9.3.09

Cap 33. Você vê o que eu vejo. (Tamires)

Ainda voltei aquele mesmo dia para a casa de Luis, a fim de entregar os papéis que Priscila pedira. Não a encontrei na sala, mas lá estava Kali, sentado à mesa, digitando no computador. Aproximei-me por trás esperando que desse por minha presença, mas ele não se virou. Antes que falasse qualquer cumprimento, meus olhos se desviaram para a tela. Havia a foto da mulher que vimos na estrada quando ele desviara o carro.

_ Eu já sei o que vai dizer. _ ele falou, mas sem se virar.

Engoli em seco. Deve ter visto meu rosto refletido na tela do computador. Maximizou algumas janelas e com isso me deixou ver o resultado de suas pesquisas. Eram arquivos de jornais que falavam da morte de um casal naquela via há dois meses. Uma criança sobrevivera. A mulher era uma empresária do ramo de calçados. Kali levantou-se com as mãos nos bolsos e me encarou pela primeira vez, mas eu ainda estava concentrada nas manchetes.

_Você também pode ver? _ perguntei, por fim, mesmo já sendo óbvia a resposta.

Ele suspirou com as mãos nos bolsos.

Priscila entrou na sala, olhou para nós dois e depois perguntou se eu tinha feito o que pedira. Entreguei-lhe os envelopes. Kali continuou parado no mesmo lugar e Priscila percebeu que tinha interrompido alguma conversa. Olhou para um e outro de novo.

_Bom, eu vou tomar um banho porque vou sair com Luis. Te vejo amanhã, não vá se atrasar para a aula.

_Claro. _ respondi-lhe com um sorriso.

Ela entrou para dentro de casa e eu coloquei a mochila nas costas.

_Hei. _ ele me chamou e eu me virei antes de passar pela porta da sala. _ Já vai?

_Como ouviu, tenho faculdade.

_Ãnh, ok. É... Posso te levar lá.

_Não precisa, obrigada. Posso me virar sozinha, tem um ponto de ônibus aqui perto.

_Preciso te falar umas coisas... _ ele olhou para o computador e depois para mim.

_Tudo bem. Mas, é perto, vai ter que ser bem conciso.

_Ok. _ desligou o computador e pegou a chave em cima da mesa.

Enquanto abria a porta do carro, eu vi que Priscila nos observava da janela. Não queria que pensasse que eu mal chegara e já estava dando em cima de seu cunhado. Minha relação de trabalho era muito profissional, apesar de não estarmos no escritório, mas não adiantava explicar que Kali e eu tínhamos um segredo em comum, ela acharia maluquice. Era muito mais simples pensar que eu era interesseira.

Tudo isso me incomodava, mas não havia tempo de desfazer falsas impressões aquela noite. Entrei no carro e ele Kali perguntou por onde deveria seguir. Fiz um gesto com a mão para seguir pela direita.

_Por que as mulheres não falam “direita”, “esquerda”, sempre gesticulam?

_Para que vocês joguem na nossa cara que tem melhor senso de direção espacial?

_Não temos?

_Você ia me dizer algo...

_Agora sabemos que eu e você podemos ver mais que pessoas de verdade. Desde quando isso acontece contigo?

_Não lembro a data bem, mas desde garota. Não é nada como nos filmes de terror. Mas, às vezes, tenho que ajudar pessoas com orações.

_Eu posso ouvi-las. _ confessou.

_Eu já vejo mais que ouço. Sei lá, posso entender através de sensações... Não consigo prever coisas futuras, nem dar uma de Mãe Tamires... _ ri. _ Se bem que... Isso já aconteceu uma vez. _ lembrei-me do sonho recorrente.

Kali não disse nada, continuou dirigindo. Ele tinha esse jeito de me deixar todo o espaço para falar.

_ Eu te vi num sonho durante alguns dias, antes de te conhecer. Era um sonho com muitos cavalos. Havia outros homens. Pareciam todos com pressa, correndo em alta velocidade nos cavalos... Não sei explicar bem, mas me angustiava.

_Isso deve explicar algumas coisas.

_Quais?

