26.11.08

Cap. 12 A paixão é um vício que embriaga (Priscila)

Eu estava com a testa apertada contra o braço, a cabeça enfiada no tampo da mesa. Não queria ver o mundo. Estava cansada, chateada, perdida. O telefone tocou e me fingi de surda. Mas, quem ligava sabia que eu devia estar ali, pois não desistiu. Deixei-me vencer e atendi:

_Alô, dona Priscila? É da portaria. A candidata ao estágio chegou. _ disse o porteiro.

Pensei em pedir que voltasse, mas, já havia desmarcado aquele encontro outras vezes. Era hora. Deixei que subisse. Voltei a enfiar a cabeça nos braços e quase ameacei dormir. Lembrei-me da obrigação e respirei profundamente. Levantei, me olhei no espelho do pequeno banheiro da sala. Estava com uma grande rodela vermelha na testa. O que diria? Estava rezando com a testa no chão?!

Molhei com um pouco de água. Estranho como a gente pensa que água cura tudo. Demorei um tempo para poder desaparecer a marca. Não tinha como enrolar mais, abri a porta e percebi que os olhos da moça se fixaram no topo do meu rosto.

_Oi. _ apertei sua mão e me virei logo de costas, em direção a minha mesa, não queria ser encarada. Abri rapidamente a pasta com seu currículo que me trouxera. Abaixei a cabeça para chamar menos atenção para o círculo vermelho na testa. _Você foi vendedora?

_Sim, na loja de uma tia...

_Ãnh. Fala línguas?

_Um pouco de inglês.

_Bom, você está por indicação de uma amiga fisioterapeuta.

_Eu sei. Ela é médica do meu irmão.

_Isso. Então, eu vou entrevistar outras pessoas, assim como estou fazendo com você.

_Claro. _ sorriu a garota.

_Então, me fale sobre você. Tão nova querendo um emprego.

_Eu preciso. Estou em uma escolha que tem segundo grau técnico em administração. Como quero prestar vestibular para direito, queria conseguir alguma coisa que aliasse essas duas áreas.

Ela era bem articulada e bonita. Contou-me um pouco da sua escola, das habilidades e experiências. Não quis mais torturá-la com perguntas. Agradeci por ter vindo.

_Olha, eu vou te retornar nesse telefone aqui que você escreveu e te digo o resultado.

_Ãnh, tá. _ ela levantou-se e saiu.


Abri a porta para ela e fiquei na soleira até descesse pelas escadas. Os outros funcionários continuavam trabalhando em suas baias. Era um lugar agradável de se trabalhar. Mas, hoje, minha cabeça não conseguia se concentrar nem à força.

A viagem a Nova York tomou conta dos meus pensamentos com lembranças. Luis, que estava do lado de fora do restaurante me ofereceu uma carona de volta para o hotel.

_Se eu nunca precisei de você no Brasil, por que vou precisar agora? _ perguntei.

Ele se desencostou do carro, colocou as mãos dentro dos bolsos da calça e fez ar de professor com voz baixa, grave, solene:

_ Porque eu sei como se sente agora.

_Do que está falando? Está me perseguindo, me...?

_É como a droga, você só se vê viciado quando diz que vai parar e não consegue...

_Está louco? Do quê...? _ cheguei mais junto dele.

_Não adianta fugir porque a pessoa não sai da sua cabeça. Você precisa pensar nela para ter força para esquecê-la, mas não consegue. Para se curar do veneno com o próprio veneno é preciso a dose certa. Só que os apaixonados são aqueles que se embebedam. Não tem medida e por isso metem os pés pelas mãos. Tudo que querem é subverter a ordem, o que é certo para provar do prazer, mas não querem se arriscar a perder o controle.

Eu estava sem fala, com a boca ligeiramente aberta para dizer alguma coisa a qualquer momento, mas sem êxito.

_... É como eu disse, o vício se torna tão toxicante que você acredita que o melhor a fazer é se entregar. Mas os pensamentos lacivos não serão iguais na realidade... Podem ser tão melhores quanto pior que a destruição que se segue.

_Eu não sei do que está dizendo!

_Não? O perfume que parece borrifar o ar a sua volta e te asfixar, mas é só um pensamento. O esfregar quente de uma pele que por uns segundos parece ser de quem quer e não é. A voz com falas ininterruptas na sua cabeça como um cd em reprodução contínua que você não enjoa.

_Me deixa, por favor. _ virei-me. Era tão assustadoramente verdade que queria fugir de medo.

Fiz sinal para um táxi. Já no caminho para hotel, recebi uma mensagem. Era de Luis:

_ “Disso você não pode escapar. Cuidado para não se ferir. Posso não estar perto.”

Fechei com força o celular no punho fechado.

Lembro disso tudo agora, sentada no sofá da minha sala, um mês depois, porque me aterroriza como todas as profecias de Luis se tornaram verdade. Eu não consegui vencer os pensamentos, que se tornaram realidade. Agora eu estava no estágio que tinha medo de meter os pés pelas mãos.

O telefone tocou e era Marcelo.

_Vamos sair hoje?

_Hoje não estou bem, não estou conseguindo trabalhar...

_Ótimo, então, vamos sair agora.

Fiquei calada, apenas respirando próxima ao fone. Eu dizia que ia parar, mas não conseguia. Essa seria a última vez. Aceitei. Marcamos. Precisava ter coragem de largar. Mas, como todo vício, é difícil fazê-lo sem provar antes, nem que para ser o ponto final.

Marcelo tirou do bolso um saquinho de pó branco. Repeti que não queria. Eu não participava daquela sua diversão. Falei que iria embora. Ele, então, guardou de volta e perguntou se era por isso. Eu falei que não me importava, que o problema era algo maior: nós. Então, riu, disse que estava tudo sobre controle. Continuei séria e expliquei que não dava mais. Quando percebeu que eu falava sério, levantou-se da cama e me segurou com força pelos braços.

Lembrei-me da perda de controle e da embriaguez de que Luis falara. Não quis pagar para ver o pior. Falei baixo, firme e olhando nos seus olhos que era para me largar, pois não tínhamos nada a oferecer um ao outro. Marcelo, então, perguntou o que era aquilo que havíamos fazendo nos últimos dias? Eu lhe disse que foi bom enquanto durou, mas que na minha vida eu não ia aceitar nada menos que a felicidade. Naquele instante senti-me bem por recuperar o meu orgulho e perceber que era possível sair dessa.

Abri a porta e sai, livre. Liguei para minha amiga. Comentei que entrevistei a irmã do seu paciente e que gostei da garota. Ela ficara muito feliz com a notícia e eu também por ver que não tinha abalado nossa amizade.

Convidei-a para sairmos. Bebemos como nos velhos tempos e nos divertimos. Acho que eu mais ainda, por saber e guardar aquele segredo. Quando o dia amanheceu, ela cismou de ir à clínica. Deixei-a na piscina com um paciente e fui ao banheiro. Ao voltar, tomei um susto com a cena que vi. Andy estava beijando o rapaz! Como assim?!

Se ela destruísse seu casamento, provavelmente Marcelo correria atrás de mim e, definitivamente, eu não achava mais que ele me faria feliz. Só guardava sensações ruins de angustia e medo. Mas, se minha amiga não era feliz, eu também não poderia pensar apenas em mim. Porém, se ela quisesse se separar por motivo de traição, Marcelo poderia jogar na sua cara que fizera isso primeiro e, comigo. Para o espaço minha amizade com ela.

