários compositores de Blues, aprendi tudo de Bob Dylan.

_Toca uma dele. _ Vitor pediu.

_Deixa eu ver... _ trouxe a gaita a boca e toquei I’m not There >>. Dessa vez, de olho aberto, vi-os contemplar aquele momento como um microcosmo musical. As janelas mostravam uma cidade nova que passava, mas eles queriam olhar para dentro: eu era alguém a ser descoberta. Vitor que queria ouvir Dylen, colocou o celular na altura do meu rosto e começou a filmar. Depois, disse que enviara para Kali, no outro carro, para ver o que perdiam.

Paramos para ir ao banheiro e tomar um café, na beira da estrada. Era um pequeno restaurante muito bonito, com uma pilha até o teto de compostas de todo tipo de doce. Parecia uma torre redonda colorida. Aproximei-me mais para ver um deles quando senti alguém muito perto. Instintivamente, virei meu rosto para o lado.

_Já soube que está fazendo sucesso... _ Kali sorriu. Estava com um abrigo branco, de zíper e inscrições azuis em relevo. _Quer dizer que eu estou perdendo isso? _ perguntou.

_Ah! Depois eu toco pra você, nada demais.

_Quero ouvir.

_Claro... _ continuei olhando os doces de abacaxi em calda.

_Agora.

_Ãnh? Agora? Mas... eu deixei lá no carro... _despistei. Eu iria provavelmente esquecer toda a música e seria um desastre.

_Por que não? _ deu de ombros.

_Tudo bem... Vem com a gente na próxima parte da viagem e te mostro. _ propus. Nem acreditei que tive coragem de fazer essa pequena chantagem emocional. O importante é que eu não perderia a chance de vender por um alto preço a minha habilidade.

_A artista é tão difícil assim? _ perguntou em provocação.

_Você quem sabe... _ deixei em aberto e por sua conta a decisão. Peguei uma batata frita de uma prateleira e fui até o caixa pagar.

Kali negociou com Vitor ficar em seu lugar. Mas, seu amigo explicou que daria trabalho levar as coisas para o outro carro, que não entendia porque queria mudar. Eu sentada só observava a negociação. “Aiiii, Vitor! Você vai ver a próxima vez que me pedir para tocar!”, pensei comigo. Era o que me faltava! Ele arrematou que não entendia porque ele deixaria Kelly sozinha lá. Desde então, entendi que já acontecia algo semi oficial entre eles que eu ainda não sabia.

A mãe de Kali mandou que sossegasse logo porque queria chegar a tempo para o almoço. Ele aceitou, baixou a guarda e voltou para a outra van. No meu celular, recebi a mensagem: “Ainda me deve”. Eu sorri.

A fazenda era um lugar bem aconchegante, a casa toda feita de madeira com muitas varandas, salas enormes. Parecia uma antiga propriedade de um barão. Na verdade, era agora de um amigo dos pais de Kali, que cedera para que ficassem ali por alguns dias.

Arrumei minhas coisas no quarto e vim sentar em uma cadeira de madeira de 3 lugares com acentos de couro branco e almofadas coloridas. Cruzei as pernas que estavam bem aquecidas com as botas marrons e encolhi o pescoço no cachecol mostarda.

Michele passou com Vitor. Ela espirrara e ele dissera para ficar longe dos porcos por causa da gripe suína. Sem perder o tom da brincadeira disse que bem capaz de estar com a doença, pois estava gorda feito uma porca.

Eu sorri e balancei a cabeça para os lados. Kali apareceu com o convite de cavalgarmos e a ótima notícia de que Kelly não iria junto. Aceitei na hora e fomos acompanhados de mais três de seus amigos. Montamos e demos a volta na propriedade. Os meninos logo quiseram mais aventura e aceleraram a velocidade, fazendo os animais darem tudo de si. Cansei e, desci. Acariciei o bicho, puxei-o pela rédea e este começou a comer a folhagem do chão. Meus ouvidos se abriram para o barulho dos trotes dos cascos na grama, em um som abafado e violento, como aquele original do meu sonho constante com Kali.