_Eu jogava um jogo lá nos Estados Unidos sobre cavalos. A gente corre com um tacos e bate em uma bola. Mais ou menos isso, não tem muito aqui no Brasil. Enfim, cai e tive um tombo muito feio. Quando estava no hospital, vi aquela mulher da estrada e ela me disse para eu voltar para cá. De alguma maneira, o universo, o cosmo ou sei lá o que nos aproximou.

_Para quê? _ perguntei.

Chegamos à porta da minha faculdade. Ele parou o carro no acostamento e ligou a seta.

_Pode me achar maluco, ou X-Men, mas eu vou procurar a família daquela mulher da reportagem. Deve ter alguma coisa que eu precise fazer. Ou nós...

_Não tenho como fugir pelo visto. Nos vemos amanhã. _ disse-lhe.

Kali inclinou-se e beijou meu rosto no lado esquerdo. Nos olhamos e eu saí.

3.3.09

Cap 32. Quase acidente (Tamires)

Kali deu a volta e entrou no carro. Não abriu a porta para mim. Eu ainda estranhava? Revirei os olhos e fiz isso por mim mesma. Como esperava cavalheirismo. No máximo ele era o cavaleiro do sonho, coisa bem diferente. Reparei na porta do seu carro um adesivo de dois cavalos prateados correndo. Eram pequenos como a palma da mão, discretos, combinando com o metálico do veículo.

Entrei. Ele ligou o carro sem mais cerimônias e partiu.

_Você sabe bem onde vai ficar? _ me perguntou.

_Tão bem quanto o caminho do meu quarto. _ respondi, revendo os papéis. Se tivesse esquecido algo, teria tempo de voltar.

_Se eu tivesse onde morava saberia me virar, mas não consigo me achar nessas ruas com nome. Deveria tudo ser numerado.

_É mais racional, cartesiano, colocar tudo dentro de retas, números, ângulos, quarteirões... Mas, a vida é tão mais romântica quando sabemos que aquela rua tem uma história. Você gostaria de dizer: “Prazer, meu nome é “Meia nove?”

_Se isso anulasse nossa primeira apresentação... _ ele olhou-me, rapidamente.

_Eu já esqueci. _ disse-lhe educadamente, mas sem emoção. _O seu nome deve ter uma história. _ dei continuidade ao assunto.

_Não sei o significado, meus pais devem saber, mas não deu tempo de eu descobrir... _ ele deu de ombros. _ Mas, eu tenho uma, bem grande. Grande no número de fatos, não na relevância, tenho uma existência bem pacata.

_Por quê? _ perguntei, dando brecha para que respondesse o que quisesse.

_Eu nasci na África, depois fui adotado por um americano que morreu, então, meus pais que você já conhece me adotaram mais uma vez...

_Você tem uma ligação forte com os EUA...

_Tenho, mas, alguma coisa me trouxe para cá.

Lembrei do meu sonho, mas, não contei. Ele não entenderia.

_Óbvio, fui transferido pela empresa onde trabalho. Mas, tem algo a mais, deve ter...

_Por que os cavalos? _ perguntei.

_Oh! Horses, i Love them! _ ele bateu no volante com a mão e mudou completamente o tom de voz. _ Já montei por muito tempo. Deve ter visto as fotos lá em casa.

_Vi. Tem adesivo no seu carro.

_Oh, Sim. Eu adoro o vento na pele, correndo, correndo em alta velocidade, o corpo inclinado para frente, cortando o ar.

_Você tinha muitos amigos que corriam com você? _ perguntei, já que no sonho havia outros homens.

_Tinha, como sabe? Olhou nas fotos?

_É. _ aceitei a deixa.

_Eles vivem lá em casa agora. Naquele dia que chegou e meu quarto estava uma bagunça, é que fomos zoar.

_No quarto? U-hu- que rock’n roll! _ ironizei.

_Você está me zoando, né? _ apontou para mim e arrancou um sorriso. _ Eles apareceram de surpresa, aí pedi uma pizza. Não importa a idade, na casa da mãe, seu quarto é sempre o lugar mais seguro do mundo.

_Você parece bem mais velho falando assim.

_Ótimo, já me chamou de velho. 1 x 1.

_Eu não te chamei de velho.