Confusa, sem saber em quem pensava primeiro, se em mim ou se nela, chamei-a pelo nome. Os dois se assustaram.

_Andy, está na hora de irmos. _ anunciei e peguei a toalha em cima de uma mesa. _ Vamos agora!

21.11.08

Cap 11. A fidelidade ao verdadeiro sentimento (Priscila)

Duas gotas de Escape do Calvin Klien entre os seios. Em um vestido vermelho e num salto 15, estava perambulando aflita pelo quarto do hotel. O telefone toca e a atendente diz que uma visita me aguarda na recepção.

Era ele! Senti um frio cortar a espinha e tive vontade de dar pulinhos de exultação. Como eu podia estar bancando a ridícula? Desci o mais rápido que pude e encontrei um homem parado no salão, junto ao sofá. Contemplava o jardim do hotel.

_Oi. _ abri um sorriso.

A pessoa que se virou me transformou em uma estátua de gesso quando o reconheci. Eu era uma pedra e meu coração um gelo. Não havia sinapse para montar qualquer palavra monossilábica. O que ele fazia ali em Nova York? Melhor: o que ele fazia ali justo quando eu também estava na mesma cidade?!

Era nada menos que Luis, meu arquiinimigo em dezenas de processos. Parecia armação a quantidade de vezes que nos encontrávamos frente a frente no tribunal. Porém, ultimamente eu desconfiava de sua perseguição. Eu virara seu desafio em que podia apostar.

_Uau. Tudo isso é para o seu marido? _ ele manteve as mãos no bolso e o sorriso mais desmerecidamente lindo e branco, emoldurado por uma barba rala quase pecaminosa. O que tinha de lindo tinha de... malvado.

_Não sabia que cruzava a América para caber na minha agenda. _ respondi, ríspida, gesticulando com a pequena carteira brilhosa na mão.

_Como pode ser tão convencida? _ se aproximou com os olhos semi-serrados. Vestia jeans azul escuro e um blazer branco com camisa da mesma cor. _Eu daria todo meu dinheiro ganho nos processos que venci de você só para... _ esticou o dedo para tocar em um dos cachos das pontas do meu cabelo por cima do ombro, feitos com muito cuidado pelo cabeleireiro.

_Não chegue perto de mim. _ apontei o dedo indicador em ameaça.

_Tudo bem, selvagem. Gosto de você assim, é o meu lado preferido.

_Arghhhhh... _ andei dois passos.

_Cuidado por onde anda... _ falou.

Virei-me e o vi encostado em uma pilastra, em uma pose de raposa, de lado.

_Eu tenho que tomar cuidado é se ficar aqui com você mais um segundo porque posso esganá-lo com minhas unhas em seu pescoço até verter tanto sangue que chegue a morte.

_Que cena passional. _ riu.

_Arghhhhhhh.... _ dei um grunhidinho e revirei os olhos.

Subi rapidamente a escada que levava para o interior do hotel. A ansiedade de ver Marcelo foi substituída pela raiva de ter encontrado Luis ali. Isso só pode ser coincidência de mau gosto dos anjos lá de cima, fazendo arte com nós mortais aqui em baixo. Agora, em vez de ter a voz agradável de Marcelo em minha memória, tudo de que conseguia lembrar era daquele irritante, ridículo, inescrupuloso, vil, imbecil, e, e, e, e mais, um bárbaro do Luis. O que poderia fazer para parar de ver seus olhos verdes rindo de superioridade aqui dentro da cabeça?!

Tomei um drinque no bar do hotel. Uma bebida quente poderia ajudar a desfazer daquele feitiço de mau gosto que concentrava todas as minhas energias na rivalidade que tinha dele.

Sozinha ali, comecei a ter mais pensamentos racionais que irracionais. A bebida não surtia o efeito que devia. Refleti sobre as circunstancias malucas e perigosas em que estava metida. Imagina o escândalo de ser pega traindo meu marido com o marido da melhor amiga? Tudo isso elevado a milhonezima potência dos jornais e revistas. Pensei mais a fundo e conclui que nada disso seria pior que um único detalhe: a traição de uma amizade.

Eu estava hoje onde estava porque uma amiga a todo instante me apoiara em tudo. Em uma amizade não devemos esperar que tudo seja fácil. É preciso uma cota de sacrifício. Como eu podia me levar pela paixão e apunhalar minha melhor amiga pelas costas?!

Naquele momento, comecei a me sentir mal com o cheiro do perfume, a roupa se tornou apertada e incomoda. Passei a mão na nuca, respirei, bebi mais um pouco.

_Começou sem mim? _ ouvi uma voz.

O frio na barriga se repetiu. Como pode nosso coração ser tão antiético e não respeitar o que é certo? Engoli em seco e me virei lentamente. Marcelo sorriu e se aproximou do balcão do bar.

_A recepcionista me disse que estava aqui. _ ele afastou o cacho de cabelo das minhas costas e seus dedos deslizaram por minha pele. Acompanhei o movimento com os olhos e, depois o fitei. Nunca tivemos aquele contato. Seria só comigo, ele repetia com todas? Quantas?!

_Vim colocar a cabeça no lugar. _ respondi.

_Garçom, o mesmo que o dela. _ pediu. _ Então, quero beber dessa fonte. _ brincou.

_Você não fez reservas? _ perguntei, querendo logo ir para o restaurante.

_Temos uns dez minutos ainda, mas, se quiser... _ olhou o relógio.

_Tudo bem. _ fiz um gesto de tudo bem com as mãos.

Ouvi o celular vibrar na carteira. Abri-a e tirei-o. Uma mensagem de um celular desconhecido. Franzi a testa. Na mensagem, uma foto. Engoli em seco. Nas minhas mãos, havia a imagem de Marcelo falando perto do meu ouvido.

Olhei para trás, vendo de onde aquela foto pode ter sido tirada. Só podia ter sido daquele homem das cavernas ridículo! O que faria? Me denunciaria?! Não, ele acharia a melhor oportunidade. Esse tipo de homem não perde o momento certo.

_Que foi? Viu alguém? _ perguntou.

_Nada.

_Parece que está procurando uma pessoa...

_Podemos ir? _ fechei a carteira e me levantei.

_Claro.

O jantar foi uma droga. Quero dizer, a comida era perfeita, o lugar lindíssimo, Marcelo estava elegante, engraçado, charmoso e eu me sentia o pior ser do mundo! Pedi licença para ir ao banheiro. O celular tocou de novo.

_O que quer agora? _ gemi e abri a carteira. Não era outra mensagem de Luis, era Andy ligando. Atendi: _ Alô?

_Oi, querida! Te liguei e soube que está viajando! Como vai a Nova York e não leva minha lista de pedidos! _ riu alto.

_O que quer? Diz que compro. _ falei com voz baixa e oprimida.

_Estou brincando, na próxima anoto. Como está? Me parece cansada. Trabalhando muito?

_Um pouco. _ respondi com um peso de toneladas na consciência. _ E você? O que está fazendo agora? _ perguntei, olhando-me no espelho do banheiro.

