24.12.08

Cap 17. O paradeiro do CD (Priscila)

Pedi para me anunciarem para o Luis. Balancei o pé de nervoso. Não acreditava que estava ali o procurando. Já podia imaginar sua cara franzindo de surpresa ao ouvir que eu queria falar com ele.

Subi pelo elevador e sua secretária abriu a porta para mim.

Ele não se levantou, olhou-me sério, depois, formou-se uma curva no canto da boca, um quase riso de ironia. Esticou a mão e indicou que eu sentasse.

_Você deve saber por que estou aqui. _ falei-lhe.

_Se for para pedir que eu desista do caso do hotel que está sendo construído na frente de um condomínio na Beira Mar...

_Não seja ridículo.

_Eu soube que te tiraram do caso. _ comentou e balançou a cabeça para os lados.

_Os acontecimentos me deixaram sem tempo, eu mesma pedi para sair.

_Entendo... Então?

_Como, então? Você acha que eu sou idiota?! Você sabia que eu tinha me encontrado com Marcelo em Nova Iorque.

_Eu não falei nada para ninguém, falei?

_Eu sempre me perguntei até quando guardaria esse segredo! Agora sei que você está prestes a fechar tudo com chave de ouro!

_Nunca te vi tão descontrolada! E olha que ficamos frente a frente no tribunal como quem marca partidas de tênis.

_Luis, eu quero saber do CD. Estou disposta a fazer o que quiser por ele.

_O que eu quiser? _ perguntou.

Engoli em seco.

_Eu sabia que era você! Não precisei nem subornar aquele estúpido segurança do Motel!

_Então, você está nas minhas mãos.

_Eu posso já imaginar o quão horrível isso pode significar.

_Bom, vamos começar com a “entrada” na nossa negociação. _ ele pegou um envelope na sua gaveta e levantou-se. Deu a volta na mesa e inclinou-se para falar perto do meu ouvido. _ E olha que isso não é trocadilho. Entradas para um show particular que vai ter na empresa de um cliente.

_Eu quero o CD e você vai me dar essas entradas?

_Acho que está muito tempo afastada do seu trabalho porque isso está afetando a velocidade do seu raciocínio. A entrada é para ir comigo.

_Eu não quero! _ levantei-me e fiquei de costas para a mesa. _ Eu quero o CD.

_Vai ter. Comece procurando um vestido bem sexy.

A secretária bateu na porta e disse que ele estava atrasado para uma reunião.

_A gente se encontra lá. _ falou.

Eu que pensava que sairia dali com a prova de que estava com Marcelo no dia em que ele morreu, saia com uma ridícula entrada para uma festa. Minha vida estava virando uma grande piada.

22.12.08

Cap 16. O preço da consciência (Priscila)

Madonna - Hard Candy - Give it 2 Me


Sentei no sofá da minha casa e fiquei paralisada por alguns longos minutos. Eu estive no piloto automático enquanto tomava todas as providências a respeito do enterro de Marcelo. Foram dias extenuantes para mim, mas parecia que só agora a ficha caia.

Passei as mãos no rosto e respirei profundamente. Se não bastasse fingir que não sentia o que sentia, ainda tinha que lidar com as novas notícias: Andy queria matar a rival, no caso eu; Marcelo deixara toda a herança para mim, fato esse que dava mais força para Andy levar a cabo sua idéia de acabar comigo. Que incrível estava minha vida agora!

Marcelo não podia ter feito isso! Não comigo! Mas, paradoxalmente, o mal foi atenuado com seu golpe de amor ao dar todo o seu seguro de vida para mim. O advogado achava que eu tinha combinado isso com ele em vida. Na realidade, era mais complexo.

Não combinamos coisa alguma. Marcelo estava muito descontrolado e supôs que poderia morrer. Ele sabia que Andy me contaria sobre a herança deixada para outra mulher. Isso seria a indicação de que eu deveria pegar o que era meu. Mas que diabo de senha era aquela?

Fechei os olhos e tentei puxar na memória todos os números ou combinações que usávamos. Uma luz raiou no meu cérebro: a senha do nosso e-mail! Nós dois tínhamos um endereço em comum. Seria essa a combinação?

