21.4.09

Cap 36: Amizades nada cor de rosa (Tamires)

A porta ainda estava aberta, mas agora eu já não me importava tanto se alguém escutasse. Queria que Kali explicasse direitinho aquela foto. Apontei para o álbum e ele se aproximou. Eu não precisava dizer nada, ela dizia por si só. Talvez, nunca imaginasse que eu a acharia ou nem mesmo se lembrava dela. Tentou essa última opção comigo:

_Eu não lembro disso... _ falou baixo.

_Não lembra de ter tirado a foto, mas sabia que conhecia aquela mulher quando a vimos?! Você a conhecia! Sabia da menina?! Então, tudo não passou de um trailer de filme investigativo...

_Não, Tamires. Eu não sabia nada dela.

_Como não?! E isso?! Ela está ao seu lado na foto!

Quem olhasse de fora poderia achar que era uma cena de ciúme. Mas, na verdade, eu me sentia enganada. Afinal, fomos parar no fim do mundo pra falar com uma velha super esquisita e assustadora, depois corremos atrás de uma senhora mal humorada, pra ajudar a uma garotinha desconhecida... E Kali não dividiu comigo que já vira a mulher?! Eu estava irritadíssima.

_Ela trabalhava no jóquei clube onde eu freqüentava. Esse dia eu ganhei uma medalha e tirei foto com todo mundo. Nunca mais a vi até o dia em que ela se meteu na frente do carro.

Respirei fundo, comprimi os lábios e pensei dessa vez no que dizer. Estava tentando digerir sua versão. Era passível de verdade, mas ainda não diluía meu estado inicial de desconforto.

_Desculpe, eu deveria ter dito.

_Eu já vou. _ Peguei minha bolsa em cima da cama.

(...)

_Tamires, está prestando atenção no que eu estou te falando? _ ouvi a minha amiga Gisele me chamar. Ela tocou meu braço e eu me voltei para a realidade. Ainda estava segurando o saco que envolvia o hambúrguer meio mordido.

_Oi. _ olhei-a e mordi o sanduíche já frio.

Estávamos sentadas na escadaria da porta da faculdade matando o tempo por causa da falta de um professor.

_Desculpe, estava lembrando de umas coisas. Mas, continua falando... Você fez um curso em um restaurante?

_Foi. Eu fiz um curso de hotelaria nas férias. Há vários cursos maneiras que você também pode se inscrever.

_É maneiro aprender a cozinhar no restaurante de um hotel nas férias? _ franzi a testa.

_Eu pelo menos descobri umas coisas bem nojentas.

_Então, não conta agora que ainda estou comendo. _ eu falei rindo.

Era muito engraçado conversar com Gi. Ela era uma oriental muito batalhadora. Seus pais voltaram para China e ela decidiu ficar e se manter sozinha. Conseguia pagar a faculdade com ajuda de um tio e trabalhava em vários bicos pra custear o apartamento que dividia com outra colega. Sempre tinha histórias interessantes, vindas de suas loucas experiências e viagens.

Gi era como todas as outras orientais: olhos puxados, pele clara, cabelo preto liso desfiado. Mas, usava umas roupas moderninhas. Botas, saias xadrez, blusas de coloridas. Parecia uma boneca exótica.

Acabei de dar a última mordida e ela viu que poderia contar sobre suas descobertas:

_Acredita que todos aqueles pedaços de carne que sobram no seu prato são aproveitados?! Sim, eles pegam e jogam em uma panela com molho. Depois, fazem empanado à milanesa. Já reparou que alguns bife tem um molho vermelho embaixo da farinha de rosca?

_Que nojo! Já pensou se veio da boca de um velho babão, ou alguém com alguma doença?!

_Se não dá pra virar bife, eles jogam em um panelão e fazem o famoso e caro molho madeira. Tudo reciclado!

_Era um restaurante quantas estrelas?

