23.1.09

Cap 25: Eu só quero ser eu mesma.

Gavin DeGraw - I Don't Want to Be


Voltei, à noite, sozinha para casa, Luis ficou para o Happy Hour de Boas Vindas da sua namorada-amiga-namorada, ou seja lá o que isso signifique. Tomei um banho e desci. Sentei na cadeira de balanço da varanda com Rick aos meus pés. Fiz carinho nele, que, de repente, levantou a cabeça, balançou o rabo e correu.

Era Luis chegando. Os dois fizeram uma festa no gramado. Depois de alguns minutos, Luis subiu os degraus que davam para a varanda e seus sapatos fizeram barulho no assoalho de madeira. Ele sentou-se ao meu lado enquanto Rick não parava de lamber seu rosto.

_Ele gosta mais de mim que você. _ comentou, afastando o rosto. _ Senta, Rick, senta. _ ordenou e foi obedecido.

_ Já tem gente demais gostando de você. _ falei e arrependi-me em seguida.

Luis que estava inclinado sobre Rick acariciando seu pelo, virou o rosto para o lado e olhou-me. Parecia tão surpreso quanto eu mesma estava com aquela frase que tinha vários significados e o principal deles é que estava com ciúme.

_Mas eu gosto de bem poucas. _ piscou o olho.

_Ainda são muitas. _ levantei-me com as mãos dentro dos bolsos da frente do moleton.

Luis veio até mim e ficou na minha frente.

_Eu gosto de você, sabe disso, qual o seu problema? _ falou sério.

_Nenhum! _ irritei-me. _ Você não pode encarar nenhum joguinho de palavras bem, ah, me deixa...

_Não. _ enfatizou. _ Você tem que aprender que não vai ser feliz enquanto estiver jogando, vai sempre quebrar a cara...

Parei na soleira da porta da sala de costas para ele e me virei para olhá-lo. Não acreditava que tinha sido tão grosseiro, pude enxergar ali o Luis com quem competi tantas vezes, com as garras de fora prontas para ferir e dilacerar.

_Desculpe... _ abaixou a cabeça e suspirou. _ Mas, não vê o que faz consigo mesma? Você só procura homens impossíveis porque não quer na verdade ficar com eles, ou ficar profundamente. Seus joguinhos são maneiras de manipular a situação para mantê-los perto quando te interessar. E ainda se faz de sofredora.

_Eu não preciso estar ouvindo isso.

_Não precisa mesmo porque você tem quem goste de você de verdade. E, quem tem uma pessoa assim, não precisa mais jogar com a sorte, desejando sempre perder para não ter que sacrificar nada, nem se arriscar. Porque, nesse caso, se joga no mesmo time. _ Luis falou com uma voz afável e chegou bem perto, mas sem me tocar, percebendo que eu ainda estava na posição de ofendida e com olhar reativo. _ Eu sei que você não sabe amar, que o mais próximo que chegou disso acabou frustradamente, que está com muito medo de que acabe tudo errado outra vez, te restando um monte de problemas para lidar... _ encostou uma mão na minha cintura, depois a outra. Olhei para elas e depois fixamente nos seus olhos. _ ... Mas, não se deve desistir, quando se está bem perto de acertar.

Meu coração começou a disparar e, ele estava certo, eu tinha vontade de correr de medo. Medo de ser feliz. Porque quando se tem a possibilidade perfeita de ser feliz, às vezes, pensamos que o melhor é fugir para não tentar e estragar. Quando a possibilidade fica cristalizada em um passado, ela se torna perfeita, como um belo quadro. Mas, a felicidade não é fixa como uma foto, mas fluída e contínua como um filme. Luis estava ali falando tudo que eu precisava ouvir e sua proximidade provocava reações físicas altamente térmicas no meu corpo.

Tirei as mãos do bolso e não sabia onde colocá-las. Se fosse um jogo eu não erraria. Nós sabíamos que não era. Então, eu deixei-as tocar a sua blusa branca, na altura do abdômen. Eu precisava aprender e ele ajudou, puxando-me mais para perto. Luis subiu a mão da minha cintura pelas costas e segurou minha nuca, entrelaçando seus dedos pelos meus fios de cabelo.

Permiti-me sentir a superfície da pele do seu rosto e toquei-a com a mão esquerda. Meu dedão acariciou-o. Luis não teve pressa, sua espera fora tão longa, que agora só lhe restava receber o prêmio por todo o esforço em chamar minha atenção e conquistá-la. Desculpe, não era um prêmio, eu tinha que entender que não era um jogo de adversários.

Beijei seu pescoço e ele inclinou a cabeça para o lado direito, em um movimento involuntário de reação, fazendo meu rosto encostar completamente em sua pele. Aspirei seu perfume e quis mais. Minha mão sozinha buscou sua nuca para inclinar sua cabeça mais para frente. Ele acompanhou também beijando o meu pescoço. Sua boca úmida me tocando arrepiou-me. Estávamos abraçados, juntos, colados, um só. Esse era o sentindo do amor que ele queria me mostrar: quando nos fazemos um. Degustando. Amor se experimenta. Paixão é fast food.

Encostei-o na parede, mas não abruptamente como presa. Fui delicada e firme, buscando ser consentida. Ele aceitou e me trouxe pela cintura, colando a minha na sua. Senti as freqüências e relevos do seu corpo e dei um leve impulso para ficar na ponta do pé. Queria estar mais acima, talvez ainda reflexo da memória de dominadora. Mas, não me reprimiu, aceitou e se deixou beijar em todo pescoço, agora mais rápida e intensa.

As moléculas começavam a se aquecer com o aumento da intensidade do contato e da fricção de nossas peles. Seus punhos fecharam sobre meu moletom suspendendo-o para que as mãos tocassem minhas costas.

Olhei sua boca entre aberta, de um vermelho carnal, cor de sangue, pronta para o beijo que eu lhe daria por vontade própria. Iria ali selar o meu sim, quando vi um clarão na parede e seu rosto ficou iluminado por uma luz extremamente forte, que ofuscou seus olhos. Ouvimos o barulho de buzina. Virei o rosto para trás, assustada.

_Meus pais. _ ele falou.

_Ãnh?! _ virei-me e vi uma caminhonete parando no gramado.

_Eles sempre chegam de viagem sem avisar para fazer surpresa. _ explicou, não parecendo nada entusiasmado com a surpresa dessa vez.

Ajeitei o meu cabelo para trás e arrumei a roupa. Cruzei os braços. Luis desceu para cumprimentá-los. Eu aproximei-me timidamente.

_Você deve ser a namorada dele. _ sua mãe, uma senhora de cabelos loiros e sorriso vibrante puxou-me para um abraço. _ Como é seu nome mesmo? Kelly? _ confundiu-me com a Barbie Perua do escritório. Pelo visto, não a conhecia pessoalmente.

_Não, mamãe, ela se chama Priscila. _ Luis consertou, mas, seu “não” não foi extensivo para o fato de eu não ser sua namorada, dando a entender que o erro fora só na troca de nomes.

Pensei em deixar isso claro, mas, o pai dele, cumprimentou-me calorosamente com um abraço:

_Finalmente, ele te trouxe para conhecer os velhos. Ele sempre tem vergonha de...

_Papai, menos! _ Luis tirou as malas do porta-malas da caminhonete preta.

_É verdade, Luisinho. _ a mãe corroborou a opinião do pai.

Luisinho? Ri da situação. O casal ficou lado a lado comigo, me tratando como se eu fosse uma boneca que sempre quiseram ter. Agora mesmo que eu não teria o que falar.

_Ela está passando uns tempos aqui comigo. _ Luis explicou.

_Uns tempos? _ os dois se entreolharam. _ O mundo é outro, Alberto. É outro. _ a mulher riu, sem ar de reprovação.

_É que eu estou procurando um apartamento novo. _ eu tinha que esclarecer algum ponto daquela história.

_Não se preocupe, minha filha. Fico mais tranqüila em ter você aqui. As mulheres sempre tomam o controle e tudo acaba bem... _ ela defendeu-me.

_Você está vendo o que te espera? _ o pai fez sinal para que Luis abrisse o olho e todos rimos.

Eles gostaram também do cachorro e, já na sala, arremataram que aquela casa realmente precisava daquela alegria e que formávamos um casal lindo. A mãe de Luis tirou da bolsa a máquina fotográfica. Deviam viajar tanto que a própria casa parecia mais uma parada da viagem e, Luis e eu, outra atração a ser registrada.

_Fiquem juntos, anda. _ ela mandou, gesticulando para que nos aproximássemos.

Luis abraçou-me por trás e tiramos a foto mais casal que poderia existir, com a participação especial de Rick. Ela mostrou para o marido como tinha ficado e Luis falou ao meu ouvido:

_Desculpe, isso não estava incluído no pacote da estadia.

_Seus pais ou nosso namoro relâmpago? _ perguntei baixinho.

_Será duro de encarar?

_Você precisa contar a verdade. _ disse-lhe.

_Mas já é uma meia mentira. _ beijou minha bochecha e parou de me abraçar por trás. _ Podemos sair para comer alguma coisa, que acham? _ sugeriu para os pais.