_Deixa assim, estou com dificuldade para abater minha dívida. _ rimos.

De repente, em uma fração de segundos, Kali olhou para frente e freou bruscamente, cantando o pneu. Vi uma mulher parada no meio da rua. Iríamos atropelá-la. Ele jogou o carro para o acostamento, levantando fumaça. Eu tampei o rosto. Ouvi algumas buzinas dos carros que vinham atrás.

_Está bem? _ ele perguntou, tirando minhas mãos do rosto. _ Tamires?

Eu virei o rosto para o lado e vi que a mulher ainda estava no meio da pista. Ela nos fitava.

_Por que você fez isso? _ questionei.

_Desculpe, desculpe!

_Por que freou, Kali?! _ quase gritei.

_Você não está bem? Então, vamos embora. _ ele pisou no acelerador.

_Você viu o quê? _ insisti.

_Eu? Não vi nada. _ continuou acelerando mais. Olhei para trás e vi que a mulher tinha desaparecido.

Franzi a testa.

_Você quer que eu te busque? Posso te esperar sair e te levar de volta... _ ofereceu, falando apressadamente.

_Kali, você viu a mulher.

_Não.

_Você também pode ver?

_Não!

_Está respondendo não automaticamente, isso é um sim?

Ele emudeceu e não falou mais nada até me deixar no fórum.

Cap 31. Não se pode fugir (Tamires)

Priscila e eu levamos alguns dias para conseguir trazer tudo que ela precisava para a casa de Luis. Usamos um quarto de hóspedes como escritório, onde ali colocamos uma mesa improvisada e uma cômoda que serviu para guardar as pastas e documentos. Em cima, colocamos alguns livros. Priscila precisava ter um espaço que lembrasse um ambiente mais profissional possível.

Os pais de Luis foram embora, mas disseram voltar em um mês. Então, durante o dia ficávamos eu, ela, a empregada e o irmão de Luis, Kali. Aliás, nosso primeiro contato foi marcado pela confusão em que pensou ser eu uma nova faxineira. Esse equívoco foi esclarecido quando Priscila me apresentou. Eu tinha acabado de entrar pela sala, carregando várias pastas, quando ela me viu da mesa do café da manhã.

_Chegou bem cedo. _ franziu a testa e se ofereceu para ajudar a carregar.

_Nem pensar, você não pode pegar peso. _ balancei a cabeça para os lados.

_Ok. _ ela levantou as mãos em rendição. _ Kali, essa é a minha estagiária, Tamires.

Ele, que estava sentado no outro lado da mesa do café da manhã, escrevendo alguma coisa em uma folha de papel, levantou os olhos e fez um ar de incompreensão. Estava certamente desconcertado por saber que me confundira.

_Querida, vamos trabalhar aqui na sala, porque o calor lá está infernal. Luis disse que vai providenciar um ar condicionado novo porque aquele deu problema...

_Tudo bem. _ consenti com a cabeça.

_Deixa as coisas aí no sofá. Eu já volto, vou pegar o laptop.

_Ok. _ despejei as coisas na mesa de centro e, quando levantei o rosto, vi Kali na minha frente. Fingi estar muito concentrada na minha organização.

_Desculpe por aquele dia, eu pensei que... _ riu, sem jeito. _ Eu sou o irmão do Luis. _ estendeu a mão.

Olhei-a no ar, depois destinei um olhar longo e frio.

_Não se preocupe. Eu não ia ter tempo mesmo de fazer a faxina no seu quarto. _ sentei-me no sofá e cruzei as pernas com um processo no colo.

_Você faz isso há muito tempo?

_O quê? Faxina ou direito?

_Vai me condenar até a morte? _ deu uma gargalhada.

Levantei os olhos, nada amistosa.

_Me disseram que chegaria uma faxineira nova, aí, quando eu desço, encontro você na porta, pensei que...

_Vejo que já estão se dando bem, hen? _ Priscila chegou com a voz animada, parecia muito feliz em voltar a trabalhar.

Kali voltou para a mesa e tomou a caneta para fazer o que parara quando cheguei. Como o sofá onde eu estava era de frente para ele, eu senti um leve desconforto, parecia que estava me vigiando. As cenas do sonho não saíam da minha cabeça. Até ontem à noite eu não sabia quem era o homem negro que cavalgava velozmente.