_Sozinha aqui... _ suspirou. _ Estou conversando com um paciente na internet. Parei um pouco para te ligar, saber se queria sair.

_O Marcelo não está com você? _ perguntei, completando minha crapulice. Na verdade, queria saber qual a desculpa que ele dera.

_Viajou. Aliás, vocês dois não poderiam viajar na mesma época, assim eu fico sozinha. _ reclamou como menina desamparada. Quis entrar no celular e parar no sofá de sua casa com uma bacia de pipoca para vermos um monte de filmes açucarados na televisão.

_Desculpe...

_Que isso, boba! Estou brincando! Você está tão emotiva. Nova York faz isso, né?

_É. _ ri. _ Se estivesse aqui iríamos fazer muitas compras...

_E se estivesse aqui iríamos ver filmes. Lembra de quando a gente era jovem?

_Hei, ainda somos. _ lembrei-a.

_Sabe que me sinto muito velha conversando com esse paciente?

_Hum... Está se envolvendo, é, mocinha?

_Não! É só um papo cabeça...

_Começa assim.

_Sei lá. Sabe que não sou disso.

Eu sabia. E, justo por isso, não poderia mais fazer nada contra aquela amiga maravilhosa.

_Querida, preciso desligar. Nos falamos quando eu chegar.

_Beijo querida.

_Beijo.

Fechei o aparelho e desliguei. Antes de guardar, ele vibrou novamente. Uma mensagem de foto. Era uma imagem de Marcelo sentado sozinho no restaurante.

_Como eu te odeio! _ guardei o celular.

Parei na mesa, em frente a Marcelo.

_Já estava preocupado.

_Eu preciso te falar uma coisa. _ bebi o restante do meu vinho.

_Fale.

_Desculpe ter te feito vir aqui, desculpe ter levado tudo a esse ponto. Desculpe, desculpe, mas, se eu gosto de você, eu amo a minha amiga. Eu posso trair o meu marido com qualquer homem, eu posso trair até a mim mesma. Mas, não se trai a única pessoa que te entende. Desculpe...

_Ok. _ ele falou seco, abaixando a cabeça e mexendo no guardanapo.

_Eu preciso ir.

_Eu te levo.

_Não precisa. _ dispensei. _ Ah! Marcelo. _ chamei-o. _ Às vezes, achamos que temos tudo e procuramos experimentar o impossível. Mas, existem certas coisas que nunca foram feitas para termos.

Sai do restaurante com falta de ar. Respirei fundo, estufando o peito apertado no vestido. Estava prestes a desabar em choro. Limpei os olhos que tremiam as pálpebras. Foi preciso muito esforço para controlar o coração.

_Uma carona? _ ouvi uma voz.

Revirei os olhos e virei o rosto para o lado. Era Luis, apoiado em um carro.

_Eu vou para lá também. _ encolheu os ombros.

18.11.08

Cap 10. A ponte (Priscila)

taylor swift - teardrops on my guitar


A primeira vez que entendi que aquele romance não se passava só em minha cabeça foi em uma festa de casamento. Marcelo era o marido de minha melhor amiga, mas, já havia um tempo que ele se tornara meu pensamento fixo.

Ele me tirou para dançar enquanto Andy recuperava o fôlego bebendo algo no bar. Senti suas mãos flamejando em minhas costas. Os olhos brilhantes e os movimentos fortes, cortando o ar. Meu corpo girava sob os comandos de suas mãos fortes. Para mim, só havia nós dois sôfregos e exultantes tomando um instante como única chance de toque. Meu coração era a bateria da banda, retumbando estrondoso de êxtase. Eu sentia a energia do contato como fio condutor de impulsos elétricos. Nunca estive tão viva. Não quis que a música parasse, mas quatro minutos depois o céu caiu outra vez no chão. Ele soltou minhas mãos e me senti desolada, deixada perdida no deserto seco da minha solidão.


Na saída, Andy sorriu e me acenou ao lado do carro. Eu sorri de volta, mas não tão feliz quanto ela. Havia uma tristeza em meu coração por saber que no fim, era ela que segurava seu vestido e entrava no carro. Marcelo ainda ficou de pé, do lado de fora por poucos segundos. Um infinito de tempo necessário para eu ler no seu rosto um mesmo desejo.

Abri a porta do táxi e, antes de entrar, olhei-o mais uma vez. Não havia o que fazer. Entrei e vi pelo retrovisor que ele fizera o mesmo. Segui sozinha para casa. Meu marido estava viajando e eu podia curtir o prazer da casa silenciosa.

Sentada à bancada da cozinha, comendo uma salada, ouvi o telefone tocar na mesa do abajur. Olhei-o sem vontade de atender. Deixei que caísse na secretária eletrônica. Depois do sinal, ninguém falou. Era ele! Só podia. Corri o quanto pude e atendi.

_Alô? _ não deu tempo de disfarçar a falta de fôlego.

_Oi, Priscila. É o Marcelo. Pela secretária, pensei que não tinha chegado ainda...

_Ãnh, obrigada pela preocupação. Cheguei sim. E a Andy?

_Ah! Já dormiu. Sabe como ela é fraca para bebida.

_Hum, é verdade... _ deslizei o pé direito sobre o tapete peludo da sala para lá e para cá, esperando que ele alongasse o assunto. _ E você? _ perguntei sem saber o que dizer.

_Eu? O quê? _ riu.

_Nada. _ apertei os olhos e fechei os punhos. Que mancada!

_Eu... ãnh. Eu sou mais resistente. Estou tomando um vinho.

_É? _ deitei entre as almofadas.

A luz da sala estava apagada e só a luz amarelada do abajur iluminava o ambiente. Não era só a cor dos fachos, o ar parecia dourado com sua voz ao meu ouvido. Experimentei a recordação sensorial de quando ficava com os meninos no colegial. Com direito a emoção e o medo de estar em um território proibido. Não era certo fazer qualquer coisa estúpida para atrapalhar o casamento da minha amiga. Eu só queria ouvi-lo mais um pouquinho. Foi neste gesto inocente que continuei:

_Qual o ano?

_Do vinho? 1988.

_Quê? _ fiz uma careta. Ele só podia estar brincando?! Devia custar uma fortuna.

Com uma voz risonha de orgulho disse que era de uma garrafa de seis litros de Romanéé-Conti que comprara pela bagatela de 50 mil dólares em um leilão na Christie’s de Nova York. Não contava isso com arrogância, mas uma simplicidade e vontade de impressionar a criança do outro lado deslumbrada.

_Não acredito que está com esta jóia na mão!

Quase, por um triz, disse que não poderia beber sozinho.

_Por que pagar tanto por um vinho? _ perguntei.

Ele ficou calado por um tempo.

_Há horas que já temos tudo. Aí precisamos provar com mais nitidez o sabor de coisas raras, difíceis de achar, preciosas... como o vinho.

... Como ele! Eu sabia que já tinha tudo, me faltava o amor e amor era ele. Eu queria, como queria, provar com a língua, no céu da boca, intensamente, tudo, tudo. Mas, era só um telefonema e eu tinha que entender.

_Sabe, a garrafa mais cara do mundo foi vendida por 156 mil dólares. Disseram que ela pertencia a Thomas Jefferson. Tinha até o Th.J gravada no rótulo. Era um Château Lafite do ano de 1787.