Ele, na próxima volta que passou por mim, parou o cavalo e deixou que os amigos seguissem. O animal que brecou abruptamente ainda levantou as patas dianteiras e relinchou. Ele desceu e perguntou se estava tudo bem.

-Está. _ sorri. _ Só não tenho o mesmo pique que vocês. _ expliquei.

_O dia está lindo, não? _ perguntou mais perto e senti que não faltava mais nada para a gente se beijar ali. Kali já estava até mesmo falando do tempo, deixando claro que já não tinha mais assunto para enrolar.

Seus amigos passaram por nós mais uma vez e o chamaram. Eu disse que podia ir, mesmo não querendo e ele tomou isso como uma expulsão e foi. Como eu era tão fraca!

Ao chegar na casa de volta, encontramos a mãe de Kali batendo palmas na sala para convocar a todos para uma rápida reunião. Contou que a noite teríamos uma pequena festa com direito a fogo, comida e música. Nada mais mágico! Todos ficaram muito animados.

_Mas, não será aqui. _ fez um ar de suspense. _Vamos caminhar por uma trilha até chegar a um chalé na montanha. Será na outra casa do nosso amigo. Levem roupa bem quente porque vai fazer frio!

Todos se entreolharam. Os mais novos adoraram as novidades e a possibilidade de aventura.

O caminho não foi tão divertido para alguns. Kelly reclamou que estava com fome e disse que acabara de entrar no estado de autofagia. Para parar de ouvir seus resmungos, ofereci-lhe uma barrinha de cereal de banana.

_Obrigada, não ia agüentar ficar a base dessa fotossíntese. _ referiu-se ao sol que sustentava sob nossas cabeças um pouco quente, mas nada que a próxima sombra de alguma árvore não atenuasse. _ A gente bem que poderia parar em algum lugar e encontrar uma máquina de café! _ ela começou a sonhar.

Enquanto caminhava, fiquei ao lado dos pequenos grupos que se formavam. Ora ao lado das meninas “geração saúde”:

_Eu gosto de correr no sol. Sabia que correr no sol 40 minutos vale correr no frio uma hora? E ainda dar para pegar aquele bronze. Eu moro perto da praia, tenho essa vantagem.

...Ora ao lado dos meninos fanáticos por carro:

_A gasolina tem maior combutão, é mais refinada que o diesel, é melhor para motores pequenos. E o diesel melhor para motores grandes, como é mais denso, gasta menos. O motor tem que ser mais resistente pro Disel. O álcool tem combustão maior do que a gasolina. Por isso que o carro bi combustivél, quando usa álcool, corre mais e gasta mais.

...Ora ao lado dos casais mais velhos:

_A gente passa a vida se estressando. Mas, quando a gente é jovem, não presta atenção que o estresse destrói as células. O hipocampo responsável pela área da memória produz células nervosas durante toda a vida. As pessoas depois do estresse continuam a produzir, só que essas células não duram muito.

... Ora sozinha.

Olhei para Kali de canto de olho e reparei que me espreitava também. Segurei com os polegares as duas alças da mochila e fixei a atenção bem no chão. Temi ter transparecido algum sentimento. Um frio cortou a barriga.

Quando chegamos ao chalé todos só queriam beber água e se jogar nos sofá, cansados. A grande lareira foi acesa por um casal de caseiros.

_Olha como estão os meus pés! _ Kelly reclamou e fez todos se aproximarem para ver o quanto estavam inchados. _Eu tenho alergia a mosquitos e esqueci de passar o repelente! Como pude ser picada? Aqui não é frio?!

Continuei à janela, alheia a sua crise. A vista era linda. Kali chegou perto, também querendo fugir da sua nova companhia. Ficou ao meu lado, admirou a vista também, virou o rosto para mim.

_Kali! _ Kelly gritou.

Eu segurei o riso. Ele voltou-se para ela, com toda sua paciência.

_Eu tenho que descer para a cidade. Quero comprar um remédio.

_Voltar? Agora?!

_Não tem um motorista aqui?

