16.10.08

Cap 4. Loucura e ousadia (Andy)

Você pode se divertir para si mesma ou contra alguém. Passei o batom na boca e puxei a alça da sandália. Tinha em mim a força e o ímpeto da vingança. O perfume, de tantos borrifos, escorreu entre os seios, se perdendo no vale do decote. Peguei a bolsa, a chave e a coragem. Priscila, minha eterna cúmplice, já me aguardava no estacionamento em seu carro.

_ Ele não perguntou para onde ia? _ questionou.

_Nada. Está no trabalho. É o que diz. Obrigada por me animar a sair. E o seu?

_Viajando. _ deu de ombros. Às vezes, eu pensava que a diferença da nossa situação era unicamente o fato dela encarar muito bem e eu não. Ah! Sua estratégia era ter pequenos casos para dar um up, dizia. Eu não queria tanto, só me sentir desejada, olhada e admirada bastava. A noite era ótima para este efeito.

Sentamos em um bar e eu lhe disse que lembrava de nossos tempos de solteira.

_Para mim não mudou muito. _ ela riu e vi que seu riso não era propriamente para mim, mas, para alguém que devia estar atrás dos meus ombros.

_Não faça isso! _ pedi, já imaginando que ela partiria para o abate e me deixaria ali como presa frágil e desprotegida.

_Annnnffff. _ ela se conteve.

_ Desculpaaaa!!!! _ olhei para conferir quem era o cara que ela estava dispensando de investir por minha causa. _ Ah! Ele está usando uma meia preta com um terno bege! Será que ele não podia colocar um sapato marrom? E aquela combinação de gravata de risca, com blusa de risca e paletó de risca de giz? Na chuva ninguém ia achá-lo com tantos riscos! E...

_Andy! Andy! _ ela segurou no meu braço e falou ao meu ouvido. _ Eu não me preocupo com ele vestido! Agora para de olhar para lá que ele vai ficar convencido.

_Hum, desculpe. Acho que desaprendi.

_Ele deve ter vindo para cá depois do trabalho e deixou a mulher em casa, olha a puta aliança no dedo.

_Obrigada por lembrar. A semelhança da história me comove.

_Heiiii! Não pensa assim... Eu também só falo besteira. Vem, vamos dançar.

_Não, eu quero beber. _ fiz pirraça.

_Ok, vamos encher a cara. _ ela levantou o dedo para o garçom.

Saímos dali rindo como duas crianças. Eu estava mais leve e sem sentimentos de baixa estima. Mas, quando o dia amanheceu, eu parecia um bloco de chumbo sobre o colchão. Liguei para Pri e disse que não conseguia me mover. Ela mandou que eu dormisse, mas aleguei que não poderia deixar meus pacientes. Argumentou que era mais fácil eles fazerem fisioterapia em mim que eu neles.

_Não, não, eu tenho que ir. Vem me ajudar... _ pedi.

Bufando e resmungando, ela veio, mas com o intuito de me dissuadir pessoalmente. Não conseguiu.

_Quer ir? Então, eu vou junto. Não vai você fazer besteira e depois me culpar por ter permitido. Essa que está aí não é você ainda...

Priscila dirigiu até a clínica e me acompanhou, apoiando pelo braço até a minha sala. Eu sentei e bebi um copo de água. Tirei os óculos escuros.

_ Pega os prontuários com a moça da recepção? _ pedi. _ olhei através do vidro da sala a área onde as pessoas faziam exercício de fisioterapia.

Havia uma piscina, aparelhos de ferro para musculação, bolas coloridas e muitos outros instrumentos.

_Hoje, você só tem um paciente! _ ela me passou a ficha.

_Hum, é o Felipe. _ comentei, sem olhar o papel que acabava de pegar da sua mão. Continuei a contemplar o rapaz sentado de costas, sozinho, na cadeira de rodas. Estava lá a minha espera.

_Toma essa bala de chocolate que peguei na recepção. É bom colocar açúcar no sangue. Você está com mais álcool que o tanque do meu carro.

Aceitei e coloquei na boca.

_Isso me faz lembrar o quanto chocolate é bom. _ ri.

_Você está muito bêbada!

_Eu não tô! _ sentei na cadeira e segurei a cabeça com as mãos.

_Você sabe o que vai mandá-lo fazer? _ perguntou.

_Estou tentando ler! _ falei alto e ri. _ As letras estão engraçadas, elas dançam...

_Putz, vamos para casa. Isso é patético.

_Não se preocupe. _ fechei a pasta de papel. _ Vou colocá-lo na piscina, jogar jatos de água quente e fria e... _ parei de falar, meu cérebro estava lento.

_Essa não é você! Não é! Você é super responsável com seus pacientes. Eu sei que vai me matar depois, eu sei...

_Pri, se não sou eu, eu posso fazer o que quiser...

_Então, vai assinar um termo de que me desresponsabiliza de...

_Priscila, você é tão chata. Isso aqui não é seu escritório de advocacia!

Ela revirou os olhos, desistindo.

Despi-me no banheiro e pus meu maiô. Coloquei o roupão por cima e a toca para proteger o cabelo. Abri a outra bala de chocolate e coloquei-a na boca.