_Esse cara aí tinha tudo mesmo, hen? _ ri.

_Descobriram depois que era falso, da década de 1960. Até os melhores vinhos podem ser falsos.

_Como tanta coisa falsa... _ fui reticente.

_Quer um dia falar de vinhos? A gente pode dar um pulo no Per Se.

_Onde é isso?

_Em Nova York. O melhor restaurante de lá. Nem com um mês de antecedência se consegue uma reserva... _observou.

_Isso é uma brincadeira, né?_ falei brava.

_Não. É só uma ponte aérea.
Fiquei em silêncio.

_Vou desligar. _ falei baixinho.

_Desculpe se...

_Ok.

_Precisamos desligar.

_É... _ desligou.

Larguei o telefone com quem se livra de uma bomba. Eu estava muito perto de explodir a fina película da bolha que me separava do mundo de Marcelo. Era tão abominável quanto atraente. Abracei-me a almofada e fechei os olhos. Como posso ter esse desejo tão vil?

Era só uma ponte aérea, ouvi sua voz na minha cabeça. Era uma ponte para um segredo muito difícil e pesado de guardar.

Dois dias depois, chegou à minha mesa de trabalho pelas mãos de minha secretária uma caixa dos Correios. Abri. Dentro, havia uma pequena garrafa de vinho em miniatura. Ao seu redor, um bilhete de avião amarrado a uma fita vermelha.

Uma carta sem assinatura dizia:

“Uma vida inteira pode ser de um lado do rio. Mas é preciso só um motivo para querer atravessar a perigosa ponte que conduz ao desconhecido. Podemos nos arrepender de tudo que fazemos porque fazemos. O que não nos arrependemos jamais saberemos o gosto. Prove.”

Levantei com a garrafinha na mão. Olhei os prédios através da parede de vidro do prédio.

O erro é uma mina, você sabe que ela está perto, mas acha que pode ainda andar um pouco mais.


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17.11.08

Cap 9. Beijo de Chocolate (Felipe)

Eu começava a ficar ansioso para ir à fisioterapia porque poderia encontrar com Andy. Eu era um pendulo entre a clínica e minha casa, querendo cada vez mais estar com ela. Comecei a largar a clausura de lado. Para ter mais contato com Andy, precisava ser mais acessível. O que ela acharia se eu começasse a falar? Ri da idéia. Provavelmente, teria um susto. Ela sabia o porquê de eu ter parado e suspeitaria também que a razão do retorno era a nossa convivência.

Meus pais ainda não haviam comprado as pernas mecânicas, por isso, eu tinha que ir a clínica de cadeiras de rodas. Mas, ficava sozinho lá, à espera da minha mãe vir me buscar. Tinha 25 anos e era tratado como criança. Precisava logo me livrar dessa situação que, pela primeira vez me deixava inquieto. Agora eu tinha o que buscar, encontrara a minha causa.

Porém, naquele dia tudo fora diferente. Andy não estava normal. Apareceu acompanhada de uma amiga que sentou por perto. Senti que naquele dia ela estava no papel de paciente vigiada. Apresentou-me. Sorri e acenei.

_Vamos lá? _ animou-me.

Olhei seus olhos vermelhos e o corpo ligeiramente vacilante. A amiga veio ajudá-la a me tirar da cadeira. Não precisaria de muito esforço para me ajudar, pois eu me apoiava bem com as mãos. Só que era ela que precisava de ajuda.

_Vou jogar água quente, ok? _ explicou-me. Ligou o mecanismo que mirava jatos em minha perna. Entrou na piscina rasa e ficou com água nos joelhos.

_Você é linda, sabia? _ falei.

Ela levantou os olhos. Sorri.

_Você bebeu? _ perguntei.

Ela parece que não acreditou no que ouviu. Desligou a água e pigarreou.

_É... Vamos fazer outro exercício.

Toquei sua mão que segurava meu joelho. Andy levantou os olhos.

_Você falou? _ franziu a testa e riu de nervosismo.

Olhei a amiga dela sair por uns instantes e voltei meu rosto para Andy.

_Não tem vergonha de beber assim?_ perguntei.

Taylor Swift - Stay Beautiful

Ela abriu a boca para ameaçar uma desculpa, passou a mão na testa e balançou a cabeça para os lados.

_Eu...? _ viu que não me convenceria do contrário. _ Estou precisando de um bom banho. _ confessou timidamente.

_Já está em um. _ referi-me a piscina.

_Se pensar por esse lado.

_Por que veio trabalhar, então?

_Por que meus pacientes me esperam.

_E ninguém te esperou em casa ontem?_ perguntei.

Ela balançou a cabeça para os lados e encolheu os ombros, como se a bebida fosse a única fuga.

_Sua voz é muito bonita. _ elogiou.

_E você também.

Não era só coisa de minha cabeça. Ela também sentia a atração. Quando se dá alguns passos a frente, não é possível recuar. Andy tinha deixado para trás a linha do profissionalismo. Era só uma mulher sentada na piscina rasa, falando baixinho.

_Quando acordar, eu não vou lembrar de nada. _ abraçou o joelho direito e encostou o queixo.

_Mas, eu vou. _ estiquei o braço e acariciei seu rosto.

_Eu tenho que ir. Não dá para esconder que preciso descansar... _ disse-me.

_Já que você não vai lembrar de nada... _ inclinei o rosto para o lado esquerdo e parei muito próximo da sua boca. Olhei-a ainda nos olhos.

_Você vai me odiar depois... _ falou sonolenta.

_Então, deixa eu aproveitar enquanto não é ódio. _ beijei sua boca. Meus lábios umedeceram os seus frios. Senti um leve gosto de chocolate em sua língua. Sua toca caiu e o cabelo despencou como cascata em seus ombros. Peguei-os com as mãos enquanto minha boca guiava a sua sem resistência.

14.11.08

Cap 8. Não é por acaso (Felipe)

Andy estava online. Tive receio de chamá-la para a conversa. Será que pensaria: “Ai lá vem o chato, já não basta aturá-lo no trabalho?”. Mas, se ela me dera seu contato, era porque não se importaria. Preferi arriscar e dei um “oi”, seguido da pergunta se estava ocupada.

Ela disse que estava fazendo outras coisas no computador, mas que conseguiria falar comigo se não precisasse digitar na janela da conversa. Achei inusitado, ela poderia me dispensar, mas mostrou interesse em me atender. Será que eu estava vendo coisas demais?

Pluguei os fones de ouvido.

Escrevi brevemente a novidade das pernas mecânica que ganharia e disse que estava feliz. Andy parabenizou, mas, depois sua voz alegre se transformou e ela avisou calmamente:

_ Você sabe que agora as suas pernas não são mais uma desculpa. Não poderá mais usar isso como motivo para não trabalhar ou fugir dos amigos. A gente coloca um monte de problemas em nossa vida pendurado feito chaveiro. Eu não emagreço porque sou preguiçosa, eu não passo no concurso porque sou burra, eu não ganho dinheiro porque não tenho sorte no emprego... Sendo que isso são mitos que criamos de nós mesmos. Ninguém gosta de estudar, tem que estudar. Nem fica saudável porque ama fazer exercícios, é necessário fazer. Sempre tem as exceções, claro. Mas, de modo geral é assim. Você agora não é mais um “sem perna”. Vai precisar se desapegar dessa desculpa-chaveiro. A própria sociedade vai te cobrar isso, já pensou?