Mesmo que fosse. Eu não podia tocar em nenhum centavo. Não era certo com minha amiga. Ela é que tinha direito a tudo. Nunca a deixaria na mão. Só que era preciso me afastar um pouco. Estava me desgastando demais. Não só por dar toda a minha força a ela, mas por fingir que não sabia de tudo. Andy não sossegaria enquanto não descobrisse o nome e endereço da outra.

Começava a me arrepender amargamente de ter me metido naquela aventura. Não imaginava que teria conseqüências tão grandes. Eu não era culpada pela morte de Marcelo. Ele mesmo tinha se condenado àquele buraco sem fundo das drogas. Mas, ter estado com ele me faz sentir muito culpada. Minha consciência não me deixava relaxar.

Coloquei um boné e óculos escuros para ir até o motel. Eu precisava de qualquer forma conseguir as gravações. Sondei os seguranças sobre o arquivamento das imagens. Ofereci dinheiro para que falassem. Um deles decidiu abrir o jogo. Levou-me até uma sala e procurou falar baixo, mesmo sendo impossível nos escutarem ali.

_As imagens ficam gravadas em CDs.

_Eu te dou seis mil para me dar o CD e dizer a mulher do homem que morreu aqui que as imagens foram perdidas, apagadas, sei lá...

_Por seis mil? _ riu.

_Seis mil não? Quanto você ganha? _ olhei para aquele homem barrigudo de uniforme bege e quis cobri-lo de porrada.

_Isso não vem ao caso. _ sentou-se em uma cadeira e olhou-me relaxadamente.

_O que quer para me dar o CD? _ aceitei ouvir suas propostas.

Eu seria capaz de muita coisa para poder acabar definitivamente com a chance de Andy saber que estive com Marcelo naquele motel no dia em que brigamos e ele morreu de overdose.

_O que posso dizer é que alguém já pagou muitas vezes mais o meu salário por esse CD.

_Ãnh? _ franzi a testa.

_Isso mesmo.

_Quem iria querer pagar por isso?!

_E quanto você daria para saber onde está o CD?

_Você é muito chantagistas mesmo, não?

_E a senhora? O que posso dizer da senhora?

Engoli em seco. Respirei profundamente.

_Quanto quer? _ perguntei.

_Eu queria comprar um terreno ao lado da minha casa... Meu filho está casando, quero fazer um puxadinho...

_Quanto custa isso?

_Vinte mil.

_Vinte mil?! _quase dei um grito.

_Você escolhe entre o preço que eu estou pedindo e o preço de quem pegou o CD.

_Eu vou pensar.

_Como quiser.

20 mil reais! Como conseguiria esse dinheiro tão rápido? Teria que vender jóias, objetos pessoais, pedir emprestado. Meu marido não poderia perceber nada.

_Droga! Droga! _ bati no volante, enquanto dirigia. _ Que raiva! Que ódio!

21.12.08

Cap 15. Quem é ela? (Andy)

Seu marido morreu. A frase ganhou várias entonações na minha cabeça. Grave, abafada, aguda. Vi as pessoas fazendo uma ciranda a minha volta, mas não conseguia definir seus rostos. Estavam esfumaçados. Minha nuca começou a adormecer e parei de ter sensibilidade nas mãos, que gelaram. Eu estava morrendo também? A agonia foi tomada por um silêncio, nuvens brancas, fumaça e escuridão.

Acordei com uma mão segurando a minha. Era Priscila. Estava deitada no meu quarto. A luz forte entrava pela janela. Apertei os olhos.

_O que aconteceu? _ perguntei, me sentando rapidamente.

_Você desmaiou. Vai ficar tudo bem. _ ela tinha a voz embargada e o queixo trêmulo.

_O que aconteceu? _ eu me referia a algo maior que meu desmaio.

_Você vai ser forte, eu sei. _ afagou meu cabelo.

_Não pode ser... _ lembrei-me das palavras do policial sobre a morte de Marcelo. _ É mentira!

_É só uma fase de denegação... _ explicou-me com paciência.

_Não!Não! _ me levantei da cama, gritando.

_Tudo bem, tudo bem. _ ela me segurou quando meu corpo vacilou novamente. Fiquei tonta com o movimento brusco. A gravidade pareceu-me mais forte que o costume.