Tomei coragem e levantei o rosto. Eu não tive um pressentimento errado. Kali estava me olhando. Segurei o olhar no dele por alguns segundos e vacilei quando senti que alguma coisa dentro de mim despertara.

_Eu vou até a cozinha buscar água, você quer? _ perguntei a Priscila.

_Não, obrigada. _ ela continuou compenetrada digitando.

Caminhei até a cozinha, que ficava no corredor do lado direito. Procurei um copo e abri a geladeira.

_Independente, essa garota. _ ouvi uma voz atrás de mim e tomei um baita susto.

_Quer me matar do coração? Coloca logo um desfribilador nas minhas costas que vai ser mais sutil. _ falei para Kali. Ele iria me perseguir agora?

Pediu desculpas, cruzou os braços e se recostou na pia.

_ O que posso fazer para acabar com o climão? _ falou com uma voz de conquistador barato patética.

_Já disse para não se preocupar. Quando sabemos quem somos, não precisamos ficar incomodados com o que as pessoas pensam. _ deixei o copo dentro da pia.

_Hei... _ segurou minha mão. _ Podemos conversar melhor?

_Vai pedir o telefone do meu cachorro também?

_Garota marrenta... _ ironizou.

_Tamires. _consertei.

_Ta-mi-res. _ repetiu de maneira didática com uma pitada de sarcasmo.

_Com licença, estou no meu horário de trabalho. _ falei-lhe, recobrando a compostura.

Kali colocou a mão na mesa, impedindo a minha passagem. Nessa posição, ficou tão perto, que nossos corpos quase se tocaram. Ele era mais alto e conseguia observar meu rosto alguns centímetros acima. Abaixei a cabeça, evitando olhá-lo. Mas, como não arredou o pé, cedi e o encarei. Ele tinha o rosto perfeitamente liso e brilhante, olhos negros e lábios vermelhos, não tão carnudos, como é comum. A cabeça raspada e uma corrente no pescoço pendurando uma cruz. Saber que ele era o homem do sonho me trazia um inexplicável frio na barriga. Por que estava na minha vida?

_Está nervosa? _ perguntou.

_Não! _ respondi com uma careta.

_Você está piscando em uma freqüência maior... _ comentou baixinho.

_Eu estou ótima e já disse, preciso...

_... Trabalhar. _completou e levantou as mãos, agora liberando a passagem.

Passei a mão na nuca estava me sentindo quente, tensa. Não estava nos meus planos ter aquele tipo de rotina no dia-a-dia de trabalho.

_Tamires, preciso que leve isso aqui pra mim... _ Priscila já estava me esperando.

Peguei o papel e anotei suas coordenadas.

_Eu vou para o centro da cidade, se quiser uma carona. _ Kali interrompeu.

_Hum, ótimo. _Priscila gostou da oferta. _ O que acha, Tamires?

Olhei para ela, depois para Kali, peguei minha bolsa e murmurei baixinho:

_Que ótimo!

2.3.09

Cap 30. Cavaleiro negro (Tamires)

O barulho do trote dos cavalos estava mais alto e mais forte. Toct, toct, toct. Podia ouvi-los se aproximar na floresta de eucaliptos. A qualquer momento desceriam a pequena elevação cobertas de folhagens. Já tinha visto e revisto aquela cena por diversas noites de sonho. Mas, dessa vez, alguns homens apareceram e os cavalos passaram por mim em alta velocidade. Não conseguia ver meu corpo. Era como se eu fosse apenas uma onipresença não física. Olhei para o lado esquerdo e vi que o primeiro cavaleiro tinha um forte braço musculoso e negro. Mas, eu que esperara dias para saber o porquê desse sonho reincidente, só pude me contentar com a visão daquele braço forte, porque logo os cavalos sumiram. Ouvi o choro de alguém e, antes que pudesse saber quem era, meu corpo foi sacudido e eu acordei.

_Tamires, você não está atrasada para o trabalho, não? _ era minha mãe com a cabeça em cima da minha e os raios de sol da janela cegando meu olho.

_Não, hoje eu posso chegar mais tarde. _ revirei-me para o lado.

