15.5.09

Cap 38: Beijos cegos (Tamires)

Aprenda uma coisa: não importa quanto o chão de fábrica trabalhe e conheça o produto, são os executivos que receberão os troféus. Foi assim com a tal festa que organizamos para os pais de Kali. Eu dei o sangue em mil compras, enrolando docinhos, montando decoração e ajustando luzes. Kelly ficou com o trabalho de telefonar para os convidados e fazer os contatos. Eu pensei que seria a melhor idéia do mundo deixá-la longe, em um canto, com seu caderno de capa rosa e caneta de pompom ao telefone. Ela estava totalmente ocupada para não atrapalhar o operacional do meu trabalho.

Eu só era bastante esperta para umas coisas e ingênua para outras: na verdade, ela estava fazendo o que era mais importante: aparecendo como a cara da festa. Quem iria querer saber sobre a responsável pelo operacional? Porém, se lembrariam da Promoter. Infelizmente, estava tão centrada em repassar os itens da lista de tarefas, que deixei pra cair na real na hora do evento.

Quando voltei da cozinha, encontrei Kelly recebendo os convidados com muitos sorrisos e desenvoltura. Ela tinha o porte e o perfume de dinheiro na pele. Isso a tornava mais qualificada para desfilar entre aquelas pessoas. Eu só podia admirar. E foi o que os pais de Kali fizeram quando chegaram.

O casal ficou muito surpreso. Adoraram cada detalhe, olhavam para toda parte apontando. Kali apresentou Kelly e, ao se virar de lado me viu. Então, não iria me apresentar? Ele fez sinal, mas, fingi que não vi. Meu orgulho sempre me põe a perder. Estava com ciúme dos elogios e do reconhecimento.

Caminhei para a cozinha. Perguntei sobre a bebida, a comida, os copos e para tudo ouvia uma resposta de que estava em ordem. Nesse momento, Kali entrou.

_Vem, quero que meus pais falem com você.

_Eu estou um pouco ocupada. _ disse, sem olhar para ele. Rejeitando o convite.

_O que deu em você? _ insistiu.

_Está tudo bem! _ falei, a primeira vez olhando em seu rosto.

_Agora é hora da festa. _ pegou o caderno da minha mão. _ Não disse que ia dançar? Seus amigos chegaram com a bateria. Estão todos animados lá fora. Os meus amigos estão loucos pra te ver! Ãnh? _ fez uma cara de animado.

Eu me lembrei do samba e senti uma pontada de cansaço. Teria que me super produzir com a fantasia, maquiagem, salto alto, muita purpurina. Quando na verdade só queria deitar na cama e apagar.

Kelly tinha passado o dia na estética, cuidando da beleza, dormindo. Eu tinha virado noite, ralado feito louca o dia todo.

_Ficou calada. _ ele comentou.

_Estou com vontade de ir embora.

_Quê?! A festa não vai ser nada sem você!

_Não se preocupe, está tudo no caderno. _ disse, passando a mão no cabelo.

_Dança, por favor, meu pai vai adorar. Não sei a minha mãe. _ riu.

_Cadê nossa passista? _ Priscila perguntou, chegando justo agora.

_Está querendo abandonar a avenida. _Kali contou.

_Nem pensar! Vocês não viram o show que ela dá. _ elogiou.

_Kali, estão te procurando. _ um amigo dele colocou a cabeça na porta e o chamou.

Ele sumiu e Priscila chegou mais perto:

_Vai ceder agora?

_Ãnh?

_Não acha que eu vou acreditar que fez a festa para os meus sogros. Você fez pra ele. Então, trate de ir lá e mostrar o quê que você tem de bom, mulher! _ deu um tapinha no meu braço. _ Vai se arrumar para o show.

_Eu não sou só bunda não, viu! _ recuperei o humor.

Fui até o quarto de Kali, onde estavam as peças da fantasia dourada. Era toda brilhante, com muitas pedras e plumas. Primeiro precisei passar purpurina na pele com ajuda de um óleo. Fiz a maquiagem dos olhos. Espirrei o spray de fixador nos cachos que estavam mel na raiz e mais dourados nas pontas. Vesti-me e calcei os saltos de tiras amarradas na perna.

Pronto, agora era só juntar as últimas gotas de energia e descer. Caminhei pelo corredor. De repente, ouvi vozes e risadas. Kali apareceu vendado com um pano preto nos olhos e dois de seus amigos atrás o guiavam para algum ritual. Nada sério poderia se esperar deles.

Fiz um sinal com o dedo indicador de silêncio e eles dois sumiram.

_Pra onde vocês vão? _ Kali perguntou, ouvindo que a risada ficava longe.

Que brincadeira de criança era aquela no meio da festa?

Aproximei-me e toquei no seu braço. Ele segurou a minha mão.

_Kelly? É você? _ perguntou.

O sorriso morreu na minha boca.

Kali se aproximou mais e eu não consegui fazer movimento de ação ou defesa. Ele beijou meu queixo, riu e depois seus lábios se encontraram com os meus. Eu podia me afastar do beijo que não era pra mim. Mas, fiquei. Não entendo, mas fiquei. Toquei no seu rosto direito e intensifiquei a força do beijo, tornando-o mais forte, úmido, macio.

