13.5.09

Cap 37: Paixão de Blackout (Tamires)

Na mesa, Kelly e eu, lado a lado, aguardávamos a volta de Kali da cozinha. Ele chegou com um copo de água na mão, sentou e nos olhou reticente. Não acredito que esperasse que houvesse qualquer diálogo entre nós duas, ainda não entendia como podia achar fantástica a idéia de nos unir para organizar aquela festa. Eu poderia fazer perfeitamente sozinha e Kelly acreditava na mesma capacidade própria.

_Então, a grana é pouca, juntei com o que meu irmão deu e teremos que improvisar. São três mil reais. _ anunciou.

_Com isso não dá para fazer uma festa no botequim. _ Kelly riu sarcástica do cheque.

_ Acho que podemos fazer mais do que imaginamos com esse dinheiro. É mais do que esperei. _ menti, na verdade, contava com mais, vindo daquela família com posses, mas quis mostrar a Kelly que era mais capaz como promoter.

_É, podemos racionar. _ ela tentou não ficar para trás. _ Nem sei por onde começar.

_Primeiro vamos escolher um tema para a festa. _ puxei meu caderno e apertei a tampa da caneta. _ Eu gostei da idéia do botequim.

_Você só pode estar brincando. _ Kelly ridicuralizou.

Kali estava na posição de expectador, queria ver o circo pegar fogo. Parecia um teste para nós, ou, quem sabe, eu estava encarando a sim. Senti vontade de impressioná-lo, queria provar que era mais capaz, criativa e esperta.

_Meu pai gosta de lugares rústicos. _ ele deu o aval.

_E como pensa em fazer isso? _ Kelly olhou-me em desafio.

_Bom... Podemos conseguir aquelas mesas metálicas de bar. Comprar os porta-guardanapo de alumínio, fazer os cardápios de bar, trazer uns quadros com imagens de artistas boêmios, colocar uma vitrola, trazer umas luminárias, improvisar um balcão, servir comidas típicas como carne assada, lingüiça, cochinha...

Comecei a desfilar todas as minhas idéias ininterruptamente.

_... Se a gente souber caprichar, podemos fazer uma festa muito original e chique. _ defendi minha idéia. _ Vamos para o mercadão de Madureira ou para Seara e comprar toda a decoração bem barata. Depois, a gente compra os ingredientes das comidas e contrata uma pessoa a mais pra ajudar a empregada daqui. Assim, economizamos. Kelly e eu podemos ajudar a fazer os doces.

_Mas, não vamos ter tempo de cozinhar. _ ela tentou se esquivar.

_Se não souber, aprende. Tem receita pra isso. _ ressaltei. _ E... eu tenho um trunfo na manga. Conheço um pessoal da escola de samba que participo. E... Eu posso dançar também... _ aquela era minha tacada de mestre.

_Você é passista? _ Kali riu e se inclinou mais sobre a mesa.

_Pode parecer que não. Mas...

_Então, vamos começar que temos pouco tempo... _ Kelly me interrompeu, não iria mais dar espaço para mim. _ Estou com meu carro aí, vamos fazer as compras... Por onde começamos?

Enquanto ela se levantava e tentava chamar atenção, eu sorria vitoriosa, roubando o último olhar de Kali.

As compras foram de baixo de sol, carregando sacolas enormes, tomando água em garrafinhas, comendo pastel de queijo em bar de chinês, tudo que o mundo humilde e simples que vivi já havia me apresentado. Mas, para Kelly e um pouco para Kali, parecia um passeio por alguma feira exótica de outro país. Nunca me senti tão à vontade e segura. Apesar de cansada, eu sentia que conseguia mostrar o quanto era capaz. Mas, confesso que uma pontinha de inveja batia quando me dava conta de que todos os homens olhavam para Kelly por onde ela desfilava balançando sua cabeleira loira. Era como se eu fosse sua sombra de meio-dia, praticamente imperceptível. Minha auto-estima oscilava entre a segurança e a dúvida.

Kelly ficou em casa para um bom “banho de banheira” e matar a aula da faculdade. Eu não poderia me dar ao luxo, como bolsista tinha que fazer jus e ir. Kali iria me dar uma carona até lá, mas, antes, saiu do carro e a acompanhou até a porta. Ajudou carregar as sacolas que Kelly esconderia em sua casa. Na porta, conversaram por alguns segundos bem perto, captei alguns sorrisos, dois beijos, uma mão dela apertando mais forte seu ombro e um abraço.

Quando ele voltou, eu estava completamente mal humorada, séria, emburrada. Quando parou o carro na porta da faculdade, eu já abri a porta.

_Tamires. _ chamou. _ Obrigado. Você deu várias idéias ótimas, não sei o que seria sem você...

Quem me garantia que ele não dissera exatamente o mesmo discurso para Kelly?

_Que isso... _ dei um sorriso morno.

_Por que ficou assim?

_Assim como?

_Como se tivesse dado um blackout! _ comparou.

_Nada, só cansaço...

_ Espera. _ ele inclinou-se para frente e deu-me um beijo no rosto.

Eu sorri, agora feliz. Como pode as paixões repentinas nos tornarem ridículos?

O homem não daria sua vida por dinheiro, mas daria por uma medalha. Os heróis preferem a morte a serem vivos anônimos. Querem ser lembrados por seus sacrifícios. Incoerentemente, seu retorno parece ser tão bobo, desproporcional. Toda uma tarde de sol por um beijo, um olhar, um sorriso. E ainda sentir que valera a pena.

Mas, restava a falta da certeza de ser a única. Isso para uma mulher é a verdadeira batalha ganha.

Um comentário:

Aninha Barreto disse...

nem preciso dizer que torço pela Tamires nessa parada!!!! Essa Kelly é muito mala!!!!!!!!!!!!! Mas nessa batalha do coração,quem sairá vitoriosa ????? Ansiosa aguardando o próximo capítulo! Li, meu blog Tão iguais e tão diferentes está em reta final!! bjoo!!