_Meu amor, cinco estrelas! _ abriu a palma da mão pra mostrar o número cinco. _ Desses que só americano vai. Eles colocam aqueles bifes mais verdes quando o cliente pede mal passado. Vai ficar tostado mesmo, não dá pra perceber...

_Esse foi o curso de cozinha industrial para restaurante que você fez? Não me chama para comer na sua casa! _ brinquei.

Rimos juntas, mas nossa risada foi logo desmotivada pela visão que tivemos. Kelly Victória vinha apressada em nossa direção: botas de couro marrom até o meio da canela, saia jeans e blusa rosa. O que queria de nós?

Gi abaixou a cabeça e começou a folhear a revista da Natura, como se pudesse evitar o encontro.

_Comprei esse gloss cremoso com brilho e não gostei, ficou todo melecado no olho e... _ Gi começou a falar comigo para sustentar que estávamos ocupadas.

_Oi, meninas? _ ouvimos e levantamos o rosto.

_Oi. _ respondi.

_Oi. _ Gi fez o mesmo, levantando-se. Colocou a mochila nas costas. _Tudo bem? Eu já estou de saída, tenho que tirar cópia de um texto.

Olhei pra Gi com uma cara de “você vai me deixar aqui sozinha?”. Ela sorriu e mandou um beijinho pelas costas de Kelly. Ainda enfatizou: “Desculpe mesmo, gente, eu tenho que ir, senão não pego aberto e preciso do texto.”

_Tudo bem. _ Kelly respondeu.

Não, sua idiota, ela está falando comigo! Pensei baixo. Olhei para o relógio para ver se dava para mandar a mesma desculpa. Se bem que eu já podia ir embora, só estava dando tempo com Gi para jogar papo fora. O clima lá em casa anda meio pesado. Meu irmão está aficionado em Andy e meus pais não estão gostando muito da idéia, temem que ela o faça sofrer. De repente, ele passou do patamar de homem precoce independente para bebê prematuro na concepção dos meus pais, sempre protetores.

_ Então, como vai o trabalho na casa de Andy? _ ela me perguntou.

Eu já podia sentir cheiro de algum interesse.

_Bem. _ levantei-me. _ Você estava indo embora também? Podemos caminhar juntas para o ponto de ônibus. _ mostrei a direção da rua com a mão, sabendo que ela jamais iria.

_Não, não. Eu não pego ônibus à noite, prefiro táxi, se não estiver com carro. _ deu uma risada de fragilidade tão ingênua que cheguei a ter pena daquela criatura encubada na bolha cor de rosa.

_Claro, você pode ser assaltada, queimada ou até estuprada, dependendo do horário. _ concordei, mas contendo o tom de sarcasmo.

_Não é? _ concordou, levantando as sobrancelhas. Ela não percebeu minha ironia.

_Então, já que eu vou correr esse risco, é bom não demorar muito. Não quero perder o programa Aprendiz Universitário.

_Aprendiz Universitário? _ franziu a testa.

Em que planeta ela vivia?

_Tamires? _ ouvi uma voz masculina e me virei.

Era Kali. O que fazia ali, aquela hora?! Fiquei tão surpresa que nem consegui responder. Saiu do seu carrão e roubou alguns olhares dos estudantes na calçada. Mas, dessa vez estava vestido normal, sem parecer cantor de Hap Americano. Jeans, tênis e uma camisa branca com uma inscrição em relevo cinza no ombro direito. Discreto, exceto pelo cordão grosso no pescoço e o relógio prateado. Acho que sua pele fazia tudo ficar ainda mais destacado.

_Oi, tudo bem? _ ele riu e me toquei que estava com cara de estátua do museu de cera.

_Oi. _ ri, desconcertada. _ É que é supercomum eu sair da aula e dar de cara com você. _ brinquei. Minha raiva já havia passado.

_Eu, na verdade, ia te ligar.

_Quando chegasse aqui?

_É... Eu estava passando mesmo. Tinha que deixar uns desenhos em um escritório ali na Rio Branco.

