20.5.09

Cap 40: Questão de princípios (Tamires)

Eu fiquei parada, como um daqueles bichinhos de pano cheios de areia, a escorar a porta. Estática em cima do último passo dado. No limite do nariz e a madeira. Ainda toquei a maçaneta, mas não girei. Podia e não fiz. Ele trancara por um motivo e era essa razão que me impedia. Kali escorou-se com as costas na porta e me olhou em cheio pela minha esquerda. Iria esperar até o dia amanhecer para que eu tomasse a iniciativa de encará-lo e questionar sua atitude. Eu não demorei tanto, ergui levemente o queixo e o olhei pelo canto do olho.

_Vamos ficar aqui? _ perguntei.

Sorriu, como se eu tivesse falado a coisa mais ingênua e boba do mundo. Enfiou as mãos no bolso, pensou, deu um suspiro e disse:

_Eu sabia que era você que me beijou quando estava vendado. _ contou.

_Hum...

_Eu já tinha beijado a Kelly antes e sabia a diferença.

_Obrigada pelos detalhes sórdidos. _ falei sarcástica, perdendo um pouco da timidez, a raiva me dava mais impulso que a paixão. _ Não foi o que pareceu.

_Eu não imaginei que iria topar com você, nem que me beijaria.

_Eu? _ dei uma risada e apontei para o meu peito. _ Está dizendo que eu te beijei? _ senti que minhas bochechas estavam mais vermelhas que a brasa do fogo. _ Do que está me chamando?

_De nada! Hei, não vim aqui pra a gente brigar! _ tocou no meu braço.

_Quer repetir o beijo? _ perguntei rápido e emendei para não dar tempo de falar. _ Então, corre pra sua sei lá o quê. Já sabe a diferença e não vai confundir.

_Já sabe que não estou com ela. _ simplificou.

_Há quantas horas? _ olhei para o relógio no meu pulso. _ Meia? Uma, duas? Duas! _ satirizei.

_Ao menos sabe que não estou sendo um canalha jogando com as duas... _ elevou-se ao patamar de cara mais ético do universo.

_Quando a gente coloca um perfume de manhã, não é tão fácil tirá-lo ao meio dia, é preciso esfregar bastante para esquecer o cheiro. _ metaforizei. _ Eu ainda sinto ela em você. Mulher não é interruptor que com um toque você desliga o de cima e liga o de baixo. Mulher é uma questão de tempo e o meu não é tão rápido assim.

_Você é ambígua. _observou. _ Uma hora é a passista mais despojada, depois a advogada mais corajosa e, de repente, mais que de repente, parece saída de uma colônia chinesa tradicionalista que te adestrou em uma escola de gueixas submissas e recolhidas.

_Talvez por isso fez sua escolha pela Kelly, não se dá ao trabalho de entender, é como cup noodles, vem praticamente pronto, só jogar água e ferver. Mas, para que saiba, a advogada vem dos ossos da profissão, a passista é a máscara, a gueixa é a concha e eu sou a pérola escondida.

_Ok. O que vou ter que fazer para te conquistar? _ tentou colocar em questões práticas.

_ A segunda vez é sempre mais difícil. _abri a porta.

Dessa vez, não ouvi os passos atrás de mim. Ele deve ter ficado para pensar. Eu queria muito aquele beijo que ficou perdido no limiar da porta. Mas, havia meu orgulho próprio. Não queria ser uma opção na noite, eu queria ser uma escolha. Kali iria precisar me provar isso. Ou eu não abriria brecha para que me machucasse.

Sentei no sofá e acho que estava emburrada, pois sua mãe me olhou em cheio como se percebesse alguma coisa.

_Toca pra gente, Tamires. _ Vitor pediu.

_Agora? Depois... Temos esses artistas aqui! _ falei. Não queria voltar lá em cima para buscar a minha gaita, não era tão fácil manter a minha opinião com Kali lá no quarto.

_Ah! Não seja chata, vamos! _ Michele ficou impaciente com a dificuldade que eu estava impondo.

_Ok, vou pegar a gaita. _ sorri. _Enquanto isso, vão tocando... _ aconselhei aos outros rapazes. Não queria correr o risco de eles perceberem minha demora, caso eu precisasse ficar lá por algum tempo.

Subi as escadas novamente. Meus olhos se encontraram diretamente com os de Kali, que acabava de sair do quarto. Atravessamos o corredor em direções contrárias e, no ponto de cruzamento, nos encaramos por um flash de segundos.

Desci novamente e sentei em uma poltrona amarela no centro da roda. A música parou. Comecei “Luz dos olhos” que agora pouco tinha tocado para Kali. Eles reconheceram e começaram a cantar. Os músicos me acompanharam. Meu coração estava no compasso da música e eu me empolguei, inclinando-me para frente, levada pelos movimentos das mãos e da alma:

_Ponho os meus olhos em você
Se você está
Dona dos meus olhos é você
Avião no ar
Um dia pra esses olhos sem te ver
É como chão no mar
Liga o rádio à pilha, a TV
Só pra você escutar
A nova música que eu fiz agora
Lá fora a rua vazia chora...

Pois meus olhos vidram ao te ver
São dois fãs, um par
Pus nos olhos vidros prá poder
Melhor te enxergar
Luz dos olhos para anoitecer
É só você se afastar
Pinta os lábios para escrever
A sua boca em minha...