_Ótimo! Vamos até aquele restaurante que eu amo com rodízio de massas. _ ela recomendou, juntando as mãos e fazendo cara de deliciosas lembranças. _ Luisinho já te levou lá? _ perguntou.

Não, não me levou a lugar nenhum. Nós estávamos começando alguma coisa há alguns minutos quando vocês chegaram. Pensei, mas não falei, limitei-me a sorrir.

_Amélia sempre vai lá. Por que as mulheres têm idéias tão fixas, quando gostam de uma coisa e pedem sempre a mesma? Não importa que o cardápio tenha 30 sabores de pizza, elas sempre vão pedir a metade de frango com catupiry! _ o senhor Alberto satirizou e todos rimos alto.

_Então, vamos nos arrumar. _ Luis bateu palmas e eles se encaminharam para o quarto que havia no primeiro andar.

Ficamos só nós dois na sala, sob a luz forte e branca. Parece que passou por nós um furacão, quebrando completamente o clima quente, escuro e silencioso da varanda.

_Nunca trouxe a Kelly aqui? _ perguntei.

_Não. Ela não era de se trazer.

_Como eles sabem dela?

_Kelly mandou presentes nas bodas dos meus pais e assinou como namorada. Depois, virou um mito de quem eu falava para que eles não se preocupassem, porque eu estava acompanhado enquanto viajavam e me deixavam sozinho.

_E eu agora sou a materialização do mito? Luis, eu só quero ser eu mesma.

_Tudo bem, vou desfazer o mal entendido. _ garantiu.

_Ok. _ aceitei. _ Bom, então, vou me arrumar. _anunciei e comecei a subir as escadas.

_Mas, Priscila?

_Hum? _ olhei para baixo.

_Uma mentira contada várias vezes vira verdade.

Prendi o sorriso no meio da boca e balancei a cabeça para os lados.


Letras de Músicas | Letra de i-dont-want-to-be

21.1.09

Cap. 24 Uma nova concorrente (Priscila)

Quando desci do carro de Luis, pude ver o prédio de mais de dez andares espelhado que ficava na Avenida Presidente Vargas. Eu sabia desde muito tempo que era ali que trabalhava e tinha uma pontinha de inveja. Por certas vezes cheguei a pensar que toda sua luta contra mim era um plano cruel de me humilhar. Lembro do dia em que perdi um grande caso pra ele e corri para internet para saber o tamanho do meu opositor. E o tamanho dele era o daquele imponente prédio. Trabalhar para um daqueles escritórios era sonhar muito alto.

Ele me indicou a entrada e eu o segui até o elevador. Muda. Tudo ali me intimidava. Eu sou do tipo de pessoa que em situações extremas pode tagarelar sem parar ou ficar em estado silencioso de choque. Nesse caso, aconteceu a última coisa. Luis caminhou pelo corredor do 16º andar cumprimentado várias pessoas, enquanto eu caminhava ao seu lado distribuindo um sorriso de “oi” também. Era a porta de entrada para o seu mundo mítico profissional de que sempre fabulei. Esperava me surpreender também, visto que no seu lado pessoal eu descobrira outra pessoa completamente diferente da que fantasiava na minha cabeça.

Luis apresentou-me a um homem gordo e de cabelo prateado em uma sala gélida e com paredes de vidro. Apertei a mão dele e lembrei-me instantaneamente do meu último aperto de mão pós demissão. Que ironia é a vida. Um dia você é mandada embora de um emprego por que deu seu sangue e já no outro é muito bem aceita em um novo. Esse contínuo fluxo de queda e ascensão nos dá a chance de nos superarmos. O problema é quando esse hiato entre as duas pontas da cadeia demora muito e corremos o risco de desacreditar. Uma pessoa que não crê mais em si mesma acaba provocando as mesmas reações nos que estão ao entorno. Mas, dessa vez, tudo fora muito rápido, graças a Luis. Em um dia eu já estava pronta para um novo desafio. Finalmente um acontecimento bom em meio a tantas punições.

Eu tentei parecer o mais animada e grata pela oportunidade possível. Não queria que aquele homem conseguisse perceber em mim nenhuma derrotada. Dei-lhe meu currículo com uma prece silenciosa de que gostasse porque dependia muito daquilo para retomar minha vida.

_O melhor currículo da gente, Priscila, é a vida. _ ele falou-me segundos depois de passo o olho dinamicamente na página.

Se isso procedia, então, ele podia me chutar dali por aquela janela mesmo. Nem olhei para Luis para não correr o risco de ficar vermelha. Continuei compenetrada no que ele queria me dizer:

_...Mais importante do que os cursos e graduações que fazemos é o que falam de nós. _ explicou.

Por enquanto todas as burradas que eu cometeram estavam sobre a guarda apenas de Luis. Mas, se alguém descobrisse seria uma pulverização degenerativa completa da minha imagem.

_... É o burburinho que nos impulsiona lá pra cima... _ apontou para o alto. _... Ou lá para baixo. Somos um cartão de visitas ambulante e as pessoas que nos conhecem falam por nós.

Ele se referia a alguma menção anterior de Luis? Porque enfatizava tanto isso?

_Já faz tempo que estou de olho em você. _ estalou os dedos, cruzou as mãos sobre a gorda barriga e se recostou na cadeira para me olhar melhor.

_É mesmo? _ tentei parecer presente na conversa, quebrando meu silêncio.

_Eu acompanho todos os casos e sei por que ganhamos e perdemos em todos. Aqui fazemos muitos relatórios para aprender com os erros dos outros. E já li muito sobre você.

Instintivamente olhei para Luis. Eu sabia que já havia derrubado-o muitas vezes gloriosamente. Como deve ter sido purgante para ele relatar os motivos das suas derrotas para a advogadazinha de um pequeno escritório.

_Acho que você tem muito que aprender com a gente, mas, também queríamos você.

Sorri, finalmente, em um golpe de alívio, suspiro e ressurreição.

_Aprenderei.

_Nós também. _ completou, em um sinal de humildade que me surpreendeu.

Era ali a verdadeira escola de Luis, o que tinha total coerência com suas atitudes comigo.

_Seja Bem Vinda, então. _ apertou minha mão, de pé.

_Obrigada pela oportunidade.

_Espero que me agradeça todos os dias ganhando para nós todos os processos que puder. Porque aqui ninguém é tão forte que não possa perder, nem tão fraco que não possa recorrer e ganhar. _ riu.

Quando saímos da sala, Luis sorriu feliz em me fazer feliz. Quis abraçá-lo forte ali mesmo, mas me contive para não chamar atenção das pessoas que passavam.

_Obrigada mesmo! Você foi a maior surpresa da minha vida. Eu não acho que mereço.

_Felicidade não é merecimento, porque se fosse assim, não haveria tantas pessoas passando necessidades. Já pensou que as criancinhas da Somália nunca fizeram mal nenhum? Mas, podemos dizer que felicidade é uma conquista.

_Seja lá o que é felicidade, é o que sinto agora. E você me entende por quê.

_Você vai trabalhar na sala junto comigo. Há uma mesa a mais lá e acho que dá para a gente se arrumar sem se matar. _ brincou.

Quando entramos na sala e ele fechou a porta, parei em sua frente e comentei que nem diria que isso iria acontecer.

_Eu nunca achei impossível.

_Mesmo?

_Eu sempre tive gostos exóticos. _ alfinetou.

_Ah! Obrigada. _ ri.

Nos olhamos em silêncio, uma energia boa flutuando entre nós. Eu poderia beijá-lo ali, não fosse o barulho da tranca da porta.

_Amor? _ ouvi uma voz estridente de mulher atrás de mim.

Virei-me para ver, mas o vulto que correu e se atirou nos braços de Luis foi mais rápido que meus olhos. Quando ela parou de agarrá-lo e ele a afastou, pude contemplar a patricinha vestida de rosa pink e óculos de abelha.

Levantei as sobrancelhas e franzi a testa, olhando diretamente para Luis.

_Prazer, meu nome é Kelly Victória Tunik. _ estendeu a mão cheia de pulseiras para mim.

Tunik era o nome que estava escrito na placa do homem que agora pouco me contratara. Luis namorava sua filha e, por isso, tinha o direito de pedir o que quisesse para ele?! Era isso mesmo?

_Hum... Você e o Luis são...?

_Amigos, namorados, amigos, sabe como é. _ deu uma gargalhada, chaqualhando o corpo para frente e para trás.

_Ah sim! Eu sou a amiga dele. Mas, só amiga. _ sorri e apertei sua mão. _ Vou deixar vocês sozinhos. _ olhei para a mala também rosa que ela carregava. _ Devem estar com saudades. _ comentei.

_Priscila. _ ainda ouvi a voz de Luis.

_Não, tudo bem. _ encolhi os ombros e coloquei a mão no bolso da calça. Sai e fechei a porta.

Na verdade, eu não tinha para onde ir, nem com quem falar. Uma mulher vestida de copeira que empurrava um carrinho perguntou se eu queria água ou cafezinho. Aceitei o copo de água para engolir aquela última. Luis era amigo-namorado-amigo da filha do chefe que acabara de me empregar! Ótimo, eu acabava de trancar com um cadeado de códigos de número meu cinto de castidade.