_Claro!

Arhhhgh, idiota! Achando que fora por minha causa!

_O quê? Vai estudar aqui também? _ continuei levando tudo pelo lado do humor.

_Seria uma boa idéia. _ ele olhou para o prédio espelhado. _ Queria pegar um diploma, apesar de já saber bastante na prática... _ falou vagamente.

_É importante pra ter na gaveta.

_É, é..._ ele confirmou e voltou a me olhar. _ Eu vim aqui. _ voltou o assunto pela sua motivação do encontro. _ Você saiu de casa hoje correndo...

Correndo? Aff, eu tinha bancado o papel de idiota, pelo visto. Eu perco a noção quando estou irritada.

_Hum... _ troquei o fichário de braço, enfiei a mão no bolso e olhei para o chão.

_Com licença. _ ouvi uma voz atrás de mim. _ Você não é o irmão do Luis? _ Kelly, que não tinha arredado o pé atrás de mim, decidiu nos cortar e se introduzir na conversa. Ela provavelmente, não conterá a curiosidade para saber quem era o dono do carrão que viera falar com a anônima-mor da faculdade.

Mas, hei, se Kali nada tinha a ver com Luis fisicamente, já que eram irmãos adotivos, como ela o reconhecera?

_Sou. _ ele respondeu.

_Eu sou a Kelly. Uma vez saímos juntos para a Barô pra dançar, lembra? Antes de você viajar.

_Ah! Claro... lembro. _ ele fez uma cara de quem não lembrava, mas preferia fingir que sim.

Kali se inclinou e a beijou no rosto. Seu perfume se espalhou pelo ar com o movimento. Acho que inebriou Kelly, que parecia ter ouvido uma piada de tantos risinhos que dava. Os dois frequentavam os mesmos lugares. Quem essa garota não conhece? Eles estavam falando de uma boate bem elite chamada Baronetti.

_Você estava com aquela loira, que também era minha amiga... Ah, desculpe, vocês terminaram...

_Tudo bem.

_Então, Kelly como eu estava dizendo, eu preciso ir... _ tentei fazê-la se tocar e dar o fora.

_Claro, querida. Pode ir, nos falamos amanhã.

Eu ri, olhei para o alto e respirei. Ela estava me expulsando?

_Você ficou quanto tempo lá mesmo? _ perguntou com um tom de voz mais íntimo, me colocando de vez fora da conversa. Olhei Kali pelas costas de Kelly e esperei que ele fizesse alguma coisa.

Meu orgulho acendeu a luz vermelha de emergência. Virei as costas e comecei a andar rapidamente.

_Hei, Tamires, quero falar com você. _ ainda o ouvi chamar.

_Depois... _ respondi, naquele estágio de indignação em que nem uma atitude adianta.

Eu não sabia se estava com mais raiva de Kelly por me fazer sentir fora da conversa, se de Kali por dar tanta atenção a ela, ou se por eu ser uma fraca que se aproveitava das situações difíceis para sair correndo com uma boa desculpa.

Fiz sinal para o ônibus que parou mais a frente. Dei uma corridinha e subi. Abri a bolsa e busquei meu Riocard. Passei na catraca e sentei na frente. Meu celular vibrou e fez um bip. Senti meu coração dar uma batida mais forte. Sorri e abri. Era Gi. Suspirei.

_”Quem era o gatão? Não quis interromper. Beijos.”

_”Um amigo. Kelly roubou a cena. Cai fora.”

Ela respondeu segundos depois:

_”Filha da mãe! Depois me conta tudo. Bjs.”

Suspirei.

Mas, se eu pensava que Kelly era coisa do passado, que não teria que passar pela mesma situação mais uma vez, eu estava enganada. No dia seguinte, no final de uma aula, recebi uma mensagem de Kali. Só me dei conta quando fui olhar a hora do visor e vi o ícone de um envelope de carta amarelo na tela. Ele perguntava se poderia passar aqui, como no dia anterior. Será que ainda dava tempo de responder? Não perdi a chance e disse que sim.