Que a nossa música eu fiz agora
Lá fora a lua irradia a glória
E eu te chamo, eu te peço: Vem!
Diga que você me quer
Porque eu te quero também!

Passo as tardes pensando
Faço as pazes tentando

Te telefonar

Cartazes te procurando
Aeronaves seguem pousando
Sem você desembarcar
Pra eu te dar a mão nessa hora
Levar as malas pro fusca lá fora....

E eu vou guiando
Eu te espero, vem...
Siga onde vão meus pés
Porque eu te sigo também.
E eu te amo!
E eu berro: Vem!
Grita que você me quer
Que eu grito também!
Hei! Hei!...

Quando acabei, um músico observou com o dedo enriste e segurando uma palheta:

_Isso é coisa de quem toca com o coração. _ apontou para o peito. _ E... _ fez um ar de suspense. _... Está apaixonada!

_Ihhhh!! _ todos começaram a rir.

Eu sorri e não respondi que sim nem que não. Quem deveria saber já sabia.

_Vou pegar mais lenha. _ Vitor se ofereceu.

Eu precisava de um pouco de ar, sai também para ver a noite fria lá fora. Vitor desceu e foi até uma pilha de pedaços de madeira.

_Nunca senti tanto frio! _ falei.

Ele desistiu de pegar as pequenas toras e chegou mais perto.

_Não seja fraca. _ riu e fez carinho nos meus dois braços para me aquecer. Chegou mais perto. _ Tem um jeito que esquenta mais rápido. _ Segurou meu rosto com a mão e se preparou para me beijar. Ele estava a fim de mim e eu, tão ligada nas coisas que aconteciam entre Kali e Kelly, não me dera conta.

Silverchair - Miss You Love


Eu, que estava de frente para a casa, vi Kali chegar na porta que deixamos aberta. Ele olhou para Vitor que estava prestes a me beijar com uma expressão tão fria quanto aquela noite. Fez uma cara de quem estava entendendo por que eu havia dificultado as coisas entre nós no quarto. Devia estar achando que Vitor e eu mantínhamos algo por trás e eu não queria lhe contar, por ser seu amigo. Quando, na verdade, não era nada disso! Mas a cena valia mais que mil explicações que eu tentasse depois dizer.

Coloquei as mãos no peito de Vitor, antes que esse me beijasse, e falei que era melhor parar por ali. Pedi desculpas por não poder correspondê-lo. Vitor olhou para trás, percebendo que meu foco estava em suas costas, e viu Kali acabar de entrar, perguntou se era por ele que eu estava apaixonada. Meu silêncio serviu como resposta. Ele falou que “ok” e entrou com as toras.


Apesar do frio, eu não queria entrar também. Olhei para lua e pensei se estava frio lá em cima também. Por que eu me sentia tão angustiada?! Talvez por querer fazer algo e meus princípios dizerem ao contrário, que era para esperar.

Ótimo! Agora Kali devia estar achando que eu estava beijando Vitor!

18.5.09

Cap 39: Coração no ritmo do amor (Tamires)

Não sei se Kali entendeu o meu recado no fim da festa e se tocou que o beijo que dera com os olhos vendados fora em mim e preferiu não comentar nada. Ou se realmente não pescara a insinuação e continuava a ignorar meu interesse. Minha certeza era de que Kelly estava marcando em cima como atacante que não fez ainda um gol na rodada do Brasileirão.

Era de se esperar que ela também fosse convidada para a viagem a fazenda. O lugar ficava a algumas horas do Rio de Janeiro, em um município montanhoso e um pouco frio, chamado Petrópolis. Chegamos lá em duas vans lotadas de amigos de Kali e de seus pais. A propósito, ele fora em um carro e, eu, em outro. Claro, Kelly marcou o lugar ao seu lado. Comecei a sentir que não teria chance e, para minha dissonância cognitiva, disse a mim mesma que não deveria fazer tanto esforço, que não era para a minha vez.

Com esse pensamento triste e de derrota, olhei pela janela a vegetação passar. Os amigos dele estavam impacientes, falantes, deixando farelos de biscoitos por toda parte. Não gostavam de nenhuma rádio que escolhiam, o sinal não estavam bom. O rádio do carro, para decepção, não pegava pendrive. Um zum-zum-zum.

Abri o bolso da frente da minha mochila que carregava no colo. Tirei minha gaita vermelha. Levei a boca e fechei os olhos. O primeiro sopro de ar fez o som de Love me Do começar a ressoar pela van.

Aos poucos todos foram se virando para me olhar.

Beatles - Love me Do


Não quis perder a concentração. Fechei os olhos e continuei a tocar com o coração. Os dedos faziam movimentos como se vibrassem na mesma sintonia das notas que saiam. A gaita ia e vinha, da direita para a esquerda na minha boca.

Seus olhos admirados e o silêncio deram lugar a palmas quando terminei de tocar. Quiseram ver o pequeno objeto metálico como se fosse alguma Esfera do Dragão ou pedaço de asteróide. Mostrei que se tratava de uma HERING FREEBLUES TOM C.

_Toca mais! _ pediram.

Eu ri, pensei em outra que tivesse a cifra de cabeça e toquei. Foi assim por quase toda a viagem:

_Uau, assim vou chegar sem ar! _ disse, vendo que pareciam insaciáveis.