_Ah! Tá bom, pensei que tinha perdido a hora. _ ela jogou o pano de prato nas costas e saiu, deixando a porta do quarto aberta.

Continuei com a cabeça no travesseiro, ainda sobre o efeito do sonho. Não adiantava dormir novamente. Quem sabe esperar pela próxima noite. Essa visão noturna se repetia. De repente, enquanto eu olhava para o nada, vi um vulto passar pela porta. Apertei os olhos. Já estava acostumada com aquelas “visitas”, mas, dessa vez eu queria fingir que não fora nada e me espreguiçar. Virei-me para o lado oposto e dei de cara com ele. Assustei-me. Pus a mão no peito para recuperar o fôlego e apertei os olhos.

_Quer me matar do coração?! _ briguei, com a cara enfiada no travesseiro.

Marcelo estava parado na frente da minha poltrona rosa. Era só um vulto branco e quase transparente. Mas, mesmo que fosse bem nítido, ele só aparecia para mim. Não adiantava eu implorar para que as pessoas vissem ou me entendessem. Esse é um mistério que só me limitei a aprender lidar.

Levantei-me.

_Eu já falei com a Priscila. _ fui curta e objetiva. Não tinha tempo para o mundo dele hoje, precisava tomar um banho e me arrumar.

Ele apareceu dentro do banheiro e eu resolvi parar e lhe dar atenção, afinal, não ia querer ficar no chuveiro com sua inspeção. Respirei fundo. Marcelo parou ao lado do telefone e ficou olhando fixamente para ele.

_Quer que eu ligue para alguém? _ perguntei e pareci acertar. _ Quem? Priscila? Para quê? Eu não disse que já falei com ela? Tudo bem, tudo bem.

Disquei o número do escritório e lá me avisaram que ainda não tinha chegado.

_Viu? Ela não está! _ expliquei-lhe, mas não arredou o pé dali. Disse-lhe que faria uma última tentativa. Peguei meu celular e liguei para o dela. _ Alô, Priscila?

Uma voz masculina do outro lado atendeu. Aquilo não parecia normal. Olhei para Marcelo e mordi o lábio.

_Oi, Tamires. É o Luis. Estou com o celular da Priscila. Ela não passou bem hoje de manhã.

_O que houve?

_Hum... _ Luis hesitou.

_O que houve com o bebê? _ perguntei, mostrando que já sabia do assunto.

Agora estava muito claro o motivo da presença de Marcelo, era seu filho em perigo.

_Está bem, mas foi por pouco... _ falou aliviado. _ O médico disse que é uma gravidez de risco e ela vai precisar ficar em casa. Já chamei para ficar na minha. Aqui posso dar todo apoio.

_Claro. _ olhei mais uma vez para Marcelo. Ele tinha acertado quando me pedira para ajudar o casal a ficar junto. Era a forma deles cuidaram do maior bem deixado por Marcelo nesse lado da vida. _ Posso vê-la?

_Pode sim, acho ótimo. Vou te passar o endereço da minha casa.

Reclinei-me sobre a cômoda e notei tudo em uma agenda antiga. Desligamos. Quando levantei minha cabeça vi que estava sozinha no quarto. A cortina branca dançou com o vento.

(***)

Quando cheguei à casa de Luis, não havia ninguém para me atende na sala. A porta foi aberta por uma mulher de uniforme azul claro e avental branco. Ela avisara que ia ver se Priscila não estava dormindo. Pediu que esperasse um pouco. Tirei a bolsa transpassada do ombro. Estava vestida de maneira informal, jeans e camiseta branca. Hoje, não tinha faculdade, nem escritório. Olhei os porta-retratos em cima de um móvel cumprido de madeira escura. Havia muitas fotos de corridas de cavalo. Alguns troféus e medalhas em uma grande cristaleira. Na parede, mais quadros sobre competições. Meu coração disparou e o sonho teve ligação com o presente. Os cavalos e o choro da mulher já estavam explicados. Mas, onde estava o cavaleiro de braço negro?

_Hei, girl? _ ouvi uma voz desconhecida que me pegou de surpresa.

