23.9.08

Cap 2. O convidado (Andressa)

Eram seis horas da noite de sexta e estávamos na melhor happy hour fora do trabalho. Só faltava o meu marido Marcelo. Na verdade, ele estava ao meu lado, agarrado a seu Blackbarry, o escritório na palma da mão. Estávamos em um bar bebendo com meus amigos do trabalho e ele fazia corpo presente para cumprir sua promessa de que participaria mais da minha vida social.

Meu amigo Fernando divertia a turma com sua teoria sobre as esquizofrenice das mulheres:

_Nós homens somos sinceros e objetivos. Repara só quando vemos uma foto de formatura. _ fez uma cara de quem enxergava a sua antiga turma da faculdade no guardanapo._Um homem diria: olha só o meu amigo. Aquela ali era muito maluca... _ disse com a voz mais nostálgica e encenou até um pesar com a mão no queixo. _E como seria uma mulher vendo a foto? _ perguntou para o grupo e se preparou para fazer uma voz feminina afetada: _Aí, olha o vestido de fulana?! Tããããããooo demodê! _ quebrou a mão para o lado e nos fez explodir em risadas, batidas na mesa e aplausos.

_Marcelo, será que você pode desligar isso? _ perguntei, cochichando em seu ouvido.

_Eu estou acompanhando uns assuntos importantes. _ falou sem tirar os olhos do led. Seu cérebro só seguia o bip de cada e-mail que chegava na caixa postal. _Muitas decisões importantes dependem de mim.

_Se você morrer, tudo vai continuar a acontecer normalmente, independente de você! Desliga isso._ pedi incisivamente e acabei chamando a atenção da mesa, que estava naqueles poucos segundos de silêncio.

_Desculpem, licença. _ ele levantou e se afastou, mais para ficar longe de mim que para não incomodá-los.

Mais uma vez aquela idéia de morte me veio e me senti muito culpada. Eu tentava lidar com isso. Mas, não estava sendo fácil. Olhei para Tânia no lado oposto da mesa e ela fez uma cara de quem entende toda a situação.Ela era uma enfermeira do hospital. Negra, alta e de corpo avantajado. Sua sabedoria e conselhos sempre me acalmavam. Naquele dia, eu estava muito triste, sentada na minha sala, organizando algumas planilhas de controle de material, quando comecei a ficar irritada pelos erros dos números. Ela observou que eu estava deslocando minha raiva por outros motivos para aquele programa de computador. Meu cérebro começou a buscar a causa e aí mesmo que tudo começou a falhar. Afastei-me e busquei um copo de café na garrafa junto dela.

_Senta aqui um pouco. _ pediu, batendo na cadeira.

_O que tanto está te agoniando, menina? _ perguntou.

_Eu tive um pesadelo sem sentido.

_Se é sem sentido, conta...

_Sonhei que desejava que meu marido morresse. Que coisa sem sentido... _ ri.

_Seu sonho é o lugar onde tudo que você quer, ou não pode lidar, é possível.

_E quando isso se repete...?

_Então, está tentando lidar...

_Isso é tão vergonhoso. _olhei para o chão e apoie os cotovelos no joelho.

_Por que você se pune tanto? Fica aqui até altas horas tentando cumprir sua lista de prioridades que nunca acaba. Você tem que aprender que a vida é um fluxo contínuo e fluido. Não tente ficar esperando acabar. Larga esse computador e se permita não ser capaz de cumprir tudo. Não fica bancando a Isaura que vai para o tronco todo dia.

_E o que o Marcelo tem a ver com isso?

_Ele é seu crítico silencioso. Quando você vê que ele trabalha sem parar, pensa que deve fazer o mesmo...

_Mas daí querer que ele morra?

_Pode ser uma representação desse sentimento agonizante.

_Hum.

_Andy, nunca esqueça uma coisa. Se você morrer, as coisas não vão deixar de acontecer. Então, se divirta mais.

Ela deu um tapinha no meu ombro e partiu. Antes, avisou que era dia de Happy Hour e queria me ver lá. Respondi que sim como um voto de confiança de que tinha entendido bem o seu recado.

Quando chegamos no nosso apartamento, Marcelo não deu atenção para o meu gelo. Tirou o paletó, tomou banho e conferiu o noticiário da madrugada. Eu não sabia mais quem era o convidado naquela lugar, se eu ou se ele. Fiquei parada na soleira da porta de braços cruzados, vendo-o calvo, com sua barriga sobre o calção listado cinza e de braços cruzados. O bip do celular tocou e ele pegou-o em cima da almofada.

Fui até ele, tomei o aparelho da sua mão e joguei contra a parede. Segurei o que restou dos pedaços que se desmontaram no chão e deixei cair dentro do aquário.

Marcelo levantou-se:

_Ainda bem que tinha dado backup. _ caminhou pisando duro até o quarto.

Virei-me e o olhei pelas costas. Desejei que ele morresse e esse sentimento me envergonhou. Senti-me o pior ser humano do mundo. Mas, a raiva me serviu como justificativa.

21.9.08

Cap 1. As Balzaquianas (Andy)

Levantei da cama com Norah Jones em ritmo de Butterflies, mas eu precisava de mais rapidez que o bater de asas de borboletas para chegar ao trabalho a tempo. Desativei a campainha do celular de olhos ainda fechados. Orgulhava-me dessa pequena habilidade. Botão da esquerda, depois da direita e pronto. Era só isso, mas eu ainda não estava preparada para ser cega. Me arrastei da cama até o banheiro, uma distância de três metros que me pareceu alguma rua em Tóquio de tão longe. Meu corpo estava em slow motion. Tirei com o dedo a pasta que caiu no pijama, escovei os dentes com uma mão e a outra lavei sob a água que saia da torneira. Esfreguei o rosto e meu olho começou a arder. Droga! Ainda havia pasta de dente no dedo. Arghhh! Será meu inconsciente querendo me cegar? Acho melhor parar com essa técnica de desligar o celular...