_Quando aprendeu? _ Ítalo quis saber. Ele era o amigo de escola de Kali. Alto, moreno, cabelo castanho de caracóis, olhos miúdos, um óculos pequeno no rosto oval.

_Com meu pai. Ele é muito fera. Quando fiz dez anos não quis bicicleta, nem computador. Meu presente era um só: uma gaita vermelha como a dele. Treinei muito pra conseguir fazer isso... _ falei com modéstia. _ Passei por vários compositores de Blues, aprendi tudo de Bob Dylan.

_Toca uma dele. _ Vitor pediu.

_Deixa eu ver... _ trouxe a gaita a boca e toquei I’m not There >>. Dessa vez, de olho aberto, vi-os contemplar aquele momento como um microcosmo musical. As janelas mostravam uma cidade nova que passava, mas eles queriam olhar para dentro: eu era alguém a ser descoberta. Vitor que queria ouvir Dylen, colocou o celular na altura do meu rosto e começou a filmar. Depois, disse que enviara para Kali, no outro carro, para ver o que perdiam.

Paramos para ir ao banheiro e tomar um café, na beira da estrada. Era um pequeno restaurante muito bonito, com uma pilha até o teto de compostas de todo tipo de doce. Parecia uma torre redonda colorida. Aproximei-me mais para ver um deles quando senti alguém muito perto. Instintivamente, virei meu rosto para o lado.

_Já soube que está fazendo sucesso... _ Kali sorriu. Estava com um abrigo branco, de zíper e inscrições azuis em relevo. _Quer dizer que eu estou perdendo isso? _ perguntou.

_Ah! Depois eu toco pra você, nada demais.

_Quero ouvir.

_Claro... _ continuei olhando os doces de abacaxi em calda.

_Agora.

_Ãnh? Agora? Mas... eu deixei lá no carro... _despistei. Eu iria provavelmente esquecer toda a música e seria um desastre.

_Por que não? _ deu de ombros.

_Tudo bem... Vem com a gente na próxima parte da viagem e te mostro. _ propus. Nem acreditei que tive coragem de fazer essa pequena chantagem emocional. O importante é que eu não perderia a chance de vender por um alto preço a minha habilidade.

_A artista é tão difícil assim? _ perguntou em provocação.

_Você quem sabe... _ deixei em aberto e por sua conta a decisão. Peguei uma batata frita de uma prateleira e fui até o caixa pagar.

Kali negociou com Vitor ficar em seu lugar. Mas, seu amigo explicou que daria trabalho levar as coisas para o outro carro, que não entendia porque queria mudar. Eu sentada só observava a negociação. “Aiiii, Vitor! Você vai ver a próxima vez que me pedir para tocar!”, pensei comigo. Era o que me faltava! Ele arrematou que não entendia porque ele deixaria Kelly sozinha lá. Desde então, entendi que já acontecia algo semi oficial entre eles que eu ainda não sabia.

A mãe de Kali mandou que sossegasse logo porque queria chegar a tempo para o almoço. Ele aceitou, baixou a guarda e voltou para a outra van. No meu celular, recebi a mensagem: “Ainda me deve”. Eu sorri.

A fazenda era um lugar bem aconchegante, a casa toda feita de madeira com muitas varandas, salas enormes. Parecia uma antiga propriedade de um barão. Na verdade, era agora de um amigo dos pais de Kali, que cedera para que ficassem ali por alguns dias.

Arrumei minhas coisas no quarto e vim sentar em uma cadeira de madeira de 3 lugares com acentos de couro branco e almofadas coloridas. Cruzei as pernas que estavam bem aquecidas com as botas marrons e encolhi o pescoço no cachecol mostarda.

Michele passou com Vitor. Ela espirrara e ele dissera para ficar longe dos porcos por causa da gripe suína. Sem perder o tom da brincadeira disse que bem capaz de estar com a doença, pois estava gorda feito uma porca.

Eu sorri e balancei a cabeça para os lados. Kali apareceu com o convite de cavalgarmos e a ótima notícia de que Kelly não iria junto. Aceitei na hora e fomos acompanhados de mais três de seus amigos. Montamos e demos a volta na propriedade. Os meninos logo quiseram mais aventura e aceleraram a velocidade, fazendo os animais darem tudo de si. Cansei e, desci. Acariciei o bicho, puxei-o pela rédea e este começou a comer a folhagem do chão. Meus ouvidos se abriram para o barulho dos trotes dos cascos na grama, em um som abafado e violento, como aquele original do meu sonho constante com Kali.

Ele, na próxima volta que passou por mim, parou o cavalo e deixou que os amigos seguissem. O animal que brecou abruptamente ainda levantou as patas dianteiras e relinchou. Ele desceu e perguntou se estava tudo bem.

-Está. _ sorri. _ Só não tenho o mesmo pique que vocês. _ expliquei.

_O dia está lindo, não? _ perguntou mais perto e senti que não faltava mais nada para a gente se beijar ali. Kali já estava até mesmo falando do tempo, deixando claro que já não tinha mais assunto para enrolar.

Seus amigos passaram por nós mais uma vez e o chamaram. Eu disse que podia ir, mesmo não querendo e ele tomou isso como uma expulsão e foi. Como eu era tão fraca!