_Não. O que será de mim?!

Priscila forçou-me a deitar novamente.

_ Eu não posso sobreviver! Eu vou ficar desamparada. _ comecei a falar muito rápido, apavaroda.

_Você vai ser a mesma de sempre. _ Ela falou alto, bem perto do meu rosto. _ Você vai ser a mesma de sempre... _ engoliu em seco. _ Porque sempre esteve sozinha. Sempre.

Aquelas palavras duras e suas mãos agarrando meus punhos com força me calaram. Meu corpo parou de se debater e, eu, finalmente me acalmei.

_Você vai se sair muito bem. _ beijou minha testa e fez um carinho no meu cabelo para os lados.

_Onde estão os policiais? _ perguntei.

_Eu cuido de tudo. _ ela encostou o queixo na minha testa e a beijou mais uma vez.

_Como sempre... _ sussurrei.

Priscila ficou no meu lugar por vários dias. Ela foi a minha pessoa, fez o meu papel. Providenciou o enterro, o velório, se fez de assessora para as colunas sociais. Eu fiquei frágil, quieta e recolhida na minha cama. Se sai de lá foi só para ver Marcelo descer na cova, não fui eu, só meu corpo, levado pela inércia e amparado por Priscila.

Ela se mudou para minha casa esses dias e esteve ali para quando eu levantasse. Apareci na porta da sala de camiseta e calcinha, pé no chão e cabelo amarrado em um coque.

_Como está? _ perguntou.

_Como uma rodela de abacaxi no liquidificador que perdeu a consistência e não lembra em nada a forma anterior...

_Nada, está linda como sempre! _ sorriu.

Sentei no sofá.

_Ele estava em um motel. _ comentei.

_Acho melhor não tentar lembrar, não vai ser bom para você.

_Ninguém vai a um motel sozinho..._ comentei.

_Andy, não faça isso consigo mesma... Tente...

_Quem era essa? Quem era essa que me roubou tudo? _ perguntei com amargor frio.

_Do que está falando?

_Eu estive aqui. Sozinha, como você disse. Mas ela tinha ele? E agora? Qual das duas é mais infeliz? _ falei com certa ironia.

_Eu acho que isso tudo mexeu demais com você...

_Eu quero saber quem era ela. _ confessei.

_Para quê? O que vai ganhar com isso? _ irritou-se com minha decisão.

_Eu quero olhar para ela. _ justifiquei.

_Não, não vou deixar que se exponha a isso! _ intimou.

_Eu quero matá-la! _ falei entre os dentes.

_Andy! _ deu um grito.

_Eu quero esganá-la! E só sossego quando fizer isso... _ fechei os punhos com força.

_Ele já está morto, não precisa mais se vingar. O culpado de tudo foi ele. Agora está livre.

_Nunca fui presa. _ consertei, mas sabia que estava certa.

_Não? _ levantou as sobrancelhas.

_Estou perdida. Tem mais daqueles comprimidos que me deu? _ pedi.

_Não. Não pode mais tomá-los como jujuba. É hora de parar e encarar a vida.

Fiquei olhando para frente por um tempo.

_No motel, devia ter câmeras de segurança. _ conclui, obsessiva com a idéia.

_Andy, nãooooo.

A campanhia tocou. Minha empregada abriu. Era o advogado de Marcelo. Ele apertou a minha mão e sentou-se no outro sofá. Era um homem magro e careca. Vestia um terno cinza e tinha dedos longos.

_Eu sei que é um momento difícil para a senhora.

_Ok. _interrompi.

Ele abriu a pasta e tirou algumas folhas.

_Seu marido fez um testamento há dois meses.

_Testamento? _ olhei para Priscila.

_Sim e precisamos tratar dessas coisas burocráticas. Eu sei que deve estar sendo complicado lidar com toda a situação, mas...

_Ele determinou o que ia deixar para mim? _ perguntei, como se ele estivesse falando grego.

_Senhora, eu posso ler o testamento. _ pegou os papéis e tossiu.

_Não, eu prefiro que me explique com suas palavras todo esse jurisdiquês.