_Não, o motorista do seu pai não veio junto! _ foi sua primeira vez de ser rude. As pessoas pararam suas conversas e ficou aquele clima. _ Você quer ir embora? Então, vamos. Seu Antônio... _ chamou o caseiro. _... Me empresta a chave da caminhonete.

_Onde vai Kali? _ sua mãe chegou da varanda e pegou a briga no meio.

_Já venho. _ limitou-se a responder, mas Kelly deu os detalhes para arrancar compadecimento da mulher, cuidando de usar uma voz de pobre coitadinha.

_Eu não consigo andar direito, me pega no colo? _ ela pediu.

Ele não fez nenhuma objeção a seu pedido de garota mimada, parecia levantar uma caixa de legumes que queria descarregar em qualquer outro lugar. Abruptamente a levantou no ar e saiu. Kelly com as mãos no seu pescoço, ainda olhou para mim com seu rosto colado no de Kali. Seu silencioso recado é que tinha conseguido levá-lo para longe, longe de mim.

Se sua presença irritante era chata, usar suas armas para tirar Kali era bem pior. Pelo menos, ele estava por perto e poderia ter um pouco da sua atenção.

À noite, chegaram um grupo de quatro cantores, que trouxeram violão e acordeom. Sentamos perto do fogo e tomamos muito vinho, enquanto comíamos várias pequenas porções de comida quente servidas em mini potes de cerâmica branca.

De repente, a porta no canto da sala se abre e Kali entra. Depois, fecha a porta e percebo que está sozinho. Meu coração disparou no peito. Estava tendo uma visão ou conseguira trazê-lo só com a força do meu desejo?! Não parecia muito feliz, subiu as escadas com o rosto sério e foi para o andar dos quartos.

_Tamires, me ajuda levar essas bandejas? _ a mãe de Kali pediu e fomos até a cozinha. _ Não parece muito feliz. _ perguntou enquanto recolocávamos os potes cheios de comida nas bandejas. Entendi que usara a desculpa da ajuda para puxar assunto comigo. _ Não está gostando da viagem?

_Estou! Imagina?! Tirei várias fotos, o lugar é lindo. Nunca vou esquecer... _tentei fazer uma voz mais animada. _Obrigada pelo convite!

Ela, que estava de frente para a porta da cozinha, sorriu por ver alguma coisa.

_Mas, acho que agora você vai ficar mais alegre. _ comentou e, em seguida, Kali veio ao seu encontro dar-lhe um beijo no rosto.

Aposto que Priscila havia contado do meu interesse por seu filho. Ou será que eu tinha dado tanta bandeira?! Fiquei envergonhada, mas, não deixei de olhá-los conversar, enquanto segurava a bandeja pesada.

_Levei Kelly ao hospital. A médica passou uma pomada. Ela não quis voltar. A gente discutiu, estava de saco cheio já. _ falou baixinho, como se eu não fizesse parte da conversa. _ Depois disso, ela ficou mais irritada e cismou em querer pegar um ônibus na rodoviária só para que eu me sentisse um monstro. _ explicou, deixando claro agora para mim que ele também já enxergara os joguinhos daquela patricinha.

_E quem vai buscá-la na rodoviária quando chegar?

_Não se preocupe, ela tem bastantes empregados! Só que eu não sou um deles. _ disse.

_Então, vem comer alguma coisa. _ a mulher caminhou em direção a sala.

Kali voltou a me olhar como se só naquele momento se tocasse da minha presença, eu fixei os olhos nos escondidinhos de camarão e segui atrás de sua mãe. Senti que ele me observava enquanto passei.

Estava com um pouco de frio. Fui até o quarto buscar meu cachecol. Subi as escadas e ouvi passos atrás, me virei rapidamente para olhar, em reação instantânea, e vi que era ele. Agora o coração batia forte como o salto da minha bota no assoalho. Respirei fundo, entrei no quarto onde havia quatro camas de solteiro. Inclinei-me sobre a última delas e abri minha bolsa. Torci para que ele tivesse seguido para o outro quarto, pois estava muito nervosa. Mas, Kali já estava na porta. E agora sem Kelly!