Ao chegar na casa de volta, encontramos a mãe de Kali batendo palmas na sala para convocar a todos para uma rápida reunião. Contou que a noite teríamos uma pequena festa com direito a fogo, comida e música. Nada mais mágico! Todos ficaram muito animados.

_Mas, não será aqui. _ fez um ar de suspense. _Vamos caminhar por uma trilha até chegar a um chalé na montanha. Será na outra casa do nosso amigo. Levem roupa bem quente porque vai fazer frio!

Todos se entreolharam. Os mais novos adoraram as novidades e a possibilidade de aventura.

O caminho não foi tão divertido para alguns. Kelly reclamou que estava com fome e disse que acabara de entrar no estado de autofagia. Para parar de ouvir seus resmungos, ofereci-lhe uma barrinha de cereal de banana.

_Obrigada, não ia agüentar ficar a base dessa fotossíntese. _ referiu-se ao sol que sustentava sob nossas cabeças um pouco quente, mas nada que a próxima sombra de alguma árvore não atenuasse. _ A gente bem que poderia parar em algum lugar e encontrar uma máquina de café! _ ela começou a sonhar.

Enquanto caminhava, fiquei ao lado dos pequenos grupos que se formavam. Ora ao lado das meninas “geração saúde”:

_Eu gosto de correr no sol. Sabia que correr no sol 40 minutos vale correr no frio uma hora? E ainda dar para pegar aquele bronze. Eu moro perto da praia, tenho essa vantagem.

...Ora ao lado dos meninos fanáticos por carro:

_A gasolina tem maior combutão, é mais refinada que o diesel, é melhor para motores pequenos. E o diesel melhor para motores grandes, como é mais denso, gasta menos. O motor tem que ser mais resistente pro Disel. O álcool tem combustão maior do que a gasolina. Por isso que o carro bi combustivél, quando usa álcool, corre mais e gasta mais.

...Ora ao lado dos casais mais velhos:

_A gente passa a vida se estressando. Mas, quando a gente é jovem, não presta atenção que o estresse destrói as células. O hipocampo responsável pela área da memória produz células nervosas durante toda a vida. As pessoas depois do estresse continuam a produzir, só que essas células não duram muito.

... Ora sozinha.

Olhei para Kali de canto de olho e reparei que me espreitava também. Segurei com os polegares as duas alças da mochila e fixei a atenção bem no chão. Temi ter transparecido algum sentimento. Um frio cortou a barriga.

Quando chegamos ao chalé todos só queriam beber água e se jogar nos sofá, cansados. A grande lareira foi acesa por um casal de caseiros.

_Olha como estão os meus pés! _ Kelly reclamou e fez todos se aproximarem para ver o quanto estavam inchados. _Eu tenho alergia a mosquitos e esqueci de passar o repelente! Como pude ser picada? Aqui não é frio?!

Continuei à janela, alheia a sua crise. A vista era linda. Kali chegou perto, também querendo fugir da sua nova companhia. Ficou ao meu lado, admirou a vista também, virou o rosto para mim.

_Kali! _ Kelly gritou.

Eu segurei o riso. Ele voltou-se para ela, com toda sua paciência.

_Eu tenho que descer para a cidade. Quero comprar um remédio.

_Voltar? Agora?!

_Não tem um motorista aqui?

_Não, o motorista do seu pai não veio junto! _ foi sua primeira vez de ser rude. As pessoas pararam suas conversas e ficou aquele clima. _ Você quer ir embora? Então, vamos. Seu Antônio... _ chamou o caseiro. _... Me empresta a chave da caminhonete.

_Onde vai Kali? _ sua mãe chegou da varanda e pegou a briga no meio.

_Já venho. _ limitou-se a responder, mas Kelly deu os detalhes para arrancar compadecimento da mulher, cuidando de usar uma voz de pobre coitadinha.

_Eu não consigo andar direito, me pega no colo? _ ela pediu.

Ele não fez nenhuma objeção a seu pedido de garota mimada, parecia levantar uma caixa de legumes que queria descarregar em qualquer outro lugar. Abruptamente a levantou no ar e saiu. Kelly com as mãos no seu pescoço, ainda olhou para mim com seu rosto colado no de Kali. Seu silencioso recado é que tinha conseguido levá-lo para longe, longe de mim.

Se sua presença irritante era chata, usar suas armas para tirar Kali era bem pior. Pelo menos, ele estava por perto e poderia ter um pouco da sua atenção.

À noite, chegaram um grupo de quatro cantores, que trouxeram violão e acordeom. Sentamos perto do fogo e tomamos muito vinho, enquanto comíamos várias pequenas porções de comida quente servidas em mini potes de cerâmica branca.

De repente, a porta no canto da sala se abre e Kali entra. Depois, fecha a porta e percebo que está sozinho. Meu coração disparou no peito. Estava tendo uma visão ou conseguira trazê-lo só com a força do meu desejo?! Não parecia muito feliz, subiu as escadas com o rosto sério e foi para o andar dos quartos.

_Tamires, me ajuda levar essas bandejas? _ a mãe de Kali pediu e fomos até a cozinha. _ Não parece muito feliz. _ perguntou enquanto recolocávamos os potes cheios de comida nas bandejas. Entendi que usara a desculpa da ajuda para puxar assunto comigo. _ Não está gostando da viagem?