Ele sorriu e arregalou os olhos. Pareceu muito desconcertado com meu pedido.

_O que houve? Não deve ser tão complicado dizer que ele deixou tudo para mim, já que sou a esposa dele e não temos filhos... Só quero ganhar tempo porque preciso descansar... _ olhei para mim mesma, naquele estado deplorável, com uma almofada sobre as pernas para não mostrar a minha calcinha.

_Tudo bem. Eu vou explicar os trâmites. _ pigarreou mais uma vez. _ O seu marido morreu nas circunstâncias já conhecidas, infelizmente. Ele tinha, pelo que parece agora com a emergência dos fatos, um outro relacionamento extra-conjugal...

_Falando assim parece até melhor. _ ironizei.

_E, ele deixou tudo para ela.

Era como se eu tivesse ouvido pela segunda vez o anúncio de outra morte. Emudeci. Mas, ele não podia ver as nuvens que eu via novamente, tonta. Continuou.

_Seu marido deixou prescrito que tudo poderia ser de usufruto seu, caso a outra mulher não reclamasse seu direito.

_Canalha! _ resmunguei._ Quem é ela?

_Não posso revelar, senhora.

_Como não? Eu sou a esposa dele!

_Eu sei, eu entendo. Ele deixou o seguro de vida para ela também.

_O quê?!

_Qual é o nome dela?

_Mais uma vez, não posso dizer, senhora.

_Como não? _ gritei.

_O dinheiro será depositado em uma conta e só ela tem a senha. Pelo visto os dois haviam combinado tudo. Seu marido deve ter dado a senha em vida. Neste cofre ficarão todas as escrituras de seus bens. O dia que ela for buscá-los, a senhora perde tudo.

_Não pode ser... Eu vou reivindicar tudo isso.

_Senhora, com minha experiência posso lhe dizer que já vi de tudo. Já deixaram herança para o gato, para o cachorro...

_Eu sou a esposa.

_Eu sei. _ ele me olhou com pena.

Levantei de calcinha mesmo e fui para o meu quarto. Ouvi quando Priscila pediu que ele se falassem em seu escritório no dia seguinte para tratarem de tudo. Depois, ela apareceu na porta do quarto.

_Agora vai me impedir de encontrar essa filha da mãe que se meteu em meu caminho? _ perguntei.

4.12.08

Cap. 14 Stop (Andy)

Sai da clínica um pouco desnorteada. Pensava na confusão que estava me metendo em ter beijado meu paciente. Atravessei a rua e caminhei até meu carro. Antes de entrar, vi Felipe do outro lado pegando um táxi. Ele também parou para me olhar. Abaixei a cabeça e entrei. Fechei a porta e apoiei o cotovelo na janela aberta. O pior de tudo é que eu tinha gostado muito de experimentar o seu beijo e carinho.

Só que não podia esquecer o quanto aquilo era errado! Eu devia me focar no meu casamento. Quem sabe não estava na hora do primeiro filho? Eu tinha que me concentrar na minha família!

Jordin Sparks feat. Chris Brown - *No Air*


Liguei o som do carro e segui rumo ao meu apartamento convicta de que esqueceria Felipe.


Na portaria, vi um carro de polícia. O que será que havia acontecido? Um assalto, uma briga de casal, um assassinato? Minha curiosidade se aguçou. Subi a rampa e o porteiro parou perto da porta do meu carro.

_Por que esses policiais estão aqui? _ perguntei curiosa.

_Senhora, eles querem falar com você.

_Comigo?! _ engoli em seco. _ Sobre o quê?

O policial se aproximou e se identificou. Franzi a testa e pedi que me explicasse o motivo de me procurarem.

_Poderia estacionar na vaga de visitante? _ pediu visto que outros carros estavam querendo entrar e passar pela rampa.

Estacionei e sai. Virei o ponto de curiosidade e todos começaram a pensar que vieram me prender por algum delito.

_A senhora é esposa do senhor Marcelo pelo que me informaram...

_Sim, sim. _ respondi.

Em que coisa errada ele tinha se metido!? Será que iriam confiscar nossos bens, nos colocar na cadeia, virar noticiário...?

Engoli em seco.

_Senhora, o seu marido foi encontrado morto em um motel, ontem à noite.