_Vou com você. _ Priscila me acompanhou.

_Esse paciente não fala. _ contei-lhe no caminho. _ Ele sofreu um acidente de carro e ficou assim.

_Isso é uma seqüela física ou é psicológica? _ perguntou.

_Ele nunca nos deixou saber... _ encolhi os ombros e continuei com as mãos nos bolsos. _ É novo. Tem 25 anos.

_Que é gatinho, ninguém nega. _ falou baixinho.

_Pegava?

_Fácil.

_Eu também. _ ri.

_Não pense nisso. _ ela me agarrou pelo braço e me fez parar.

_Está bancando uma de Andy?

_Não, mas a Andy que eu conheço não faz isso...

_Isso o quê? _ ri.

Tirei o macacão e deixei em uma cadeira.

_Oi, Felipe. Tudo bom? _ perguntei.

Ele olhou para minha amiga. Apresentei-lhe. Ela sorriu e deu um tchauzinho. Priscila ficou sentada em uma cadeira, afastada de nós.

_Vamos lá? _ animei-lhe. Só que, neste momento, me dei conta de que não estava bem para segurá-lo.

Priscila parece que persistiu e veio em meu socorro. Nós duas o ajudamos a sentar na borda da piscina. Ela me olhou com ar de brava, mas voltou a se afastar.

Felipe aquele dia parecia me olhar mais fundo nos olhos. Acho que a bebida estava me fazendo ter alucinações. Não, não era possível.

_Vou jogar água quente, ok? _ expliquei-lhe. Liguei o mecanismo que mirava jatos em sua perna. Entrei na piscina rasa e fiquei com água nos joelhos. Segurei seu pé e fiz movimento em suas cochas.

_Você é linda, sabia? _ ouvi.

Levantei os olhos e Felipe estava sorrindo. Pisquei o olho com força. Priscila ainda estava ao longe. Senti um frio na barriga. Aquilo foi horripilante. Jurava que Felipe havia falado! Ela estava certa, eu não deveria estar ali.

_Você bebeu?

O barulho do jato borbulhando a água era alto, mas outra vez eu tinha escutado. Era a voz de Felipe? Eu comecei a ficar assustada. Ele não falava, eu estava fantasiando por efeito da bebida!

Desliguei a água.

_É... Vamos fazer outro exercício. _ pigarreei e sem olhá-lo, flexionei sua perna e pedi que fizesse esforço para levantá-la e abaixá-la lentamente...

De repente, ele colocou sua mão sobre a minha, que segurava seu joelho. Respirei pela boca entre aberta e levantei os olhos. Felipe sorria com seus olhos brilhantes e cílios longos. Novamente desviei. Tive um pânico de estar vendo coisas onde não existiam.

Ele ainda continuava segurando minha mão e era eu agora a muda, estática. Seus dedos úmidos pela água deslizaram o dedão sobre as costas das minhas mãos. Engoli em seco.

5.10.08

Cap 3. Mudança de marca. (Andy)

_A Valéria terminou com aquele médico... _Priscila contou entre um gole e outro do seu café. Sábado de manhã era o dia em que começávamos qualquer rotina no Cafeína, um delicioso bistrô cheio de estrelinhas globais reunidas aqui no Leblon. O figurino era sempre o mesmo: biquíni por baixo, vestidão branco por cima e um óculos-máscara, daqueles que tampa quase todo o ros (to, de preferência com pernas de arabescos dourados.

_Humm, mas não era o tipo dela._ fiz uma careta e bati com o indicador no sachê de açúcar.

_E Valéria lá tem tipo?

Franzi a testa e esperei que ela completasse o pensamento. Priscila adorava fazer um break de segundos entre suas tiradas:

_Ela não tem tipo, meu amor. Ela tem urgência!_ riu alto e eu a acompanhei. Como éramos cruéis._ Querida... _ela inclinou-se mais sobre a mesa e abaixou a voz._Aquela ali não está perdoando nem velhinho em cadeira de rodas do calçadão.

_Credo!_ quando Pri queria, conseguia ser a promotora social mais ácida e cruel.

_Será que nós somos as mais felizes?_ perguntei-me,pensativa.

_Eu sou. _ ela riu, sempre com sua carinha de levada.

_Mas eu não partilho dos seus métodos._ abanei a mão no ar, já imaginando o que ela sugestionava com aquele ar de professora da vida.

_Você quem perde. _ deu de ombros e abriu o cardápio para mostrar que não me dava atenção. _ Cada um tem o console que merece.

_Pri! _ dei um tapinha em sua mão, aquele assunto me envergonhava.

_Amiga... _ ela largou o cardápio e se aproximou bruscamente. _Quem se contenta com um prazer que cabe na gaveta do criado mudo não tem direito de reclamar. Vê se olha para os lados, pô.

_Eu sou casada! Está vendo esse bambolê no meu dedo?

_Eu também sou, mas curto muito bem o que a vida me deu de dádiva.