_Estou! Imagina?! Tirei várias fotos, o lugar é lindo. Nunca vou esquecer... _tentei fazer uma voz mais animada. _Obrigada pelo convite!

Ela, que estava de frente para a porta da cozinha, sorriu por ver alguma coisa.

_Mas, acho que agora você vai ficar mais alegre. _ comentou e, em seguida, Kali veio ao seu encontro dar-lhe um beijo no rosto.

Aposto que Priscila havia contado do meu interesse por seu filho. Ou será que eu tinha dado tanta bandeira?! Fiquei envergonhada, mas, não deixei de olhá-los conversar, enquanto segurava a bandeja pesada.

_Levei Kelly ao hospital. A médica passou uma pomada. Ela não quis voltar. A gente discutiu, estava de saco cheio já. _ falou baixinho, como se eu não fizesse parte da conversa. _ Depois disso, ela ficou mais irritada e cismou em querer pegar um ônibus na rodoviária só para que eu me sentisse um monstro. _ explicou, deixando claro agora para mim que ele também já enxergara os joguinhos daquela patricinha.

_E quem vai buscá-la na rodoviária quando chegar?

_Não se preocupe, ela tem bastantes empregados! Só que eu não sou um deles. _ disse.

_Então, vem comer alguma coisa. _ a mulher caminhou em direção a sala.

Kali voltou a me olhar como se só naquele momento se tocasse da minha presença, eu fixei os olhos nos escondidinhos de camarão e segui atrás de sua mãe. Senti que ele me observava enquanto passei.

Estava com um pouco de frio. Fui até o quarto buscar meu cachecol. Subi as escadas e ouvi passos atrás, me virei rapidamente para olhar, em reação instantânea, e vi que era ele. Agora o coração batia forte como o salto da minha bota no assoalho. Respirei fundo, entrei no quarto onde havia quatro camas de solteiro. Inclinei-me sobre a última delas e abri minha bolsa. Torci para que ele tivesse seguido para o outro quarto, pois estava muito nervosa. Mas, Kali já estava na porta. E agora sem Kelly!

Coloquei o cachecol em volta do pescoço, depois, fiz um nó colocando duas pernas dentro de um laço. Ajustei. Fechei a mochila novamente. O que ele queria aqui?

_E a nossa promessa? _ perguntou com uma voz tranqüila que eu ainda não tinha ouvido desde que começara a viagem.

_Qual? _ franzi a testa, fazendo-me de ingênua.

_Quero ouvir você tocar gaita. Todo mundo já me falou disso e eu não ouvi ainda! _ mostrou-se desonrado.

_Ah! Com aqueles caras feras lá embaixo me sinto até humilhada! _ ri.

_Tá, mas me prometeu. _ insistiu e se jogou em uma das camas com a cabeça apoiada nas costas das mãos.

Fiquei olhando seu corpo longilíneo e forte estendido relaxadamente sobre a cama e tive quase certeza que não lembraria nem das primeiras lições que meu pai me ensinara a tocar!

_Vamos! _ incentivou-me e eu balancei levemente o rosto em um pequeno susto, tirada do torpor. Fiz um movimento rápido de sentar na cama e abrir a mochila, seguindo a ordem do seu pedido.

Ele virou-se de lado e apoiou a cabeça em uma das mãos. Não vi o resto porque tinha certeza que iria me desconcentrar. Fechei os olhos e comecei a tocar a música tema do filme Titanic >>. Não poderia ser nada complexo quanto Dylan, mas que tivesse alguma emoção. Já no fim, fiquei me punindo por ter sido tão clichê! Titanic?! Abri os olhos com certo medo de ter sido boba e desapontadora.

Kali estava com um sorriso que não entendi. Olhava não só para gaita, mas pra mim. Eu não sabia o que dizer, nem onde por as mãos, toquei mais uma vez na falta de reação e medo de estragar tudo. Dessa vez foi Luz dos olhos >>. Ao terminar, ele fez uma observação, dizendo que a gaita tinha sempre um tom triste. Terminou a frase em tom de pergunta: “Ou seria você?", se referindo a uma possibilidade de eu estar triste por algum motivo e passar isso para as músicas.

Não respondi porque me enrolaria em explicar como meus sentimentos estavam intensos, tristes e misturados. Coloquei a gaita na boca e puxei A pantera cor de rosa >>, ao que ele soltou uma risada divertida. Franzi a testa com um ar de “melhorou?”. Lembrei de mais uma e toquei Mortal Kombat para sua excitação e alegria, pulou da cama e sentou ao meu lado. Eu sabia que aquela musiquinha ridícula que aprendi para o meu irmão teria uma utilidade melhor.

_Você é muito boa! _ segurou minha mão e me impediu de tocar a próxima. Ainda segurando meu punho e com rosto muito perto, vi sua alegria.

_Gente, vamos comer? _ sua mão chegou na porta e bateu palmas.

_Claro! _ pulei da cama, deixei a gaita no bolso da mochila. _ Já estamos indo. _ caminhei em direção a porta.

_Sim, já vamos. _ ele concordou, falando mais atrás de mim.

Podíamos ouvir os passos de sua mãe descendo a escada, já longe. Mas, antes de cruzar a porta, ele fora mais rápido e a trancara com um empurrão. Meu coração pareceu dar junto a última pancada.