Do lado de fora, encontrei com Kelly.

_Oi, tudo bom? E aí? Como vão os preparativos da festa?

_Festa? _ perguntei, olhando para os lados, eu queria ver se Kali chegava.

_Ah! O Kali não te falou ainda?

_Não. _ franzi a testa.

_Ele tem que organizar a festa de aniversário surpresa de casamento dos pais. Pelo que tinha me dito, ia te pedir ajuda.

_Ãnh... é?

Será que era isso que tanto queria falar comigo? Pedir ajuda pra promover a festa?

_Eu me ofereci, se não se importa, adoro festas!

_Hum, pelo visto, então, que ele está feito. _cruzei os braços.

_Hei, olha quem vem ali. _ ela apontou.

Kali chegou e nós nos viramos para encará-lo.

_Olha, as duas juntas de novo?! _ riu.


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16.4.09

Cap 35. Aparições e descobertas (Tamires)

Voltamos para a cidade. Kali realmente não me deixaria em paz se não achássemos a casa da menina. Tivemos que fazer uma investigação. Com o seu celular 3G, procurei na internet pessoas que fossem ligadas à mulher da estrada. Foram muitos cliques naquela pequena tela. A única coisa que tinha em mãos era seu nome completo. Achei algumas pessoas com o mesmo sobrenome pelo Orkut. Depois de algumas trocas de recados, conseguimos um telefone, o da avó materna da criança que procurávamos. Mas, infelizmente, não tínhamos o endereço. Contamos que éramos muito amigos do casal e queríamos ver a filha sobrevivente, mas senhora não se sentiu segura em dar para aqueles estranhos que ligavam.

Kali continuava dirigindo. Agora, em silêncio, pensávamos em uma saída.

_Tamires... _ ele me chamou a atenção.

Virei o rosto pra Kali, tirei o cotovelo da janela. Olhei pra onde apontava: o aparelho de GPS pendurado no centro do carro.

Senti o braço arrepiar. Era a rota sendo indicada.

_ Ele está seguindo que comandos? _ perguntei, sem acreditar que o aparelho pudesse seguir comandos sobrenaturais.

_Vamos pra lá. _ respondeu, preferindo não questionar.

Foram duas horas de percurso. Até que chegamos a um bairro de classe média muito arborizado. Paramos na frente de uma casa antiga, com um telhado de telhas vermelhas.

_O que vamos dizer? Que a mãe dela nos trouxe até aqui? No mínimo vão fazer uma fogueira naquela pracinha e nos jogar dentro.

_Você não é a advogada? Eu dirigi, agora é sua parte...

_Muito engraçado, mas não foi você que achou o caminho.

Saímos do carro. Kali tomou a frente e interfonou.

_O que vai dizer? _ perguntei. Ele já tinha um plano e estava só me testando?

Kali conversou pelo interfone por um tempo com a senhora. Contou a verdade. Disse que tinha notícias da filha. Ela apareceu na janela e nos observou por uma fresta da cortina. Depois, sumiu.

_Lógico que ela não vai levar fé. Primeiro a gente aparece com essa história cabeluda, depois, dá de cara com nós dois, uma garota bagunçada, suada...

_E um negro? _ perguntou, olhando nos meus olhos.

Engoli em seco. Antes que pudesse desfazer o clima, ouvimos o estalido da porta sendo destrancada. Assustei-me. Kali passou a frente. Segui-o. Subimos pelas escadas. Atravessamos um pequeno jardim e tocamos a campanhia da porta da sala. Se fora a mulher que abrira o portão, por que ela não nos recebera?

_Como conseguiram chegar aqui? _ perguntou ela de dentro.

_A porta foi destravada, senhora. _ Kali explicou.