Eu fiquei olhando para o computador refletindo como ela conseguia tornar minha reabilitação mais crua que lúdica. Era tão pé no chão que assustava.

_Uma coisa de cada vez. _ disse-lhe, querendo aproveitar alguns segundos a mais da satisfação da notícia e não pensar em suas conseqüências.

_Claro, desculpe por eu sempre pensar no lado prático. Imagino que seja uma etapa importante para você. É legal sair da condição de que é empurrado pelos outros para ficar de pé, olho no olho, com uma postura de dono de si. A simples posição corporal nos afeta na auto-estima.

_Falou a médica... _ escrevi, acrescido de um smile sorrindo. _Você é mais que médica. _ acrescentei rapidamente.

_É, eu sou diferente. Eu não trabalho no açougue onde os clientes pedem pé de porco, costela, lombo. Eu cuido de gente que pensa, que sofre, que sente. Não consigo vê-las como uma perna ou um braço ruim. Todo mundo deve buscar ser um diferencial, sabe? Eu sei que posso estar viajando falando isso, mas, pensa só que inútil seria ser só mais uma fisioterapeuta de quem nem vão lembrar o nome? Se você não serve para acrescentar, que coisa inútil é a existência, não? Se não faz ninguém rir, se não faz ninguém se emocionar, se não toca ninguém, que grande merda a gente é, não acha?

_Brilhante. _ escrevi.

_Eu me empolgo, deixa pra lá.

_Por favor! Continue. _ digitei.

_Não, agora fiquei constrangida... _ ela riu.

_Você faz toda a diferença. _ elogiei e só o fiz porque ela não me via.

_Ah! Que isso!

_E ainda modesta. _ completei.

_Agora, Felipe... Você sabe que nada mais vai ser igual. Você vai se deparar com dois tipos de situação. Tem pessoa que vai te tratar como um inválido e viver te facilitando tudo pensando que você não é capaz. Outras vão achar que tudo que faz é porque está se aproveitando da condição física para tirar vantagem. Essa situação é nova. Vai precisar ter muito estômago.

_Tenho medo.

_Imagino. Mas, medo é quando não sabemos o que vem pela frente. Você acha que vai ficar muito tempo sem falar?

_Não é uma condição. É um estado de espírito. _ respondi.

_Mas falar é importante para se defender. Os animais usam as garras e a força para se defender. O homem usa a palavra. Os animais usam a agressividade ao seu favor para preservar o território, as crias, a manada e a própria vida. Só nós seres humanos que nos achamos racionais usamos a força por covardia. É importante a agressividade racional e moderada. Só você pode se proteger. Não como uma ostra. Quando nos calamos e nos omitimos, abrimos brecha para ser tudo aquilo que os outros supõem de nós. Não o que somos de verdade. Precisa tomar rédeas da própria vida e se ditar, impor.

_Vou tentar ser mais selvagem. _ acrescentei um smile dando língua.

_..._ ela riu. _ Falar é muito importante. Cria pontes. Falar pode salvar vidas.

_Você já ajudou a salvar a minha.

Ela emudeceu. Ouvi vagamente o som da sua respiração. Fiquei desesperado.

_Se falar é tão importante, o que significa o seu silêncio? _ perguntei.

_É... Coisas assim dão sentindo a tudo. O fato de você existir também dá sentido a minha vida.

_Eu e todos os seus pacientes... _ intervi, querendo ser único.

_Não estou falando com todos agora. _ respondeu.

_Por que eu te dou sentido? _ voltei ao assunto.

_ Precisamos de todos os tipos de pessoas. Os seres humanos, do mais bonzinho ao mais estupidamente ignorante, nos ajudam a fazer nossa história. Atrapalhando ou ajudando. É preciso olhar de fora, olhar com olhos de piedade. Quantas vezes odiamos pessoas porque não conseguimos ter piedade. É fácil odiar, odiar nos afasta. Ter piedade é chegar próximo e ver claramente porque algumas pessoas são tão pequenas. Sempre há uma explicação...

_Parece que está falando de outra coisa... _ comentei.

_Desculpe, estava realmente pensando em uma pessoa específica que, às vezes, eu tento entender.

_Não podemos mudar completamente as pessoas. _ escrevi. Agora me sentindo mais a vontade para expor o que eu pensava. _ Elas são o que são. Não adianta muito fazer dos outros uma causa própria. Isso nos faz sofrer.

_Agora é você que parece estar falando de outra pessoa. _ disse.

_Uma namorada. Ex. _ consertei o ato falho.

_Terminaram antes ou depois do acidente?

_Quando eu ainda falava.

_Parou de falar por causa dela?

_Contribuiu.

_Não deixe que ela te tire o prazer da vida. Quando alguém vai embora deixando para trás, renegando, desprezando o que tínhamos de melhor, não se preocupe, você ainda tem. E pode oferecer para outra pessoa. Como as palavras, por exemplo. Entregue-as a outros. Não precisa ser no sentindo amoroso, íntimo. Falar é a melhor cura para si e para os outros. Ouvir também é importante.

_Nada é por acaso. _ eu disse, de repente.

_Nada. _ ela completou. Será que pescou o que eu queria dizer? Intuiu que nossa conversa tinha uma sintonia perfeita demais? _ Um dia eu te explico o porquê.

Andy precisou desligar e eu me perguntei do que ela se referia? O que fazia coerência para ela sobre nossa sintonia? Ela tinha muitas coisas que eu queria descobrir. Não era imbatível como se mostrava, nem tão forte como tentava passar. Acho que toda sua fortaleza era apenas uma armadura para algo interior muito frágil. Não entendi de quem ela falava que estava pensando. Uma pessoa de quem tinha ódio, mas devia ter piedade. Será que o dono da letra M no cordão em seu pescoço? Seria seu marido? Mas odiar quem sem convive? Tantas perguntas. Queria respondê-las. Eu sentia a cada dia mais sede dela. Isso me angustiava. Não poderia me envolver com uma pessoa casada e atrapalhá-la. Só que o mesmo sentimento se transformava em necessidade quando tinha chance de estar perto ou falar com ela. Isso se passava comigo por alguma dependência de paciente-médica ou era homem-mulher mesmo? Como eu poderia descobrir e ter certeza da diferença? Procurava afastar o medo do que começava a sentir pensando que, na verdade, ninguém é de ninguém. Mas, será que eu estaria a altura de ela se interessar por mim?

13.11.08

Cap 7. O frango e a surpresa (Felipe)

Quando cheguei à clínica, procurei-a no salão com uma rápida olhada panorâmica. Não a achei e me senti desamparado.

_Nosso artista chegou cedo, hoje? _ ouvi a voz atrás de mim. Ela se referia ao desenho que fizera, provavelmente. Contornou a cadeira de rodas e se pôs na minha frente. _ Já estão falando de você. _ ela apontou para um quadro na parede. Lá estava a ilustração. Senti-me um pouco envergonhado, não era bem ali exposto para todo mundo que eu pretendia ver. _Dona Alicia quer um desenho também, mas, é do netinho dela que vem buscá-la. _ contou-me enquanto conduzia a cadeira até a piscina.