15.5.09

Cap 38: Beijos cegos (Tamires)

Aprenda uma coisa: não importa quanto o chão de fábrica trabalhe e conheça o produto, são os executivos que receberão os troféus. Foi assim com a tal festa que organizamos para os pais de Kali. Eu dei o sangue em mil compras, enrolando docinhos, montando decoração e ajustando luzes. Kelly ficou com o trabalho de telefonar para os convidados e fazer os contatos. Eu pensei que seria a melhor idéia do mundo deixá-la longe, em um canto, com seu caderno de capa rosa e caneta de pompom ao telefone. Ela estava totalmente ocupada para não atrapalhar o operacional do meu trabalho.

Eu só era bastante esperta para umas coisas e ingênua para outras: na verdade, ela estava fazendo o que era mais importante: aparecendo como a cara da festa. Quem iria querer saber sobre a responsável pelo operacional? Porém, se lembrariam da Promoter. Infelizmente, estava tão centrada em repassar os itens da lista de tarefas, que deixei pra cair na real na hora do evento.

Quando voltei da cozinha, encontrei Kelly recebendo os convidados com muitos sorrisos e desenvoltura. Ela tinha o porte e o perfume de dinheiro na pele. Isso a tornava mais qualificada para desfilar entre aquelas pessoas. Eu só podia admirar. E foi o que os pais de Kali fizeram quando chegaram.

O casal ficou muito surpreso. Adoraram cada detalhe, olhavam para toda parte apontando. Kali apresentou Kelly e, ao se virar de lado me viu. Então, não iria me apresentar? Ele fez sinal, mas, fingi que não vi. Meu orgulho sempre me põe a perder. Estava com ciúme dos elogios e do reconhecimento.

Caminhei para a cozinha. Perguntei sobre a bebida, a comida, os copos e para tudo ouvia uma resposta de que estava em ordem. Nesse momento, Kali entrou.

_Vem, quero que meus pais falem com você.

_Eu estou um pouco ocupada. _ disse, sem olhar para ele. Rejeitando o convite.

_O que deu em você? _ insistiu.

_Está tudo bem! _ falei, a primeira vez olhando em seu rosto.

_Agora é hora da festa. _ pegou o caderno da minha mão. _ Não disse que ia dançar? Seus amigos chegaram com a bateria. Estão todos animados lá fora. Os meus amigos estão loucos pra te ver! Ãnh? _ fez uma cara de animado.

Eu me lembrei do samba e senti uma pontada de cansaço. Teria que me super produzir com a fantasia, maquiagem, salto alto, muita purpurina. Quando na verdade só queria deitar na cama e apagar.

Kelly tinha passado o dia na estética, cuidando da beleza, dormindo. Eu tinha virado noite, ralado feito louca o dia todo.

_Ficou calada. _ ele comentou.

_Estou com vontade de ir embora.

_Quê?! A festa não vai ser nada sem você!

_Não se preocupe, está tudo no caderno. _ disse, passando a mão no cabelo.

_Dança, por favor, meu pai vai adorar. Não sei a minha mãe. _ riu.

_Cadê nossa passista? _ Priscila perguntou, chegando justo agora.

_Está querendo abandonar a avenida. _Kali contou.

_Nem pensar! Vocês não viram o show que ela dá. _ elogiou.

_Kali, estão te procurando. _ um amigo dele colocou a cabeça na porta e o chamou.

Ele sumiu e Priscila chegou mais perto:

_Vai ceder agora?

_Ãnh?

_Não acha que eu vou acreditar que fez a festa para os meus sogros. Você fez pra ele. Então, trate de ir lá e mostrar o quê que você tem de bom, mulher! _ deu um tapinha no meu braço. _ Vai se arrumar para o show.

_Eu não sou só bunda não, viu! _ recuperei o humor.

Fui até o quarto de Kali, onde estavam as peças da fantasia dourada. Era toda brilhante, com muitas pedras e plumas. Primeiro precisei passar purpurina na pele com ajuda de um óleo. Fiz a maquiagem dos olhos. Espirrei o spray de fixador nos cachos que estavam mel na raiz e mais dourados nas pontas. Vesti-me e calcei os saltos de tiras amarradas na perna.

Pronto, agora era só juntar as últimas gotas de energia e descer. Caminhei pelo corredor. De repente, ouvi vozes e risadas. Kali apareceu vendado com um pano preto nos olhos e dois de seus amigos atrás o guiavam para algum ritual. Nada sério poderia se esperar deles.

Fiz um sinal com o dedo indicador de silêncio e eles dois sumiram.

_Pra onde vocês vão? _ Kali perguntou, ouvindo que a risada ficava longe.

Que brincadeira de criança era aquela no meio da festa?

Aproximei-me e toquei no seu braço. Ele segurou a minha mão.

_Kelly? É você? _ perguntou.

O sorriso morreu na minha boca.

Kali se aproximou mais e eu não consegui fazer movimento de ação ou defesa. Ele beijou meu queixo, riu e depois seus lábios se encontraram com os meus. Eu podia me afastar do beijo que não era pra mim. Mas, fiquei. Não entendo, mas fiquei. Toquei no seu rosto direito e intensifiquei a força do beijo, tornando-o mais forte, úmido, macio.