Ela finalmente abriu. Era uma senhora de cabelos grisalhos, gorda e com bolsas grandes debaixo dos olhos. Parecia aquela vovó do sítio do pica-pau amarelo.

_Já não são os primeiros. _ avisou.

Kali e eu nos olhamos. Então, outras pessoas já receberam a visita de sua filha?

_Outros já quiseram ver a criança. Mas, depois, vão embora... _ suspirou.

A batalha foi vencida. Conseguimos entrar. A menina que procurávamos apareceu no fim de um corredor. Estava em uma zona de penumbra. Quando se aproximou, vimos seus cachos caramelo e os olhos de mel. Uma pele branca e alva. Abaixei-me e lhe sorri. Imaginei o quanto sua mãe deveria querer sentir sua presença.

_Oi, me chamo Tamires. _ acariciei seu rosto. Ela levantou os olhos e fixou-se em Kali, atrás de mim.

A senhora espiava, sentada em uma poltrona. Até ali, não chegáramos a um consenso sobre o que era melhor para a garota, nem entendíamos que mensagem sua mãe queria transmitir. Apenas sabíamos que a outra avó estava vendendo o sítio para ter dinheiro e gostaria de ficar com ela. Nesse ponto, estávamos do seu lado. Mas, ao pegar a mão da menina, percebi algumas cicatrizes. Perguntei o que era.

_Não sei, já chegou assim. _ a mulher respondeu.

_Chegou assim? _ franzi a testa.

_Era como era tratada naquela casa. Tem coisa muito pior... _ balançou a cabeça para os lados. _ Eu não vou deixar ela voltar nem amarrada. É a única coisa que resta do meu filho.

Olhei para Kali. Tínhamos que salvá-la de voltar para a fazenda. Oferecemos ajuda, antes mesmo de conversarmos com Priscila. A menina nunca mais seria maltratada. Dessa maneira, sua mãe ficaria em paz.

Voltamos para casa com uma sensação de etapa cumprida. Mas, Kali estava em silêncio. Não me perdoara por eu ter insinuado que a mulher desconfiara dele quando nos olhou da janela. Descemos do carro. Tentei puxar assunto, falar sobre o custo do processo da menina. Mas, ele informou que simplesmente não deveria me preocupar com o dinheiro, que arrumaria. Passou a frente, subiu a varanda de casa e entrou.

_Esqueceu que eu não moro aqui? _ falei-lhe.

_Pode dormir aqui. Não vai ser bom chegar tarde em casa. Não falou que ia dormir na casa de uma amiga? Então, finge que está. _ foi prático.

Me vi sozinha no jardim. Suspirei. Passei a mão na cabeça. Sentei em uma poltrona e ali adormeci. Todos já tinham ido dormir e não deram por minha presença solitária na varanda.

Uma mão tocou meu braço um tempo depois. Acordei com um susto. Kali colocou meu braço em volta do seu pescoço e com a outra mão segurou minha cintura.

_Vamos até meu quarto. _ guiou-me.

Ele me deixou cair em sua cama, exausta. Antes que fosse embora, segurei sua mão.

_Desculpe.

Ele saiu, sem qualquer palavra, gesto ou expressão, apenas com um último olhar profundo.

Dormi um sono pesado e cansado. Daqueles em que não há espaço nem para sonhos. Mas, fui acordada por alguns risos e vozes. Abri os olhos. Eram quatro amigos na entrada do quarto de Kali. Assustei-me e puxei o lençol em um ato involuntário, apesar de estar vestida.

_O que estão fazendo aqui? _ Kali chegou. _ Eu disse que era para irmos para a sala de TV.

_Ok... _ eles saíram ainda me olhando com curiosidade. _ Não sabíamos que tinha uma gata na sua cama. _ ouvi mais risos do corredor.

_Droga! _ resmunguei baixinho e me levantei. _ O que diria para Priscila quando me visse lá embaixo? _olhei para o relógio na cabeceira da cama. Era relativamente cedo. Torci para conseguir sair sem ser vista.