19.1.09

Cap 23. Cadeira do purgatório. (Priscila)


Quando acordei a luz já havia voltado, mas, nem precisava porque o sol brilhava radiante e entrava pela sala deixando tudo dourado. Luis passou por mim no corredor e deu um oi seco, apressado e indiferente. Olhei para trás, mas, só o que pude ver foi as costas do seu paletó, se afastando. Encontrei a mesa do café da manhã ainda posta. Sentei-me e tomei um suco. Ele reapareceu na sala falando ao celular com os fones no ouvido e o aparelho no seu bolso. Remexia em uma pasta de couro marrom escuro entre as almofadas do sofá. Parecia tão compenetrado, que aposto que nem dava por minha presença.

_Ele fica assim quando é dia de julgamento. _ ouvi a voz da empregada ao meu lado.

_Ãnh... _dei-me por sua presença. _ É? _ perguntei vagamente para parecer que estava dando atenção. A sua fisionomia era de admiração. _Não sabia...

Quem diria, eu estava ali vendo como ele se preparava, quando tantas vezes só o encontrei diante do juiz. Mas, por que eu deveria ficar me relembrando que aquilo era inesperado? Será que era tão inviável assim pensar em nós dois juntos? Lembrei do beijo quente e forte da noite anterior. Contudo, aquele homem perambulando pela sala não parecia em nada com o despojado e instintivo de ontem. Aliás, ele deveria ter esquecido o que houvera, haja vista a frieza com que me tratou. Também, o que eu queria? Que ele amanhecesse com o café em uma bandeja na cama?

_Dia importante? _ perguntei.

_Humhum.

_Isso é um gelo? _ perguntei.

_Gelo? Ãnh? _ tirou os fones do ouvido. _ Não, melhorei das costas, nem precisou colocar novamente...

_Não seja ridículo, entendeu o que eu disse.

_O quê?

_Nada... _ balancei a cabeça para os lados. _ Vou me arrumar para trabalhar também.

_Ok. _ falou sem me olhar, arrumando os papéis na pasta, num gesto maquinal.

Parei no meio do corredor e decidi que deveria falar. Voltei. Ele ainda estava de costas quando eu desabafei:

_Desculpe se ontem não fui tão além do que queria, mas, é que não quero me jogar em outro lance tão rápido. Estou saindo de um casamento que ainda vai rolar muito estresse. Não quero também te magoar, nem sei como te agradecer por tudo. Se puder ter calma...

_Humhum.

_É isso o que me diz? _ perguntei, vendo que ele continuava de costas.

Luis virou-se e falou no viva-voz para a pessoa do outro lado da linha esperar um pouco e se dirigiu a mim:

_Desculpe, não te ouvi, está me chamando?_ perguntou.

_Não, não estava. _ olhei-o longamente para descobrir se de fato não ouvira nada. Desisti e fui tomar banho.

Dizem que o instinto de caça é dos homens, mas discordo, ele é totalmente das mulheres. E elas são as que mais aguçam este dom. Quando uma mulher quer comprar uma roupa específica para uma festa, é capaz de vestir todas as roupas de um shopping inteiro sem cansar até encontrar a que desejava. Quando ela pretende fazer um jantar em grande estilo, sai para o supermercado e escolhe minuciosamente todos os ingredientes. Quando o filho passa mal, é capaz de procurar sua cura nos chás, nas ervas, nas rezadeiras e homeopatias da vida. A mulher está sempre a caça de um alvo como a leoa, a rainha das caçadoras. Mas, quanto maior a presa, e mais difícil o abate, sua saliva começa a escorrer e seus olhos se fixarem. O que é raro, proibido ou esnobe sempre seduz pela adrenalina da corrida que antecipa as garras cravadas na presa. Não se pode negar a uma mulher o encantamento da arte da caça. Ela precisa exalar seu cheiro, jogar os cabelos, exibir suas formas, inteligência, humor, aparecer.

Luis devia saber tudo isso. Ou, se não sabia, acertava por sorte. Achei-o bonito como nunca naquele terno. Só que o orgulho era meu calcanhar de Aquiles e eu não cederia. Se ele queria me ignorar, não iria mostrar-me ferida. Por mais que meu coração se comportasse como uma leoa salivando.

Arrumei-me para o trabalho e passei por ele na sala. Ainda falava ao telefone. Abaixei-me para ajeitar o sapato e, quando levantei, notei que me olhava. Mas, desviou o rosto, fez-se de ocupado. Sai com minha maleta sem olhar para trás. Chamei um táxi, visto que eu agora estava sem um.

No escritório começou o dia com meu chefe me chamando a sua sala. Algum grande caso deveria preocupá-lo e ele sempre confiava em mim nessas horas.

_Como foi seu fim de semana? _ perguntei sorridente. _ Viajou para Arraial?

_Não. E bem que o sol merecia. _ sorriu e indicou a cadeira para que eu me sentasse também. _ E o seu?

_Ãnh...

O que eu poderia responder? Será que ele arregalaria os olhos se eu lhe contasse que meu marido me mandara para fora de casa quando eu tive a certeza de estar grávida de outro? Outro esse que era marido da minha melhor amiga. Era muito enredo de novela, ele não suportaria.

_Foi bem agitado... _ respondi vagamente, mas, sem entusiasmo para que não quisesse saber mais a fundo.

_Eu te chamei aqui para uma conversa bem delicada.

_Pode falar, ultimamente nada me surpreende mais. _ ri.

_Priscila, eu notei que esteve muito afastada nesse mês. Você perdeu quase todos os processos que pegou e isso significou grandes perdas para nós...

Fiquei séria, acompanhando seu raciocínio com um frio na espinha.

_Eu lamento, mas não posso só contar com minha admiração por você... _ continuou com a cerimônia de quem está prestes ao golpe final. _ ... Eu tenho que acatar as decisões que a maioria toma. Por isso, infelizmente... _ levou a mão ao peito em sinal de que falava de coração. _... Tenho que dizer que não fará mais parte de nosso escritório.

Eu continuei olhando-o longamente, ali congelada no tempo. Aquela só deveria ser a cadeira do purgatório. Eu estava recebendo um castigo por dia para dar conta de todos.

_Imagino que essa situação é de tirar as palavras. _ ele agoniou-se com o silêncio.

_Não, não imagina. _ levantei-me com qualquer resto de orgulho que ainda tinha no fundo, bem no fundo da alma. Estendi a mão e engoli em seco para a voz não embargar. _ Eu tenho certeza sobre a ótima profissional que sou. Mas, vou superar meus problemas particulares, no que precisar, estarei à disposição. _ cumprimentei-o em despedida.

_Eu tenho certeza disso.

_Não... Não tem. Se tivesse, não teria reduzido três anos de trabalho em três semanas. _ Desabafei e sai.

Peguei minhas coisas da mesa e comecei a reuni-las. Minha estagiária perguntou o que estava acontecendo. Expliquei-lhe que para o mercado somos uma máquina passível de ser trocada quando não opera em carga máxima, mas que eu iria para o conserto. Ela, provavelmente, não entendeu a metáfora, mas, pelas pastas que tirava da gaveta percebera que eu estava de partida.

_Lamento. _ disse baixinho.

_Não lamente. _ consertei-a. _ Não lamente por quem tem a capacidade de dar a volta por cima e eu darei.

_Claro, vai dar. _ concordou.

Essa era uma hora em que ligaria para Andy e dividiria meu problema. Mas, ela estava longe, viajando para esquecer seus próprios problemas.

O táxi parou na frente da casa de Luis. Deixei todas as caixas e pastas junto das minhas malas no quarto onde dormia. Meus pertences eram aqueles próximos a cama. O que mais eu tinha de valor? Meus conhecimentos de advogada, meu corpo e a criança no ventre. De que maneira aquilo poderia diminuir ainda mais?

Tomei um banho e vesti um short jeans de barra desfiada com uma camiseta branca. O cabelo molhado ficou caído sobre os ombros. Quando descia, vi que Luis acabava de chegar. Atravessou a sala com passos rápidos, deixou a pasta na mesa do escritório, puxou com força os fones de ouvido e deixou-os junto com o celular. Passou a mão na nuca e suspirou. Abriu uma garrafa de bebida e encheu um copo.

Para que não percebesse minha presença, sentei-me no degrau de madeira da escada de caracol. Ele parou na porta do escritório, encostou a testa no antebraço direito que estava apoiado no portal e bebeu o líquido marrom. Seus olhos se levantaram e deram por minha presença. Eu estava de cabeça baixa, entre os braços cruzados sobre os joelhos.

Luis deixou o copo no móvel onde estava a bandeja de bebidas do escritório, tirou o paletó e o largou de qualquer jeito sobre uma poltrona do escritório. Caminhou na direção da escada e subiu os degraus enquanto afrouxava a gravata. Sentou-se ao meu lado.

_Um mal dia? _ perguntei, virando meu rosto para olhá-lo.

_Perder é ruim... _balançou a cabeça para os lados, incrédulo.

_Estou me especializando na consciência profunda sobre isso... Posso daqui uns dias dar palestras sobre o tema. _ ironizei.

Ele sorriu e foi o primeiro desde que chegara. Mas, um sorriso muito cansado.

_É assim que ficava quando perdia pra mim? _ quis saber.

_Não, era bem pior. _ironizou. _ Tinha um gosto mais amargo.