Já dentro d’água ela perguntou se eu ia poder desenhar. Fiz um gesto que sim com a cabeça. Exercitamos a perna e, dessa vez, eu não fui tão relutante. Tentei colaborar. No final, esperei Dona Alicia receber seu netinho. O menino de cabelos encaracolados cor de fogo queria a todo momento ver como estava ficando. Junto de nós, Andy acompanhava o meu desempenho. Não era muito confortável desenhar com alguém fiscalizando. Mas, eu estava gostando de poder ser admirado por ter um talento. A cada traço que deixava mais nítido o rosto do menino, eu ganhava mais elogios.

_Por que você está na cadeira de rodas? _ o garoto perguntou.

_Thiago! Fica quietinho aqui com a vovó, sem muitas perguntas... _ a mulher pediu.

_Ele sofreu um acidente de moto. _ Andy explicou.

_E por que ele não usa aquelas pernas de pau?

_Bem... _ Andy riu sem graça com tanta espontaneidade do menino em tirar suas dúvidas ao meu respeito. Eu só olhei por cima do papel e depois voltei a desenhar. _ Há algumas pernas mecânicas, mas são caras...

_Eu vi nas Paraolimpíadas de Pequim! _ lembrou-se ele exultante.

_Isso! _ ela gostou da sua boa memória.

_Mas, ele consegue mexer os joelhos? _ fez referência ao fato de eu só ter as pernas na altura do joelho.

Andy olhou-me. Não devia saber se estava dizendo coisas demais, pediu com o olhar aprovação para continuar. Coçou a testa.

_Ele está melhorando e vai conseguir sim... _ acariciou a cabeça dele. _ Agora tem que ficar quietinho para ele poder te desenhar bem bonito.

_Você é o quê? _ perguntou-me.

_Ele é diagramador de um jornal, quero dizer, era... antes do acidente.

_Mandaram ele embora? _ perguntou.

_Thiago, pára de tantas perguntas! _ ralhou a senhora.
_Eu só queria saber...

Estranho e inquietante ver que eu era uma coisa, ainda sabia fazer o que meu trabalho exigia, porém, não me considerava mais digno de realizar. Tudo porque não queria reencontrar aquele ambiente social do jornal sobre rodas, como um aleijado. A pergunta de Thiago mexera comigo. Eu podia movimentar as pernas, não perdera o controle e a mobilidade. Só que não tinha a prótese.

O garoto e a avó foram embora felizes levando a folha consigo. Prometeram colocar em uma moldura. Senti-me gratificado. Vir até a clínica me ajudava a recuperar a auto-estima. Descobri que auto-estima é aquilo que acontece dentro de você, mas que, sem os outros dificilmente você consegue mudar. Andy era responsável por todo o esforço em me recuperar a todo custo. Eu não entendi muito bem o que a movia a ser tão passional em seu trabalho. Não era apenas comigo, eu a observava lidando como os outros pacientes. Havia nela uma luz, um brilho, uma energia, áurea ou coisa parecida que nos lembrava que podíamos tudo.

Ela fora a primeira pessoa depois do acidente que me fizera ter vontade de falar. Depois daquele encontro com o menino, fomos até sua sala remarcar a próxima consulta por causa de uma viagem que faria para um congresso. Terminado o agendamento na data que consenti, ela permaneceu em seu lugar. Não se levantou com ar de despedida para abrir a porta. Olhei entre o preto e o branco do seu olho e não a encontrei. Não estava ali. Aproveitei o instante para observá-la de cheio, bem próximo. Era linda, mas não era feliz. Onde estavam seus sorrisos e sua voz alegre? De onde ela tirava para nos oferecer?

Puxei uma das folhas que deixara em cima da mesa depois de desenhar o garoto e escrevi com uma caneta azul:

_Esse silêncio é covardia.

Ela leu e riu, abaixando os olhos e rostos, produzindo um lindo semblante envergonhado.

_Você fala? Não sabia! _ falou com uma doce ironia, em um tom mais baixo, pessoal, quase secreto.

_Você me obriga. _ escrevi.

Ela ia dizer algo quando seu celular tocou. Atendeu e, depois, disse que tinha que ir almoçar. Escreveu no verso do seu cartão seu endereço de hotmail e um “até”.

Olhei para o cartão em minha mão e depois para ela. Entendi.

Ao chegar em casa, percebi que algo diferente estava acontecendo. Meu pai e minha irmã estavam reunidos à mesa. Minha mãe que viera comigo tinha um sorriso cúmplice. Se não fosse a toalha nova, o frango assado com batatas e os pratos de festas postos eu teria pensado que se juntaram por um motivo grave. Havia algo que minha mãe me escondera enquanto me levara na fisioterapia? Ela costumava me deixar lá enquanto vinha para casa adiantar o almoço e depois voltava para me buscar, já que era perto de casa e dava tempo suficiente. Mas, dessa vez prepara algo especial e eu não sabia o porquê. Olhei-os de testa franzida e meu pai tomou a palavra.

_Filho, temos uma grande notícia para você. _ Ele levantou-se e colocou a mão no meu ombro. Minha irmã arrastou a cadeira para trás e aproximou-se também. Eu só conseguia olhar para o frango e temer o que estava por vir. _ Nós vendemos o carro.

O carro? O carro que tinha levado anos para pagar e que era nosso bem de luxo tão cuidado?

_... E a sua moto. _ completou.

Ãnh?

_Nós queríamos te dar essa surpresa.

Ambos, o carro e a moto, estavam no nome do meu pai. Eu já estava cansado de ouvi-lo que parte de todo seu trabalho nos últimos anos estava ali. Então, por que vender assim?

_Nós não queremos te ver nessa cadeira de rodas. _ minha irmã disse com sua voz meiga. Acho que eles a deixaram falar para que tudo não soasse abrupto demais. _ Por isso, vendemos o carro e a moto para juntar dinheiro e comprar as próteses que você precisa para andar normalmente.

Eu olhei o frango, a toalha e os pratos e entendi tudo, num lance, em uma tomada de cena, num golpe. Foi de quase parar o coração. Não tinha palavras, nem precisava, eles já compreendiam meu silêncio há muito tempo. Abraçaram-me como um laço que se fecha em um nó seguro.

_Obrigado... _ falei baixinho e eles riram.

Minha família é a minha célula vital.

Mal podia esperar para contar a Andy. Lembrei do endereço do hotmail ainda no bolso.

11.11.08

Cap. 6 Pedido de atenção (Felipe)

Se minha mãe soubesse que as primeiras consultas foram só muita conversa e pouco exercício nem ia querer pagar. Seu objetivo era me ver de alguma forma me movimentando por aí. Mas, era dentro da minha cabeça que tudo estava parado. Percebendo isso que Andy se cansou de tentar me ajudar.

_Foi o que falei, é preciso querer e você nem está aí para si mesmo! _ ela brigou e saiu da piscina onde tentava me fazer movimentar as coxas.

Continuei na borda, de costas, apoiado com os braços no piso frio. Tenho certeza que, se ela pudesse, mandaria eu sair e daria a aula por terminada. Mas, precisava concluir seu trabalho.

_Vem, vamos sair da água. _ voltou alguns minutos depois, secando-se com a ajuda de uma toalha, mas sem qualquer sorriso.