Pé ante pé, cheguei até o banheiro do segundo andar. Lavei o rosto e prendi o cabelo com um elástico. Ao sair, vi Kali começando a descer para o primeiro andar. Sussurrei seu nome e ele olhou para o lado. Fiz um gesto com a mão para se aproximar. Ele veio com um pequeno sorriso nos lábios. Aposto que estava se divertindo com a situação.

_Todo mundo já acordou?

_Já.

_Hummm... _abaixei a cabeça e tentei pensar em uma solução.

_Não se preocupe, deita lá na minha cama. Priscila vai sair pra fazer uma ultrasonografia. Quando tiver limpo, te aviso.

_Pode ser... Obrigada. Ah, você explicou para seus amigos, né?

_Ah, lógico. Eles sabem... _ encolheu os ombros. _ Olhe pra você! Não temos nada a ver. Relax.

Vi-o descer as escadas e fiquei com uma interrogação na testa. Como assim o problema estava comigo? Mas, hei, que importância tinha. Eu apenas não queria ser confundida com sua peguete. Balancei a cabeça para os lados e entrei no quarto.

Quanto tempo eu teria que esperar? Sentei na cama mais uma vez. O quarto tinha alguns quadros que só agora pude reparar com a luz do dia. Kali está vestido de jóquei, montando um cavalo branco. Levantei-me e cheguei mais perto. Em cima de uma cômoda havia dois grandes fichários com fotos. Folheei-os. Eram sobre os tempos em que Kali competia.

Meu coração quase parou quando cheguei a uma foto no meio do álbum. Senti as mãos gelarem. Olhei mais uma vez para ter certeza de que não estava enganada.

Ouvi o barulho da porta sendo aberta. Assustei-me. Era Kali. Supirei aliviada. Ele estava com um pacote de sucrilhos na mão e, na outra, um suco de caixinha.

_Come alguma coisa. _ deixou em cima da cama.

_Por que não me contou? _ perguntei.

_O quê? _ ele franziu a testa.

2.4.09

Cap 34. De que lado estamos? (Tamires)

Kali acreditava que se entendêssemos por que a mulher da estrada aparecia para a gente, colocaríamos um fim naquelas visitas. Aceitei seu pedido e procuramos o lugar morava com sua família. Sabíamos que deixara uma filha. Supomos que algo tinha a ver com a menina. Mas, não tínhamos idéia do que esperávamos. Terminamos em uma estrada de barro que levava para uma fazenda.

_Eu não quero para em uma daquelas casas abandonadas dos filmes de terror O Chamado, nem O Grito.

_Não seja medrosa. _ zombou.

_Falo sério! Eu vou ficar petrificada, cair dura e aí quem vai aparecer para te assustar sou eu.

_Você será minha fantasminha camarada?

_Engraçadinho... _ coloquei o cotovelo na janela e olhei a vegetação densa passando. _ Meu Deus, onde você está me metendo.

_Se continuar resmungando eu mesmo vou te assustar e você não sabe a capacidade que os vivos têm.

_Ui, que medo de você.

_Eu poderia aparecer com um machado agora, cortar a...

_Pára! Parou entendeu? Eu quero voltar.

_Tudo bem, fica quieta aí.

Ele ligou o rádio e só conseguimos sintonizar em uma rádio com música regional antiga.

_Isso está parecendo trilha sonora das cenas em que carros são parados por maníacos na estrada.

_Não vá dizer que sou eu que estou te assustando agora! _ reclamou.

Paramos em uma porteira e vimos pela placa que ali era a fazenda “Jardim do descanço”. Comentei que mais parecia nome de cemitério. Kali retrucou que minha mente tinha grande habilidade para roterizar filmes de terror. Perguntei se íamos atravessar todo o gramado a pé para chegar até a casinha ao fundo, atrás das árvores onde saia fumaça da chaminé.