_E agora que não tem mais a vontade de revanchismo?

_Que vida sem graça, não acha? _ olhou-me em cheio. _ Nós não podemos nos gostar nunca! Perde o efeito. Vira um filme de sessão da tarde! Eu acho que...

_Fui mandada embora hoje. _ falei secamente, cortando-o.

_Que droga. _ compadeceu-se._ Mas, por quê?

_Não estava rendendo... _ suspirei. _O que me falta? Eu ser atropelada amanhã?! _ senti as lágrimas virem aos olhos.

_Não diz isso. _ ele tocou nos meus lábios. _ Tem alguém te escutando.

_Não seja ridículo. Nem tem cérebro ainda. _ virei o rosto.

_Todas as células do seu corpo nascem, crescem e morrem. Todas são vida. Se fizer um mal a uma delas, estará alterando todas as outras. Por isso, seu filho, que já é um apanhado de células, está recebendo todas essas informações.

_Desculpe, só tive um dia horrível.

_Não há dia que não possa ficar melhor depois do outro. _ levantou-se. _ Vamos comer alguma coisa? Já estou sentindo o cheiro de comida vindo da sala.

Sorri, só ele para me fazer pensar ainda em ter esperança.

_Amanhã, acorde cedo, vou te levar ao escritório comigo. Vou te apresentar a umas pessoas.

_Jura? _ franzi a testa.

_O que eu disse sobre um dia melhor que o outro? _ Ofereceu a mão em cortesia.

Estendi a minha e aceitei-a.

16.1.09

Cap 22. Com os caras errados (Priscila)

Sentada no sofá, com Rick ao meu pé, pensei que Luis nunca mais sairia do banho. Fazia vinte minutos desde que fora para o quarto. Peguei-me ansiando para que ficasse por perto. Eu estava muito carente e desamparada. Aquele dia tinha sido muito tenso. Não sei como Hugo deveria estar se sentindo agora, talvez me odiando mortalmente ou indiferente. Não importava mais, agora eu tinha que seguir com minha vida.

Enquanto pensava sobre isso, num piscar de olhos, tudo se apagou e se fez um breu. Assustei-me. Rick começou a latir. Pedi pra que ele ficasse quieto e o acariciei. Deve ter havido problema com algum transformador da rua, pois as luzes dos postes também se apagaram. Não dava para ver a casa dos vizinhos porque a de Luis tinha muros muito altos feitos de pedras, que ficavam longe.

Será que ele já havia acabado de tomar banho? A resposta para isso veio em sua voz chamando meu nome do andar de cima.

_Priscila, tudo bem com você? _ ouvi barulho de passos na escada.

_To aqui na sala. _ respondi.

Ouvi um barulho oco de alguma coisa batendo na madeira.

_ Aiiii...

_Luis? Que houve? _ falei no escuro.

_Aiii, droga, escorreguei da escada. _ disse baixinho, dolorosamente.

Segui o som da sua voz. Bati levemente a canela na mesa de centro. Tateei o sofá, depois o Buffet e, enfim, cheguei perto da escada.

_Bati minhas costas. _ explicou.

_Calma... _ encontrei sua mão e a segurei. _ Vem. Vamos até a cozinha.

_Eu não sei onde tem velas, nem fósforo. _ falou.

_Não tem uma lanterna? _ espantei-me.

_Não! Pior que não. Eu viajei e a minha pifou. E agora?

_O bicho papão pode vir te pegar de noite. _ brinquei.

Fomos tocando os móveis como cegos que acabam de ter que lidar com o mundo sem formas e cores.

_Eu preciso pegar gelo para colocar nas minhas costas, me machuquei... _ soltou minha mão.

_A geladeira está aqui. _ achei e abri a porta do congelador. Retirei a cuba de gelo e a coloquei sob a água da pia. A temperatura ambiente fez com que as pedras caíssem pesadas. _ Vem cá. _chamei.

_Não ta pensando em encostar isso em mim, né?

_Anda, deixa de ser fraco! _ senti que estava perto. _ onde é?

_Aqui, nas costas...

_Como se eu pudesse enxergar... _ ri.

Estiquei a mão e encostei nas suas costas, na altura dos ombros, encontrei sua mão indicando onde doía. Esfreguei o gelo e, depois de alguns segundos, a área adormeceu e ele já não sofria com o choque térmico.

Ri de um pensamento que tive e ele quis saber se eu estava achando graça das suas condições.

_Não to rindo da sua dor, mas de tudo... Se fosse há um mês eu diria que foi você quem armou esse curto e que não caiu da escada de verdade...

Luis afastou-se e o gelo da minha mão caiu no chão.

_Hei, eu disse há um mês... Calma. Luis, cadê você? Arrrgggh. Droga. Luis! _ gritei.

Novamente tive que percorrer o labirinto de móveis até chegar à porta da varanda, onde Rick latia, denunciando Luis. Consegui vê-lo de lado, escorado na coluna da pilastra. Tomei fôlego. Ali fora, a lua servia como única iluminação.

_Que deu em você? _ perguntei, já de frente pra ele. Pude vê-lo de bermuda branca, sem camisa e de cabelo úmido caindo na testa.

_Um pouco de saco cheio.

_Eu tenho que aprender muitas coisas sobre você e, uma delas, é tolerar essa mudança drástica de humor. _ falei ríspida. _Eu só estava pensando sobre como é tão estranho eu ter te odiado desde a primeira vez que topamos um com a cara do outro e, agora, estar aqui na sua casa... Eu só estava refletindo como, não faz muito tempo, você estava me perseguindo em Nova Iorque, tirando fotos comigo e do Marcelo pra me prejudicar...

_Eu não queria te prejudicar... _ interrompeu-me e deu dois passos a frente.

_Você não usa bons métodos, então. _ falei sarcástica e caminhei até o gramado.

_Qual é o melhor método, então, pra você entender? _ irritou-se.

_Entender o quê? Mas do que está falando?! _ alterei minha voz e me virei para olhá-lo novamente.

Luis desceu os dois degraus da varanda e veio na minha direção com passos firmes e convictos sobre o gramado. Meu coração não teve tempo de disparar para prever nada. Antes disso, ele já estava segurando a minha nuca:

_Pra entender isso.

Ele beijou-me com tanta vontade que, enquanto eu processava o fato de que estava sendo beijada por ele, ia acompanhando por inércia os movimentos de sua boca ágil. Minha mão perdida no espaço encostou em seu corpo, quando ele com as suas me puxou para si e me fechou em seu abraço. Era isso que queria me dizer: o quanto gostava de mim. E aquele sentimento cresceu como um vulcão à tona e sua temperatura se tornou quase febril. Só notei que não apenas ele que estava sem fôlego, quando afastamos nossos rostos.

_Desculpe, você provocou meus instintos... _ riu, ainda com a testa colada na minha.

_Pouco romântico isso, não? _ sorri.

_Claro... Foi a única forma de dizer o que você não entendeu desde Nova Iorque. Eu queria uma chance e, enquanto isso, você dava a chance para o cara errado. Aliás, você estava procurando o que queria com as pessoas erradas, seu marido não tem nada a ver com você.

_O que sabe sobre mim, meu marido, minhas coisas...? _ perguntei sem alteração ou rancor.

_A gente sempre busca saber o que verdadeiramente nos interessa. E você sempre foi o que me interessou, me instigou. Não existem muitas mulheres que tiram um homem de verdade do controle. E o homem sabe quando a encontra.

_Você sempre me surpreendeu também. _ contei. _ Mas, é que ainda está caindo a ficha, entende? De tudo...

_Claro. _ ele afastou-se. _Tudo bem.

14.1.09

Cap 21. Longa viagem (Priscila)

Hugo olhou o exame por longos quinze segundos. Não sei o que ele procurava inspecionando cada dado se o mais importante era o positivo ao lado do meu nome, que estava abaixo do cabeçalho “teste de gravidez”. Não vi qualquer sorriso ou reação feliz, isso me indicava que devia me preparar para o terremoto. Correr para dentro de uma banheira segura e procurar abrigo. Desejei não estar passando por isso. Melhor, na verdade senti que não precisava estar passando por nada daquilo. Não tinha um relacionamento dos sonhos, era uma mulher independente, profissionalmente realizada, pra que eu precisava me desesperar com a opinião de outras pessoas sobre meus erros? Talvez, devesse considerar seus sentimentos visto que uma união civil nos selava. Mas nesse caso, pela falta de amor, esse senso me faltava.

Aproximei-me até seu lado e ele me olhou, profundamente, ainda com a mão segurando a folha no ar.

_É isso mesmo, estou grávida. _ disse-lhe e, ao dizer, senti o que deveria sentir, pena dele e vergonha de mim.

_Você sabe que isso não é possível, né?

Sim, era possível, óbvio. Sou uma mulher fértil, jovem, saudável. Mas, Hugo se referia ao fato de não ser possível o filho ser seu.

_É. _ foi só o que consegui pronunciar.