Ouvi barulho de pisada nos degraus. Afastei meu rosto e foi o segundo que faltava pra ver Kelly. Ela não presenciara o beijo, mas vira que estávamos bem perto. Olhou para um e depois para o outro. Eu abaixei a cabeça e desci rapidamente os degraus. Não queria nem pensar em ele perceber que eu aceitara o beijo, sabendo que tinha falado o nome dela.

Cheguei atordoada na sala. Percebi que todos me olhavam. Lógico, eu parecia um pavão caído em um pote de cola e empanado com purpurina. Alguém deve ter avisado que eu chegara, pois o som da bateria se intensificou.

Balancei a cabeça para os lados como quem tenta colocar os pensamentos no lugar. Dei dois passos à frente, respirei. Se fez silêncio. Ao som apenas da cuíca e de alguns instrumentos, eu entrei deslizando. As mãos graciosas oscilavam no ar como em um balé. O balanço lento do corpo no ar, em um contorcionismo sensual. Dei um beijo de princesa para alguns convidados, depois para outros. Ouvi muitos assovios e aplausos. A bateria ficou mais forte e rápida e os passos na ponta do pé mostraram o samba verdadeiro.

Esqueci o cansaço, dancei com vigor e graça. Muitos flashes e elogios. Olhares de cobiça e de admiração. Ali, eu era a rainha. Quando acabei, meu peito parecia que ia se rasgar sem ar. Ri, feliz por ter feito uma ótima apresentação que arrancou aplausos empolgados. Olhei em toda minha volta e não o encontrei.

_Quem diria hen? _ ouvi uma voz masculina atrás de mim.

Meu coração disparou. Quando me virei, vi Kali acompanhado de Kelly. Pelo sorriso dela o que deve ter acontecido? Continuaram o beijo?! Eu não podia saber, nem perguntar.

_A gente tem que ter um hobby. _ falei humildemente.

_A festa deu muito certo. _ Kelly sorriu e passou a mão nas costas de Kali.

_É. _concordei com um quarto de sorriso.

No dia seguinte, vi minhas fotos no álbum do Orkut de muitos amigos de Kali. Virei o ícone inusitado a se mostrar. Mas, apesar desse sucesso no grupo, eu continuava com a sensação de derrota.

Priscila também não ficara muito feliz com o desenrolar dos fatos. Na festa, ouvi uma conversa pouco amigável com Kelly:

_O que você não faz para ser parte da família?

_Que quer dizer com isso? _ ela se fez de sonsa.

_Não está na cara que quer Kali, agora? _ Priscila deixou em pratos limpos.

_Essas são as suas conclusões? _ fez pouco caso e continuou andando. _ Mas... _ parou e voltou-se para Pri. _ ... E se fosse? O que me impede? _ questionou, no seu patamar de rainha de todas as situações.

Priscila olhou para o lado e me viu no outro canto da festa. Entendeu que eu tinha captado tudo. Abaixei os olhos e acariciei o copo úmido de bebida. Ela veio até mim com passos rápidos e me pegou pelo braço. Pediu para irmos até uma varanda lateral onde não havia ninguém:

_Não pode deixá-la fazer o que quiser!

_Hei, não fui eu que a coloquei aqui! _ defendi-me.

_Não, não. Não quero ver essa ridícula aqui...

_Priscila, ela não é mais risco para você. E, se não a quer aqui, não precisa necessariamente me forçar a tirar o Kali dela, basta impor sua decisão. Agora está nessa condição. Só não me coloca no meio disso...

_Você não o quer?

_Está falando como se fosse uma disputa.

_Entenda, a vida é um jogo de conquistas. Não seja boba não, ou vai ficar chupando o dedo e se sentindo a fracassada. _ falou brava.

Subi até o quarto de Kali e abri a porta. Encontrei-o beijando Kelly, encostados na janela. Os dois se soltaram.

_Desculpe... Eu vim buscar a minha roupa.

_Não... Pode se trocar aqui... _ Ele disse, puxando-a pela mão.

Agora eu sentia a mesma raiva de Priscila. E, ótimo, vestia a carapuça de boba. Peguei a minha mochila e desci. Despedi-me dos pais de Kali, que me agradeceram pela festa e fizeram o convite de viajar com eles para uma fazenda no próximo final de semana como retribuição. Desci um caminho íngreme pelo jardim, margeado de grama.

_Tamires. _ ouvi a voz dele, mas, continuei caminhando. _Hei, já vai? Como vai? Tem carona? Nem se despediu de mim.

Virei-me para ele.

_Um táxi está me esperando. Estou cansada.

_Tem alguma coisa a mais, não está normal...

_Você é cego ou o quê? _ perguntei, cheia de fingir.

Ele franziu a testa assustado.

_Nem parece que tirou as vendas ainda!

_Não estou te entendendo... _ riu, surpreso.

_Acho que tem que lavar seu rosto, tem purpurina demais aí. A não ser que tenha rolado sobre a minha fantasia, como espera ter arrumado isso? _ questionei.

Desci os três degraus, abri o portão e entrei no táxi. Sem esperar que ele fosse concluir a lógica daquela questão.

13.5.09

Cap 37: Paixão de Blackout (Tamires)

Na mesa, Kelly e eu, lado a lado, aguardávamos a volta de Kali da cozinha. Ele chegou com um copo de água na mão, sentou e nos olhou reticente. Não acredito que esperasse que houvesse qualquer diálogo entre nós duas, ainda não entendia como podia achar fantástica a idéia de nos unir para organizar aquela festa. Eu poderia fazer perfeitamente sozinha e Kelly acreditava na mesma capacidade própria.