_Não, podemos atravessar de carro. Vou abrir a porteira. _ ele puxou um arame que segurava a viga de madeira e a empurrou para trás.

_Eu espero voltar daqui algumas horas.

_Já não posso garantir isso. _ ele adiantou.
_Que maravilha! _ reclamei.

Quando descemos do carro, perto da varanda da casa, fomos recebidos aos latidos por um cachorro grande e preto. Olhamos para as janelas para ver se víamos alguém. Uma senhora apareceu de dentro da penumbra e pediu para o cachorro parar de latir. Inspecionou-nos de cima a baixo e depois sumiu.

_O que vamos dizer? _ cochichei. _ Ela não vai acreditar em nós.

_A fazenda está à venda. Vamos parecer compradores.

_Onde viu placa de à venda? _ perguntei com a testa franzida.

_Em um jornal da internet. _ respondeu.

_Por que não me disse isso antes? - reclamei.

_O que querem? _ Ela abriu a porta e se aproximou, andando com ajuda de uma bengala.

_Vi o anúncio. Ainda está à venda?

_Está. _ respondeu depois de analisar por alguns segundos se tínhamos cara de compradores. Não deveria aparecer muita gente interessada em comprar aquele lugar perdido com tantas casas mais bonitas no litoral. _ Posso mostrar, querem entrar? _ ofereceu.

Kali e eu nos olhamos e a seguimos. Na sala, logo vimos uma foto da mulher que morrera na parede. Estava com um chapéu de aba e um vestido rosa. Um look um tanto clichê, mas clássico. A senhora percebera que olhávamos para aquele ponto fixo.

_Bonita, né? Minha filha. Faleceu não faz muito tempo. Aquela pequena ao lado é minha neta.

_Ela ainda mora com a senhora? _ perguntei. _ Deve gostar de brincar nesse lugar tão bonito... _ tentei fazer o comentário parecer ocasional.

_Não, infelizmente não, levaram ela de mim... _ ela sentou-se na cadeira de balanço. _ Quanto estão dispostos a pagar? _ perguntou diretamente.

_Não disse que ia nos mostrar primeiro? _ Kali tentou achar uma saída para adiar o assunto.

_Lá em cima tem um quarto grande com vista para o pasto. Um banheiro no corredor. Aqui em baixo uma cozinha grande e a sala. O resto vocês podem conhecer andando por aí. Devem estar interessado nas terras férteis, aposto.

_Vi que tem cavalos. _ Kali comentou.

_Tem, vou deixar junto com a fazenda, afinal, não terei como levá-los. _ ela levantou a sobrancelha.

_Hum, então, vamos olhá-los.

_Fiquem à vontade.

Kali e eu caminhamos até o estábulo. Ele desamarrou um dos cavalos e acariciou sua crina.

_Ela deve estar precisando do dinheiro. Por isso, vai vender a fazenda. Mas, para quê? Talvez brigar pela guarda da menina? _ comecei a fazer as suposições.

_E por que teríamos que ficar do lado dela? Não vou tomar partido agora. A vida é bem mais complexa do que parece. _ ele montou o cavalo.

Por que Kali cismava em não enxergar o óbvio, queria crer em algo conspiratório, como uma trama de suspense policial. Eu estava a fim de sair dali logo.

Meu cabelo esvoaçava no vento e deslizava no meu rosto delicadamente. Cerrei os olhos pela luz do sol. Caminhei até o cercado. Debrucei-me sobre a madeira. Não era sonho, era bem mais linda a cena que via.

Kali tirou a camisa, amarrou na cabeça como se fosse um lenço. Com as mãos guiava bravamente um belo cavalo de pele brilhante. O animal saltou os obstáculos e seguiu seus comandos. Os dois pareciam ter sintonia de longa data. Kali aproximou-se montado no cavalo, segurou as rédeas e o conteve com os pulsos firmes.

Desci do cercado onde estava sentada e caminhei até eles. Kali desceu e acariciou a pele aveludada do bicho. Não pude deixar de observar os movimentos das largas costas musculosas de Kali.