Ele deu dois passos a frente e falou bem perto do meu ouvido com uma voz fria e grave. Eu esperei que jogasse meu computador, minhas roupas e sapatos pela janela, que me arrastasse pelos cabelos e batesse minha cabeça na parede, que me empurrasse escada a baixo, que gritasse para o mundo inteiro ouvir que eu era uma qualquer. Eu esperava reações impulsivas e passionais. Mas, Hugo, já era um cinqüentão vivido. Desses que não perdem mais tempo e energia com desgastes. Só que sua experiência lhe permitia ser mais cruel do que eu imaginava:

_Já que você sujava a minha cama na minha ausência com qualquer homem, você tem o direito de pegar suas roupas e voltar pra sarjeta de onde te tirei. Lá, pode ter seu filho. Espero que ainda saiba fazer o que fazia pra ganhar as coisas caras que usava, porque acho que não tem mais esse pendor. E, depois que a criança nascer, provavelmente, só ficará o resto, um monte de pelancas amorfas caídas.

Ele amassou a folha do exame e deixou caída no chão.

Eu estava trêmula e com o choro engolido quando ele olhou novamente nos meus olhos:

_Você tem vinte minutos, porque quando eu voltar, não quero olhar sua cara dissimulada.

Hugo virou as costas e saiu.

Não sei se aquilo era um princípio de infarto, mas, meu coração bateu tão dolorido no peito que julguei que fosse a morte vindo. Sentei no sofá sem forças pra qualquer reação. Fora um golpe, mas eu sobrevivera. O celular no meu bolso me lembrou que havia ainda uma pessoa com quem contar.

Disquei o número de Luis e ele não demorou muito pra atender.

_Oi. _ falou do outro lado, animadamente.

Lembrei da oferta que fizera em sua casa pra me ajudar.

_Preciso de você. _ falei.

_O que houve?

_Ele descobriu tudo, tenho que sair de casa agora. Não sei pra onde ir...

_Comece a arrumar suas coisas que passo aí. Me dá seu endereço.

Ditei pra ele e depois desliguei. Tentei arrumar tudo o mais rápido possível. Limpei o guarda-roupa e a pia do banheiro. Gritei para a empregada Sônia liberar a entrada de Luis na portaria e pedi que ela me ajudasse a descer com minhas pastas e livros de trabalho. Logo o carro de Luis ficou completamente cheio. Voltei pra buscar a última bolsa de sapatos e meu cachorro subiu em cima de mim.

_Pega o saco de ração dele. _ pedi pra Sônia que subira comigo.

_Vai levá-lo? _ perguntou. _ Seu Hugo gosta muito dele.

_Não mais do que gostava de mim, o que não significa muita coisa. Rick não vai ficar aqui sozinho esperando longas semanas até que Hugo volte de viagem pra lhe dar carinho. _ acariciei o pêlo dele e descemos pelo elevador de serviço.

_Vou ter que levar mais alguém. _ anunciei pra Luis.

_Ah! Ela já falou de você, amigão. _ Luis passou a mão na cabeça de Rick que colocou as patas em sua barriga.

_Dona Priscila... _ Sônia segurou meu braço, antes que eu entrasse no carro. _ Eu acho que está fazendo a coisa certa. Eu via a senhora tão triste aqui. Vai lá e seja feliz. _ aconselhou.

_Obrigada, querida. _ abracei-a. Ela atrás de todas as portas assistiu anos de minha vida.

Entrei no carro e me senti melhor. O porteiro perguntou sorrindo se eu iria viajar. Disse que sim, que iria. Fechei o vidro insulfilmado. Era uma longa viagem pra a nova vida. Não iria voltar para o subúrbio e ser uma patricinha, pobre, cafona, que dá em cima dos ricos, porque eu soubera muito bem aproveitar as oportunidades que se abriram. Aprendi a andar entre as pessoas importantes e fiz minha carreira. Agora eu podia voar mais alto e, não, aterrissar.

_Isso é parte do mundo novo que eu preciso construir. _ falei pra Luis.

_Eu não disse que tinha forças?

_Pensei que não tivesse.

_Por mais que a gente esteja lá no fim, sempre há uma fonte de forças dentro da gente que se renova. _ falou de uma maneira que dava a entender que já passara por algo tão dramático quanto.

_Eu pensei em ir pra algum hotel, enquanto não arrumasse uma casa pra alugar.

_Então, eu tenho um ótimo lugar. _ falou.

Algum tempo depois, subíamos uma elevação que dava pra sua casa.

_Ah! Não, Luis, não posso aceitar.

_Eu não estou te dando, então, não tem que aceitar. Eu estou te emprestando, enquanto você não aluga uma. _ falou e abriu pelo pequeno controle o portão pra entrar.

Quando ele desligou o carro eu disse que nunca poderia retribuir.

_Faz muitos anos que eu queria fazer isso. _ confessou e saiu do carro.

Sai também e perguntei o que queria dizer. Ele já estava abrindo o porta-malas quando respondeu:

_Há muito tempo eu queria estar perto de você. Não sob essas circunstâncias, mas, a vida não nos dá escolha sobre elas, apenas temos que saber aproveitá-las.

_Como assim aproveitá-las? _ irritei-me e coloquei as mãos na cintura.

Luis largou algumas malas no chão gramado e deu dois passos até mim:

_A chance de aproveitar o momento pra que veja que não sou uma pessoa ruim... _ falou com uma voz amável e paciente. _ ... a chance de te ajudar a tomar um rumo novo e ser a parte inicial de uma história que vai querer lembrar, a chance de ficar mais perto de você.

Abaixei os olhos e senti vergonha por ter mostrado que tinha interpretado mal.

_E a chance de ver mais uma vez sua cara de brava! E de advogada que não sabe interpretar as coisas... _ alfinetou brincalhão.

_Ah! Seu... _ puxei seu braço pela camisa social e ele, rindo, se virou. _ Advogadozinho petulante!

_Petulante?! _ pegou facilmente meu pulso e colocou pra trás de mim. _ Quem perdeu os dois últimos processos?

_Não é hora pra competir... _ falei-lhe.

_Tudo bem. Mas, os dois anteriores eu deixei você ganhar.

_Ahhhh! _ foi minha vez de pegá-lo pelos braços. _ Muito convencido!

Luis não rebateu, sorriu, feliz de ter conquistado a reação que queria e se pôs a admirar minha irritação. Eu sorri também e senti uma agradável sensação de estar confortável ao seu lado. Uma energia boa emanava dele. Eu tinha dado uma reviravolta há poucas horas na minha vida e agora estava sorrindo por sua causa. Ele sorria com seus dentes brancos e os olhos de longos cílios estavam apertados e brilhantes.

_Quando você ligou e disse que precisava de mim, corri feito um louco. Até esqueci uma pasta no trabalho e vou ter que voltar pra buscar. _ contou.

_Obrigada, mais uma vez e sempre...

_Você existir é o melhor agradecimento.

_Os advogados não são confiáveis.

_Eu não estou advogando agora. _ Luis olhou pra minha boca e depois direto para os meus olhos.

_Como vou saber?

_Vai saber, você também é uma. _ piscou e voltou a tirar as malas do carro.

Eu sorri e balancei a cabeça para os lados. Abri a porta de trás e deixei Rick sair. Ele correu pelo gramado.

_É, parece que ele precisava de espaço. _ Luis observou. _ E essa casa sempre precisou de um cachorro. Quem sabe não estava esperando por ele, assim como eu também esperava por você?

_É só por um tempo.

_Eu não posso dizer o mesmo. _ ele pegou duas malas e começou a carregar em direção a casa branca de dois andares com telhado vermelho.

Olhei-o de longe e me perguntei se tudo aquilo acontecia mesmo. Eu não parecia merecer, mas já agradecia.

12.1.09

Cap 20: O mundo que posso oferecer (Priscila)

Cheguei em casa com uma sensação de que cedo ou tarde ali não seria mais o meu lugar. Não que eu tivesse planejado revelar tudo a Priscila, meu marido ou mais ninguém. Mas, havia lá no fundo um pressentimento de que uma hora eu teria que pagar o preço de ter cometido o erro de ter um caso com Marcelo.

Na porta, aos pulos, meu cachorro Rick veio me receber com muita alegria e lambidas. Estava quase da minha altura quando ficava de pé. Tranquei a porta e sentei-me no sofá com sua companhia inseparável. Passei a mão em sua cabeça e refleti sobre como os cães não precisam de muita coisa pra ser feliz, nem julgam seus donos. Eu seria sempre sua amiga, apesar de qualquer besteira que eu cometesse. Ao chegar essa conclusão, lembrei de Luis. Ele não acharia graça que eu o comparasse com um cachorro, mas o fato é que suas atitudes foram surpreendentes. Não podia imaginar nem no meu mais louco sonho que aquele homem que sempre era osso duro de roer nos tribunais fosse a pessoa que hoje guardasse todos os meus segredos.

Abri minha bolsa e tirei um envelope branco, tamanho A4, que estava dobrado ao meio. Puxei de dentro o exame e o olhei por um tempo. Não faltava mais nada pra acreditar, dera positivo nos testes da farmácia e agora ali estava minunciosamente ratificado que eu esperava um filho. Mas, em mim faltava, na verdade, coragem. Abaixei a cabeça e a encostei na de Rick. Chorei. Ele ficou quieto, sem se mexer. Apesar de animais, os bichos sentem a tristeza do dono. Rick subiu no sofá e sentou-se por cima do meu colo, abaixando a cabeça. Era sua forma de abraço, de dizer que estava comigo. Acariciei seu pêlo e respirei fundo.