Ouvi barulho de pisada nos degraus. Afastei meu rosto e foi o segundo que faltava pra ver Kelly. Ela não presenciara o beijo, mas vira que estávamos bem perto. Olhou para um e depois para o outro. Eu abaixei a cabeça e desci rapidamente os degraus. Não queria nem pensar em ele perceber que eu aceitara o beijo, sabendo que tinha falado o nome dela.

Cheguei atordoada na sala. Percebi que todos me olhavam. Lógico, eu parecia um pavão caído em um pote de cola e empanado com purpurina. Alguém deve ter avisado que eu chegara, pois o som da bateria se intensificou.

Balancei a cabeça para os lados como quem tenta colocar os pensamentos no lugar. Dei dois passos à frente, respirei. Se fez silêncio. Ao som apenas da cuíca e de alguns instrumentos, eu entrei deslizando. As mãos graciosas oscilavam no ar como em um balé. O balanço lento do corpo no ar, em um contorcionismo sensual. Dei um beijo de princesa para alguns convidados, depois para outros. Ouvi muitos assovios e aplausos. A bateria ficou mais forte e rápida e os passos na ponta do pé mostraram o samba verdadeiro.

Esqueci o cansaço, dancei com vigor e graça. Muitos flashes e elogios. Olhares de cobiça e de admiração. Ali, eu era a rainha. Quando acabei, meu peito parecia que ia se rasgar sem ar. Ri, feliz por ter feito uma ótima apresentação que arrancou aplausos empolgados. Olhei em toda minha volta e não o encontrei.

_Quem diria hen? _ ouvi uma voz masculina atrás de mim.

Meu coração disparou. Quando me virei, vi Kali acompanhado de Kelly. Pelo sorriso dela o que deve ter acontecido? Continuaram o beijo?! Eu não podia saber, nem perguntar.

_A gente tem que ter um hobby. _ falei humildemente.

_A festa deu muito certo. _ Kelly sorriu e passou a mão nas costas de Kali.

_É. _concordei com um quarto de sorriso.

No dia seguinte, vi minhas fotos no álbum do Orkut de muitos amigos de Kali. Virei o ícone inusitado a se mostrar. Mas, apesar desse sucesso no grupo, eu continuava com a sensação de derrota.

Priscila também não ficara muito feliz com o desenrolar dos fatos. Na festa, ouvi uma conversa pouco amigável com Kelly:

_O que você não faz para ser parte da família?

_Que quer dizer com isso? _ ela se fez de sonsa.

_Não está na cara que quer Kali, agora? _ Priscila deixou em pratos limpos.

_Essas são as suas conclusões? _ fez pouco caso e continuou andando. _ Mas... _ parou e voltou-se para Pri. _ ... E se fosse? O que me impede? _ questionou, no seu patamar de rainha de todas as situações.

Priscila olhou para o lado e me viu no outro canto da festa. Entendeu que eu tinha captado tudo. Abaixei os olhos e acariciei o copo úmido de bebida. Ela veio até mim com passos rápidos e me pegou pelo braço. Pediu para irmos até uma varanda lateral onde não havia ninguém:

_Não pode deixá-la fazer o que quiser!

_Hei, não fui eu que a coloquei aqui! _ defendi-me.

_Não, não. Não quero ver essa ridícula aqui...

_Priscila, ela não é mais risco para você. E, se não a quer aqui, não precisa necessariamente me forçar a tirar o Kali dela, basta impor sua decisão. Agora está nessa condição. Só não me coloca no meio disso...

_Você não o quer?

_Está falando como se fosse uma disputa.

_Entenda, a vida é um jogo de conquistas. Não seja boba não, ou vai ficar chupando o dedo e se sentindo a fracassada. _ falou brava.

Subi até o quarto de Kali e abri a porta. Encontrei-o beijando Kelly, encostados na janela. Os dois se soltaram.

_Desculpe... Eu vim buscar a minha roupa.

_Não... Pode se trocar aqui... _ Ele disse, puxando-a pela mão.

Agora eu sentia a mesma raiva de Priscila. E, ótimo, vestia a carapuça de boba. Peguei a minha mochila e desci. Despedi-me dos pais de Kali, que me agradeceram pela festa e fizeram o convite de viajar com eles para uma fazenda no próximo final de semana como retribuição. Desci um caminho íngreme pelo jardim, margeado de grama.

_Tamires. _ ouvi a voz dele, mas, continuei caminhando. _Hei, já vai? Como vai? Tem carona? Nem se despediu de mim.

Virei-me para ele.

_Um táxi está me esperando. Estou cansada.

_Tem alguma coisa a mais, não está normal...

_Você é cego ou o quê? _ perguntei, cheia de fingir.

Ele franziu a testa assustado.

_Nem parece que tirou as vendas ainda!

_Não estou te entendendo... _ riu, surpreso.

_Acho que tem que lavar seu rosto, tem purpurina demais aí. A não ser que tenha rolado sobre a minha fantasia, como espera ter arrumado isso? _ questionei.

Desci os três degraus, abri o portão e entrei no táxi. Sem esperar que ele fosse concluir a lógica daquela questão.

2 comentários:

Cah disse...

Uuuuuuuuuui
estou adorando tudo...
bjos Li
que bom q vc voltou

Aninha Barreto disse...

cara, escreve um capitulo que a Tamires da uma surra na Kelly, por favor!! Que garota mala!!!!!!! huahuauhahua!!!!!!!! Amei o capitulo!!!!!!