_Priscila, preciso de uma carona, já pegou o táxi? _ perguntei.

_Você é a única pessoa que tem um Land Rover e quer filar o táxi da vizinha! _ riu, minha amiga.

_É que o Marcelo deixou na revisão, ontem.

_Tudo bem, eu não sai ainda. Aposto que está na frente do armário escolhendo a roupa.

Eu ri.

_Meu celular não é 3G e você já me vê aí do outro lado? _ franzi a testa e peguei um casaco de lã.

_É que você é a única pessoa que consegue ficar em dúvida sobre qual roupa vai vestir quando seu guarda-roupa só tem roupa branca.

Priscila adorava me colocar como singular. Para ela, eu era a única pessoa em tudo.

_Você sabia que as pessoas que vivem na neve conseguem ver uma escala de branco e cinza maior que a gente?

_Tudo bem, Andy, mas você está no Rio de Janeiro e aqui branco em dia de chuva não faz diferença, você vai acabar com a calça toda suja. Põe uma bota e pronto.

_Bota branca? Quer que eu pareça uma paquita?

_Põe um sapato preto ou qualquer coisa. Já chamei o táxi. Te espero na portaria.

_Hum. Tá. _ suspirei e joguei o celular na cama.

Me vesti às pressas e peguei a bolsa. Na porta, lembrei do celular. Argh. Corri para buscar no quarto. Depois, pensei se tinha desligado a torradeira. Arghhhhhhh. Voltei e conferi. Tudo certo. No elevador, me perguntei se tinha trancado a porta direito. Céus! Devo estar com TOC! Tenho que dormir mais...

_Viu como não foi tão difícil escolher entre branco-cinza e branco-branco? _ ela zombou e passou a folha do jornal.

Priscila era uma advogada do café da manhã ao banho antes de dormir. Respirava o mundo. Ela dizia que advogado tinha que saber de tudo. Acho até que na hora H com Ronaldo ela pensava em alguma constituição. Ri sozinha, mas ela nem percebeu:

_Os EUA aprovou o pacote. Sabe o que são 850 bilhões... _ ressaltou o "bi". _ ...injetados na economia? _ balançou a cabeça para os lados.

Entramos no táxi.

_Não, não sei. _ passei um corretivo nos olhos, enquanto me olhava no espelho. Por que toda mulher abre a boca quando está se maqueando?

_É muito zero para mim. Minha vida tem bem menos casas._ ironizou.

_Mas você não pode reclamar... _ guardei o corretivo.

_Nem você! _ lembrou-me de nossa condição de mulheres-bem-casadas._ Não subestime nossa capacidade de Hunters._ riu.

Ri também. Priscila eu nos conhecemos em uma chopada da faculdade. Curtimos todas as baladas juntas e depois de muito sapatearem em nossos corações, decidimos casar direito e arrumamos maridos mais velhos e com muito conteúdo, na carteira. A idéia era sairmos menos, mas em festas melhores. Depois de tanta caça, viramos nós as presas. Por um tempo, ficamos infurnadas dentro de casa, folheando a Vougue. Até que decidimos contra tudo e contra eles, trabalhar. Ela bateu o pé e montou seu escritório e eu, comecei a trabalhar em um hospital.

_Mas a crise dos EUA é culpa das Balzaquianas.

_Não sabia que era machista.

_Não tenho nada contra a pessoa querer não ter filhos antes dos 30. Veja a gente!

_Querida, a gente tá beirando à inseminação!

_Eu, não, você! Sou muito fértil, posso repovoar o planeta! _ deixou o jornal de lado. _ Você não percebe? Lá, as mulheres tem muitos gastos com filhos.

_E aqui também! Uma fralda custa seis reais.

_E desde quando você sabe quanto custa uma fralda?

_Tivemos um chá de bebê no trabalho.

_Ãnh. Aqui, a criança é parte da vida. A mulher se não estiver casada, continua na casa da mãe, vai tocando como dá. Lá, a mulher recebe o exame e já entra no banco para abrir uma conta para a criança que é só um punhado de células. Se as mulheres querem adiar isso, as famílias são também adiadas e, com elas, todas as casas! Resultado? Super dimensionaram a construção civil e agora a oferta está maior que a procura. A crise fez as empresas quebrarem e quem pagava não pode mais pagar e...

_Você não tem um assunto mais ameno hoje para mim? _ perguntei.

_Tudo bem, desculpe. _ ela reclamou com o taxista que ele estava escolhendo o caminho mais longo.

_Quando vamos ter filhos? _ perguntei e só depois percebi que pluralizei, como se essa fosse mais uma atitude para tomarmos juntas.

_Não sei, parece que eu estou sempre esperando um próximo ponto de virada.

E eu sentia que esse ponto não ia chegar. Ou será que eu torcia para não chegar?

_Como está com o Marcelo? _ perguntou, lendo meu pensamento.

_Bem.

_Bem mal?

_Não foi isso que eu disse._ franzi a testa.

_Você é uma mulher e mulher nunca dizem o que querem dizer. Legal é um cara feio, educado e sem graça. Bem é quase um "anda um saco".

_Quem bom que você me entende._ ri e desci,tinha chegado no meu ponto.

_Amanhã, conversamos sobre isso! _ falou, enquanto eu ainda segurava a porta.

_Tem certeza que vai dar? Depois do discurso da Sarah Palin hoje? _ provoquei.

_Eu juro que vou tentar não falar sobre isso. _ juntou as mãos.

_Ok. _ bati a porta.