Ouvi um barulho de celular na minha bolsa. Desejei lá no fundo que fosse Luis. Não haveria motivos pra ele me ligar. Mas, era ele e fiquei muito feliz, sem saber por quê:

_Oi. _ atendi.

_É o Luis.

_Eu sei. Os identificadores de celular servem pra isso... _ falei com uma voz desanimada.

_O que está fazendo?

_Me ligou pra saber isso? _ perguntei desafiadora.

_Eu pensei em outras desculpas, mas não sou bom nisso. Então...?

_Estou agora com o exame na mão. Positivo como eu já tinha quase certeza...

_E como está? _ quis saber.

_Totalmente fora do eixo.

_Podemos conversar?

_Não estamos?

_Telefone não são conversas. _ explicou. Ouvi barulho de teclado, o imaginei em seu escritório de trabalho com o aparelho apertado entre o ouvido e o ombro, mas bem podia estar em casa, de roupa esporte, sentado com o laptop no colo. _ Telefone tem urgência nas respostas, não permite o silêncio. Sem contar que perde o principal que é poder te ver.

_Não conhecia seu lado filósofo e profundo, sempre é tão prático e racional nos tribunais.

_Isso porque não me conhece, apenas tem uma idéia sobre o Luis inimigo de processos.

Era a primeira vez que ele assumia abertamente que tínhamos uma rincha, mas me pareceu até engraçado ouvir isso de sua boca.

Eu ri e ele quis saber por quê. Tentei disfarçar que não era nada, mas ele insistiu.

_É uma coisa ridícula.

_Tudo bem, mas ridículo é eu não poder saber, anda...

_Eu só lembrei de um detalhe. Tudo começou com Marcelo assim, num dia que ele me ligou e eu estava em casa sozinha e ficamos falando amistosamente. Senti uma sensação de já ter passado por isso.

_Ah! Não se preocupe, não vai passar por isso de novo, nem eu vou te engravidar, não daqui uns 9 meses. _ riu. _ Estou só brincando, tá? _ ponderou.

_Tudo bem. _ respondi com um sorriso que só eu podia saber que dava. Um sorriso de encantamento. Talvez era isso que ele queria ver na tal conversa ao vivo.

_E você? O que está fazendo?

_Ainda no trabalho, lendo um processo cabeludo, tentando salvar minha cliente de uma encrenca das boas e garantir com isso o pagamento da padaria e do supermercado no fim do mês.

Luis com aquela casa e aquele carro não parecia ser uma pessoa que pensava nas contas do arroz com feijão, mas com essa entonação brincalhona e simples me fez vê-lo mais humano.

_E por que eu no meio disso? _ perguntei, sabendo que não deveria ter perguntado, mas já era.

_Porque era hora do recreio.

_Nossa! O que quer dizer com isso, que eu sou o lanchinho? _ ri alto e meu cachorro latiu, feliz por eu ter recuperado meu humor.

_Que isso? _ Luis perguntou.

_Meu cachorro. _ respondi e me levantei pra ir à geladeira e pegar alguma coisa pra beber.

_Já tive um também. _ contou.

_É o melhor amigo do homem. Ele sabe quando está feliz ou triste e sempre te recebe na porta com a mesma alegria. Posso falar pra ele todas as coisas que ele não vai me condenar. Pensando por esse lado, isso é o amor, a gente não esconder nada e não deixar de dividir nada com alguém. _ teorizei.

_Nesse caso os amigos também podem se amar. _ completou.

_Podem, mas isso não tem o lado carnal que é inerente a paixão e etc...

_Isso vem como tempo, é natural e escrito desde sempre ou pode acontecer várias vezes? _ perguntou.

_Não busco muitas explicações para o que sinto, simplesmente sinto, vivo, curto e pronto. O que as pessoas vão pensar, achar, julgar é problema delas e do recalque delas. Se vou ter que arder no mármore do inferno é uma coisa que não me importo muito. Essa coisa de perseguição, peso na consciência e tudo mais é algo que não rola muito na minha cabeça. Simplesmente faço o que sinto impulso. Mas, tudo isso que acabei de falar não aconselho a ninguém porque em um dado momento chega a conta em casa para pagar.

_Seu filho não é uma conta pra pagar. _ falou seriamente.

_Desculpe, ainda não consegui lidar com nada disso. _ respondi, mesmo sem ter que dar desculpas a ninguém, falei antes de raciocinar o que estava fazendo. _ Estava lendo o jornal ontem. Viu a manchete sobre as crianças, na guerra no Oriente Médio? Todas com bonecos ensangüentados protestando contra a morte de seus pais e familiares. Que mundo é esse que vou ofercer? Eu fui uma mãe que teve um relacionamento extra-conjugal com o marido da minha amiga por puro desejo. O pai morreu de overdose sozinho em uma cama redonda de motel.

_ Você pode abortar, não é tão livre de consciência pra fazer o que quiser? _ aquela sugestão com fundo irônico era um teste pra saber até onde eu iria, mas eu tinha certeza que não era o que Luis apoiava.

_Eu já fiz coisas erradas demais na minha vida, não quero que no meu julgamento final leiam: “E ela matou com um fórceps pedacinho por pedacinho o próprio filho que já tinha braços e pernas”.

_Mas, não era você que não pensava em julgamentos? _ insistiu em me fazer cair nas próprias palavras como um ótimo advogado que não deixava de ser.

_Ok, agora penso nisso dia e noite como um tormento.

_Uma vez li um livro... _ Luis começou a falar com uma voz suave, dando trégua ao duelo que parecia ter se iniciado. _... não me pergunte o nome porque não lembro, faz muito tempo mesmo. O personagem principal estava sentado em cima de uma elevação e uma menina perguntava pra ele o que era o mundo. Ele respondia que o mundo era até onde ele poderia ver.

_Legal. _ comentei, esperando que ele explicasse onde queria chegar.

_Seu filho não vai morar no Oriente Médio como aquelas criancinhas, nem vai passar fome na seca do nordeste ou ter que pescar pra sobreviver no rio Amazonas. O mundo dele será a poucos quilômetros ao redor da própria casa. A mãe dele pode ser uma pessoa linda, doce, inteligente, carinhosa, amiga, sábia, experiente. O pai pode ser uma bonita foto na estante com memórias boas que você contar. O mundo dele pode ser maravilhoso, com seu cachorro correndo por um campo ao lado dele, ou brincando de subir em árvores. Depende do que pode oferecer a ele. O mundo dele é você, Priscila. Desde já, o mundo dele é a esfera do seu útero. A sua existência é o mundo dele. E a nossa existência pode mudar radicalmente, se a gente quiser.

Eu fiquei emudecida. Nunca tinha esperado ouvir aquilo. Luis era uma pessoa extremamente sábia e sensível. Não me sentia merecedora de tanta atenção e tempo que me dedicava. Meu alívio era saber que ele fazia aquilo mesmo sabendo quem eu era, eu não teria depois que ver seus olhos de arrependimento por nada.

_É como disse, minha existência será o mundo dele. Mas a minha existência é algo que não é de se oferecer.

_Mas, eu também disse que pode mudar.

_Só que faltam forças.

_Vai precisar ter. Se precisar de ajuda, meu número já está no seu identificador de chamadas. _ brincou.

Ouvi um barulho de chaves. Falei com Luis que precisava desligar. Voltei pelo corredor e, na entrada da sala vi meu marido com três malas ao seu lado. Ainda falei algumas palavras de boas vindas, mas minha voz travou quando notei o papel do exame em suas mãos.

10.1.09

Cap. 20 Em suas mãos (Priscila)

Ainda conversava com Luis, na varanda, quando senti um enjôo forte. Levei a mão a boca.

_O que houve? _ perguntou. _ Está tudo bem?

_Não sei... Acho que o que comi não me fez bem...

_Venha, vamos entrar, tomar um copo d’água.

Quando recebi o copo das mãos da empregada de Luis nem tive tempo de beber, vomitei todo o café da manhã entre os pés dos dois. Eu não consegui encará-los de vergonha. A força que precisei para jogar tudo aquilo para fora fez meus olhos lacrimejarem.

_Calma, calma... _ Luis afastou meu cabelo para trás.

_Que vergonha! Que horror... _ desesperei-me com a situação.

_Qual é? Nunca tomou um porre e ficou de ressaca? _ ele riu.

A empregada foi até a cozinha e voltou com um balde e um pano.

_Desculpe, quer ajuda? _ me ofereci. Não queria que aquela pobre mulher me olhasse como uma dondoca que sai pra beber e no dia seguinte faz vexame.

_Que isso, senhora. Tem um banheiro ali no corredor... _ indicou.

_Obrigada...

Caminhei até lá e lavei minha boca. Ao sair, encontrei Luis de braços cruzados na sala, à minha espera.

Voltei muito sem jeito. As coisas estavam indo longe demais. Era só pra ser uma festa e agora eu já estava dividindo aquela situação delicada! Mas, Luis não parecia ligar muito pra isso. Perguntou como eu me sentia e respondi que melhor.

_Eu preciso ir. _ anunciei.

_Agora? Nem pensar! _ franziu a testa e balançou a cabeça para os lados.