_Não entendo uma coisa... _ lhe disse e ele se virou pra me olhar, parou com o dedão pendurado em um dos bolsos, o que fazia suas entradas ainda mais a mostras.

_O que não entende?

_Por que estava nos meus sonhos?

_Hum... Não é difícil as mulheres me desejarem, sabe? _ piscou o olho. _ Elas me trazem em pensamento, às vezes, me sinto puxado em todas as direções...

_Ah! Tá bom! Por que ainda falo com você? _ virei de lado, pronta pra sair. Kali segurou minha mão. _ Quer andar?

_Não, estou cansada... _ dei as costas.

_Hei, não ficou chateada, né? Estava só brincando... _ ainda gritou.

Agitei a mão no ar, sem me virar, apenas num gesto de pouco caso.

Chegando à casa, vi a senhora tomando algo quente na caneca metálica. Balançava-se na cadeira. Ao seu lado, uma outra cadeira e uma xícara fumegante na pequena mesinha de centro. Fiz menção para sentar-me nela, mas a mulher indicou para que ficasse no banquinho. Obedeci.

Havia um lindo por do sol nas montanhas. Era isso que contemplava antes de eu chegar. Quando me virei novamente, vi que a cadeira estava vazia, mas ambas se balançava em um movimento delicado.

Arrepiei-me. Olhei pra ver se Kali voltava. Percebi no corredor lateral uma linda cozinha de madeira em miniatura. Algumas panelinhas de barro, uma pequena mesa com cadernos e uma caneca cheia de lápis de cor. O vento virou uma página. Desenhos de bonecos-palito de um pai, uma mãe e uma criança no meio a caminho da escola.

Uma música infantil começou a tocar. Olhei através da janela aberta. A senhora sentada no sofá alisava o cabelo de lã de uma boneca.

_Qual será nossa missão? _ ouvir uma voz atrás de mim.

Me assustei. Pus a mão no peito.

_Não faz mais isso!

_Desculpe.

Eu sentei em um dos pequenos banquinhos junto à mesa de desenhar.

_O que estamos fazendo aqui? O que temos a ver com isso? _ perguntei.

Um copo voou com o vento e caiu no chão. Olhei pra Kali.

_Não somos colocados no caminho de ninguém por acaso. _explicou-me.

_Essa menina tem o que pra ver aqui? Só mato, animais, uma velha mulher... e, uns gatos que procuram ratos no porão...

_Só isso tudo? _ ele sorriu e olhou para o gramado. _ Cresci em uma fazenda, com haras, mato, bichos, árvores, cheiro de comida de verdade vinda da cozinha, conversa em torno do bule... Depois é que fomos morar na cidade. Por isso curto tanto cavalos.

_Fala como se fosse um cinqüentão nostálgico.

_Não é isso. É que consideramos nossas vidas de lasanha congelada melhor... Com café expresso, insulfilm e ar condicionado no trabalho, não vemos o tempo passar. Chamamos isso de vida de verdade. Mas, o que é natural fica longe... _ fez um movimento de mão para sinalizar distância.

_ Definitivamente não te entendo. A gente tem ou não que trazer a menina de volta. Aliás, nem sei como poderíamos nos meter nisso.

_Não sei ainda, não vi a outra parte da história. Aliás, parece até que eu sou o advogado aqui. _ ele ironizou minha postura.

_Kali, quero ir embora, não vou ficar aqui essa noite, por favor.

_Como iremos descobrir o que queremos?

_O que você quer, por mim, eu vou embora. Por favor!

_Só mais um pouco. Nem tudo pode ser descoberto pela internet. Preciso saber onde a menina está. Vou lá dentro conversar com ela. Pode ficar aqui?

_Acho que sim, com tanto que daqui uma hora a gente esteja na estrada de volta.

_Vou ver o que posso fazer. _ entrou.