Senti que alguém deu stop e o mundo parou. Não consegui ouvir mais nada. O homem me mostrou uma foto do corpo e eu vacilei. Encostei no meu carro. A chave escorregou da minha mão e caiu no chão.

_Senhora? _ o homem segurou meu braço. _ Pode chamar alguém para ajudá-la. _ o policial perguntou ao porteiro.

_Claro, vou interfonar para a amiga dela.

3.12.08

Cap 13. Querendo não lembrar (Andy)

Abri os olhos e vi a luz nas frestas da cortina. Senti os lençóis sobre mim e me dei conta de que estava no meu quarto. Tentei buscar dento da minha cabeça pesada uma última imagem que servisse de referência temporal. Continuei ali forçando, mas, nada. Decidi procurar fora de mim a resposta. Abri os olhos e vi o relógio marcar três horas da tarde.

Passei a mão na testa. Por que eu estava naquele estado?

_Felipe! _ falei quando seu rosto foi trazido pela memória. Pelo que eu lembrava havia o beijado. Isso não podia ter acontecido! Será que estava dormindo e tudo não passou de um sonho?

Liguei para Priscila. Agora tudo se tornava mais claro e eu lembrava que tinha saído com ela para beber. O telefone chamou várias vezes até que atendeu.

_Está em casa? _ perguntei.

_Acordou? _ ela riu.

_O que colocaram na minha bebida? Boa noite Cinderela!?

_Não tenho culpa que você ficou fraca para beber! _ riu.

_Tem como vir aqui? _ pediu.

_Tem sim. Vou levar um litro de café para você.

_Dois, por favor. _ desliguei.

Enfiei a cara no travesseiro e dei uns soquinhos com os punhos fechados.

Quando Priscila chegou eu estava na sala de roupão e cabelo molhado.

_Uhu, a noite foi boa, hen? _ ironizou e se jogou entre as almofadas.

_Priscila, o que eu fiz?

_Essa boa, eu é que vou saber? Você que bebe e eu...

_Não aconteceu nada?

_O que aconteceria?

_Ufa. Que alívio! Eu jurava que tinha... _ comecei a rir. _ Já teve alucinações depois de uma brutal ressaca? Acredita que... _ abaixei a voz e inclinei o corpo para frente. Marcelo não estava em casa, mas não queria que as empregadas ouvissem. _... Sonhei com um dos meus pacientes. Pior, que eu estava beijando ele... _ terminei de rir com uma descarga de alívio. _ Me senti até melhor agora!

Gritei para que me trouxessem uma xícara de café.

_Andy... _ Priscila me chamou e esperou que minha empregada fechasse a porta da cozinha. _ Preciso te dizer uma coisa... Uma hora vai acabar sabendo...

_Fala! _ dei um gole no café. _Nossa! Como está forte! _ reclamei.

_Você beijou seu paciente.

_Ãnh? _ franzi a testa.

_Não foi um sonho! Aconteceu mesmo.

_Como assim?

_Você não vai lembrar, estava bêbada....

_Mas, como eu estaria na clínica bêbada?

_Você me pediu para te levar lá!

_Quê?! Não!

_Pois é. Bêbado sempre mete os pés pelas mãos... _ criticou.

_Por que me levou até lá?!

_Hora! Você implorou! Se não te levasse iria sozinha! Não brigue comigo. Quem beijou o rapaz foi você!

_Ai meu Deus! O que eu fiz exatamente?

_Eu fui até o banheiro e quando voltei vocês estavam se beijando.

_E agora?

_Finge que não foi nada, que não lembra de nada. Ele não tem a perna, mas não é burro. Percebeu logicamente que estava bêbada! Vai supor que você esqueceu. Se faz de desentendida.

_Mas, coitado...

_Não há outra saída.

Ela tinha razão. Ao mesmo tempo, era desumano fazer isso com Felipe. Quando Priscila foi embora forcei a memória e consegui me lembrar um pouco mais do que tinha acontecido. Bateu arrependimento por saber que isso me traria problemas no casamento e na vida profissional pela falta de ética. Ao mesmo tempo, eu sentia ansiedade em vê-lo outra vez. Não adiantava adiar, a hora da próxima consulta chegaria. E lá eu estava arrumando os materiais, quando ele chegou bem antes do determinado.