_É sério, tenho que ir.

_Tudo bem, só espere mais alguns minutos. _ pediu.

_Pra quê?

_Só pra ter certeza que ficou bem. _ falou transparecendo que era só um pretexto pra eu não partir.

Suspirei e sentei-me no sofá. Não estava mesmo com vontade de ir pra lugar nenhum.

_Se não tivesse bebido chegaria a pensar que... _ falei baixinho.

_Que estaria grávida? _ completou rapidamente, revelando que também havia pensado na hipótese.

Eu ri da idéia. Mas, depois, fiquei em silêncio. Virei lentamente o pulso até que pudesse ver que dia marcava o meu relógio.

_Priscila, tudo bem? _ Luis tocou no meu braço, visto que eu mergulhara numa bolha de pensamento longo, solitário e aflitante.

_Isso não aconteceria comigo, aconteceria? _ ri, nervosa, mas agora já não tendo tanta certeza que aquilo fora só por causa de umas doses a mais de bebida. Eu estava uma semana atrasada nas minhas contas.

_Você está com dúvidas? _ perguntou com insegurança na voz, Luis também imaginava o quão isso poderia ser demolidor na minha vida, naquelas circunstâncias.

_Não lembro se... _ cocei a testa e interrompi aquele pensamento. _ Isso não aconteceria comigo. _ respondi com enfatidão para continuar sob o controle da situação e não perder a cabeça.

_Podemos resolver isso rápido. Quer que eu ligue para a farmácia? _ ofereceu-se.

_Eu não quero saber. _ levantei-me, nervosa e fui até a porta de vidro que dava pra sala. Abracei-me em desamparo.

_Mas, pensa, se souber que está tudo bem não ficará nervosa sem necessidade. _ tentou me fazer ver por esse lado positivo.

_E, se isso não acontecer? _ virei-me pra olhá-lo. _ Eu vou querer me matar aqui mesmo. _ falei sem deixar de transparecer que estava realmente com medo.

_E a herança fica toda pra mim? _ ele riu amistosamente tentando quebrar o clima pesado que se institui entre nós. Aproximou-se até ficar muito perto, ainda mantendo o lindo sorriso branco. Se não fosse todo nosso passado de disputa eu poderia até chamá-lo de amigo.

_Estou com medo. _ confessei baixinho, confiando a ele aquele momento mais delicado da minha vida. Aliás, eu estava inteira em suas mãos: o cd, afinal, estava com ele.

_Que nada. _ ele pegou o celular e ligou pra uma farmácia.

Eu disse baixinho que não queria, mas Luis não deu ouvidos e pediu dois testes diferentes de gravidez. Virei-me para o lado, nem querendo ouvi-lo fazer esse pedido. Só a possibilidade já me causava pânico.

_Você está certo, é bobeira minha, eu bebi ontem, bebi tanto que apaguei...

_Priscila, não custa a gente ter certeza. Agora se acalme.

_A gente? _ sorri.

_Ora, não está aqui comigo? _ perguntou como se aquilo fosse corriqueiro e lógico.

_Eu sinto que ainda vou acordar, isso não está acontecendo...

Voltei para o sofá e deitei a cabeça para trás no encosto. Ele tentou puxar algum assunto, mas pedi que, por favor, não falasse nada. Eu estava tensa demais para prestar atenção em qualquer coisa. Se o fato fosse comprovado eu definitivamente estaria sendo punida por todas as gerações.

Não sei se a farmácia demorou para entregar ou se os minutos foram intermináveis. Mas, quando chegou, eu não queria começar aquele ritual. Não tinha forças.

_Tem alguma tesoura ali dentro? _ perguntei em frente ao banheiro. _Se tiver, tira porque eu posso cortar meus pulsos. _ ironizei.

_Sem drama, vai dar negativo. _ ele me incentivou, tentando fazer pouco caso.

Respirei fundo. Fechei a porta e peguei as duas caixas. Minhas mãos estavam frias e trêmulas quando abri. Cinco minutos depois, Luis começou a bater na porta. Abri.

_E aí?

_Não tive coragem. _ respondi.

_Vai ficar sofrendo à toa? _ irritou-se por eu ter feito corpo mole enquanto estava lá fora ansioso pra saber logo o resultado e acabar com aquela angustia.

_Não entende? Se eu estiver grávida do Marcelo... _ me engasguei no meu próprio pânico. _... eu vou ter um filho de um morto! E vou carregar isso...

_Priscila, Priscila, olha pra mim... _ segurou meus braços com firmeza. _ Primeiro faz o teste, depois resolvemos isso, ok? _ disse com seu conhecido tom seguro de advogado que pode recorrer a qualquer caso.

_Tudo bem. _ engoli em seco.

_Só não tranca a porta. _ pediu apontando com o indicador pra mim. Ele já não desacreditava que eu procuraria alguma tesoura.

Obedeci. Eu de fato era capaz de desmaiar se soubesse que estava grávida. Meus órgãos parariam de funcionar, meu coração explodiria as veias, eu, eu...

Limpei o suor da testa. Só precisava de algumas gotas em cima da haste que segurava com as mãos frias.

Quando abri novamente a porta do banheiro, encontrei Luis ainda ali. Braços cruzados. Entre a parede do corredor e a porta, na espera. Não falei nada, nem fiz menção a qualquer gesto. Ele entendeu e me puxou para si rapidamente. Meus braços continuaram caídos e mortos ao longo do meu corpo e a boca entreaberta sobre seu ombro.

_Eu estou com você. _afagou o meu cabelo.

Não era real aquilo, só podia ser muita ironia. Eu estava completamente sozinha no mundo e só existia meu maior inimigo pra me amparar e compartilhar meu pior e maior segredo. Agora, além de tudo isso, o momento mais difícil de toda minha vida passava em seus braços.

Lembrei-me do que me contara sobre ele me conhecer desde o colégio. Devia estar passando um filme em sua cabeça. A menina com quem disputava atenção nas aulas de direito e depois a mulher contra quem brigava nos tribunais estava ali em desamparo no seu ombro. O que aquilo significava? Uma vitória? Eu preferia acreditar que não era parte de qualquer jogo.

Voltei a me sentar no sofá, muda, completamente sem ação. Meu mundo estava parado, sem orbitar, catatônico. Mas, Luis, me tirou do torpor com a fatídica pergunta:

_O que vai fazer?

_Não é você que sempre tem respostas pra tudo? _ falei em tom baixo.

Pensei que entraria em uma histeria muito maior, mas até que eu estava calma. De alguma maneira eu merecia e desejava um castigo por tudo.

_Você ainda tem um marido.

_Quer que diga pra ele que esse filho é dele?

_Não pode ser?

_Não. Pelo tempo, não... _ balancei a cabeça para os lados.

_Quer fugir? _ perguntou como faria qualquer adolescente de 17 anos.

_Quero. _ respondi, desejando poder ter tal irresponsabilidade.

Luis sorriu um sorriso pequeno, sabia que não tinha direito de brincar muito com aquele meu atual grande dilema.

_Mas o que faria com meu mundo? _ perguntei.

_Ele já não está bom mesmo. _ lembrou-me.

_É, eu bem que jogaria fora. _ olhei pra baixo. _ Na verdade, gostaria de consertá-lo.

_Isso não vai ser possível. No máximo poderá deixar as coisas vir à tona e respirar mais sossegada na superfície.

_Respirar. Sabe que essa é uma coisa que não sinto desde que aqueles policiais bateram na minha porta pra contar que Marcelo estava morto? É como se eu tivesse prendido a respiração até agora.

_Mas, esse filho não foi resultado de um ato desprezível, muito pelo contrário, foi feito com tanta paixão...

_... e erro. _ completei.

_Não se pode dar crédito de bem o mal aos sentimentos, eles simplesmente existem em potência, os julgamentos são culpa nossa.

_Você sempre foi bom nas aulas de filosofia.

_Pensei que não se lembrasse de mim.

_Sim, lembrei... Quem diria. _ levantei-me. _ Aqui estou eu, a chata que você implicava e depois sua vilã... _ abri os braços no ar, rendida, de lágrimas nos olhos. _... Em suas mãos, totalmente errada...

Luis levantou-se.

_Você nunca esteve em minhas mãos. _ consertou. _ Mas, se quiser estar...

Coloquei os polegares nos bolsos da calça e semi-fechei os olhos, querendo entender onde gostaria de chegar.

_... Pode contar comigo. _ Ele completou.

Eu tinha que pegar minha bolsa e logo, antes que me apaixonasse.

7.1.09

Cap 19. Acordando para surpresas do passado (Priscila)

Acordei entre lençóis, almofadas, um cheiro bom de lavanda. Abri melhor os olhos e percebi que não estava na minha cama. Levantei o corpo e sob os cotovelos me vi ainda no vestido de festa, sem as sandálias, essas ao lado da cama. Onde eu estava? Luis, Luis, esse nome me veio à cabeça como todas as respostas e eu tive muito medo do que isso poderia significar.

Ouvi um barulho na porta que deveria ser o banheiro.

_Como eu vim parar aqui, hen? _ perguntei. _ Você colocou o quê na minha bebida?

Uma mulher com avental branco apareceu na porta.

_Desculpe, acordei a senhora?

_Ohh... Ãnh... Não.