Um enfermeiro me ajudou a sentar na cadeira de rodas. Ela lhe agradeceu e tomou a direção. Levou-me para o jardim onde conversamos a primeira vez. Aquele era seu canto do castigo como o fundo da sala onde a professora nos coloca na cadeirinha de pensar? Mas, parece que era ela que estava reflexiva. Sentou e tirou a touca plástica do cabelo.

Olhou por uns dois minutos para o movimento da água na piscina, cara amarrada, dura. Seu silêncio começou a me incomodar. As pessoas normalmente preenchiam os diálogos com muito discurso para poderem conseguir ficar ao meu lado. Uma hora ela decidiu quebrar o gelo e manter contato outra vez:

_ Felipe, você não está aqui para jogar o dinheiro dos seus pais fora. _ começou com um ar de bronca, me colocando na posição de criança primária. _ Mas, não vai surtir qualquer efeito o meu trabalho físico enquanto sua cabeça ainda está decepada.

Aquela última palavra soara muito forte, me fez cravar o olhar nela. Seu objetivo era me chocar certamente para obter minha atenção. Conseguia.

_É a sua cabeça que falta um pedaço, não é sua perna. Você deixou toda a sua vida de baixo daquele carro. E não é só você. Muita gente coloca os sonhos de baixo daquele empreguinho de merda que não consegue largar, muita gente se esperneia e reclama da droga de casamento do qual não se livra. Eu te entendo, não é fácil. Mas, se continuar vendo o que te falta, sua vida vai continuar tão triste como o silêncio desse poço escuro onde está.

Engoli em seco e desviei o olhar.

_Por que você não fala? Porque você quer atenção. Quer que todo mundo se volte para adivinhar seus desejos. Que os outros se redobrem para te cobrir de cuidados. Que te amem com provas. Até quando vai impor este amor de fardo? Até quando seus pais gastarem a última moeda de um real aqui? Tudo bem, você quer assim? Ok, eu vou fazer como você quer.

Ela levantou-se e pegou a cadeira de rodas. Levou-me até a sua sala.

Andy sentou-se à sua mesa e me mostrou seu computador.

_Nós só vamos voltar aos exercícios quando você de fato quiser. _ estabeleceu.

Eu continuei parado, sem concordar ou me debater contra as novas regras. Apenas estava um pouco estupefato com sua passionalidade. Ela era mais, muito mais que uma simples fisioterapeuta que põe corpos para voltar a funcionar.

_Li no seu histórico que você trabalhava como diagramador de um jornal, certo? Então, deve entender bem de computador, imagino. _ olhou-me. _ Pode me ajudar com esse problema? _ virou a tela do computador para mim. _ Entrou um monte de vírus e eu confesso que não sei passar esse anti-vírus AVG. Ele é muito complexo. Eu vou ali recolher o material das aulas e já volto. Pode dar conta disso?

Ela pediu e saiu. Aquilo era um castigo, trabalho, entretenimento, um desafio, um teste ou o quê? Não havia resposta, só a tela na minha frente. Olhei-a por trinta segundos e fiz o óbvio e patético. Acionei o ícone do programa presente na área de trabalho. O que tinha de difícil nisso? O problema é que enquanto o sistema fazia a varredura pelos drives não havia o que fazer! Era esse seu objetivo? Deixar-me ali parado?

Olhei a foto na área de trabalho do seu computador. Era seu rosto sorrindo. Empurrei a cadeira de rodas um pouco mais para frente. Peguei um lápis e o bloco de receitas médicas. Fiz os traços principais, depois entrei em detalhes nos olhos, nariz e tive que ter mais atenção com a boca. Meu pensamento se perderam e foram longe, enquanto eu desenhava.

Senti falta dos meus amigos de trabalho, da equipe, do jornal, das tarefas, da correria. Eu ainda sabia fazer aquilo, porque meu cérebro estava ativo como nunca. Tive vontade de voltar, mas, ainda era uma vontade minuta, tímida, trêmula.

Terminei o desenho, sujei o dedo com o esfumaçado. Gostei do que vi. O que enxergava ali era a minha arte intacta. Meu dom não havia sido atropelado. Sorri. O computador já tinha acabado seu scanner. Coloquei os vírus presos nos sistema e me perguntei se de fato ela não sabia fazer aquilo.

Escrevi no canto inferior da folha ilustrada: “Até”. Era nossa primeira palavra trocada.

8.11.08

Cap 5. A vida depende das perguntas que fazemos. (Felipe)

2 meses atrás

_ Felipe, isso são horas? _ minha mãe reclamou quando sentei à mesa.

_Mas mãe, eu não estou atrasado para o café da manhã. _ peguei um pão francês e passei manteiga.

Ela continuou parada, com a chaleira de café na mão e o pano de prato no ombro, incrédula pelo meu argumento. Não era exatamente da porta da sala que ela queria me ver surgir, mas do meu quarto. Só que não estava mais na condição de poder me cobrar que horas sair e entrar. Eu já trabalhava e tinha a independência de não escolher qual dia da semana eu podia curtir a noite.

Minha irmã Tamires riu baixinho. Nos seus dezesseis anos, ela desejava ser minha versão daqui a alguns anos. Já começava a mexer os pauzinhos. Juntou-se com as amigas para fazer brincos e pulseiras e ganhar o próprio dinheiro para sair no fim de semana. Agora, procurava um emprego formal para ser logo independente. Queria prestar vestibular para direito. Eu posso me gabar por fazer escola.

_Eu sou um filho trabalhador, não pode negar! _ tirei a camisa e fui ao banheiro tirar um pouco daquele aspecto de cinzeiro cheio. Estava fétido. Na volta, beijei minha mãe na bochecha. _ Viu como são as coisas? Lavou, tá novo!

Meu pai do sofá da sala não interrompeu sua leitura do jornal Meia Hora. Ele me apoiava. “Homem macho se vira cedo”, dizia com sua voz grave.

_Cuidado para não sair por aí com essa moto desembestada, viu? _ minha mãe falou, quando eu colocava a chave pelo lado de fora da porta. _ Esse menino dirige feito cachorro louco sem dormir, Tadeu! _ resmungou com meu pai, mas não paguei para ver a resposta.

Coloquei o capacete e senti o vento gostoso na cara, enquanto dirigia para o centro da cidade, onde trabalhava em uma revista como ilustrador e diagramador. Quem me via assim, cachorro doido, como dizia minha mãe, voando na minha moto, poderia pensar que eu era um boy. Eu já fui um pouco de tudo, vendedor de loja de roupa, bancário, garçom em bingo, balconista de padaria. Nunca me importei com o que eu fazia, mas com a quantidade de notas no meu bolso no fim do mês.

Segui em zigue-zague entre os carros, cortando o vento. Eles buzinavam, reclamavam, xingavam... mas, no fundo, tinham raiva de estarem dentro das suas caixas-pretas com ar refrigerado, presas e empacadas no trânsito colossal do Rio às 8 horas da manhã enquanto eu virava um pontinho desaparecendo no horizonte.

O barulho das buzinas era um som constante daquela orquestra. Era meu sinal de “dá licença”. Só que a última que ouvi foi alta, grave, oca, ensurdecedora. Nunca vou esquecê-la. Se a minha morte tivesse som, seria aquela buzina de caminhão. Bêêênnnnrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Um choque atrás que me arremessou pelos ares, depois, escorreguei no asfalto, rolei por alguns metros e senti algo por cima de mim. No fim, só a escuridão, que posso chamar de morte. Silêncio.