_Então, a grana é pouca, juntei com o que meu irmão deu e teremos que improvisar. São três mil reais. _ anunciou.

_Com isso não dá para fazer uma festa no botequim. _ Kelly riu sarcástica do cheque.

_ Acho que podemos fazer mais do que imaginamos com esse dinheiro. É mais do que esperei. _ menti, na verdade, contava com mais, vindo daquela família com posses, mas quis mostrar a Kelly que era mais capaz como promoter.

_É, podemos racionar. _ ela tentou não ficar para trás. _ Nem sei por onde começar.

_Primeiro vamos escolher um tema para a festa. _ puxei meu caderno e apertei a tampa da caneta. _ Eu gostei da idéia do botequim.

_Você só pode estar brincando. _ Kelly ridicuralizou.

Kali estava na posição de expectador, queria ver o circo pegar fogo. Parecia um teste para nós, ou, quem sabe, eu estava encarando a sim. Senti vontade de impressioná-lo, queria provar que era mais capaz, criativa e esperta.

_Meu pai gosta de lugares rústicos. _ ele deu o aval.

_E como pensa em fazer isso? _ Kelly olhou-me em desafio.

_Bom... Podemos conseguir aquelas mesas metálicas de bar. Comprar os porta-guardanapo de alumínio, fazer os cardápios de bar, trazer uns quadros com imagens de artistas boêmios, colocar uma vitrola, trazer umas luminárias, improvisar um balcão, servir comidas típicas como carne assada, lingüiça, cochinha...

Comecei a desfilar todas as minhas idéias ininterruptamente.

_... Se a gente souber caprichar, podemos fazer uma festa muito original e chique. _ defendi minha idéia. _ Vamos para o mercadão de Madureira ou para Seara e comprar toda a decoração bem barata. Depois, a gente compra os ingredientes das comidas e contrata uma pessoa a mais pra ajudar a empregada daqui. Assim, economizamos. Kelly e eu podemos ajudar a fazer os doces.

_Mas, não vamos ter tempo de cozinhar. _ ela tentou se esquivar.

_Se não souber, aprende. Tem receita pra isso. _ ressaltei. _ E... eu tenho um trunfo na manga. Conheço um pessoal da escola de samba que participo. E... Eu posso dançar também... _ aquela era minha tacada de mestre.

_Você é passista? _ Kali riu e se inclinou mais sobre a mesa.

_Pode parecer que não. Mas...

_Então, vamos começar que temos pouco tempo... _ Kelly me interrompeu, não iria mais dar espaço para mim. _ Estou com meu carro aí, vamos fazer as compras... Por onde começamos?

Enquanto ela se levantava e tentava chamar atenção, eu sorria vitoriosa, roubando o último olhar de Kali.

As compras foram de baixo de sol, carregando sacolas enormes, tomando água em garrafinhas, comendo pastel de queijo em bar de chinês, tudo que o mundo humilde e simples que vivi já havia me apresentado. Mas, para Kelly e um pouco para Kali, parecia um passeio por alguma feira exótica de outro país. Nunca me senti tão à vontade e segura. Apesar de cansada, eu sentia que conseguia mostrar o quanto era capaz. Mas, confesso que uma pontinha de inveja batia quando me dava conta de que todos os homens olhavam para Kelly por onde ela desfilava balançando sua cabeleira loira. Era como se eu fosse sua sombra de meio-dia, praticamente imperceptível. Minha auto-estima oscilava entre a segurança e a dúvida.

Kelly ficou em casa para um bom “banho de banheira” e matar a aula da faculdade. Eu não poderia me dar ao luxo, como bolsista tinha que fazer jus e ir. Kali iria me dar uma carona até lá, mas, antes, saiu do carro e a acompanhou até a porta. Ajudou carregar as sacolas que Kelly esconderia em sua casa. Na porta, conversaram por alguns segundos bem perto, captei alguns sorrisos, dois beijos, uma mão dela apertando mais forte seu ombro e um abraço.

Quando ele voltou, eu estava completamente mal humorada, séria, emburrada. Quando parou o carro na porta da faculdade, eu já abri a porta.

_Tamires. _ chamou. _ Obrigado. Você deu várias idéias ótimas, não sei o que seria sem você...

Quem me garantia que ele não dissera exatamente o mesmo discurso para Kelly?

_Que isso... _ dei um sorriso morno.

_Por que ficou assim?

_Assim como?

_Como se tivesse dado um blackout! _ comparou.

_Nada, só cansaço...

_ Espera. _ ele inclinou-se para frente e deu-me um beijo no rosto.

Eu sorri, agora feliz. Como pode as paixões repentinas nos tornarem ridículos?

O homem não daria sua vida por dinheiro, mas daria por uma medalha. Os heróis preferem a morte a serem vivos anônimos. Querem ser lembrados por seus sacrifícios. Incoerentemente, seu retorno parece ser tão bobo, desproporcional. Toda uma tarde de sol por um beijo, um olhar, um sorriso. E ainda sentir que valera a pena.

Mas, restava a falta da certeza de ser a única. Isso para uma mulher é a verdadeira batalha ganha.