_Hum. Eu falei pro seu Luis que era melhor eu deixar isso pra depois, mas ele insistiu que eu viesse organizar o banheiro para quando acordasse...

_Tudo bem.

_Eu vou descer pra preparar o seu café da manhã.

_Não precisa se preocupar. _ disse-lhe. _ Eu já estou indo embora.

_De maneira nenhuma, eu vou fazer o melhor café que já tomou! _ saiu.

Levei as mãos ao rosto.

_O que está fazendo, o que está fazendo... ?_ mordi a boca e respirei profundamente.

A cortina estava aberta e mostrava uma porta de vidro que dava para uma sacada. Era possível ver dali um grande jardim verde com flores e árvores. Aquela casa não tinha cara de ser de um jovem advogado, mas herança de uma família tradicional. Os móveis eram antigos, rústicos, mas muito bonitos. Havia até uma lareira à frente da cama. Aquele tinha cara de ser o quarto principal.

Levantei-me e senti o quanto estava com vontade de fazer xixi. Lavei o rosto e dei um nó no cabelo. Peguei as sandálias e desci às escadas que davam em uma sala muito grande. A empregada arrumava a mesa oval com o café da manhã que tanto prometera.

_O seu Luis está no escritório. _ indicou. _ Está em um telefonema, já falei que a senhora acordou.

_Ãnh... _ olhei pra frente e o vi em uma sala andando de um lado para o outro. Estava de jeans azul clara e blusa verde limão.

_Sente-se. _ a mulher pediu.

_Tá. _ sentei e fiquei sem graça, passei a mão no pescoço, abaixo da nuca.

_Ele acordou com os passarinhos e cantando também. _ ela comentou.

_Quem?

_Como quem? Quem mora nessa casa?

_O Luis mora aqui sozinho?

_Não sabia?

_Hum... Não.

_Sim, os pais estão aposentados e vivem por aí viajando a passeio.

_Entendo. _ bebi o café.

_E por que ele acordou cantando?

_Com licença. _ pediu quando que Luis se aproximava. Ele deixou o telefone sem fio em cima de um aparador da sala e veio sorrindo até mim.

Podia acreditar por quase um segundo que estava feliz em me ver, mas, lembrei que não era bom confiar na lábia de outro advogado.

_Como vim parar aqui?

_Com suas pernas. _ ele respondeu e achei que estava se divertindo.

_E por que não lembro?

_Por que sua cabeça não estava muito boa...

_Está dizendo que eu bebi, apaguei e você me arrastou pra cá?

_Não era bem essa visão que eu queria passar, mas se prefere encarar assim... _ encolheu os ombros.

_Tem alguma câmera aqui filmando a minha vergonha?

Ele sentou-se e pegou uma torrada.

_Dormiu bem como nunca, né?

_O que colocou na minha bebida?!

_Nada. Você só dormiu e pronto...

_Eu não confio em você!

_Não foi o que pareceu quando ontem eu te livrei de ser comida pelo lobo mal.

_O que está querendo dizer?!

_Que fez uma cara de mocinha feliz e resgatada.

_Eu não tenho que ouvir isso. _ levantei para não dar o braço a torcer.

Luis segurou-me pelo punho.

_Come alguma coisa. _ falou sério.

Sentei-me e tomei uma xícara de café.

_Nunca dormi tanto... _ confessei baixinho, olhando para os meus polegares sobre a alça da xícara.

_Eu sei.

_Como sabe?

_Não se preocupe, dormi aqui no outro quarto.

_Hum.

Luis levantou-se e foi até a varanda de fora da casa. Segui-o. Sentei-me também e um grande sofá de balanço. Ficamos ali em silêncio. Eu não queria mais saber o que Luis tinha colocado na minha bebida. Eu realmente estava precisando apagar, fugir, deletar por um tempo os medos e fantasmas da minha cabeça.

_As coisas tomaram uma proporção mastodonte! _ balancei a cabeça para os lados e continuei olhando para o gramado verde e brilhante. _ Marcelo deixou sua herança para mim. Toda a herança. _ confessei.

_Como? E a sua amiga. Ela era esposa dele! _ Luis franziu a testa.

_Eles casaram com separação de bens. Marcelo já era rico muito antes... _ estalei os dedos para indicar o tempo passado. _ Tudo que tinha foi herdado da família dele. Acho que a única coisa que adquiriu de fato depois do casamento foram os dois carrões que exibia. Mesmo assim, estavam em seu nome. O que Andy ganhava servia para comprar suas roupas e sapatos. É tudo que ela tem agora.

_Mas, porque Andy casou com ele nessas condições?

_Ela queria estar com um cara bonitão, cheio da grana e ter uma vida confortável. Era pedir demais que ele acreditasse em seu amor. Os dois sabiam no fundo em que condições casavam. Era uma ótima conveniência. E se não desse certo, ela caia fora com uma mão na frente e outra atrás, enquanto Marcelo ficava com tudo que sempre fora seu por direito e conquista.

_Era a melhor maneira de prendê-la. Só com o marido ela desfrutaria de seus bens. A lei é muito clara, se tudo isso era dele antes do casamento e, ainda por cima, casaram com separação de bens, ela não tem para onde ir agora.

_Como assim? Eu não vou pegar nada do que é dela. Se pudesse, nunca teria me metido com aquele homem. Foi uma burrice que só percebi depois. Pura aventura. Não vou prejudicar a minha amiga. Ela tolerou muita coisa e agora merece os bens.

_Parece que valeu a pena perder tantos dias de uma vida por dinheiro. _ concluiu.

_Não é bem assim, nem o que quis dizer... Deixa, não vai entender.

_E para você? Valeu a pena? _ perguntou.

_A que se refere?

_O seu casamento. _ respondeu.

_Por que a pergunta?

_É muito diferente disso?

_Só muda o andar e o número do apartamento. _ engoli em seco e o olhei. _ Você deve me achar um monstro. _ sorri da ironia de eu estar ali preocupada com sua opinião.

_Só uma pessoa que gostasse muito de uma amiga conseguiria dar conta de tudo para ela. Você cuidou do enterro, da imprensa, da recuperação dela... Acha isso pouco? Por isso, eu não te vejo como um monstro, mas um ser humano... _ encolheu os ombros e depois esticou o braço esquerdo para afastar o meu cabelo do ombro, colocou para trás. Senti seus dedos deslizando pela pele, provocando um leve arrepio. _ Você é muito complexa de se entender... _ riu. _... Não liga a mínima para as convenções sociais por um lado. Fica com outros caras, azara todas, quebra todas as regras para viver intensamente. Mas, por outro lado, se agarrou a uma instituição formal que é o casamento e não se solta dele por nada. É sua segurança voltar para aquela mesma vidinha conservadora!

_Eu sou uma fraca, então... _ falei com sarcasmo.

_Você é um perfil de bibliografia que está sempre entre os lançamentos nas livrarias. Aquela mulher que viveu tudo loucamente, mas morreu triste, ou só, ou drogada, ou na sarjeta, no ostracismo, você busca a própria destruição só por duvidar dela.

_Vou virar freira, é isso!

_Falta a você amar.

Olhei-o fixamente, não esperava ouvir aquilo. Entreabri os lábios para respirar.

_Quando as pessoas procuram muitas coisas é porque está faltando amor. O amor preenche quase tudo. Só ele te faria obedecer a todas as convenções sociais naturalmente.

_E quem iria querer me amar? Digo, a mim, e não a todos os personagens que sou capaz de inventar?

_Quem te conhece desde o princípio. _ ele se levantou, colocou as mãos no bolso da calça jeans, caminhei cinco passos e se escorou na coluna cilíndrica da entrada principal da varanda e cruzou uma perna sobre a outra. Parecia me admirar melhor ali, de longe.

Levantei também e fiquei em sua frente, apoiada na outra coluna.

_Eu te conheço desde a faculdade sabia? Estudamos juntos. _ disse-me.

_Quê? _ dei um gritinho e, depois, ri.

_É. _ ele riu também e tirou as mãos do bolso para gesticular. _ Eu não devia estar te contando isso. Mas, nossas competições começaram naquelas aulas do professor Venâncio. Fazíamos umas simulações de defesa e você sempre acabava comigo!

_O quê? Jura, não lembro... _ ri e franzi a testa estupefata. Naturalmente nós dois nos desencostamos da pilastra e nos aproximamos mais.

_Mas, eu prometi para mim mesmo que ficaria bom o suficiente para abaixar essa sua petulância irritante.

_Eu? Petulante? _ segurei sua blusa na altura da cintura.

Ele riu e abaixou a cabeça, tímido, desarmado, frágil, como aquele garoto que a lembrança aos poucos me trazia mais clara à memória.

_Meu Deus, não posso acreditar. _ sorri, balançando a cabeça para os lados.

_Seu primeiro grande sorriso do dia. _ comentou.

_Não sabia que a gente se conhecia há tanto tempo.

_Eu te sigo quase por instinto, quando vejo, querendo, não querendo, estou perto.

_Luis, me dá o CD, por favor?

_Farei isso.

_Quando?

_A única certeza é que, ao contrário de todo mundo, eu nunca vou te fazer mal.

_É quase incoerente acreditar pelo nosso histórico, mas acredito.