Quando abri os olhos, me vi em uma maca, o soro de um lado pingando de um lado e minha mãe chorando de outro. Ela segurou em meu braço e colocou a cabeça em meu peito.

_Meu filho...

Eu não tinha forças para falar. Senti minha bexiga cheia. Contorci-me para levantar. Ela me conteve. Eu disse que precisava fazer xixi. Mais uma vez falou que não. Eu puxei o lençol e entendi tudo. Faltavam minhas pernas. O estado de choque me fez esquecer a bexiga, me tirou a voz, o oxigênio do cérebro.

_Felipe, estamos com você... _ ela me beijou a bochecha e, nessa hora, meu pai e minha irmão entraram no quarto.

Eu voltei a me deitar e olhei para o teto. A vida. Que vida? Ficara de baixo daquele carro, naquela manhã, onde eu não ouvira minha mãe. Eu não era super herói e, agora, nem mais humano. Só uma parte. Metade. Para mim, isso não era nada.

Houve um caos depois disso, mas deixo esse hiato perdido nas memórias. Não é dessa parte que vale lembrar. Os momentos ruins fazem parte da história, mas devemos colocá-los em corpo pequeno, no rodapé, sem destaque, para não parecer principal. Só um adeno, uma referência.

Aquele acidente foi uma ponte para a mudança e eu só percebi isso quando meus pais me levaram para um centro de fisioterapia. Digo me levaram porque eu não fazia mais nada por mim mesmo. Perdi o ânimo para tudo, nem mais falar eu falava, para verem a que ponto cheguei! Mas, quando as pessoas nos amam, elas acreditam em nós e por nós.

Minha mãe e irmão contaram o que aconteceu para a médica, mostraram os laudos, exames, chapas etc. Eu fiquei alheio, calado, aborrecido, longe mentalmente. Daquela sala de paredes de vidro, observei uma mulher brincando com uma menina pequena, de uns seis anos. Ela rolava por um tatame colorido, enquanto a garota fazia os mesmos movimentos. Podia ouvir dali as risadas agudas. A criança mal conseguia abraçar toda a bola de tão grande, dessas que se vende em parques de diversão. Ambas pareciam se divertir, apesar da mulher estar vestida de jaleco branco e eu saber que tudo era parte do que ela como médica programava para a recuperação da paciente. Isso me deu uma raiva das duas: da criança por não perceber que era inválida e se divertir e da mulher por enganá-la.

_Vamos? _ ouvi a voz da minha mãe ao meu lado. Tomei um sobressalto, estava concentrado na cena e não me dera conta que havia acabado a consulta. A médica e minha mãe perceberam que eu dava atenção para o que acontecia naquele grande salão do lado de fora, repleto de aparelhos e com duas piscinas que mais pareciam uma academia.

_Quero te apresentar a sua fisioterapeuta. _ a mulher abriu a porta.

Minha mãe empurrou a cadeira de rodas. Poucos metros depois, me pararam na frente do tatame, como quem vem fazer uma entrega. Senti-me horrível por isso.

_Você quer que eu fique? _minha mãe perguntou. Eu dei de ombros.

_Andressa? _ a médica chamou a mulher que brincava com a criança.

_Oi. _ ela virou-se para nós e conteve o sorriso, tirou os fios de cabelo colados na boca umedecida. Quando seus olhos bateram no meu, senti um descompasso, uma coisa no meu estômago. Andressa seu nome. Ela era um raio de luz ofuscante. Seus olhos grandes e negros, de cílios que faziam curva, cintilavam uma alegria quase gritante.

_Tia, Andy, vamos brincar mais? _ a menina puxou-a pela mão.

_Vamos sim. _ ela beijou-a na testa. _ Só que amanhã, tudo bem? Sua mamãe já está aí. _ apontou e uma senhora se aproximou para pegar a menina e a levar.

_Andressa, esse é o Felipe. _ a médica me apresentou.

Ela levantou-se e sorriu, me olhando de cima.

_Prazer. _ estendeu-me a mão, mas, eu não correspondi. Ela rapidamente se saiu bem da situação, me dando um afago no ombro. _ Pode me chamar de Andy.

Minha mãe e a médica se afastaram e Andy ficou com meu prontuário na mão. O que ela ia fazer agora? Me colocar no tatame e jogar a bola como se eu fosse um cachorrinho, gritar rola, Rex, rola?

_Vamos para o jardim? _ ela ofereceu.

Aquilo era uma piada ou ela não enxergava que eu só tinha metade das minhas pernas?

Andy empurrou a cadeira até um jardim de inverno, ao lado da piscina. Dali, eu não podia ver minha mãe. Era um lugar cheio de plantas, flores, um pouco de raios de sol. Havia um colorido alegre e um vento refrescante. Andy sentou-se em um banco branco e cruzou as pernas. Leu o prontuário pelo que calculei como dois minutos.

Seu cabelo comprido ficou caído para frente. Na mão esquerda uma grossa aliança. No pescoço uma letra M pendia do cordão de ouro. Seu perfume adocicado lhe dava um ar de garota, apesar de eu lhe dar uns trinta anos.

Andy acabou e suspirou. Deve ter ficado cansada só pelo que leu. Será que vislumbrava muito trabalho pela frente e já se enfadara? Mas, ela não comentou nada sobre isso, olhou para o lado, para as pessoas na piscina fazendo exercícios.

_Sabe, Felipe, ninguém quer estar aqui... _ disse, em um tom de voz reflexivo e, depois, me olhou em cheio. _ ... Mas, é preciso querer muito sair daqui. _ uma longa pausa e continuou. _ ... Não posso mudar o que te aconteceu, nem você. Só que, ao contrário, daqui pra frente tudo vai depender de você. Não apagamos o passado, mas fazemos o que quiser do futuro, até que ele não chegue para provar o contrário.

Ela era fisioterapeuta ou psicóloga? Veio ali me dar sermão?!

_Você deve agora estar se perguntando por que diabos isso te aconteceu. Nunca vai achar a verdadeira resposta, só respostas parciais: isso aconteceu por minha culpa, por não ter ouvido fulano, por culpa de beltrano. Nesse tempo sem respostas a vida passa. Você vai ver que tudo começa a mudar quando você mudar as perguntas da sua vida: como eu posso fazer para superar? A nossa vida depende muito das perguntas que escolhemos fazer.

Ela repetia esse mesmo discurso para todo mundo? Era uma espécie de ritual de entrada naquele templo dos que se contorcem em ferros e jatos de água, que rolam com bolas em tatames?

_ Eu não vou te dar o que tinha antes, mas espero te ajudar a achar dentro de você muito mais coisas que nem conhecia. _ sorriu e esticou o braço para segurar minha mão, se inclinando para frente. _ Vou estar com você.

Senti um nó na garganta. Aquela não era a médica que eu queria. Para continuar a ser aquele ser amargo e rabugento precisaria de uma outra. Mas aquela era a certa, porque era a que eu precisava.

_Se não quiser falar, tudo bem. Vou aprender a te entender. _ piscou o olho e voltou a sorrir, compreensiva.