Virei-me. Era um rapaz negro, descendo a escada de madeira em formato de caracol. Seu braço era igual ao do sonho: forte, grande, musculoso e, principalmente, negro. Meu coração estava na boca. Eu tinha pensado que se tratava de alguém que precisava de ajuda, mas, não, era uma pessoa real!

_Você é nova por aqui, né? Eu vou sair, dá um jeito no meu quarto, o pessoal fez uma bagunça lá ontem! _ avisou e passou por mim como se eu não fosse ninguém, melhor, como se eu fosse uma empregada doméstica!

Pelo vidro da porta da sala, segui-o com os olhos. Ele estava vestido com uma calça com a cintura baixa, uma camisa regata branca e um lenço amarrado na cabeça, abaixo do boné.

Eu estava tão chocada por ver a materialização do sonho que nem conseguira explicá-lo que tinha me confundido com alguma empregada. Que carinha mais arrogante e mal educado!

_A senhora pode subir, que ela está acordada. _ a mulher voltou para me avisar.

Subi as escadas e passei por um quarto que estava de porta aberta. Havia latas de energético no chão, duas caixas de pizza e uma bagunça sem tamanho.

_Não repare, Kali é muito bagunceiro. _ ela falou e apontou para o quarto.

_Não se preocupe. _ abaixei a cabeça e segui pelo corredor.

Lá, encontrei Priscila deitada na cama. Aproximei-me dela com um sorriso afetuoso e fraternal. Segurei sua mão e perguntei o que tinha acontecido.

_Que bom que está aqui, minha querida. _ ela me sorriu também. _ Passei mal hoje de manhã, liguei para o Luis e fui ao médico. Recebi más notícias.

_Alguma coisa com o bebê?

_Por enquanto não, mas eu estou em uma gravidez de risco. Preciso ficar em repouso até ele nascer.

_E é isso que vai fazer, hen!

_Não posso!

_Como não pode? É uma vida que está em jogo, aliás, duas!

Priscila sentou-se e puxou o travesseiro mais para cima a fim de se recostar nele.

_Se eu ficar nessa cama à base de vitaminas, pães e televisão vou virar uma vaca inútil!

_Não acredito que está pensando na estética.

_Não, não, estou levando em consideração minha saúde mental! _ ela parecia muito aflita e desesperada, como se estivesse condenada a ficar presa dentro de um castelo.

Ela era a mulher chorando no meu sonho, aflita e angustiada. Eu tinha que ajudá-la.

_Bom, você não precisa ter overdose de Ana Maria Braga e enjoar de suco de cenoura, pode trabalhar aqui.

_Aqui?! E os escritórios, os processos? E toda minha carreira...

_Priscila, você nasceu na era da Internet, do 3G, do Home Office!

_Tá, mas acha que eles concordariam?

_Com tanto que você ganhe todos os processos eles não vão ligar se está aqui ou no Pólo Norte...

_Pode ser...

_Você não tem escolha. E quando a gente não tem escolha, a hipótese mais arriscada é a mais segura. Aprenda a não dizer não, antes de tentar. Faz a máquina trabalhar ao seu favor sempre.

_Você tem quantos anos? 80? É a nova Bejamin Button?

Sorri e fiquei com as bochechas quentes.

_Que nada, só quero te fazer ver uma luz nisso tudo.

_E já está! Mas, vou precisar da sua ajuda aqui.

_Por mim, tudo bem.

_Vou te pagar por fora por algum favor “não profissional” que eu possa te pedir.

_Ok.

_Ai, não sabe como já estou me sentindo melhor e mais feliz.

_Que bom! _ sorri.

_Tamires, por que escolheu ficar do meu lado?

_Na verdade, eu não escolhi ficar do lado de ninguém, mas do meu lado. E aqui, desse lado, eu vejo que as pessoas podem mudar, podem ser melhores.

_Então, vamos agitar para trazer tudo para cá. Luis quer que eu fique perto dele.

_Uma curiosidade: quem é aquele rapaz negro que estava lá em baixo?

_É o irmão adotivo de Luis. Ele veio dos Estados Unidos e não sei até quando vai ficar, por quê?

_Nada. _ dei de ombros e fiz pouco caso.

Por que ele estava nos meus sonhos?