Priscila era realmente muito bonita e atraente, mas, mesmo que não fosse, conseguiria atrair todos os homens que quisesse. Estava na sua alma o ímpeto libertino. Na minha, só existia um terror por estar sozinha e desamparada. Acho que na dela havia um pouco também, tanto é que tinha seu próprio bambolê. Mas, ao contrário, curtia casos longos, curtos, médios com todos os tipos de cara. Seria totalmente promíscuo se não fosse também engraçado. Adorava partilhar de suas confidências, me sentia dentro de um livro de aventura. Eu invejava sua coragem e despreendimentos. Eu tinha quase uma gratidão por Marcelo; Pri, se achava fazendo o favor para seu marido por tê-la ao seu lado.

_Nunca quis nem experimentar?

_Que papo é esse? Quem ouve vai pensar que eu uso o quê?

_Cada um tem a droga que pode. Adoro os homens... _ riu e mordeu a ponta de uma unha._Você é muito convencional. Sempre escolhe o mesmo danone, a mesma marca de xampu, o mesmo sabor de pizza...

_Eu não sou assim!

_Você é uma mulher que vai no supermercado com uma lista! Não olha os produtos e diz, ãnh, deixa eu ler o que diz esse aqui... Pega e coloca no carrinho.

_Priscila, eu não vou ao supermercado._disse sem humor.

_Tudo bem, era só uma teoria!E seus pacientes?

_Nem vem! Eles são clientes. Não posso ter qualquer vínculo desse tipo. Ficou maluca? Existe ética... _ fiquei brava. _ Meu consultório não é nenhum cenário de filme pornô! _perdi o controle e falei com uma raiva descontrolada.

_Nunca fantasiou?

_Ãnh?!Não... _ fiz uma cara de nojo, mas com a voz hesitante. _Não ponha coisas na minha cabeça!

_Eu ainda passo um dia lá.

_Não faça isso! _ pedi veemente.

_Relaxa. Não vou te acorrentar a ninguém. Eu sou boazinha.

_Hãn-hãn, vou te contratar para assistente de Papai Noel.

_Ai, amiga, não deixe sua vida se tornar um cartão de aniversário. Aquela coisinha clichê sempre do lado direito com letras em relevo. Larga mão dessa pieguice.

_Vamos pedir a conta e ir para o calçadão. _sugeri, cortando o assunto.

_Uiii...

_Para pegar sol!_ ressaltei e acabei rindo e balançando a cabeça para os lados._Quero beber uma água de coco para pele.

***

Em casa, Marcelo arrastava sua sandália e transportava o lap top ligado de um lugar para outro como se fosse uma parte mecânica indissociável do seu corpo.

_O que vamos fazer hoje?_ perguntei.

_Não sei, o que quiser. _ respondeu.

_Por que sempre é assim?_ interpelei.

_Eu estou dizendo que você pode escolher.

_Por que não sugere algo, sempre eu tenho que sugerir?

Ele parou de mexer no teclado e percebeu que o assunto começava a ficar sério.

_Eu não me importo tanto para onde vamos, o que me importa é estar com você. _ falou a frase ensaiada para se sair bem.

_Ahhhh, corta essa. Você não quer sair... _ fui para o quarto tomar um banho e tirar o sal do corpo.

_Por que eu não quero se eu disser que eu quero?! _ele veio atrás.

_Por que você só quis depois que eu perguntei, então, na verdade, você não queria. _ liguei o chuveiro.

_E por que eu teria que querer algo na frente, que espécie de competição é essa?! _ perguntou, tentando ser racional.

_Por amor, Marcelo! _ coloquei a cabeça para fora do boxe. _ Por amor!

_Por que acha que eu não te amo?

_Por que será?

_Eu tenho até medo da sua resposta porque você consegue bolar teorias tão mirabolantes que seria capaz de ganhar um prêmio Nobel de matemática pela análisa probabilística do pensamento masculino...

_Ahhh, por favor! Nunca sabe o que decidir! Eu tenho que decidir tudo por você!_voltei a me ensaboar.

_Olha, se não quer sair comigo, tudo bem. Eu vou sair sozinho!

_Ok, eu vou ver o cine pipoca sozinha também. _rebati. _ Droga. _ falei baixinho.

Por que eu sentia que estragava tudo?! Será que eu era alguém tão indesejada assim?!Eu estava ficando muito neurótica.

Respirei fundo e fechei os olhos. A conversa com Priscila me veio a mente. Ela estava certa, eu era totalmente convencional. Olhei o xampu na prateleira e não me lembrava quando usara um de marca diferente. Nossa! Será que eu não tinha mais poder de atração? Ah! Andressa, pára com isso! Até a caidaça da Britney Spears deu uma virada e ganhou o VMB 2008! Se bem que eu não tinha nada de Britney, que comparação insólita. Mas, a droga é que Marcelo não queria "A piece of me"! Era melhor eu sair do chuveiro, a água quente deve estar desnaturando meus neurônios.

Liguei o som e coloquei a melhor trilha sonora para o meu humor. Um pouco de
Amy e uma dose de bebida quente. Escrevi uma mensagem de texto pelo celular para Priscila: "Você está certa, preciso trocar a marca do xampu..."