_Está melhor? _ ouvi uma voz grave atrás de mim.

Engoli em seco. Deixei alguns pesos cair da minha mão. Me agachei novamente para pegar e, quando me virei estava ofegante e com o cabelo no rosto. Afastei os fios e senti que minha veia do pescoço pulsava tão forte que ele poderia ver.

_Oi... _ sorri. _ Nossa, você... _ olhei-o já com as pernas mecânicas em pé, fora das cadeiras de rodas e percebi que era um pouco mais alto que eu. _... está andando!

_Eu quis te fazer essa surpresa. Falta melhorar um pouco! Ainda sinto que vou cair como um bebê. _ riu e vi seus dentes brancos.

Ai, meu Deus, eu beijei ele, eu beijei ele, eu beijei ele. Putzzzz!!!!!!!

_E está falando! _observei.

_Mas, da última vez eu também... _ ele parou de falar e me olhou com uma interrogação suspensa na voz.

_Última vez? _ apertei os olhos para lembrar.

Pronto, eu já podia ser caçada pelo grupo de proteção dos direitos humanos!

_Eu imaginei que não ia... Esquece.

_Ãnh? _ ainda me fiz de desentendida.

_Nada, não foi nada.

_É... vamos começar, então. _ caminhei até as barras paralelas e me esqueci que agora ele podia andar, ao me virar dei de cara com ele. Desviei o olhar. _ Você pode se apoiar com as mãos aqui enquanto caminha. _ instrui.

_Podia ter essas barras por aí. _ Felipe brincou.

Na outra ponta das barras fiquei admirando-o vir até mim. Estava bonito de blusa branca e cabelo molhado. Nunca tinha observado o quanto seus braços eram fortes.

_E aí? Que nota dá? Não foi uma Poli Position, mas não vou largar em última. _ falou animado e, nunca havia visto aquele brilho incandescente em seus olhos. Tinha sido eu a responsável?!

_Está indo muito bem. _ elogiei e pensei que ele talvez estivesse duvidando se de fato eu tinha esquecido ou me fazia de desentendida. Não queria que pensasse mal de mim.

_É... _ tentei começar qualquer confissão, mas quando foquei nos seus olhos a só alguns centímetros as palavras se embaralhararam em minha cabeça. _... Não tem corrimão para a gente falar quando não consegue. _ ri, sem graça.

_Não fala. _ disse e pôs sua mão direita sobre a minha esquerda apoiada no ferro.

Ele olhou para a porta para se certificar que estávamos mesmo sozinhos. Será que chegara tão cedo para ter aquela oportunidade.

_Eu não posso. _ disse-lhe e ele fez um carinho no meu cabelo, afastando-o com a outra mãos que não segurava a minha.

_E quem te proíbe?

_As circunstâncias.

_Claro. Eu imaginei. _ ele abaixou o rosto.

_Hei! Não tem nada a ver com você! É comigo!

Estiquei a mão para tocar seu rosto e ele não esperou mais nada. Beijou-me outra vez. Eu dei um passo atrás e ele a frente. Segurou-me com as duas mãos e me encostou nas barra. Envolveu-me com seu corpo sem que eu pudesse (ou quisesse) me desvencilhar. Fechei os punhos na sua camisa e tentei puxá-la para trás, mas ele pegou meus braços e trouxe-os para baixo com facilidade enquanto sua boca me beijava e eu não querendo, aceitava. Sua temperatura subiu e podia senti-lo muito mais quente e forte. Perdi todo o fôlego. Afastei meu rosto para trás, o único ponto onde ele não controlava pela força.

Olhei-o ofegante, engoli em seco.

_Não podemos, entendeu?

_Entendi. _ ele se afastou e se apoiou na outra barra. _ Mas, agora você não vai esquecer.

Peguei o prontuário e fui para minha sala muito mexida. Ele fizera aquilo com raiva por eu ter fingido que não lembrara do nosso beijo quando eu estava bêbada? Seja lá qual fosse seu objetivo, eu tinha metido os pés pelas mãos, melhor, as mãos pela boca!