Coloquei o cachecol em volta do pescoço, depois, fiz um nó colocando duas pernas dentro de um laço. Ajustei. Fechei a mochila novamente. O que ele queria aqui?

_E a nossa promessa? _ perguntou com uma voz tranqüila que eu ainda não tinha ouvido desde que começara a viagem.

_Qual? _ franzi a testa, fazendo-me de ingênua.

_Quero ouvir você tocar gaita. Todo mundo já me falou disso e eu não ouvi ainda! _ mostrou-se desonrado.

_Ah! Com aqueles caras feras lá embaixo me sinto até humilhada! _ ri.

_Tá, mas me prometeu. _ insistiu e se jogou em uma das camas com a cabeça apoiada nas costas das mãos.

Fiquei olhando seu corpo longilíneo e forte estendido relaxadamente sobre a cama e tive quase certeza que não lembraria nem das primeiras lições que meu pai me ensinara a tocar!

_Vamos! _ incentivou-me e eu balancei levemente o rosto em um pequeno susto, tirada do torpor. Fiz um movimento rápido de sentar na cama e abrir a mochila, seguindo a ordem do seu pedido.

Ele virou-se de lado e apoiou a cabeça em uma das mãos. Não vi o resto porque tinha certeza que iria me desconcentrar. Fechei os olhos e comecei a tocar a música tema do filme Titanic >>. Não poderia ser nada complexo quanto Dylan, mas que tivesse alguma emoção. Já no fim, fiquei me punindo por ter sido tão clichê! Titanic?! Abri os olhos com certo medo de ter sido boba e desapontadora.

Kali estava com um sorriso que não entendi. Olhava não só para gaita, mas pra mim. Eu não sabia o que dizer, nem onde por as mãos, toquei mais uma vez na falta de reação e medo de estragar tudo. Dessa vez foi Luz dos olhos >>. Ao terminar, ele fez uma observação, dizendo que a gaita tinha sempre um tom triste. Terminou a frase em tom de pergunta: “Ou seria você?", se referindo a uma possibilidade de eu estar triste por algum motivo e passar isso para as músicas.

Não respondi porque me enrolaria em explicar como meus sentimentos estavam intensos, tristes e misturados. Coloquei a gaita na boca e puxei A pantera cor de rosa >>, ao que ele soltou uma risada divertida. Franzi a testa com um ar de “melhorou?”. Lembrei de mais uma e toquei Mortal Kombat para sua excitação e alegria, pulou da cama e sentou ao meu lado. Eu sabia que aquela musiquinha ridícula que aprendi para o meu irmão teria uma utilidade melhor.

_Você é muito boa! _ segurou minha mão e me impediu de tocar a próxima. Ainda segurando meu punho e com rosto muito perto, vi sua alegria.

_Gente, vamos comer? _ sua mão chegou na porta e bateu palmas.

_Claro! _ pulei da cama, deixei a gaita no bolso da mochila. _ Já estamos indo. _ caminhei em direção a porta.

_Sim, já vamos. _ ele concordou, falando mais atrás de mim.

Podíamos ouvir os passos de sua mãe descendo a escada, já longe. Mas, antes de cruzar a porta, ele fora mais rápido e a trancara com um empurrão. Meu coração pareceu dar junto a última pancada.

4 comentários:

Li disse...

... tum tum tum...

Ansiosas para sentir e ouvir as próximas pancadas?

Beijos amadas.

Li Mendi

Cah disse...

Liiiiiiiiiiiiiiii adorei
muito bom

rs
=D

qro ouvir tudo uahsuahushausa

Aninha Barreto disse...

uuiiiiiii!!!!! que tudoooooo!!!!!!! a kelly quis dar uma de nojentinha e se ferrou!!!!! kkkkkkkkk!!!!!!!! e agora... porta trancada... ai, vai rolar um beijo de cinema ????? super curiosa pra saber!!!!

Li disse...

Que bom que estão aqui perto amigas. Vou postar o próximo já. Beijos.